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O Eco do Nome Proibido

A cobertura de Emanuel na cidade era um monumento ao seu sucesso: mármore escuro, janelas do chão ao teto com vista para o skyline urbano e uma iluminação indireta que dava ao ambiente um ar de galeria de arte moderna. Naquela noite, o grupo de amigos estava reunido para um jantar informal. O som de risadas e o tilintar de taças de cristal preenchiam o espaço, mas o clima, para Emanuel, começou a azedar antes mesmo do prato principal ser servido.

Eduarda estava sentada no sofá de veludo, com Maya no colo. A pequena estava agitada, balbuciando sons e tentando interagir com todos. Rodrigo, um dos amigos mais próximos de Emanuel — um arquiteto bonachão e sempre disposto a brincar com as crianças —, aproximou-se para entregar um mordedor que havia caído no tapete.

— Aqui está, pequena exploradora! — disse Rodrigo, fazendo uma careta engraçada enquanto devolvia o brinquedo.

Maya, em um momento de pura confusão infantil e carência de atenção, esticou os bracinhos para ele. O rosto da bebê se iluminou e, com uma clareza que silenciou a conversa ao redor por um segundo eterno, ela exclamou:

— Papai!

O ar pareceu ser sugado para fora da sala. Eduarda congelou, o rosto empalidecendo instantaneamente. Emanuel, que estava servindo um vinho do outro lado do balcão, parou com a garrafa suspensa, os nós dos dedos ficando brancos de tanta força.

Maya, percebendo o silêncio estranho ou talvez notando que o rosto de Rodrigo não era o que ela esperava, franziu o cenho, inclinou a cabeça e corrigiu-se logo em seguida, com a voz mais baixa:

— Tio...

Rodrigo soltou uma risada nervosa, tentando aliviar a tensão.

— É, isso mesmo, pequena! Tio Rodrigo. O papai está ali no bar, e ele parece que vai quebrar essa garrafa se eu não me afastar.

A risada geral que se seguiu foi forçada. Sara, percebendo o perigo iminente, levantou-se rapidamente de sua poltrona, o vestido justo de couro sintético estalando com o movimento.

— Crianças são uma comédia, não é? — Sara disse, a voz alta e vibrante, tentando retomar o controle do ambiente. — No outro dia, a Ágata chamou o entregador de comida de vovô. Eles apenas saem distribuindo títulos para quem dá atenção. Manu, querido, termine de servir esse vinho antes que a gente morra de sede.

Emanuel não disse uma palavra. Ele terminou de servir as taças com uma precisão mecânica e fria. Seus olhos, no entanto, estavam fixos em Maya — e depois em Eduarda. Ele não estava com raiva da bebê, mas a palavra "papai" direcionada a outro homem havia atingido um nervo exposto que ele nem sabia que possuía.

O resto da noite foi um exercício de paciência para todos. Emanuel, normalmente o anfitrião silencioso mas presente, tornou-se uma estátua de gelo. Ele não participava das piadas, não comentava sobre os novos estúdios de tatuagem e, sempre que alguém tentava incluí-lo na conversa, ele respondia com monossílabos secos.

Eduarda, sentindo o peso daquela atmosfera, ficou cada vez mais encolhida no sofá. Ela conhecia Emanuel o suficiente para saber que o silêncio dele era mais perigoso que qualquer grito.

— Emanuel, você está bem? — Eduarda perguntou baixinho, quando ele passou por ela para ir até a varanda.

— Estou ótimo, Eduarda. Por que não estaria? — A voz dele era cortante, desprovida da doçura habitual que ele reservava para ela.

Ele saiu para a varanda, e o grupo começou a se dispersar pouco depois, sentindo que o "clima" da festa havia evaporado. Quando o último convidado saiu, o silêncio que restou na cobertura era denso, quase palpável.

Sara fechou a porta principal e suspirou, jogando os saltos altos de lado. Ela olhou para Eduarda, que ainda segurava Maya, agora adormecida, como se a criança fosse um escudo.

— Vá colocar a Maya no berço, Duda — disse Sara, com uma voz surpreendentemente suave. — Eu vou falar com o mestre do drama lá fora.

— Sara, eu sinto muito... eu não queria que ela... — Eduarda começou, as lágrimas já brilhando nos olhos.

— Shhh. Você não fez nada, e a Maya menos ainda. O Emanuel é que é um possessivo territorialista que precisa baixar a bola. Vai lá.

Eduarda assentiu e subiu para o andar de cima. Sara caminhou até a varanda, onde Emanuel estava parado, observando as luzes da cidade com os braços cruzados sobre o peito largo. O vento agitava sua camisa, revelando as tatuagens no pescoço que pareciam mais escuras sob a luz da lua.

— Você vai ficar com essa cara de quem quer matar o Rodrigo até quando? — Sara perguntou, encostando-se no parapeito ao lado dele.

— Não estou com cara de nada, Sara.

— Ah, não me venha com essa. Você está exalando testosterona e mau humor. Só porque a Maya se confundiu? Ela tem oito meses, Emanuel! Ela mal sabe a diferença entre um gato e um cachorro, quem dirá a função social de um pai.

Emanuel virou-se para a esposa, os olhos faiscando de uma irritação profunda.

— Não é sobre a confusão dela, Sara. É sobre o fato de que, para o mundo, qualquer um pode ocupar esse lugar, menos eu. Eu cuido dela, eu pago os médicos, eu perco o sono pensando naquela válvula cardíaca... e ela olha para o Rodrigo e diz aquela palavra.

— Ela disse "tio" logo depois! — Sara rebateu, cruzando os braços também. — Você está sendo irracional. Você quer o título? Quer que ela te chame de pai? Então assuma isso de uma vez, em vez de ficar emburrado como um adolescente que perdeu o brinquedo.

— Você sabe que não é simples assim, Sara. Existe a Eduarda, existem os pais dela, existe o fato de que eu sou seu marido.

Sara deu um passo à frente, colando seu corpo ao dele. Ela colocou as mãos no rosto de Emanuel, forçando-o a olhar para ela.

— Escuta aqui, seu tatuador turrão. Eu já te disse que não me importo. Eu amo a Duda, eu amo a Maya. Se para você ser feliz e parar de agir como um idiota você precisa ser o pai daquela menina no papel e na vida, então faça isso. Mas não desconte a sua frustração na Eduarda. Ela está lá dentro achando que você a odeia agora.

Emanuel fechou os olhos, a raiva começando a ser substituída pela culpa. O toque de Sara sempre tinha o poder de trazê-lo de volta à realidade.

— Eu não a odeio. Nunca poderia.

— Então prove. Vá lá e conserte isso. Eu vou checar a Ágata e depois vou dormir. E espero que, quando você entrar no quarto, essa nuvem negra tenha sumido da sua cabeça.

Sara deu um beijo rápido e firme nos lábios dele e saiu, deixando-o sozinho com seus pensamentos. Emanuel ficou ali por mais alguns minutos, respirando o ar frio, antes de entrar e subir as escadas.

Ele encontrou Eduarda no berçário. Ela estava sentada em uma poltrona ao lado do berço de Maya, com as pernas encolhidas e o rosto escondido nas mãos. O som de seu choro baixo e contido quebrou o que restava da armadura de Emanuel.

Ele aproximou-se silenciosamente e ajoelhou-se na frente dela, afastando suas mãos com delicadeza.

— Duda... olhe para mim.

Eduarda levantou o rosto, os olhos vermelhos e as bochechas manchadas.

— Desculpa, Emanuel... eu juro que não ensino ela a chamar ninguém assim. Eu nem falo do pai dela, eu nem... eu não sei de onde ela tirou isso. Por favor, não fica bravo com ela. Nem comigo.

Emanuel sentiu um aperto no peito que nenhuma tatuagem poderia expressar. Ele a puxou para o seu colo, sentindo a fragilidade dela contra seu corpo forte.

— Eu não estou bravo com você, pequena. E nunca ficaria bravo com a Maya.

— Mas você ficou de cara fechada a noite toda — ela soluçou, escondendo o rosto no pescoço dele. — Você nem olhou para mim. Eu achei que você estivesse arrependido de ter nos trazido para cá.

— Nunca — ele disse, com uma intensidade que a fez parar de chorar. — Eu fiquei bravo porque... porque eu tive inveja, Eduarda. Inveja do Rodrigo. Inveja de qualquer homem que possa receber esse título de forma gratuita, enquanto eu sinto que tenho que lutar contra o mundo para provar que eu é que pertenço a vocês.

Eduarda afastou-se um pouco, olhando-o com surpresa.

— Você... você teve inveja?

— Eu quero ser o pai dela, Duda — Emanuel confessou, a voz rouca. — Eu já me sinto assim. Quando ela chora, meu coração dispara. Quando ela sorri, eu sinto que meu dia valeu a pena. Ouvir ela chamar outra pessoa daquela forma... foi como se alguém tivesse me tirado algo que eu nem sabia que era meu por direito.

Eduarda tocou o rosto de Emanuel, os dedos trêmulos traçando a linha de sua mandíbula tensa.

— Mas você é o pai dela, Emanuel. Em tudo o que importa. É você quem segura a mão dela quando ela faz os exames. É você quem faz ela dormir quando eu estou exausta. A Maya só se confundiu porque ela sente essa segurança em você, e talvez ela esteja procurando uma palavra para definir o que você é.

Emanuel relaxou os ombros, a tensão finalmente deixando seu corpo. Ele puxou Eduarda para um beijo suave, um beito que carregava um pedido de desculpas e uma promessa.

— Eu fui um idiota — ele murmurou contra os lábios dela. — A Sara já me deu um sermão sobre isso.

— A Sara é maravilhosa — Eduarda sorriu fraco. — Ela me disse para não me preocupar, que você era apenas um "ogro territorialista".

Emanuel soltou uma risada curta e anasalada.

— Ela não está errada. Eu sou. Especialmente quando se trata de você e das meninas.

Eles ficaram ali, em silêncio, observando Maya dormir. A pequena agora respirava calmamente, alheia ao caos emocional que havia causado.

— Emanuel? — Eduarda chamou, depois de um tempo.

— Oi?

— Se você quiser... se você realmente quiser... você pode ser o papai dela. Eu não me importo com o que meus pais ou o grupo vão dizer. Eu só quero que ela cresça sabendo que é amada por um homem como você.

Emanuel sentiu uma onda de gratidão e possessividade — daquela vez, uma possessividade boa, protetora. Ele a apertou mais nos braços.

— Eu vou ser, Duda. No papel, na vida, em tudo. Ninguém mais vai receber aquele título, eu te garanto.

Eles saíram do berçário e caminharam em direção ao quarto principal. Sara já estava deitada, lendo um tablet, mas olhou por cima da tela quando os dois entraram. Ela viu a expressão suavizada de Emanuel e o rosto mais calmo de Eduarda.

— Finalmente — disse Sara, fechando o tablet e abrindo um sorriso provocador. — O ogro foi domado?

— Shhh, Sara — Emanuel disse, embora estivesse sorrindo. — As crianças estão dormindo.

— Ótimo. Então venham logo para cá. O lado da Duda na cama está frio e eu estou precisando de atenção — Sara deu um tapinha no colchão, o olhar brilhando com aquela mistura de autoridade e carinho que só ela possuía.

Emanuel deitou-se no meio, com Sara de um lado e Eduarda do outro. Naquela noite, enquanto as luzes da cidade brilhavam lá fora, ele percebeu que a palavra "papai" não era apenas um título, mas um compromisso. E ele estava mais do que pronto para assumi-lo, não importa o quão vulgar, complicado ou fora dos padrões seu mundo parecesse para os outros. Ali, entre as duas mulheres que amava, ele era exatamente quem precisava ser.

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