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O Caos de Seda e Tinta

A luz da manhã filtrava-se pelas imensas janelas de vidro da mansão, iluminando o que antes era um santuário de minimalismo e ordem masculina, mas que agora transbordava vida. Brinquedos de madeira importada dividiam espaço com catálogos de arte e revistas de moda de luxo. A mudança de Eduarda para a casa de Emanuel, meses atrás, não fora apenas o transporte de malas de roupas leves e sapatilhas; fora a integração final de uma alma doce em um ecossistema de ferro e fogo.

Eduarda caminhava pelo corredor segurando um livro de História da Arte, mas seus olhos estavam fixos no chão, desviando de pequenas peças de encaixe. Ela se sentia em um sonho contínuo. Seus pais, modernos e desprendidos de convenções, não apenas aceitaram a nova configuração familiar, como tornaram-se avós babões de Amélie. Para eles, o fato de a filha viver um amor compartilhado com Emanuel e Sara era apenas mais uma forma de expressão artística da vida.

No entanto, naquela manhã específica, a "expressão artística" estava mais para um quadro abstrato de puro caos.

— Eu já disse que não quero esse laço! Ele é de ontem, mamãe! Eu sou uma diva, e divas não repetem acessórios! — O grito de Valentina ecoou da suíte principal, seguido pelo som de algo plástico batendo contra o chão de mármore.

— Valentina, abaixe esse tom de voz comigo antes que eu jogue todos os seus laços na piscina! — A voz de Sara respondeu, carregada daquela impaciência vibrante que lhe era peculiar. — Emanuel, faça alguma coisa! Sua filha está impossível!

Eduarda apressou o passo e entrou no quarto. A cena era digna de um filme. Sara estava em pé, usando um robe de seda preta que deixava suas pernas siliconadas à mostra, com as mãos nos quadris e o cabelo loiro levemente bagunçado. Valentina, aos três anos, estava plantada no meio da cama king-size, com os braços cruzados e um biquinho de puro desdém.

No canto, sentado em uma poltrona de couro, Emanuel massageava as têmporas. Ele vestia apenas uma calça de moletom, e as tatuagens em seu peito pareciam pulsar conforme sua respiração ficava mais pesada. O estresse acumulado de gerir estúdios em três fusos horários diferentes estava cobrando seu preço, e a birra matinal era a última gota.

— Valentina, desça dessa cama agora — ordenou Emanuel, a voz baixa e perigosa.

— Não! — desafiou a menina, herdando toda a teimosia do pai e a audácia da mãe.

Para piorar a sinfonia, Amélie, sentada no tapete felpudo perto de Eduarda, começou a soluçar. A bebê de dois anos, agora legalmente uma integrante da família, era o "grudinho" de Eduarda, mas tinha uma capacidade incrível de mimetizar o humor da irmã mais velha.

— Buááá! Duda! Colo! — Amélie esticou os bracinhos, as lágrimas inundando os olhos castanhos.

Eduarda soltou o livro e pegou a bebê, aninhando-a no pescoço.

— Calma, meu amor. Está tudo bem — sussurrou Eduarda, sentindo o calor da menina. — Emanuel, querido, respira...

— Respira? Eduarda, eu estou tentando trabalhar desde as cinco da manhã e essas duas estão competindo para ver quem grita mais alto! — Emanuel levantou-se, a figura imponente preenchendo o quarto. — Sara, você mima demais a Valentina. Ela acha que o mundo é um palco particular.

— Ah, agora a culpa é minha? — Sara retrucou, soltando uma risada irônica. — Quem foi que comprou o mini-carro elétrico de luxo na semana passada porque ela fez um "beicinho fofo"? Foi você, o grande e racional Emanuel!

— Eu comprei para ela calar a boca! — rugiu ele, perdendo a paciência.

Valentina, percebendo que o clima esquentara, aumentou o volume do choro, transformando-o em um grito agudo de protesto. Amélie, por solidariedade, acompanhou a irmã.

— Chega! — Emanuel exclamou, pegando uma almofada e jogando-a no sofá com força. — Eu vou para o estúdio. Não aguento mais cinco minutos desse hospício.

Eduarda, sentindo a tensão vibrar no ar, caminhou até Emanuel com Amélie no colo. Com a mão livre, ela tocou o braço tatuado dele. O toque era leve, frio e macio, um contraste absoluto com a pele quente e rígida de Emanuel.

— Manu, olha para mim — pediu ela, a voz doce agindo como um bálsamo.

Ele parou, os olhos escuros e cansados encontrando os dela. A raiva dele sempre derretia diante da mansidão de Eduarda.

— Elas só estão sentindo a sua tensão — continuou Eduarda. — Você está estressado, a Sara está elétrica, e elas absorvem tudo. Vá tomar um banho frio. Eu cuido delas.

— Você sempre quer carregar o mundo nas costas, Duda — murmurou Emanuel, relaxando os ombros por um segundo. — Você não tem que aguentar as crises da Valentina.

— Eu moro aqui agora, Emanuel. Elas são minhas filhas também — ela disse com uma firmeza que ainda o surpreendia.

Sara, observando a interação, suspirou e caminhou até eles. Ela abraçou Emanuel pelas costas, apoiando o queixo em seu ombro, enquanto olhava para Eduarda.

— A santinha tem razão, Manu. Estamos todos com os nervos à flor da pele. — Sara esticou a mão e apertou a bochecha de Amélie, que parou de chorar para tentar morder o dedo da loira. — Vou levar a Valentina para a loja comigo hoje. Ela precisa ver como é a vida real de uma empresária para parar de reclamar de laços de fita.

Emanuel segurou as mãos de Sara em seu peito e depois puxou Eduarda para perto, formando um círculo apertado. Amélie, espremida entre eles, soltou uma risadinha gostosa, o humor mudando instantaneamente ao sentir a união dos três.

— Eu amo vocês — disse Emanuel, a voz rouca. — Mas vocês me enlouquecem.

— É o seu destino, querido — provocou Sara, dando um beijo estalado na bochecha dele. — Ter uma loira vulgar e uma morena carola para administrar. Agora vai tomar seu banho antes que eu decida que você também precisa de um castigo.

Emanuel sorriu de lado, o primeiro sorriso real da manhã. Ele se inclinou e beijou Eduarda nos lábios, um beijo calmo que carregava toda a sua gratidão. Depois, beijou a testa de Amélie e a de Valentina, que já havia descido da cama e abraçava suas pernas, pedindo desculpas com aquele olhar manipulador que só ela possuía.

— Tudo bem, pequena diva. Mas se gritar de novo, o mini-carro vai para a garagem por um mês — avisou ele.

— Sim, papai — respondeu Valentina, já planejando qual sapato combinaria com o passeio na loja da mãe.

Uma hora depois, a casa finalmente silenciou. Sara e Valentina haviam saído em um turbilhão de perfumes e exigências. Emanuel estava trancado em seu escritório, recuperando o foco. Eduarda estava na sala de brinquedos com Amélie, que agora brincava calmamente com um conjunto de pincéis de cerdas macias que Eduarda trouxera da faculdade.

O celular de Eduarda vibrou. Era uma mensagem de sua mãe.

"Como está a nossa pequena Amélie? Seu pai comprou um cavalete minúsculo para ela. Queremos vocês aqui para o jantar!"

Eduarda sorriu, sentindo o calor da aceitação de sua família. Ela nunca imaginou que sua vida tomaria esse rumo. Aos vinte anos, ela era o ponto de equilíbrio de um homem poderoso e de uma mulher vulcânica. Ela era a água que resfriava o metal e apagava o incêndio.

A porta da sala de brinquedos se abriu e Emanuel apareceu. Ele parecia mais calmo, embora o cansaço ainda estivesse presente em seus olhos. Ele sentou-se no chão ao lado de Eduarda, observando Amélie "pintar" o ar com os pincéis.

— Meus pais querem que a gente vá jantar lá — comentou Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele.

— Vamos. Eu preciso de um pouco daquela "paz artística" deles — admitiu Emanuel, passando o braço pela cintura dela. — Duda... obrigado por não ter fugido quando as coisas ficaram difíceis.

— Eu não poderia fugir de onde meu coração está, Manu.

— Às vezes eu acho que não te mereço — ele confessou, a voz baixa. — Eu sou um homem difícil, controlador. E a Sara... bem, a Sara é a Sara.

— Você nos dá tudo, Emanuel. Proteção, amor, uma família. Eu nunca me senti tão segura quanto me sinto nesta casa, mesmo com os gritos da Valentina.

Emanuel a puxou para um beijo mais profundo, um que as crianças não deveriam ver. Suas mãos, marcadas pela tinta das tatuagens, acariciaram o rosto delicado de Eduarda com uma reverência quase religiosa.

— Eu contei para a Sara hoje cedo — começou ele, entre beijos. — Sobre o que eu sinto quando vejo você com a Amélie. Ela concorda comigo. Queremos que você pare de dar tantas aulas de balé. Queremos você aqui, cuidando das nossas coisas, estudando sua arte sem pressão.

Eduarda afastou-se um pouco, os olhos brilhando.

— Emanuel, eu amo minhas aulas.

— Eu sei. Mas eu quero te dar o mundo, Eduarda. Quero que você faça o que ama por prazer, não por necessidade. O que é meu é seu. O que é da Sara é seu.

— Nós somos um time, Duda — a voz de Sara veio da porta. Ela havia esquecido a chave do carro e voltara a tempo de ouvir a conversa. — Se uma de nós brilha, todas brilham. E você é a nossa luz mais suave.

Eduarda olhou para os dois — Emanuel sentado ao seu lado e Sara encostada no batente da porta, com a mão na cintura e um sorriso cúmplice. Ela percebeu que a birra, o estresse e o caos eram apenas a superfície. Por baixo de tudo aquilo, havia uma fundação de concreto.

— Eu amo vocês dois — disse Eduarda, as lágrimas de felicidade finalmente escapando.

— Nós também, pequena — respondeu Sara, entrando na sala e sentando-se do outro lado de Emanuel. — Agora, chega de sentimentalismo. Amélie, solte esse pincel, você está pintando a calça do seu pai e ele vai ter um colapso!

Emanuel olhou para a mancha de tinta úmida em seu moletom cinza e, pela primeira vez em muito tempo, apenas riu. O estresse havia evaporado. O controle não era mais sobre manter tudo em silêncio, mas sobre aceitar o barulho de uma vida compartilhada com as pessoas que amava.

Naquela noite, na casa dos pais de Eduarda, entre vinhos tintos, risadas e discussões sobre História da Arte, a família improvável mostrou ao mundo que o amor não precisa de molduras tradicionais para ser uma obra-prima. E Emanuel, observando suas duas mulheres e suas duas filhas, soube que, apesar de todo o caos, ele finalmente tinha tudo o que sempre desejara.