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O Despertar da Proteção
O dia havia começado com uma névoa baixa e úmida que envolvia a fachada da escola de balé, dando ao prédio antigo um ar quase onírico. Eduarda chegou cedo, como de costume, com o coque perfeitamente alinhado e o perfume suave de lavanda que sempre a acompanhava. No entanto, o silêncio da manhã foi interrompido por um murmúrio confuso vindo da entrada principal.
Ali, sentada em uma pequena manta de lã azul-bebê, estava uma criança.
Não era uma aluna que havia chegado cedo. Era uma bebê. Amélie, como descobririam mais tarde por um bilhete rabiscado e úmido deixado em seu bolso, não deveria ter mais de dois anos. Ela estava vestida com um macacão de algodão doce, uma chupeta rosa presa a um prendedor de ursinho e usava fraldas que já pareciam pesadas. Seus olhos, grandes e de um castanho profundo, estavam marejados, mas ela não gritava; apenas soluçava baixinho, um som manhoso que partiu o coração de Eduarda no instante em que seus olhares se cruzaram.
— Meu Deus... quem deixou você aqui? — sussurrou Eduarda, ajoelhando-se imediatamente no chão frio.
Ao sentir o toque delicado de Eduarda, a bebê esticou os bracinhos gorduchos. Não houve hesitação. Amélie agarrou-se ao pescoço da professora de balé como se tivesse encontrado sua âncora em meio ao oceano. O cheiro de leite e talco da menina misturou-se ao de Eduarda, criando um vínculo instantâneo e inexplicável.
Duas horas depois, o clima na sala da diretoria era de puro caos controlado. A diretora, Dona Heloísa, andava de um lado para o outro falando ao telefone com as autoridades, enquanto duas outras professoras discutiam sobre os protocolos de abandono. No centro de tudo, sentada em uma poltrona de veludo, estava Eduarda. Ela não havia largado Amélie por um segundo sequer.
A bebê estava agora devidamente trocada — graças a um kit de emergência que uma das mães funcionárias emprestara — e chupava sua chupeta com fervor, com a cabecinha encostada no seio de Eduarda. Ela era o retrato da doçura e da carência, um "grudinho" que se recusava a soltar a blusa de seda clara da professora.
Foi nesse momento que a porta se abriu.
Emanuel entrou primeiro, carregando a mochila de cristais de Valentina com a mesma seriedade com que carregaria uma maleta de documentos confidenciais. Logo atrás, Sara surgiu, impecável em um conjunto de alfaiataria branco que ressaltava seu bronzeado e suas curvas, enquanto Valentina desfilava ao seu lado, já usando seu tutu rosa e fazendo questão de bater as sapatilhas no chão para anunciar sua chegada.
— Mas o que é isso? Uma convenção de choro e drama logo cedo? — a voz de Sara ecoou, vibrante e irônica, cortando a tensão da sala.
Emanuel parou abruptamente. Seus olhos, sempre observadores e analíticos, ignoraram a diretora e as professoras, fixando-se imediatamente na cena no centro da sala. Eduarda, com sua expressão de anjo barroco, parecia ainda mais etérea segurando aquela criança pequena. A vulnerabilidade de Eduarda misturada à fragilidade da bebê atingiu Emanuel como um soco no estômago.
— Eduarda? — Emanuel deu um passo à frente, sua voz grave carregada de uma preocupação automática. — O que está acontecendo? De quem é essa criança?
Eduarda levantou os olhos, e Emanuel viu que eles estavam vermelhos.
— Ela foi deixada na porta, Emanuel... — Eduarda respondeu, a voz falhando enquanto apertava Amélie um pouco mais. — O nome dela é Amélie. Ela estava sozinha, no frio.
Sara aproximou-se, retirando os óculos escuros de grife e inclinando-se para observar a bebê. Valentina, sentindo que não era o centro das atenções por um momento, cruzou os braços e fez um biquinho soberbo.
— Uma bebê abandonada? — Sara franziu a testa, a ironia dando lugar a uma indignação genuína. — Que tipo de gente faz isso? Olhe para ela, Manu, é uma bonequinha.
— Estamos aguardando o conselho tutelar — explicou a diretora Heloísa, suspirando. — Mas Eduarda se recusa a colocá-la no berço improvisado. A menina entra em crise toda vez que ela tenta se afastar.
Emanuel caminhou até ficar bem próximo de Eduarda. Ele ignorou a presença das outras pessoas na sala. Para ele, só existia aquela mulher frágil com a criança nos braços. Ele estendeu a mão e tocou o topo da cabeça de Amélie, sentindo a maciez do cabelo ralo da bebê, e depois deixou que seus dedos roçassem o ombro de Eduarda.
— Você está tremendo — observou Emanuel, o tom protetor e controlador assumindo o comando. — Há quanto tempo está segurando ela?
— Desde que cheguei — sussurrou Eduarda. — Eu não posso deixar que levem ela para um abrigo frio, Emanuel. Ela é tão doce, tão manhosa... ela precisa de colo, de cuidado.
Amélie, sentindo a presença imponente de Emanuel, tirou a chupeta da boca por um segundo e olhou para ele. Diferente de outras crianças que se assustariam com a barba por fazer ou as tatuagens que subiam pelo pescoço do homem, a bebê soltou um som baixinho e esticou uma mãozinha para tocar a corrente de ouro no pescoço dele.
— Veja só — comentou Sara, cruzando os braços e observando a cena com um sorriso de canto. — Parece que a pequena Amélie tem bom gosto para homens ricos e protetores. Ela já te escolheu como guarda-costas, Manu.
Emanuel não sorriu, mas seus olhos amoleceram. O conflito interno que ele sempre sentia — o desejo de controlar tudo e a necessidade de proteger Eduarda — estava em seu ápice. Ele olhou para Sara, uma comunicação silenciosa passando entre eles. Sara, sendo a mulher impulsiva e confiante que era, entendeu o recado imediatamente. Ela sabia que Emanuel queria aquela criança protegida, porque Eduarda queria aquela criança protegida.
— Dona Heloísa — Sara disse, voltando-se para a diretora com aquela autoridade natural de quem comanda empresas e pessoas sem esforço —, ligue para os seus contatos e diga que a bebê não vai para abrigo nenhum hoje. Nós vamos garantir que ela tenha o melhor suporte possível enquanto a situação legal é resolvida.
— Mas, Senhora Sara, existem protocolos... — a diretora começou.
— Protocolos podem ser contornados com os advogados certos e o investimento adequado — interrompeu Emanuel, sua voz soando como um decreto final. — Eduarda, você quer ficar com ela hoje?
Eduarda olhou para a bebê, que agora brincava com os botões da sua blusa, e depois para Emanuel. A segurança que ele emanava era o que ela precisava para não desabar.
— Eu não quero soltá-la. Tenho medo do que vai acontecer com ela.
— Então não solte — Emanuel sentenciou. — Sara, leve a Valentina para a aula. Eu vou ficar aqui e resolver a papelada com os advogados. Ninguém vai tirar essa criança dos braços da Eduarda se ela não quiser.
Valentina, percebendo que a situação era séria, aproximou-se da bebê.
— Ela pode usar minha chupeta reserva? — perguntou a menina, com um tom de superioridade carinhosa. — A minha tem strass, é mais bonita que essa de ursinho.
Sara soltou uma risada e pegou a filha pela mão.
— Venha, minha mini diva. Deixe seu pai e a Tia Duda cuidarem da nova integrante do drama.
Quando Sara e Valentina saíram, a sala ficou mais silenciosa. Emanuel puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Eduarda. Ele não se importava com as professoras cochichando no canto ou com o estresse de seus estúdios de tatuagem pelo mundo. Naquele momento, seu foco era o equilíbrio daquela nova e estranha unidade familiar.
— Beba um pouco de água — ordenou Emanuel, entregando um copo a Eduarda. — Você precisa estar forte se quiser cuidar dela.
— Por que você está fazendo isso, Emanuel? — perguntou Eduarda, bebendo um gole enquanto Amélie voltava a fechar os olhos, vencida pelo cansaço e pelo conforto do colo. — É uma responsabilidade enorme.
Emanuel inclinou-se, aproximando o rosto do dela. O cheiro de Eduarda, agora misturado ao de bebê, era algo que o inebriava.
— Eu já te disse, Eduarda. Eu cuido do que é meu. E se você decidiu que essa menina é importante para você, ela se torna importante para mim. Eu tenho recursos para garantir que ela receba o melhor tratamento, a melhor assistência jurídica e, se for o caso, o melhor lar.
Eduarda sentiu o coração disparar. A forma como ele falava, com tanta convicção e poder, a fazia se sentir pequena e protegida ao mesmo tempo.
— Você e a Sara... vocês são pessoas incríveis — sussurrou ela.
— Nós somos práticos, Eduarda. E nós queremos você feliz. Se a sua felicidade agora depende desse "grudinho" aí, então nós temos uma nova missão.
As horas passaram. Emanuel, de fato, acionou sua equipe jurídica. Ele não era apenas um tatuador rico; era um homem de influência, e sua determinação em manter a bebê sob a supervisão de Eduarda — mesmo que temporariamente — começou a mover as engrenagens burocráticas.
Perto da hora do almoço, Sara voltou à sala. Ela trazia sacolas de uma loja de departamentos de luxo.
— Se vamos ter uma bebê por perto, ela precisa de roupas que não pareçam ter vindo de um bazar de caridade — anunciou Sara, jogando as sacolas sobre a mesa da diretora. — Comprei seda, algodão egípcio e umas fraldas que prometem não vazar nem se ela beber um oceano.
Sara aproximou-se de Eduarda e, de uma forma surpreendentemente terna, acariciou o rosto da bebê.
— Ela é realmente uma gracinha, Duda. Tem esse ar manhoso que combina com você. Se o Emanuel não estivesse tão ocupado sendo o "macho alfa protetor", ele já teria notado que vocês duas parecem ter saído do mesmo molde de doçura.
Eduarda sorriu, sentindo-se acolhida pela energia de Sara.
— Obrigada, Sara. Por tudo.
— Não me agradeça ainda. Ter uma criança de dois anos em tempo integral é um inferno para as unhas e para o sono — Sara brincou, piscando. — Mas para sorte sua, eu tenho babás excelentes que podem te dar um suporte se você decidir levar essa ideia adiante.
Emanuel levantou-se e colocou a mão na cintura de Sara, trazendo-a para perto, enquanto mantinha o outro braço apoiado na poltrona de Eduarda. Era uma imagem de posse e unidade. O homem rico e poderoso no centro, ladeado pela loira vibrante e a castanha delicada.
— O conselho tutelar permitiu que ela fique sob nossa responsabilidade provisória por quarenta e oito horas, enquanto investigam o bilhete e o paradeiro da família — informou Emanuel. — Eu ofereci minha casa como garantia.
Eduarda arregalou os olhos.
— Sua casa?
— É o lugar mais seguro, Duda — disse Sara, com naturalidade. — Temos espaço, temos segurança e o Emanuel pode ficar de olho em vocês duas o tempo todo. Além disso, a Valentina adorou a ideia de ter uma "boneca de verdade" para brincar, embora eu tenha que explicar a ela que bebês não são acessórios.
A ideia de ir para a mansão de Emanuel e Sara com Amélie era assustadora e tentadora ao mesmo tempo. Eduarda sabia que, ao aceitar, estaria mergulhando ainda mais fundo na dinâmica daquele casal que a desejava e a protegia. Mas, ao olhar para Amélie, que dormia profundamente em seus braços, ela soube que não tinha escolha.
— Tudo bem — aceitou Eduarda, a voz quase um sussurro. — Eu vou.
Emanuel sentiu uma satisfação profunda. Ele queria Eduarda sob seu teto, queria vê-la cuidando daquela criança e queria ser o provedor de ambas. Seu instinto controlador estava em êxtase.
— Ótimo. Vou mandar o motorista preparar o carro grande. Sara, leve a Valentina. Eu levo a Eduarda e a Amélie.
Na saída da escola, a cena chamou a atenção. Emanuel caminhava com uma das mãos protetoramente nas costas de Eduarda, que carregava Amélie como se fosse um tesouro sagrado. Sara ia à frente, comandando os funcionários que carregavam as novas compras da bebê.
Ao entrarem no carro blindado de Emanuel, o silêncio se instalou, mas era um silêncio carregado de novos significados. Amélie acordou por um momento, soltando a chupeta e olhando para Emanuel com curiosidade. Ela esticou a mãozinha e agarrou o polegar do homem.
Emanuel não retirou a mão. Ele permitiu que os dedos minúsculos da bebê se fechassem ao redor de sua pele tatuada.
— Ela gosta de você — observou Eduarda, sorrindo timidamente.
— Ela sabe quem manda — respondeu Sara do banco da frente, rindo. — E sabe quem vai comprar todos os brinquedos do mundo para ela.
Emanuel olhou para Eduarda, e o desejo em seus olhos estava misturado com uma ternura nova.
— Eu vou cuidar de vocês três — ele disse, incluindo Sara no olhar, mas deixando claro que o foco daquele momento era a nova fragilidade que entrara em sua vida. — Ninguém vai tocar no que é meu.
Eduarda encostou a cabeça no banco, sentindo o perfume do carro e o calor de Amélie. Ela sabia que sua vida de estudante de História da Arte e professora de balé estava prestes a mudar drasticamente. Ela não era mais apenas uma observadora da vida intensa de Emanuel e Sara. Agora, com Amélie em seus braços, ela era parte integrante de um quadro complexo, onde o amor, a posse e a proteção se misturavam em traços definitivos.
A mansão surgiu no horizonte como um castelo de segurança. E, enquanto o portão se abria, Eduarda percebeu que, embora Amélie tivesse sido abandonada naquela manhã, o destino acabara de dar a ela — e a todos eles — uma chance de construir algo que nenhum protocolo ou regra social poderia explicar.
Emanuel estacionou o carro e, antes de sair, olhou para as duas no banco de trás.
— Bem-vinda ao seu novo lar, Eduarda. Pelo menos por enquanto.
E, no fundo de sua mente racional e controladora, Emanuel já estava planejando como transformar aquele "por enquanto" em um "para sempre".