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O Véu da Neblina e o Brilho do Amanhã
A última noite na casa de campo dos Albuquerque trouxe consigo um silêncio pesado, carregado pela umidade da serra que parecia querer entrar pelas frestas das janelas de madeira. Emanuel estava no escritório, resolvendo os últimos detalhes de uma expansão de seus estúdios na Europa, enquanto Sara, exausta pela agitação das tias, já havia se recolhido, mergulhada em um sono profundo e ruidoso.
Eduarda, no entanto, sentia uma inquietação que não vinha de Amélie. A bebê estava calma, mas a mente da bailarina bailava em ritmos descompassados. Ela caminhou até a varanda do quarto, observando a escuridão. A lenda da Noiva do Lago exercia um magnetismo inexplicável sobre sua alma sensível.
Sem fazer barulho, Eduarda desceu as escadas. Ela não queria acordar Emanuel; sabia que ele a proibiria de sair naquele frio. Mas algo a chamava. Ao chegar ao limite do jardim, onde a grama encontrava a névoa densa, ela parou.
O coreto estava lá, uma silhueta negra contra o cinza. E, pela primeira vez, Eduarda viu.
Não era apenas um efeito de luz. No centro do coreto, uma figura feminina permanecia imóvel. O vestido era de um branco que parecia emitir uma luz própria, uma seda antiga que flutuava mesmo sem vento. A mulher não tinha rosto definido, apenas uma aura de uma tristeza tão profunda que Eduarda sentiu as lágrimas arderem em seus olhos.
— Você está esperando por ele? — sussurrou Eduarda, a voz falhando.
A figura virou-se lentamente. Não houve medo, apenas uma conexão imediata. A Noiva do Lago estendeu uma mão pálida, e Eduarda sentiu um calor repentino em seu ventre, como se Amélie também estivesse saudando aquela presença. Por um breve segundo, a névoa se dissipou e Eduarda viu um sorriso triste antes de a figura se desmanchar em fios de neblina, deixando para trás apenas o cheiro de jasmim molhado.
— Eduarda!
O grito de Emanuel cortou a noite. Ele correu até ela, envolvendo-a em seu roupão de seda escura, os olhos faiscando de preocupação e fúria contida.
— Eu disse para você não sair! O que aconteceu? Você está pálida!
Eduarda olhou para o coreto vazio e depois para o homem que mudara sua vida. Ela se aninhou no peito dele, sentindo as batidas fortes do coração de Emanuel.
— Eu a vi, Manu. Ela não é má. Ela só queria saber que não estamos sozinhos como ela foi.
Emanuel não respondeu. Ele apenas a apertou mais forte, carregando-a de volta para o calor da lareira, jurando para si mesmo que, sob seu comando, nenhuma das suas mulheres jamais conheceria a solidão daquela lenda.
***
Treze meses depois.
O som que preenchia a cobertura luxuosa de Emanuel em São Paulo não era mais o silêncio da serra, mas o caos vibrante de uma família que crescera em poder e amor.
Valentina, com oito meses de vida, estava sentada em um tapete de atividades que custava mais do que um carro popular. A menina era a imagem esculpida de Sara: loira, de olhos azuis gélidos e expressivos, e com uma personalidade que já exigia atenção absoluta. Ela segurava um mordedor de grife como se fosse um cetro real.
— Não, Valentina! Esse é o brinquedo da Amélie — disse Sara, tentando tirar um coelhinho de pelúcia das mãos da filha.
Valentina soltou um grito agudo, uma nota de indignação soberba, e empurrou a mão da mãe com uma força surpreendente para um bebê. Ela não chorava; ela protestava com a autoridade de quem sabia que era a herdeira de um império.
— Veja só, Manu! — Sara exclamou, rindo e ajeitando o cabelo perfeitamente escovado. — Ela tem o seu gênio cão. Não aceita ser contrariada. É uma pequena ditadora de fraldas.
Emanuel, sentado no sofá com um tablet em mãos, desviou o olhar das planilhas de faturamento para observar a cena. Um sorriso de orgulho cruzou seu rosto.
— Ela sabe o que quer, Sara. É uma Albuquerque.
No outro canto do tapete, a realidade era oposta. Amélie, também com oito meses, permanecia sentada em silêncio, observando a irmã com olhos castanhos enormes e curiosos. Amélie era a cópia fiel de Eduarda: traços finos, pele de porcelana e um temperamento doce que beirava a melancolia.
Quando Valentina tomou seu brinquedo, Amélie não gritou. Ela apenas olhou para o lado, os lábios tremendo levemente, e esticou os bracinhos em direção ao corredor, onde Eduarda acabara de aparecer.
— Oh, minha pequena... — Eduarda se ajoelhou e pegou Amélie no colo. — Valentina pegou seu coelho de novo?
Amélie escondeu o rosto no pescoço da mãe, soltando um suspiro manhoso. Ela era um bebê que buscava contato físico constante, sempre se apoiando em Eduarda ou em Emanuel, como se o mundo fosse grande demais para ela enfrentar sem um refúgio.
— Ela é sensível demais, Duda — comentou Sara, aproximando-se e fazendo uma careta engraçada para Amélie, que apenas sorriu timidamente antes de se esconder de novo. — Você precisa ensinar essa menina a morder de volta, ou a Valentina vai acabar mandando nela a vida inteira.
— Elas se equilibram, Sara — respondeu Eduarda, beijando a bochecha de Amélie. — Amélie não precisa morder para ser amada.
Emanuel se levantou e caminhou até as três. Ele era o eixo em torno do qual aquele universo girava. Ele pegou Valentina com um braço e envolveu a cintura de Eduarda com o outro, beijando o topo da cabeça de Amélie.
— Valentina vai comandar os negócios, e Amélie vai ser a alma da nossa família — decretou Emanuel, a voz carregada de uma autoridade que ninguém ousava questionar. — Eu cuidarei para que ninguém tire vantagem da doçura da Amélie, e cuidarei para que a ambição da Valentina não a consuma.
— Você fala como se fosse um rei dividindo o reino, Manu — provocou Sara, encostando-se no ombro dele, completando o quadro familiar.
— E eu não sou? — Ele arqueou uma sobrancelha, olhando para as duas mulheres e as duas filhas.
Naquele momento, Amélie esticou a mãozinha e tocou a tatuagem no pescoço de Emanuel, um gesto que ela fazia sempre que queria a atenção dele. Emanuel suavizou a expressão instantaneamente, pegando a pequena no colo também, equilibrando as duas filhas, uma em cada braço.
Valentina tentou puxar o brinco de Emanuel, enquanto Amélie apenas encostou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos, segura.
— Emanuel, os pais da Duda chegam para o jantar em uma hora — lembrou Sara, verificando o relógio de ouro no pulso. — E eu ainda não decidi se servimos o vinho francês ou o italiano.
— O francês, Sara. É mais elegante para a ocasião — decidiu ele, sem hesitar.
Eduarda observava a cena com um sentimento de realização. Ela ainda era a menina tímida que fazia faculdade de História da Arte, mas agora ela tinha uma estrutura que nunca imaginara. Ela olhou para Emanuel, o homem que um dia a julgara sem conhecer, e viu o pai dedicado que passava horas apenas observando as filhas dormirem.
— Manu? — chamou Eduarda, baixo.
— Sim, meu anjo?
— Você se lembra daquela noite na serra? Quando eu vi a noiva?
Emanuel parou por um segundo, a lembrança da névoa fria contrastando com o calor do seu apartamento moderno.
— Lembro. Por quê?
— Olhe para elas — disse Eduarda, apontando para Valentina, que agora tentava "conversar" com a irmã, e para Amélie, que sorria com a agitação da outra. — A lenda dizia que ela esperava por um amor que nunca chegou. Eu acho que, de alguma forma, nós somos o final feliz que aquela história nunca teve.
Sara, que geralmente não se deixava levar por sentimentalismos, deu um sorriso genuíno e tocou o braço de Eduarda.
— Você e suas poesias, Duda... Mas acho que você tem razão. Quem diria que o tatuador mandão terminaria com uma loira explosiva e uma bailarina manhosa sob o mesmo teto?
Emanuel riu, um som que preencheu a sala, afastando qualquer sombra do passado.
— Eu diria. Eu sempre soube que teria tudo o que queria.
Ele colocou as bebês no cercadinho acolchoado e puxou Sara e Eduarda para um abraço conjunto. Ali, no coração de São Paulo, o império de Emanuel Albuquerque estava completo. Não eram apenas os estúdios espalhados pelo mundo ou a conta bancária astronômica. Era o contraste perfeito: a força e a exuberância de Sara, a doçura e a sensibilidade de Eduarda, e o futuro prometido nos olhos de Valentina e Amélie.
O controle que Emanuel tanto prezava agora não era mais sobre negócios, mas sobre garantir que aquele equilíbrio nunca se quebrasse. Ele olhou para a janela, onde as luzes da cidade brilhavam como estrelas artificiais, e sentiu que, finalmente, a tinta de sua vida havia encontrado o traço perfeito.