D
A Rebelião dos Beijos Inocentes
O ar na Lagoa Rodrigo de Freitas tinha o cheiro de final de tarde: uma mistura de maresia, grama cortada e a promessa de uma noite amena. Emanuel empurrava o carrinho duplo com uma firmeza que beirava a rigidez. De um lado, Ágata, com seus quase dois anos, apontava para os patos com a autoridade de uma generala. Do outro, Maya, com seus cachinhos castanhos escapando de um laço de fita, observava o mundo com uma curiosidade serena que era a cara de Eduarda.
Ao seu lado, as duas mulheres que definiam seu universo caminhavam em uma harmonia que ainda o surpreendia. Sara, em um vestido curto e justo de um vermelho vibrante, parecia uma chama dançando ao sol poente. Seus óculos de sol espelhados refletiam a paisagem, mas Emanuel sabia que por trás deles, seus olhos azuis captavam tudo. Eduarda, por outro lado, era a própria encarnação da suavidade. Com a barriga de oito meses proeminente sob um vestido longo e florido, ela caminhava com uma graça sonolenta, a mão repousando protetoramente sobre Arthur, que se mexia lá dentro.
A paz era palpável. Era o resultado de meses de terapia forçada, um pedido de desculpas caro e constrangido a Lucas, e uma promessa silenciosa que Emanuel fizera a si mesmo: ele aprenderia a controlar o monstro da possessividade. Ele seria melhor.
— Olha, papai! Pato! — gritou Ágata, quase se jogando para fora do carrinho.
— Eu estou vendo, minha leoa — respondeu Emanuel, um sorriso genuíno tocando seus lábios. Ele se sentia bem. Sentia-se no comando de sua própria redenção.
Foi então que a primeira salva da rebelião foi disparada.
Um rapaz passou correndo por eles. Alto, bronzeado, com fones de ouvido e um sorriso fácil no rosto. Ele acenou brevemente para o grupo, um gesto educado de quem compartilha o mesmo espaço.
Maya, que até então estava quieta, virou a cabeça abruptamente. Seus grandes olhos castanhos seguiram a trajetória do corredor. Então, ela fez algo novo. Algo que Emanuel nunca a vira fazer. Ela juntou os lábios pequenos em um bico desajeitado, levou os dedos à boca e soprou. Um beijo. Um beijo sonoro e inocente que se perdeu na brisa.
— Moço ‘nito — ela murmurou, a pronúncia ainda imperfeita, mas a intenção dolorosamente clara.
Emanuel parou de andar. O carrinho ficou imóvel. O sorriso em seu rosto se desfez como se tivesse sido esculpido em areia. Ele sentiu o músculo de sua mandíbula saltar. A promessa de ser melhor, de controlar o monstro, de repente pareceu uma piada de mau gosto. O monstro não estava adormecido; estava apenas esperando um convite para acordar.
Sara, que viu a cena toda, tirou os óculos de sol e soltou uma gargalhada genuína, um som cristalino que fez algumas pessoas olharem.
— Ai, meu Deus! Manu, você viu isso? A sua princesinha virou uma conquistadora! Já está distribuindo beijos por aí.
— Não tem graça, Sara — rosnou Emanuel, a voz baixa e tensa.
— Claro que tem! — retrucou ela, aproximando-se do carrinho e fazendo um carinho no cabelo de Maya. — Que foi, meu amorzinho? Gostou do moço? Ele era bonito mesmo. A tia Sara aprova.
Eduarda aproximou-se, um sorriso divertido e um pouco preocupado no rosto.
— Ela está apenas descobrindo o mundo, Emanuel. É fofo.
— Fofo? — repetiu ele, olhando para a mulher cuja calma ele tanto prezava. — Ela está mandando beijos para estranhos na rua, Eduarda. Não há nada de fofo nisso.
— Ah, qual é, Manu? — interveio Sara, voltando a caminhar ao lado dele enquanto ele retomava a marcha, agora mais rápido e mais duro. — Você está com ciúmes de um corredor anônimo? Pelo amor de Deus. Daqui a pouco você vai querer que ela use uma burca para passear na Lagoa.
Emanuel não respondeu. Ele apenas apertou o guidão do carrinho com mais força, os nós dos dedos ficando brancos. A imagem do beijo soprado, da palavra “‘nito”, queimava em sua mente. Era uma violação. Uma pequena, inocente, mas intolerável violação de seu território. Maya era sua. A doçura dela era para ele. A admiração dela era para ele.
A caminhada, que começara como um idílio familiar, transformou-se em uma marcha forçada de volta ao carro. O silêncio de Emanuel era tão pesado que nem a tagarelice de Ágata conseguia perfurá-lo.
Nos dias que se seguiram, a “mania” de Maya não desapareceu. Pelo contrário, floresceu. No supermercado, ela mandou um beijo para o rapaz que empacotava as compras. No restaurante, o alvo foi o garçom. Na recepção da creche, o segurança. Cada beijo soprado era uma pequena facada no ego de Emanuel. Cada “moço ‘nito” era um lembrete de que sua filha estava desenvolvendo uma personalidade própria, uma que ele não podia controlar.
E, para seu desespero, Sara e Eduarda pareciam ter formado uma aliança tácita de provocação.
— Olha, Duda, aquele ali tem cara de que seria aprovado pela Maya — comentava Sara, apontando disfarçadamente para um modelo em uma revista na sala de espera do obstetra de Eduarda.
— Com certeza. Ele tem o cabelo igual ao do Theo — respondia Eduarda, entrando na brincadeira, e as duas caíam na risada, enquanto Emanuel, sentado ao lado delas, sentia o sangue ferver.
O nome “Theo” era outro gatilho. A amizade com Lucas havia sido restaurada, mas uma cicatriz permanecia. E Theo, com seus cachos loiros e sua adoração evidente por Maya, era um visitante frequente na cobertura. Emanuel o tolerava. Era o verbo exato. Ele observava a interação dos dois com a vigilância de um falcão.
Naquele sábado, o inferno particular de Emanuel se materializou em sua sala de estar. Lucas e Helena haviam vindo para o almoço. Enquanto os adultos conversavam na varanda, as crianças brincavam no tapete felpudo da sala. Ágata, como sempre, estava em seu próprio mundo de blocos e ordens. Theo e Maya, no entanto, estavam em uma bolha só deles.
Theo havia trazido um presente para Maya: uma pequena flor roxa que ele arrancara do jardim do prédio. Ele a entregou a ela com a solenidade de quem entrega as joias da coroa. Maya pegou a flor, cheirou-a com um ar de princesa e, em seguida, fez o que Emanuel mais temia.
Ela se inclinou para frente e, com a mesma naturalidade com que respirava, deu um beijo estalado na bochecha de Theo.
Emanuel, que observava a cena pela porta de vidro da varanda, sentiu o chão sumir sob seus pés. Era a repetição do pesadelo. A marca do território, refeita. O beijo que ele tanto odiara, agora oferecido voluntariamente por sua própria filha.
Ele não explodiu. A lembrança da humilhação anterior era forte demais. Em vez disso, uma frieza calculista tomou conta dele. Ele se levantou, deu uma desculpa qualquer a Lucas e entrou na sala.
— Maya — sua voz soou calma, quase gentil. — Hora do banho.
Eduarda, que também vira a cena, levantou-se e foi atrás dele.
— Emanuel, são três da tarde. Ela não precisa de um banho agora.
— Ela está suja — respondeu ele, sem olhá-la. Ele pegou Maya pela mão. A menina protestou, não querendo deixar sua brincadeira.
— Não ‘quelo’ banho! ‘Quelia’ brincar com o Téo!
— Agora, Maya — disse Emanuel, a voz ainda baixa, mas com um fio de aço que fez a menina se encolher.
Ele a levou para o corredor, mas Eduarda o barrou.
— O que você está fazendo? — perguntou ela, a voz firme. Ela não era mais a menina assustada do início. A gravidez, a maternidade e a convivência com Sara haviam lhe dado uma espinha dorsal de titânio.
— Estou ensinando limites a ela — respondeu ele, os olhos escuros faiscando.
— Você está ensinando a ela que afeto é errado! — retrucou Eduarda, a voz subindo. — Você está punindo ela por ser uma criança doce e carinhosa! Você não percebe o quão doente isso é?
Do outro lado da sala, Sara observava o início da discussão com um tédio estudado. Ela se levantou, caminhou até a cena e parou, cruzando os braços.
— De novo essa palhaçada, Emanuel? Qual é o seu problema? O menino deu uma flor para ela. Ela deu um beijo nele. Fim da história. É assim que os seres humanos normais interagem. Talvez você devesse tentar um dia.
— Não se metam nisso! — rosnou Emanuel, sentindo-se encurralado pelas duas.
— Ah, nós vamos nos meter, sim! — disse Sara, aproximando-se. — Porque essa menina — ela apontou para Maya, que agora se escondia atrás das pernas de Eduarda — é nossa responsabilidade. E nós não vamos deixar você transformar ela em uma pequena neurótica com medo da própria sombra só porque você é um Neandertal possessivo.
— Eu sou o pai dela! Eu a protejo!
— Você a sufoca! — gritou Eduarda, as lágrimas brotando em seus olhos, mas desta vez, eram de raiva. — Você quer que ela seja sua, só sua, um bibelô na sua estante! Mas ela é uma pessoa! E se você continuar agindo assim, a única coisa que vai conseguir é que ela tenha medo de você! É isso que você quer, Emanuel? Que suas filhas tenham medo de você?
O eco da pergunta de Eduarda pairou no ar, pesado e acusador. Até Ágata, na sala, parou de brincar para olhar. Emanuel olhou para o rosto de Eduarda, vermelho de fúria e mágoa. Olhou para Sara, que o encarava com um desprezo frio. Olhou para Maya, escondida, tremendo. E sentiu o peso de seu império desmoronar sobre seus ombros. Elas estavam unidas. Contra ele.
Lucas e Helena apareceram no corredor, o constrangimento estampado em seus rostos.
— Manu, acho que… talvez seja melhor a gente ir — disse Lucas, sem jeito.
Emanuel não conseguiu responder. Ele apenas assistiu, paralisado, enquanto seu amigo pegava Theo pela mão e se despedia apressadamente. A porta se fechou novamente, selando o fracasso de Emanuel.
— Você está feliz agora? — perguntou Sara, a voz cortante. — Conseguiu estragar mais um final de semana.
Ela se virou e foi para a varanda, pegando sua taça de vinho. Não havia mais diversão em seu rosto, apenas um cansaço irritado.
Eduarda se abaixou, pegando Maya no colo. A menina a abraçou com força, soluçando baixinho.
— Passou, meu amor. O papai só está… cansado — disse Eduarda, mas as palavras soaram vazias. Ela olhou para Emanuel, e o que ele viu em seus olhos o assustou mais do que qualquer grito: decepção. Uma decepção profunda, fria e distante.
Ela passou por ele sem dizer mais nada e se trancou no quarto com Maya.
Emanuel ficou sozinho no corredor. O silêncio da cobertura era ensurdecedor. Ele caminhou até a sala e se sentou no sofá, a cabeça entre as mãos. Ele havia prometido. Ele havia tentado. Mas o instinto era mais forte. A necessidade de possuir, de controlar cada respiração, cada olhar, cada gesto de afeto daqueles que ele amava era uma droga da qual ele não conseguia se livrar.
Ele se levantou e foi até a porta do quarto de Eduarda. Estava trancada.
— Duda? — chamou ele, a voz rouca.
Nenhuma resposta.
Ele foi até a varanda. Sara estava de costas para ele, olhando para a cidade que se estendia a seus pés.
— Sara…
— O que você quer, Emanuel? — ela perguntou, sem se virar. — Vai me dar um sermão sobre como devo apoiar suas crises de ciúmes?
— Eu… eu não sei o que fazer.
Sara finalmente se virou. O sarcasmo havia desaparecido de seu rosto, substituído por uma seriedade rara e assustadora.
— Vou te dizer o que você vai fazer. Você vai procurar ajuda. De verdade. Um terapeuta, um guru, um pai de santo, eu não me importo. Mas você vai consertar essa merda que tem dentro da sua cabeça. Porque eu aguento muita coisa, Emanuel. Eu aceitei a Eduarda, eu aceitei a Maya, eu aceitei essa sua vida dupla maluca porque eu te amo e porque, no fundo, é excitante. Mas eu não vou assistir você destruir essas crianças.
Ela deu um passo em direção a ele, o olhar fixo no dele.
— A Eduarda é doce, mas ela não é idiota. Ela te ama, mas vai amar os filhos dela mais. E se ela sentir que você é uma ameaça para o bem-estar deles, ela vai embora. E eu? Eu vou ajudá-la a arrumar as malas.
Emanuel sentiu um frio na espinha. A ameaça não era vazia. Sara era muitas coisas, mas nunca blefava.
— Você não pode…
— Eu posso — ela o interrompeu. — Nós somos uma família, Emanuel. Uma família bizarra, disfuncional, que o mundo jamais entenderia. Mas somos uma família. E a regra número um de uma família é proteger os seus. E agora, o maior perigo para as nossas filhas… é você. Então, conserte-se. Ou nos perderá. A todas nós.
Ela passou por ele e entrou na sala, indo em direção ao quarto de Ágata.
— E só para você saber — disse ela, parando na porta. — Eu acho adorável que a Maya mande beijos por aí. Mostra que ela se sente segura e amada o suficiente para compartilhar esse amor com o mundo. Algo que você, com todo o seu poder e dinheiro, parece incapaz de entender.
A porta se fechou, deixando Emanuel completamente sozinho com o eco das palavras dela.
Ele caminhou até a grande parede de vidro da sala e olhou para o seu reflexo. Viu o homem que construiu um império do nada, o artista renomado, o milionário. Mas também viu o homem que estava sendo derrotado pela rebelião de beijos inocentes de uma menina de um ano e meio.
Ele pegou o celular e, com os dedos trêmulos, pesquisou o nome de uma psicóloga que Lucas havia mencionado uma vez, especializada em controle de raiva e comportamento possessivo. Ele olhou para o número na tela por um longo tempo.
O monstro dentro dele rugia, dizendo que aquilo era fraqueza. Que ele era o rei e não precisava da permissão de ninguém.
Mas então ele pensou no rosto decepcionado de Eduarda. Na ameaça fria de Sara. No choro assustado de Maya. No chute de Arthur em uma barriga tensa de estresse.
Com um suspiro que pareceu arrancar um pedaço de sua alma, Emanuel apertou o botão de ligar. A guerra não havia acabado. Mas, pela primeira vez, ele estava considerando a possibilidade de se render. Não aos seus inimigos, mas a si mesmo. E essa, ele sabia, seria a batalha mais difícil de sua vida.