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O Despertar da Loba sob o Sol de Santos

A cobertura de Emanuel nunca estivera tão barulhenta e, ao mesmo tempo, tão repleta de uma aura de completude. O nascimento de Ágata, há duas semanas, transformara o implacável tatuador em um homem que parecia ter descoberto uma nova religião. Sara, radiante em sua recuperação, exibia a pequena menina — loirinha e de traços marcantes como os da mãe — como se fosse o troféu definitivo de sua união com Emanuel. A casa cheirava a talco caro, flores frescas e àquele perfume cítrico que Sara sempre usava.

Emanuel estava hipnotizado. Ele passava horas no berçário, observando cada movimento dos dedos minúsculos de Ágata. Sua possessividade, antes focada exclusivamente em controlar os passos de Eduarda e os caprichos de Sara, agora se voltava para a proteção absoluta da recém-nascida.

— Ela tem os seus olhos, loira — murmurou Emanuel, segurando a bebê com uma delicadeza que contrastava brutalmente com suas mãos grandes e tatuadas. — Mas o gênio... o gênio já dá para ver que é o seu.

Sara, sentada em uma poltrona de amamentação que custara o preço de um carro popular, riu de forma debochada, embora seus olhos brilhassem de orgulho.

— É claro que sim, Manu. Ela vai ser a dona disso tudo aqui. E você vai ser o primeiro a beijar os pés dela. Agora, me dê minha filha, ela está com fome e eu quero que ela durma logo para podermos assistir àquela série.

Eduarda observava a cena da penumbra do corredor. Ela sentia uma pontada de ternura, mas também um isolamento crescente. Com sete meses de gravidez, carregando o peso de Maya e Arthur, ela se sentia um satélite orbitando um planeta que não precisava mais dela para brilhar. Emanuel, embora ainda garantisse que ela tomasse todas as vitaminas e não fizesse esforços, parecia ter baixado a guarda. O foco dele estava em Ágata. A vigilância constante, que antes a sufocava, havia afrouxado.

Era a oportunidade que ela precisava.

Naquela manhã, o celular de Eduarda vibrou no bolso do vestido de algodão. Era uma mensagem no grupo das amigas da faculdade de História da Arte e do ballet.

"Duda, vamos descer para Santos! O dia está lindo, vamos ficar em um quiosque reservado. Você precisa sair dessa torre, amiga! A gente passa aí e te pega em 15 minutos."

O coração de Eduarda disparou. A ideia de sentir a brisa do mar, longe do cheiro de hospital e da tensão daquela cobertura, parecia um sonho proibido. Ela olhou para o berçário. Emanuel e Sara estavam distraídos, imersos em seu casulo de felicidade parental.

— Eu vou — sussurrou ela para si mesma, a voz firme apesar do tremor nas mãos.

Ela trocou de roupa rapidamente, vestindo um biquíni romântico por baixo de um camisete largo e uma saia longa. Pegou uma bolsa pequena, colocou os óculos escuros e, com o coração na boca, deslizou pelo corredor até a porta de serviço. O motorista de Emanuel estava ocupado levando exames de Sara para o laboratório, e os seguranças da portaria a conheciam bem o suficiente para não questionarem quando ela disse que "iria apenas até a livraria da esquina".

Quinze minutos depois, ela estava no banco de trás do carro de sua amiga Bia, rindo nervosamente enquanto o veículo ganhava a estrada em direção ao litoral.

— Você está maluca, Duda! — Bia exclamou, olhando pelo retrovisor. — Se o Emanuel descobre que você fugiu para a praia com sete meses de gêmeos, ele infarta ou manda prender a gente!

— Ele não vai descobrir — disse Eduarda, sentindo uma onda de liberdade que a fazia querer chorar. — Ele só tem olhos para a Ágata agora. Eu sou invisível naquela casa.

O dia em Santos estava deslumbrante. O sol de outono era quente, mas não causticante. As amigas alugaram um espaço privativo em um dos clubes de praia mais tranquilos, longe do tumulto. Eduarda sentou-se em uma espreguiçadeira, sentindo a areia nos pés pela primeira vez em meses. Ela tirou o camisete, revelando a barriga redonda e imensa de gêmeos, a pele esticada e brilhante.

— Você está linda, Duda — disse Clara, outra amiga do ballet. — Parece uma Vênus moderna. Como estão o Arthur e a Maya?

— Chutando muito — Eduarda sorriu, fechando os olhos e deixando o sol aquecer seu rosto. — Acho que eles também gostaram de fugir.

Por algumas horas, Eduarda esqueceu-se de Emanuel. Esqueceu-se da fúria dele quando descobriu a gravidez, esqueceu-se da frieza possessiva e da marca da mordida que ela deixara na mão dele. Ela era apenas uma jovem de 20 anos, grávida, feliz, comendo milho cozido e tomando água de coco enquanto ouvia as fofocas da faculdade.

No entanto, em São Paulo, o clima na cobertura mudou drasticamente por volta das duas da tarde.

Emanuel saiu do escritório, onde tentava resolver pendências dos estúdios de Londres, e foi até o quarto de Eduarda. Ele trazia consigo uma caixa de morangos silvestres que sabia que ela gostava. Bateu na porta. Sem resposta.

— Eduarda? — chamou ele, a voz já carregada de uma nota de impaciência.

Ele abriu a porta. O quarto estava vazio. A cama estava arrumada, mas o armário estava entreaberto e alguns vestidos haviam sumido. Ele sentiu uma descarga de adrenalina gelada percorrer sua espinha.

Caminhou rapidamente até a sala, onde Sara estava deitada com Ágata no colo.

— Onde está a Eduarda? — perguntou ele, a voz soando como um chicote.

Sara olhou para cima, franzindo a testa.

— Não sei, Manu. Achei que estivesse dormindo. Por quê?

Emanuel não respondeu. Ele pegou o celular e ligou para o segurança da portaria.

— Ela saiu há quatro horas, senhor — informou o homem, a voz trêmula. — Disse que ia à livraria.

— E você deixou? — Emanuel rugiu, fazendo Sara saltar no sofá e Ágata começar a chorar. — Eu pago você para vigiar, não para ser porteiro de hotel!

Ele desligou o telefone e começou a rastrear o celular de Eduarda. Graças à paranoia constante de Emanuel, ele havia instalado um rastreador silencioso no aparelho dela meses atrás. O ponto piscava no mapa: Santos. Praia do Gonzaga.

— Aquela... garota... idiota — sibilou Emanuel, os olhos injetados de sangue.

— O que foi? Onde ela está? — perguntou Sara, entregando a bebê chorando para a babá que acabara de entrar na sala.

— Em Santos. Na praia. Com sete meses de gêmeos e sem me dizer uma palavra.

Sara soltou um suspiro longo, mas havia um brilho de diversão em seus olhos.

— Ela te deu um drible, Manu. A santinha fugiu.

— Ela vai se arrepender de ter nascido — Emanuel disse, pegando as chaves do carro. — Sara, fique com a Ágata. Eu volto com ela, nem que tenha que trazê-la algemada.

— Não seja um animal, Emanuel! — Sara gritou quando ele já estava na porta. — Lembre-se que ela está grávida! Se você assustar ela e os bebês nascerem na estrada, eu mesma te mato!

Emanuel não ouviu. Ele desceu para a garagem e arrancou com o Porsche, descendo a Imigrantes como se estivesse em uma pista de corrida. A fúria dele era uma mistura de medo e possessividade ferida. Como ela ousara? Depois de tudo, depois da proteção, do luxo, da segurança que ele provia... ela fugia para a praia como uma adolescente irresponsável?

Enquanto isso, em Santos, o sol começava a baixar. Eduarda estava sentada na beira da água, deixando as ondas fracas molharem suas canelas. Ela se sentia em paz.

— Duda, olha... — Bia apontou para o calçadão, a voz carregada de pânico.

Eduarda se virou. O Porsche preto estava estacionado em cima da calçada, ignorando qualquer regra de trânsito. Emanuel saiu do carro, e mesmo àquela distância, a aura de perigo que ele emanava fez as pessoas ao redor se afastarem. Ele caminhava pela areia com passos pesados, os óculos escuros escondendo os olhos, mas a mandíbula travada dizia tudo.

— Meu Deus — sussurrou Eduarda, o coração martelando contra as costelas. — Ele me achou.

As amigas de Eduarda se levantaram, tentando formar uma barreira frágil ao redor dela.

— Ei, senhor, você não pode... — começou Bia, mas Emanuel apenas a olhou por cima dos óculos e ela emudeceu na hora.

Ele parou diante de Eduarda. Ela parecia tão pequena, sentada na areia, com a barriga imensa e o rosto queimado de sol. A visão dela ali, exposta, vulnerável, cercada por estranhos, fez o sangue de Emanuel ferver.

— Levante-se — ordenou ele, a voz baixa, vibrando de uma raiva contida que era pior do que um grito.

— Emanuel, por favor... — Eduarda começou, as lágrimas já brotando. — Eu só queria ver o mar.

— Levante-se. Agora.

Eduarda tentou se levantar, mas o peso da barriga e a areia fofa dificultavam o movimento. Emanuel, apesar da fúria, não conseguiu evitar o instinto. Ele se inclinou, pegou-a pelos braços e a içou com uma facilidade bruta, mantendo-a colada ao seu corpo.

— Você tem noção do que você fez? — Ele sibilou perto do ouvido dela, o hálito de menta e café misturando-se ao cheiro de salitre. — Você colocou a vida dos meus filhos em risco. Você fugiu da minha casa como uma ladra.

— Eu não sou sua prisioneira! — Eduarda tentou se soltar, a manha dando lugar a uma súbita coragem desesperada. — Você só se importa com a Ágata agora! Eu só queria respirar!

Emanuel a apertou mais forte, os olhos fixos nos dela.

— Você é minha responsabilidade. E se você acha que eu esqueci de você por causa da Ágata, você é mais tola do que eu pensava. Eu não te dei permissão para sair de São Paulo. Eu não te dei permissão para se expor assim.

Ele olhou para as amigas dela com desprezo.

— Se alguma de vocês chegar perto dela de novo, eu garanto que a vida acadêmica de vocês termina amanhã. Sumam daqui.

As garotas, aterrorizadas, pegaram suas coisas e saíram quase correndo. Eduarda ficou sozinha com ele na praia que agora parecia fria e hostil.

— Você é um monstro — ela soluçou.

— Sou o monstro que garante que você e esses bebês tenham tudo — ele rebateu, arrastando-a em direção ao carro. — E a partir de hoje, Eduarda, a sua liberdade acabou de verdade. Você vai ter um segurança na porta do seu quarto e outro na porta do banheiro.

Ele a colocou no banco do passageiro e fechou a porta com força. O trajeto de volta para São Paulo foi um pesadelo de silêncio e velocidade. Eduarda chorava baixinho, encolhida contra a porta, enquanto Emanuel dirigia com uma precisão maníaca.

Quando chegaram à cobertura, o clima era de guerra. Sara estava à espera, com os braços cruzados.

— Você a encontrou — disse Sara, olhando para a expressão devastada de Eduarda. — Manu, pegue leve. Ela está exausta.

— Ela vai para o quarto e não sai de lá até os bebês nascerem — Emanuel decretou, apontando para o corredor. — E você, Sara, não ouse intervir. Ela me desobedeceu da pior forma possível.

Eduarda caminhou até o quarto, mas antes de entrar, ela se virou para ele, os olhos brilhando com um ódio que Emanuel nunca vira nela.

— Você pode me trancar, Emanuel. Pode colocar quantos seguranças quiser. Mas você nunca vai ter o que o Lucas me deu com aquela barra de chocolate ou o que o mar me deu hoje. Você só tem o meu corpo e o que está dentro dele. O resto... o resto você perdeu no dia em que decidiu ser meu dono em vez de ser meu homem.

Ela bateu a porta e trancou.

Emanuel ficou parado no corredor, o punho cerrado contra a parede. As palavras dela o atingiram como um soco. Ele olhou para a marca da mordida em sua mão, que já havia cicatrizado mas deixara uma cicatriz tênue.

— Ela está certa, sabe? — Sara disse, aproximando-se e tocando o ombro do marido. — Você está apertando demais, Manu. E quando você aperta demais um passarinho, ou você quebra as asas dele, ou ele morre de medo.

— Eu não posso perder eles, Sara — ele confessou, a voz subitamente rouca. — Eu não posso.

— Então aprenda a amar a Eduarda como ela é, e não como uma propriedade sua. Porque se você continuar assim, quando esses bebês nascerem, ela vai fugir de novo. E da próxima vez, você pode não encontrar o rastro dela.

Emanuel entrou em seu escritório e se trancou. Ele passou a noite olhando para as câmeras de segurança, vendo a silhueta de Eduarda deitada na cama, imóvel. Ele sentia uma necessidade avassaladora de ir até lá, de abraçá-la, de pedir desculpas e de possuí-la ao mesmo tempo. Mas o orgulho e o medo eram correntes mais fortes.

Naquela noite, o silêncio na cobertura era mais pesado do que nunca. No berçário, Ágata dormia tranquilamente. No quarto principal, Sara planejava como mediar aquela guerra. E no quarto de hóspedes, Eduarda acariciava sua barriga, sentindo Maya e Arthur se mexerem.

— Logo, meus amores — sussurrou ela. — Logo nós seremos livres.

Ela não sabia como, mas a fuga para Santos havia despertado algo nela. A submissão estava morrendo, e em seu lugar, nascia uma mulher que Emanuel ainda não conhecia. Uma mulher que, se fosse preciso, morderia de novo, e dessa vez, arrancaria um pedaço.

Dois dias depois, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ele não gritou. Ele não deu ordens. Ele apenas colocou uma sacola sobre a cama. Dentro, havia dezenas de barras do chocolate de lavanda e mel que ela gostava, e um catálogo de casas de veraneio em condomínios fechados e ultra-seguros no litoral.

— Escolha uma — disse ele, sem olhar nos olhos dela. — Vamos passar o próximo mês lá. Com médicos, seguranças... e o mar. Mas você nunca mais sai sem mim. Nunca mais.

Eduarda olhou para os chocolates e para o catálogo. Era uma concessão, a maior que Emanuel já fizera. Mas ela sabia que ainda era uma gaiola. Uma gaiola de ouro, com vista para o oceano e sabor de lavanda, mas ainda assim, uma gaiola.

— Eu escolho a que tiver a varanda maior — disse ela, a voz fria. — Para que eu possa ver o horizonte que você não me deixa tocar.

Emanuel saiu do quarto sem dizer uma palavra, mas por dentro, ele sentia que a vitória tinha um gosto amargo. Ele tinha o controle, tinha a presença dela, mas a Eduarda manhosa e doce estava desaparecendo, dando lugar a uma rainha de gelo que ele mesmo criara. E ele, o tatuador que marcava a pele das pessoas para sempre, percebeu que a marca que Eduarda deixara em sua alma era a única que ele nunca conseguiria apagar.

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