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Ouro, Sangue e Obsessão
As semanas que se seguiram à descoberta de Benício trouxeram uma rotina de cuidados médicos rigorosos e uma atmosfera de vigilância constante na cobertura. Emanuel não poupava recursos: o apartamento agora contava com uma enfermeira particular em tempo integral para monitorar a pressão de Eduarda e os batimentos de Amélie. No entanto, o luxo e a segurança vinham acompanhados de um gelo emocional que Eduarda sentia cortar sua pele todos os dias. Emanuel falava com ela apenas o necessário. Suas mãos, quando a tocavam para sentir os bebês, eram possessivas, mas seus olhos permaneciam distantes, carregados daquela mágoa latente que ele se recusava a dissolver.
Sara tentava mediar, desfilando pela casa com seus saltos altos e roupas justas que desafiavam a gravidade de sua própria gravidez, mas até ela percebia que Emanuel estava em um modo de "punição silenciosa". Ele cobria Sara de carinho e atenção, enquanto para Eduarda restavam as ordens e o controle.
Tudo mudou na tarde de quinta-feira, quando uma entrega especial chegou à portaria.
Eduarda estava na sala, sentada em uma poltrona ergonômica que Emanuel a obrigara a usar, quando o interfone tocou. Minutos depois, um pacote elegantemente embrulhado em veludo azul-marinho foi entregue em suas mãos. Sara, curiosa como sempre, aproximou-se com uma taça de água de coco na mão.
— O que é isso, bonequinha? O Manu resolveu gastar mais do que o habitual? — Sara perguntou, sentando-se no braço da poltrona.
Eduarda abriu o pacote com mãos trêmulas. Dentro, três caixas de camurça. A primeira continha um colar de ouro branco com um pingente de safira em forma de gota, delicado e caríssimo. As outras duas eram menores: uma pulseira de recém-nascido com uma pequena pedra preciosa rosa para Amélie e uma com uma pedra azul para Benício.
Havia um cartão.
— "Para a bailarina mais talentosa que já vi. Que estas joias brilhem tanto quanto você no palco, e que seus pequenos cresçam com a força da arte. Com carinho, Ricardo." — Sara leu em voz alta, as sobrancelhas arqueadas. — Ricardo? O patrocinador do seu último espetáculo? Aquele coroa bonitão e bilionário?
Eduarda sentiu o rosto esquentar. Ricardo era um entusiasta das artes que a conhecera durante a temporada de "O Lago dos Cisnes". Eles haviam trocado mensagens cordiais sobre História da Arte e ballet. Ele fora um dos poucos que a tratara como uma mulher adulta e talentosa, e não apenas como a "menina protegida" das famílias tradicionais.
— Ele é apenas um amigo, Sara. Ele foi muito gentil quando eu contei que estava grávida e que teria que me afastar dos palcos por um tempo — explicou Eduarda, já colocando o colar no pescoço. A safira parecia brilhar contra sua pele pálida. — Eu amei. É a primeira coisa que ganho que não parece uma recompensa por estar "carregando os filhos do Emanuel".
— É lindo, querida. Mas se eu fosse você... — Sara começou, mas parou abruptamente.
O som da porta de entrada sendo aberta com a força habitual anunciou a chegada de Emanuel. Ele entrou no recinto com o semblante cansado, a camiseta de algodão marcando os músculos tensos e as tatuagens subindo pelo pescoço. Ele parou no meio da sala, seus olhos escuros escaneando o ambiente até pararem na joia que reluzia no pescoço de Eduarda e nas caixinhas abertas sobre o colo dela.
O ar na sala pareceu sumir.
— O que é isso? — A voz de Emanuel saiu baixa, o tom de aviso que precedia suas piores explosões.
— Presentes, Manu! — Sara tentou aliviar o clima, embora soubesse que era inútil. — O patrocinador da Duda mandou para ela e para os bebês. Coisa fina, de muito bom gosto.
Emanuel caminhou até Eduarda. Ele não parou a uma distância educada; ele invadiu o espaço pessoal dela, obrigando-a a inclinar a cabeça para trás para conseguir encará-lo. Ele pegou o cartão de veludo que estava caído no sofá e leu as palavras de Ricardo.
O papel foi amassado em seu punho em um segundo.
— Tire isso — ordenou ele, a voz vibrando de uma fúria contida.
— Não — Eduarda respondeu, surpreendendo a si mesma. Sua timidez costumava silenciá-la, mas o peso da safira no pescoço lhe dava uma estranha coragem. — É um presente de um amigo. Ele foi gentil.
— Amigo? — Emanuel soltou uma risada amarga e perigosa. — Homens como o Ricardo não dão safiras para "amigas" grávidas de outros homens, Eduarda. Ele está marcando território. Ele está tentando comprar um espaço que pertence a mim.
— Você não é dono de todos os espaços, Emanuel! — Eduarda levantou-se, a barriga de quase seis meses dificultando o movimento, mas mantendo a postura de bailarina. — Você me trata como uma prisioneira desde que descobriu a verdade. Você me dá ordens, me dá broncas, mas não me dá um pingo de afeto que não seja por obrigação. O Ricardo me vê como pessoa.
Emanuel deu um passo à frente, a diferença de altura tornando a cena opressora. Ele levou a mão ao pescoço dela, não para machucá-la, mas para segurar o pingente com uma força que fez a corrente esticar.
— Eu disse para tirar. Agora — ele sibilou. — Eu compro o que você quiser. Eu compro a joalheria inteira se for preciso. Mas você não vai usar nada que venha de outro homem. Especialmente um que te olha como ele olhava naquele espetáculo.
— Você estava lá? — Eduarda perguntou, chocada.
— Eu sempre estou lá, Eduarda. Eu sempre estive em todos os lugares onde você estava, mesmo quando você não me via — ele confessou, a possessividade transbordando. — Agora, tire essa porcaria antes que eu mesmo a arrebente do seu pescoço.
— Não! — Eduarda segurou a mão dele, tentando afastar os dedos fortes da joia. — Eu não vou tirar. Eu gosto delas. E as crianças vão usar as pulseiras sim. É um gesto de carinho, algo que você parece ter esquecido como se faz comigo!
Emanuel soltou o pingente bruscamente, o metal batendo contra o esterno de Eduarda. Ele se virou para Sara, que observava tudo com um misto de diversão e preocupação.
— Sara, saia da sala. Agora.
— Ah, Manu, não seja tão dramático...
— Agora, Sara! — Ele rugiu.
Sara deu de ombros, lançando um olhar de "boa sorte" para Eduarda antes de se retirar para o quarto, balançando os quadris com indiferença. Ela sabia que, no fim, Emanuel acabaria fazendo o que queria, mas gostava de ver Eduarda finalmente mostrando as garras.
Quando ficaram sozinhos, Emanuel cercou Eduarda contra a poltrona. Ele colocou as mãos nos braços do móvel, prendendo-a.
— Você acha que está em posição de me desafiar? — Ele perguntou, o rosto a centímetros do dela. — Você escondeu meus filhos de mim por cinco meses. Você mentiu sobre a saúde da minha filha. E agora quer desfilar com joias de um admirador debaixo do meu teto?
— Eu não sou sua propriedade, Emanuel! — Eduarda exclamou, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Você quer as duas? Você quer a Sara e a mim? Então aprenda que eu não sou como ela. Eu não sou feita de ferro. Eu sou sensível, eu sinto falta de um abraço que não seja para conferir se os bebês estão chutando! O Ricardo foi humano comigo.
— Humano? — Emanuel rosnou, a mão subindo para o rosto dela, o polegar pressionando sua bochecha com uma firmeza quase violenta. — Eu vou te mostrar o que é ser humano. Eu vou te mostrar que cada centímetro desse seu corpo, cada joia que toca sua pele, tem que ter a minha marca.
Ele se afastou e, em um movimento rápido, pegou as caixinhas das pulseiras de Amélie e Benício.
— O que você vai fazer? — Eduarda gritou, tentando alcançá-lo.
Emanuel caminhou até a varanda da cobertura. Sem hesitar, ele lançou as duas caixinhas para o abismo urbano de Nova York. Eduarda soltou um grito de horror, cobrindo a boca com as mãos.
— Você é um monstro! — Ela soluçou, caindo de joelhos no tapete. — Eram para os bebês!
Emanuel voltou para dentro, sua expressão gélida e impiedosa. Ele se ajoelhou na frente dela, segurando seus ombros com força.
— Amanhã, joias novas chegarão para eles. Joias que eu escolhi. Joias que têm o meu sobrenome gravado. E se eu vir você falando com esse homem de novo, ou se eu encontrar qualquer outro "presente" escondido, eu juro por Deus, Eduarda, que eu tiro você desta casa e te tranco em um lugar onde você não verá a luz do sol até esses bebês nascerem.
— Você não faria isso... — ela sussurrou, tremendo.
— Não me teste. Você já esgotou minha paciência com suas mentiras passadas. Agora, tire esse colar. É o último aviso.
Eduarda olhou nos olhos dele e viu que não havia blefe. Emanuel estava no limite de sua sanidade, uma corda bamba entre o amor obsessivo e a fúria do controle perdido. Com dedos trêmulos, ela alcançou o fecho do colar e o abriu, deixando a safira cair na palma da mão dele.
Emanuel pegou a joia e, sem dizer uma palavra, caminhou até o triturador da pia da cozinha gourmet integrada. O som do metal sendo esmagado pelas lâminas ecoou pela sala como um tiro.
Eduarda chorava silenciosamente, abraçada à própria barriga. Ela sentia Benício se agitar violentamente, como se respondesse à tensão do ambiente.
Emanuel voltou para o lado dela. Sua raiva parecia ter se transformado em uma frieza cortante. Ele a pegou no colo, ignorando seus protestos fracos, e a carregou para o quarto. Ele a deitou na cama com uma delicadeza que contrastava brutalmente com suas ações anteriores.
— Durma — ordenou ele, cobrindo-a. — A enfermeira virá checar sua pressão em dez minutos.
— Eu te odeio — ela sussurrou, fechando os olhos.
Emanuel parou na porta, a silhueta escura contra a luz do corredor.
— Talvez odeie. Mas você é minha. E Amélie e Benício também são. E ninguém, nem o tempo, nem a distância, nem bilionário nenhum, vai mudar o fato de que eu sou o único dono do seu destino.
Ele saiu, fechando a porta e trancando-a por fora. O clique da fechadura ecoou no coração de Eduarda.
Na sala, Sara o esperava, encostada no balcão da cozinha.
— Você exagerou, Manu. Ela é sensível demais para esse seu jeito de bicho do mato.
Emanuel serviu-se de um whisky, a mão ainda trêmula de adrenalina.
— Ela precisa entender, Sara. Ela não pode mais ter segredos. Se eu deixo um colar passar, amanhã ela está escondendo outra gravidez, outro problema de saúde, outro homem. Eu não vou perder o controle de novo.
— Você não perdeu o controle, meu amor — Sara disse, aproximando-se e abraçando-o por trás, colando seu corpo ao dele. — Você só está marcando o que é seu. Mas lembre-se: uma bailarina precisa de espaço para dançar, ou ela acaba quebrando as pernas.
Emanuel virou o copo de uma vez, o líquido queimando sua garganta.
— Se ela quebrar as pernas, eu serei as pernas dela. Mas ela não sai do meu lado. Nunca.
Enquanto isso, no quarto escuro, Eduarda sentia o vazio no pescoço onde a safira estivera. Ela sabia que Emanuel jamais esqueceria sua "traição" de cinco meses, e que cada gesto de independência dela seria visto como uma nova ameaça. Ela olhou para a janela, onde as luzes da cidade brilhavam, e sentiu-se como um pássaro em uma gaiola de ouro, onde o carcereiro a amava demais para deixá-la voar, mas a perdoava de menos para deixá-la em paz.
Ela acariciou a barriga e sussurrou para os filhos:
— Eu vou proteger vocês. Mesmo que o maior perigo para o meu coração seja o homem que deu a vida a vocês.
A guerra fria na cobertura de Emanuel estava longe de terminar. A chegada de Amélie e Benício se aproximava, e com eles, a certeza de que a dinâmica entre o tatuador possessivo, a loira ambiciosa e a bailarina quebrada estava prestes a explodir de uma forma que nenhuma joia ou controle seria capaz de conter.