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D

O Brilho Oculto sob o Cetim

A cobertura estava mergulhada em um silêncio artificial, aquele tipo de quietude que precede as grandes tempestades. Emanuel havia saído cedo para um de seus estúdios de tatuagem; o lançamento das joias de Ricardo pela sacada ainda ecoava na mente de Eduarda como um pesadelo metálico. Mas Emanuel, em sua arrogância de dono do mundo, havia subestimado dois fatores: a sorte e a lealdade silenciosa de quem trabalhava para ele.

Eduarda estava sentada na varanda, observando o horizonte de concreto, quando viu o zelador do prédio, o Sr. Antônio, gesticular discretamente da calçada lá embaixo. Horas antes, ela havia descido, aproveitando um momento em que a enfermeira cochilava, e implorado ao homem que procurasse as caixinhas no jardim suspenso do primeiro andar.

— Menina Eduarda — sussurrou a voz de Sara atrás dela, fazendo-a pular. — O que você está aprontando com esse olhar de conspiração?

Eduarda pressionou as mãos contra o ventre, sentindo Amélie e Benício se agitarem.

— Nada, Sara. Só estou tomando ar.

— Sei. Você tem a mesma cara de quando tentava esconder o chocolate da sua mãe aos dez anos — Sara riu, aproximando-se. Ela usava um conjunto de lingerie de renda preta e um robe transparente, a barriga de Valentina orgulhosamente exibida. — O Emanuel é um bruto, mas ele não é cego. Se você for pegar o que ele jogou fora, é melhor ser rápida.

Eduarda não esperou. Ela desceu até o hall sob o pretexto de buscar uma encomenda. O Sr. Antônio a encontrou perto das jardineiras. Ele lhe entregou um envelope pardo, com um olhar de pena.

— Caíram sobre os arbustos de camélia, dona Eduarda. Tivemos sorte. O metal nem arranhou.

— Obrigada, Sr. Antônio. Por favor, não diga nada ao Emanuel.

— O patrão tem mãos pesadas, eu sei. Fique em paz.

Ao retornar para a cobertura, o coração de Eduarda batia contra as costelas. Ela entrou no quarto e trancou a porta. Abriu o envelope e lá estavam elas: a safira de um azul profundo e as pulseiras delicadas. Ela sentiu uma onda de triunfo. Emanuel achava que podia apagar a identidade dela, mas aquelas joias eram o símbolo de que alguém, em algum lugar, ainda a via como a bailarina talentosa, e não apenas como um receptáculo para seus herdeiros.

Ela escondeu o envelope no fundo falso de sua caixa de sapatilhas de ballet, sob camadas de tule e fitas de cetim.

Horas depois, o som da porta principal se abrindo anunciou o retorno do predador. Emanuel entrou no quarto de Eduarda sem bater, como de costume. Ele parecia mais calmo, mas a aura de controle ainda o envolvia como uma segunda pele.

— Como você está? — perguntou ele, sentando-se na beira da cama.

Eduarda, decidida a usar sua melhor arma, fez um bico manhoso e desviou o olhar, encolhendo-se entre os travesseiros.

— Estou com dor, Emanuel. Minhas costas pesam e meus pés estão inchados. E estou triste. Você foi cruel.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto. Ele se inclinou e começou a massagear os pés dela com uma pressão firme, mas cuidadosa.

— Eu protejo o que é meu, Eduarda. Você precisa entender que presentes de outros homens são insultos para mim.

— Você jogou fora algo que era para os seus filhos — ela murmurou, a voz embargada por uma manha calculada. — A Amélie e o Benício não têm culpa das suas paranoias.

Emanuel parou a massagem por um segundo, os olhos escuros fixos nela.

— Eu já disse que comprei joias novas. Estão na sala. Diamantes, Eduarda. Não safiras de segunda mão de um patrocinador carente.

— Não é a mesma coisa — ela insistiu, estendendo os braços para ele como uma criança que busca colo. — Você me assustou. Eu sinto que não posso nem respirar sem sua permissão.

Emanuel não resistiu. Ele a puxou para o seu peito, acomodando o corpo esguio dela entre suas pernas tatuadas. Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro de tinta de tatuagem e perfume amadeirado. Ela era pequena perto dele, e sua fragilidade sempre fora o gatilho para a proteção obsessiva de Emanuel.

— Você pode respirar, Eduarda. Desde que seja o ar que eu te dou — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Eu te amo. Você sabe disso. Amo a Sara, amo a Valentina que está chegando... mas você... você é a minha parte que eu tento manter pura. E eu perco a cabeça quando alguém tenta sujar isso.

Eduarda ronronou contra o pescoço dele, escondendo o sorriso de quem guardava um segredo valioso a poucos metros dali.

— Então me prove — disse ela, manhosa, puxando a mão dele para a sua barriga. — Me prove que não quer apenas me controlar. Deixe-me ir à faculdade amanhã. Só para uma aula.

Emanuel ficou tenso. O controle lutando contra o desejo de agradar sua "menina".

— Com a enfermeira e dois seguranças na porta da sala? — perguntou ele.

— Emanuel! — ela protestou, fingindo uma irritação doce.

— É pegar ou largar, Eduarda.

— Tudo bem — ela cedeu, vitoriosa por dentro. — Mas você tem que me prometer que não vai mais gritar comigo. O Benício chuta toda vez que você levanta a voz.

Emanuel beijou a testa dela, um gesto de rendição parcial.

— Vou tentar. Mas não me esconda nada, Eduarda. Nunca mais.

Ela assentiu, sentindo o peso do segredo nas sapatilhas de ballet. Ela sabia que estava brincando com fogo. Emanuel era um homem rico, poderoso e perigosamente intuitivo. Se ele descobrisse que ela o enganara novamente, recuperando o que ele pretendia destruir, a fúria anterior pareceria uma brisa leve perto do que viria.

Naquela noite, Sara entrou no quarto enquanto Emanuel tomava banho. Ela viu o brilho nos olhos de Eduarda.

— Você pegou, não pegou? — Sara sussurrou, sentando-se na beira da cama e lixando uma unha perfeitamente pintada de rosa choque.

— O Sr. Antônio encontrou — Eduarda admitiu em um sussurro. — Estão escondidas.

Sara soltou uma risada abafada.

— Você é mais perigosa do que parece, bonequinha. O Manu acha que te domou com diamantes e massagens, mas você tem um lado rebelde que eu adoro. Só tome cuidado. Se ele descobrir, nem eu vou conseguir acalmar a fera.

— Ele não vai descobrir, Sara. Ele me vê como a Duda frágil e sensível. Ele nunca vai desconfiar que eu teria coragem de desobedecer uma ordem direta dele.

— É aí que você se engana — Sara disse, ficando séria por um momento. — O Emanuel te conhece desde que você usava fraldas. Ele lê seus silêncios melhor do que ninguém. Se você começar a agir de forma muito segura, ele vai saber que algo mudou. Continue sendo a menina manhosa. É a sua melhor máscara.

Eduarda concordou. Quando Emanuel saiu do banho, apenas com uma toalha na cintura, exibindo o corpo que era um mapa de obras de arte em pele, Eduarda esticou a mão para ele.

— Vem deitar comigo? Os bebês estão agitados.

Emanuel sorriu, um daqueles raros sorrisos que iluminavam seu rosto severo. Ele se deitou ao lado dela, ignorando o fato de que Sara ainda estava no quarto. Para eles, aquela trindade era o novo normal. Sara se inclinou e beijou o ombro de Emanuel, depois a bochecha de Eduarda.

— Vou deixá-los a sós com os pequenos — disse Sara. — Tenho que organizar as novas roupas da Valentina. O Manu comprou tanta coisa que vou precisar de um closet novo.

Quando Sara saiu, Emanuel puxou Eduarda para mais perto.

— Eu vou cuidar de você, Duda. Vou cuidar da Amélie e do Benício. Mas você tem que ser minha aliada, não minha adversária. Entendeu?

— Eu entendi, Emanuel — ela respondeu, fechando os olhos e fingindo sono.

Por dentro, o coração de Eduarda dançava. Ela tinha as joias. Tinha o controle dele através de sua manha. E, pela primeira vez em meses, ela não se sentia apenas uma peça no tabuleiro de Emanuel. Ela era a jogadora.

No entanto, no fundo da caixa de sapatilhas, a safira parecia pulsar como um lembrete. O segredo era uma bomba-relógio. E Emanuel, o homem que tatuava a dor na pele dos outros para torná-la bela, não aceitaria ser o único a não saber a verdade em sua própria casa.

A paz era frágil, feita de cetim e mentiras doces. E Eduarda, a bailarina que todos julgavam delicada demais para o mundo real, estava prestes a descobrir que esconder um tesouro de um dragão era a dança mais perigosa de sua vida.

— Durma, minha pequena — sussurrou Emanuel, envolvendo-a em seus braços fortes. — Amanhã é um novo dia. E nada vai mudar o fato de que você é o meu maior tesouro.

Eduarda sorriu no escuro, um sorriso que Emanuel não viu. Um sorriso de quem sabia que, às vezes, o maior tesouro é aquele que o dono pensa ter perdido para sempre.

A gestação avançava, e com ela, o jogo de sombras na cobertura de luxo. Entre diamantes impostos e safiras escondidas, a verdade aguardava o momento certo para emergir, e quando o fizesse, o impacto prometia mudar para sempre o destino de Emanuel, Sara e a doce, mas agora astuta, Eduarda.