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Entre o Brilho das Pedras e o Peso das Sombras

A luz da manhã refletia-se nos cristais do lustre da suíte principal, mas para Eduarda, o verdadeiro brilho estava escondido sob o tule de suas sapatilhas velhas. O envelope pardo, agora guardado no fundo falso de sua caixa de memórias, era o seu pequeno segredo de resistência. Emanuel achava que tinha obliterado qualquer vestígio de Ricardo da vida dela, mas o peso da safira que ela ocasionalmente tocava às escondidas servia como um lembrete de que sua identidade não pertencia inteiramente ao homem que a mantinha em uma gaiola de ouro.

Emanuel, porém, sentia a distância. Ele era um homem de instintos, e o silêncio dócil de Eduarda nos últimos dias o deixava inquieto. Para ele, a solução era sempre a mesma: prover, proteger e possuir. Se ele havia destruído algo que ela valorizava, ele a soterraria com algo dez vezes mais caro.

— Arrumem-se — ordenou Emanuel, entrando na sala onde Sara e Eduarda tomavam café. — Vamos sair.

Sara, que usava um robe de seda rosa choque que deixava seu generoso decote à mostra, arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.

— Para onde, Manu? Espero que seja algum lugar com ar-condicionado potente, porque a Valentina está me fazendo suar como se eu estivesse em um deserto.

— Vamos à joalheria — disse ele, os olhos fixos em Eduarda, que permanecia concentrada em seu pedaço de mamão. — Quero que vocês escolham o que quiserem. Conjuntos novos, pedras para as meninas, o que for.

— Adoro esse seu lado culpado, querido — Sara riu, levantando-se e dando um tapinha carinhoso no rosto de Emanuel. — Vou me vestir para matar. Duda, anime-se! Shopping terapia é o que você precisa para tirar essa cara de velório.

Eduarda apenas assentiu, mantendo o olhar baixo. Ela sentia a pressão da mão de Emanuel em seu ombro, um aperto que era ao mesmo tempo um carinho e um aviso.

Uma hora depois, o SUV preto estacionou em frente à joalheria mais exclusiva da cidade. O gerente, que já conhecia a fama e o saldo bancário do tatuador, os recebeu com espumante e trufas. Emanuel sentou-se no centro do lounge privado, cruzando as pernas e observando suas duas mulheres.

Sara era um espetáculo à parte. Ela experimentava colares de diamantes enormes, rindo alto e girando em frente ao espelho, fazendo o silicone balançar sob o vestido justo.

— Manu, olha esse rubi! Combina com o meu batom, não acha? — Sara exclamava, deliciada com a atenção.

— Se você gostou, é seu, Sara — respondeu Emanuel, mas seu foco mudou rapidamente para a figura silenciosa ao lado.

Eduarda estava sentada em uma poltrona de veludo, as mãos protegendo a barriga de cinco meses. O funcionário da loja colocou diante dela uma bandeja forrada de veludo preto com peças que custariam o valor de um apartamento de luxo. Diamantes límpidos, esmeraldas raras e pérolas perfeitas.

— E você, Duda? — Emanuel perguntou, a voz suavizando. — Gostou do conjunto de diamantes? É clássico, combina com a sua delicadeza.

Eduarda olhou para as joias com um desinteresse que beirava o tédio. Ela tocou levemente em um colar de brilhantes, mas logo recolheu a mão.

— São bonitas, Emanuel. Mas não... não sinto que combinam comigo.

Emanuel franziu a testa, a irritação começando a borbulhar sob a superfície.

— Como não combinam? São as melhores pedras da casa. Veja este de safiras — ele apontou para uma peça que tentava emular, de forma muito mais cara, o que ele havia destruído. — É muito superior àquela porcaria que você recebeu pelo correio.

Eduarda fez um bico manhoso, os olhos castanhos começando a brilhar com lágrimas contidas.

— Você só quer substituir as coisas, Emanuel. Não é sobre o valor. Aquilo tinha um significado artístico. Essas aqui... parecem frias. Minha pele chega a arrepiar de um jeito ruim.

— Frias? — Emanuel levantou-se, caminhando até ela. — Eduarda, eu estou tentando te dar o melhor. Escolha alguma coisa. Qualquer coisa.

— Não quero nada — ela sussurrou, a voz falhando, assumindo aquela postura de fragilidade que ela sabia que desarmava o homem. — Quero ir para casa. Benício está chutando e estou com azia.

Sara, percebendo o clima pesado, aproximou-se com um par de brincos de esmeralda nas mãos.

— Manu, deixa a menina. Ela está na fase da negação. Duda, querida, você precisa de um pouco de brilho para alegrar esse rosto pálido.

— Eu não quero brilho, Sara — Eduarda disse, levantando-se devagar, apoiando a mão nas costas. — Eu quero paz. Emanuel, por favor, podemos ir?

Emanuel olhou para o gerente, que parecia desconfortável, e depois para Eduarda. Ele sentia-se impotente. Ele tinha milhões no banco, tinha poder sobre a vida dela, mas não conseguia arrancar um sorriso sincero da mulher que ele desejava com tanta possessividade.

— Leve o conjunto de rubis para a Sara — ordenou Emanuel ao gerente, entregando o cartão sem olhar o valor. — E para a senhora... — ele hesitou, olhando para Eduarda — ...nada por enquanto.

O trajeto de volta foi silencioso. Sara tagarelava sobre como as joias ficariam lindas com seus vestidos de grávida, mas Emanuel e Eduarda estavam em mundos diferentes. Ao chegarem na cobertura, Eduarda foi direto para o quarto.

Minutos depois, Emanuel entrou. Ele a encontrou deitada de lado, a expressão melancólica.

— O que está acontecendo com você, Eduarda? — perguntou ele, sentando-se na beira da cama e tentando tocar seu rosto. — Eu te levo ao lugar mais caro da cidade e você me trata como se eu estivesse te levando para o matadouro.

Eduarda virou-se para ele, os olhos úmidos, a voz carregada de uma manha que era sua maior defesa.

— Você jogou fora o carinho que eu recebi, Emanuel. Agora você quer comprar o meu perdão com pedras que não significam nada. Você acha que pode resolver tudo com dinheiro, mas eu sinto falta do Emanuel que cuidava de mim porque me amava, não porque queria me controlar.

Emanuel sentiu uma pontada no peito. O controle era sua forma de amar, mas ele via que, com Eduarda, a corda estava esticando demais.

— Eu cuido de você porque você é minha, Duda. E porque carrega o Benício e a Amélie.

— Então me deixe ficar com as minhas coisas — ela implorou, a voz sumindo. — Não me force a usar o que você escolhe. Deixe-me ter um pouco de mim mesma nesta casa.

Emanuel suspirou, derrotado pela fragilidade dela.

— Está bem. Não vou te obrigar a usar as joias novas. Mas não quero ver nada daquele Ricardo nesta casa. Entendido?

— Entendido — ela mentiu suavemente, fechando os olhos enquanto ele passava a mão por seus cabelos.

Quando Emanuel saiu do quarto, Eduarda esperou alguns minutos. Ela levantou-se, foi até o armário e pegou a sapatilha de ballet. Retirou o envelope pardo e, com as mãos trêmulas, tirou o colar de safira. Ela o apertou contra o peito, sentindo o metal frio.

Ela não odiava Emanuel. Ela o amava de uma forma complexa e profunda, uma dependência que vinha da infância. Mas ela precisava daquele segredo. Precisava de algo que ele não pudesse tocar, algo que a lembrasse de que ela era Eduarda, a bailarina, e não apenas a "segunda mulher" grávida de gêmeos.

Sara entrou no quarto sem avisar, pegando Eduarda com o colar na mão.

— Ele vai te matar se descobrir que você mentiu na cara dele — Sara disse, encostando-se no batente da porta com um sorriso cúmplice.

— Ele não vai descobrir, Sara. Ele está ocupado demais tentando ser o dono da verdade.

— Você está ficando boa nisso, bonequinha — Sara caminhou até ela, tocando a safira. — É uma pedra bonita. Mas o rubi que ele me deu brilha mais.

— O rubi é seu, Sara. A safira é minha. E é assim que deve ser.

Sara riu, balançando a cabeça.

— Sabe, Duda, o Manu quer as duas porque somos opostas. Eu dou a ele o fogo, o confronto, a vulgaridade que ele adora. E você dá a ele essa paz frágil que ele sente necessidade de proteger. Mas tome cuidado. A paz que é construída sobre mentiras costuma desmoronar com estrondo.

— Eu só preciso de tempo, Sara. Até os bebês nascerem. Depois disso, ele vai estar tão encantado com o Benício e a Amélie que não vai se importar com um colar velho.

— Você não conhece o homem com quem dorme — Sara comentou, saindo do quarto. — O Emanuel não esquece. Ele apenas guarda a munição para o momento certo.

Eduarda guardou a joia novamente. Ela sentia-se exausta. A manha que usava para manipular Emanuel exigia uma energia que ela mal tinha. Ela acariciou a barriga, sentindo o movimento vigoroso de Benício.

— Você vai ser forte como o seu pai — sussurrou ela. — Mas espero que tenha o coração da sua mãe.

Naquela noite, Emanuel voltou ao quarto. Ele não disse nada sobre a joalheria. Ele apenas deitou-se atrás dela, envolvendo sua barriga com os braços tatuados, protegendo-a em seu sono. Ele sentia que havia algo errado, uma nota desafinada na sinfonia de sua vida perfeita com as duas mulheres. Mas, por enquanto, ele preferia acreditar na doçura de Eduarda.

Ele era o mestre das tintas e das agulhas, mas Eduarda estava aprendendo a desenhar seu próprio destino nas sombras, usando o silêncio como sua cor principal. E naquela cobertura de luxo, onde o amor e a posse se misturavam como cores em uma paleta caótica, a verdade permanecia escondida sob o cetim de uma sapatilha, esperando o momento em que o palco finalmente se abriria para o ato final.

— Você está quieta demais — murmurou Emanuel contra a nuca dela, quase dormindo.

— Estou apenas cansada, Manu. Só cansada.

— Eu vou cuidar de tudo, Duda. Dorme. Eu estou aqui.

Eduarda fechou os olhos. Ela sabia que ele estava lá. O problema era que ele estava em todos os lugares, e ela só queria um pequeno espaço onde ele não pudesse entrar. Por enquanto, a safira era esse espaço. E ela a protegeria com toda a manha e a fragilidade que possuía, ciente de que, no mundo de Emanuel, a única forma de ser livre era fingindo ser totalmente dele.