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O Refúgio de Vidro e a Rendição do Rei
O ar condicionado da cobertura parecia soprar um gelo que não vinha das máquinas, mas do silêncio que se instalara entre os cômodos. Emanuel, o homem que erguera um império de tinta e agulhas, sentia-se, pela primeira vez na vida, impotente. Ele observava Eduarda através da porta entreaberta do quarto de hóspedes. Ela estava sentada na poltrona, lendo um livro sobre arte renascentista, mas seus olhos não se moviam pelas linhas. Ela estava estática, uma estátua de mármore delicado, com a barriga de sete meses repousando pesadamente em seu colo.
Ela não reclamava. Não pedia nada. Não fazia manha. E era exatamente isso que estava destruindo Emanuel por dentro. Ele preferia os gritos, as mordidas e os choros convulsivos àquela indiferença polida. A Eduarda que buscava proteção em seus braços, que se aninhava em seu peito como um passarinho assustado, parecia ter morrido naquela tarde na praia de Santos.
No corredor, Sara passou com Ágata no colo, balançando a bebê que resmungava. A loira parou ao lado do marido e olhou para a cena dentro do quarto.
— Ela está morrendo por dentro, Manu — sussurrou Sara, a voz desprovida de seu sarcasmo habitual. — E você está morrendo junto. Vai continuar com esse teatro de carcereiro até quando?
— Eu só queria que ela estivesse segura, Sara — Emanuel respondeu, a voz rouca, sem desviar os olhos de Eduarda.
— Segurança sem liberdade é sufocamento. Você a quebrou. E se você não consertar isso agora, a Eduarda que você ama nunca mais vai voltar. Ela vai ser apenas a mãe dos seus filhos, uma sombra na sua casa. É isso que você quer?
Emanuel fechou os olhos. A imagem de Eduarda olhando para o horizonte em Santos, com aquele brilho de vida nos olhos que ele mesmo apagara, o assombrava. Ele respirou fundo, sentindo o peso da decisão. O controle, sua ferramenta mais preciosa, teria que ser sacrificado.
— O que eu faço? — perguntou ele, a voz quase inaudível.
Sara sorriu, um sorriso cúmplice e vitorioso.
— Devolva a ela o que você tirou. O mundo dela. E peça desculpas. De verdade.
Emanuel passou a manhã seguinte ao telefone. Ele não ligou para estúdios ou fornecedores de tinta. Ele ligou para Gabriel, o irmão de Eduarda, e para as amigas que ele havia escorraçado da praia. O pedido de desculpas foi seco, mas a oferta era irrecusável. Ele organizou tudo com a precisão de um evento de gala, mas com o objetivo de um resgate emocional.
Por volta das duas da tarde, Emanuel caminhou até o quarto de Eduarda. Ele não bateu. Entrou devagar e sentou-se na beirada da cama. Ela não desviou os olhos do livro, embora suas mãos tivessem apertado a capa com força.
— Eduarda — ele chamou, a voz suave, buscando a cadência que costumava acalmá-la.
— Sim, Emanuel? — A resposta foi fria, monocórdica.
— Eu cometi um erro.
Desta vez, ela levantou os olhos. Havia uma surpresa genuína ali. Emanuel nunca admitia erros.
— Eu deixei meu medo de perder você e os bebês se transformar em algo tóxico — ele continuou, estendendo a mão para tocar a dela, mas hesitando no meio do caminho. — Eu agi como um animal em Santos. Eu humilhei você e suas amigas. Eu tentei trancar você em uma torre de vidro achando que isso era amor. Mas eu percebi que amor não é posse.
Eduarda sentiu a garganta apertar. O muro de gelo que ela construíra começou a rachar diante da vulnerabilidade daquele homem tão imponente.
— Eu não quero que você tenha medo de mim, Duda — ele sussurrou, finalmente cobrindo a mão dela com a sua. — Eu sinto falta da minha menina. Sinto falta do seu sorriso, da sua manha... de você me procurando quando o mundo parece grande demais. Por favor, me perdoa.
As lágrimas, que ela jurara não derramar mais diante dele, transbordaram. Eduarda soltou o livro e, em um movimento instintivo, inclinou-se para frente, escondendo o rosto no ombro de Emanuel. O choro era um desabafo, uma liberação de semanas de angústia.
— Eu me senti tão sozinha, Emanuel — ela soluçou, a voz voltando a ser aquela melodia manhosa que ele tanto adorava. — Parecia que eu não importava, só os bebês.
— Você é tudo para mim, pequena — ele disse, abraçando-a com força, sentindo o volume da barriga contra seu peito, o chute rítmico de Maya e Arthur saudando a reconciliação. — E para provar que eu confio em você... eu preparei uma surpresa. Coloque o seu biquíni favorito. Aquele azul que você gosta.
— Para quê? — perguntou ela, limpando o rosto com as costas das mãos, os olhos brilhando com uma curiosidade tímida.
— Apenas venha.
Emanuel a ajudou a se levantar, tratando-a com uma reverência que ela não sentia há muito tempo. Quando chegaram à área da piscina, no terraço da cobertura, Eduarda parou, em choque.
O deck estava decorado com flores, balões coloridos e uma mesa farta com todas as comidas de que ela gostava — incluindo uma torre do chocolate de lavanda e mel. Mas o que a fez perder o fôlego foram as pessoas. Bia, Clara e outras três amigas do ballet estavam ali, vestidas com roupas de banho, rindo com Sara, que segurava Ágata no colo. Gabriel também estava presente, conversando com um dos seguranças de forma descontraída.
— Meninas! — Eduarda gritou, a voz falhando de alegria.
— Duda! — Bia correu para abraçá-la, sendo cuidadosa com a barriga. — O seu "carcereiro" ligou para a gente! Ele mandou um carro buscar cada uma, pediu desculpas formais e disse que a tarde era toda sua!
Eduarda olhou para Emanuel. Ele estava parado um pouco atrás, com as mãos nos bolsos, um sorriso discreto e satisfeito no rosto. Ele havia devolvido o mundo dela.
— Vai lá, pequena — disse ele. — A piscina é sua. O dia é seu. Eu vou estar no escritório se precisar, mas prometo não interferir.
— Você não vai ficar? — perguntou ela, fazendo um biquinho dengoso, voltando a ser a Eduarda que buscava a presença dele.
Emanuel sentiu o coração aquecer. Aquela era a sua Eduarda.
— Se você quiser que eu fique... eu fico um pouco.
— Eu quero. Fica comigo? — Ela se aproximou, segurando o braço dele e apoiando a cabeça em seu ombro.
— Fico.
A tarde foi um borrão de risadas e sol. Eduarda entrou na piscina aquecida, sentindo-se leve enquanto boiava, cercada pelas amigas que não paravam de falar sobre as aulas de História da Arte e os novos passos de ballet que ela estava perdendo. Sara, exuberante em um biquíni de grife que realçava seu busto siliconado, sentou-se na borda da piscina com os pés na água, distribuindo conselhos irônicos sobre maternidade.
— Aproveitem agora, meninas — dizia Sara, ajeitando os óculos escuros. — Porque depois que esses monstrinhos nascem, o sono vira artigo de luxo e o peito vira propriedade pública. Mas olha para a Ágata, não vale a pena? Ela vai ser a rainha dessa cidade.
Emanuel observava tudo de uma espreguiçadeira próxima. Ele via a interação entre as duas mulheres de sua vida. Sara, a força da natureza, a mulher que o enfrentava de igual para igual e que aceitava sua complexidade emocional sem julgamentos. E Eduarda, a sua doçura, o seu porto seguro, a menina que ele queria proteger do mundo e que, agora ele entendia, precisava de espaço para florescer.
Ele amava as duas. De formas diferentes, em intensidades distintas, mas com a mesma profundidade. E ver Sara cuidando de Eduarda, oferecendo-lhe um copo de suco e rindo de uma piada interna, trazia a Emanuel uma paz que ele raramente conhecia.
No fim da tarde, quando as amigas começaram a ir embora, Eduarda estava exausta, mas com um brilho renovado na pele. Ela caminhou até Emanuel, que estava guardando alguns pertences.
— Obrigada, Manu — ela sussurrou, abraçando-o pela cintura. — Foi o melhor dia em muito tempo.
— Eu faria tudo de novo para ver você sorrir assim, Duda.
— Até me deixar morder você de novo? — brincou ela, olhando para a cicatriz na mão dele.
Emanuel riu, uma risada aberta e genuína.
— Se for para você não fugir para Santos sem avisar, eu deixo você me morder onde quiser.
Eles entraram na casa. Sara já estava no quarto com Ágata, e o silêncio da noite começava a cair. Emanuel levou Eduarda para o quarto e a ajudou a se deitar, acomodando os travesseiros ao redor da barriga dela para que ela ficasse confortável.
— Emanuel? — chamou ela, quando ele já estava na porta.
— Sim?
— A Maya e o Arthur... eles sentiram que você está feliz hoje. Eles pararam de chutar forte. Estão calminhos.
Emanuel voltou, sentou-se ao lado dela e colocou a mão sobre o ventre de Eduarda. Ele sentiu a vida pulsando ali, uma conexão que ia além do sangue.
— Eles sabem que o pai deles é um idiota possessivo, mas que ama eles mais do que a própria vida — disse ele. — E que ama a mãe deles também.
Eduarda sorriu, fechando os olhos. Ela se sentia segura novamente. Não porque as portas estivessem trancadas, mas porque o coração de Emanuel estava aberto. A loba que despertara em Santos ainda estava lá, latente, mas agora ela não precisava atacar. Ela podia descansar, sabendo que, naquela cobertura, ela não era apenas uma prisioneira ou um útero; ela era parte de uma família estranha, intensa e profundamente ligada.
Emanuel saiu do quarto e foi para o seu próprio, onde Sara o esperava. Ela o olhou e sorriu, sabendo que a tempestade passara.
— Você se saiu bem, tatuador — disse ela, puxando-o para um beijo que tinha gosto de vitória e desejo.
— Eu tive uma boa professora — respondeu ele.
Naquela noite, Emanuel dormiu com a certeza de que, embora quisesse as duas mulheres, ele finalmente aprendera a maneira de mantê-las: não com correntes, mas com a mão estendida e o coração pronto para ceder. O rei fora rendido pela doçura de uma e pela sagacidade da outra, e, pela primeira vez, ele não se importava em perder o controle.