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Entre Pedras, Promessas e o Grito do Silêncio

O destino, por vezes, desenha caminhos tortuosos que nem mesmo a vontade férrea de Emanuel poderia prever. O plano era perfeito: Gabriel estaria a milhares de quilômetros de distância, em Miami, resolvendo problemas burocráticos e técnicos em um dos estúdios, enquanto Emanuel teria o feriado inteiro para cercar Eduarda com sua presença, sua proteção e sua insistência silenciosa.

No entanto, o universo pareceu conspirar a favor do instinto protetor de Gabriel.

O saguão do aeroporto de Congonhas estava lotado quando o anúncio ecoou pelos alto-falantes, metálico e impessoal. Um problema técnico na aeronave da companhia internacional havia cancelado todos os voos daquela rota pelas próximas vinte e quatro horas.

Emanuel, que acompanhava o amigo até o portão de embarque — um gesto que Gabriel interpretou como amizade, mas que era, na verdade, para garantir que ele realmente partisse —, sentiu uma pontada de irritação subir pela nuca.

— Não acredito nisso! — Gabriel exclamou, jogando a mochila de couro no chão com frustração. — Miami vai ter que esperar. Emanuel, cara, o pessoal lá vai ter que se virar por mais um dia.

Emanuel apertou o celular na mão, os nós dos dedos ficando brancos. Sua mente racional já buscava uma alternativa, um novo plano, mas Gabriel foi mais rápido. O rosto do rapaz se iluminou com uma ideia repentina.

— Espera aí... se eu não vou para Miami hoje, e o voo de amanhã está incerto... eu ainda consigo levar a Duda para São Thomé! O feriado começa amanhã. Emanuel, é o destino! Eu ia me sentir mal deixando ela sozinha com os livros enquanto eu viajava.

— Gabriel, você tem responsabilidades com o estúdio — Emanuel disse, a voz saindo mais rígida do que pretendia. — Eu posso tentar te colocar em um voo privado, se for o caso.

— Que isso, cara? Relaxa! — Gabriel riu, dando um tapa amigável no ombro de Emanuel. — Você mesmo disse que eu precisava de um descanso. Vou ligar para a Duda agora mesmo. Ela vai ficar doida de alegria.

Emanuel assistiu, impotente, enquanto Gabriel se afastava para fazer a ligação. A sensação de perder o controle era como um gosto amargo de cinzas na boca. Ele olhou para o relógio de luxo em seu pulso, sentindo que o tempo agora corria contra ele.

***

Horas depois, na cobertura de Emanuel, o clima era de uma tensão velada. Sara estava sentada em sua poltrona de massagem, as unhas sendo pintadas de um vermelho escandaloso por uma manicure particular. Ela observava Emanuel andar de um lado para o outro na sala, a expressão sombria de quem estava prestes a explodir.

— Você está parecendo um leão enjaulado, querido — Sara comentou, soprando as unhas. — O que foi? O plano de mandar o cão de guarda para o exílio falhou?

— O avião deu problema. Gabriel não vai mais hoje. E ele decidiu, na última hora, que vai carregar a Eduarda para aquela vila de hippies no meio do mato.

Sara deu uma risada curta, ajeitando a barriga de quatro meses sob o vestido justo de tricô.

— São Thomé das Letras? Que horror. Imagina o estado do cabelo daquela menina com toda aquela poeira e misticismo. Mas, Emanuel... por que você não vai também?

Emanuel parou bruscamente e olhou para a esposa.

— O quê?

— Ora, você é o melhor amigo dele. Quase um irmão. Diga que você e eu decidimos que precisamos de um "ar puro" para a Ágata. O Gabriel nunca diria não para você. Além disso, eu adoraria ver a cara dele tentando proteger a irmã enquanto você está lá, bem debaixo do nariz dele.

— Você iria para um lugar desses, Sara? — Emanuel arqueou a sobrancelha. — Não tem os hotéis que você gosta. O asfalto é ruim.

— Meu amor, eu vou para qualquer lugar onde o show seja bom — ela sorriu, um sorriso predatório e cúmplice. — E eu quero ver como a nossa pequena bailarina vai reagir quando perceber que não tem para onde fugir. Além disso, eu preciso de roupas novas para a Ágata, e ouvi dizer que o artesanato de lá é... bom, rústico, mas autêntico. Podemos levar o SUV blindado.

Emanuel sentiu a tensão aliviar levemente. Sara era sua maior aliada. Ela não apenas aceitava suas obsessões, ela as alimentava, transformando o que deveria ser um conflito em um jogo de poder onde eles dois sempre detinham as melhores cartas.

— Você é brilhante, Sara — Emanuel murmurou, caminhando até ela e beijando-lhe o pescoço, sentindo o perfume forte que ela sempre usava.

— Eu sei. Agora, ligue para o seu "irmão". Diga que vamos em comboio.

***

A viagem para São Thomé das Letras foi longa. A subida da serra, com suas curvas fechadas e a paisagem mudando para o quartzito branco e a vegetação rasteira, trazia uma sensação de isolamento que Emanuel apreciava. Ele dirigia o seu utilitário de luxo, enquanto Gabriel seguia logo atrás com seu carro mais modesto, levando Eduarda.

Quando chegaram à cidade de pedra, a atmosfera era vibrante e caótica. Turistas de todos os tipos caminhavam pelas ruas de paralelepípedos irregulares.

— Meu Deus, Emanuel, onde você nos trouxe? — Sara reclamou ao descer do carro, equilibrando-se em seus saltos, que eram completamente inapropriados para o terreno. — Isso aqui parece o cenário de um filme sobre o fim do mundo, mas com mais cristais.

— É pitoresco, Sara — Emanuel respondeu, mas seus olhos já estavam focados no carro de trás.

Eduarda desceu, parecendo um pouco pálida da viagem. Ela usava um vestido longo de algodão cru e um xale por cima dos ombros. Quando ela viu Emanuel e Sara ali, seus olhos se arregalaram.

— Emanuel? Sara? O que vocês... — a voz dela sumiu quando Gabriel se aproximou, passando o braço pelos ombros dela.

— Não é demais, Duda? O Emanuel decidiu de última hora que a Sara precisava de um descanso da cidade. Vamos ficar todos na mesma pousada, aquela perto da Pirâmide!

Eduarda sentiu um frio na espinha. Ela olhou para as mãos de Emanuel, que estavam enfiadas nos bolsos da calça jeans escura, e soube que não era coincidência. Ele a estava caçando.

A pousada era rústica, mas Emanuel havia garantido, através de uma ligação e uma quantia generosa de dinheiro, que eles tivessem os melhores quartos.

— Eu vou tomar um banho e tentar tirar essa poeira da alma — Sara anunciou assim que entraram na recepção. — Emanuel, querido, cuide das malas. Duda, venha me ajudar a escolher qual hidratante combina com esse clima seco?

Era uma ordem disfarçada de convite. Eduarda olhou para Gabriel, que assentiu com um sorriso.

— Vai lá, Duda. Eu vou descarregar as coisas com o Emanuel.

No corredor da pousada, longe dos olhos de Gabriel, Sara parou e virou-se para Eduarda. O corredor era estreito, com paredes de pedra que pareciam sussurrar segredos.

— Você está tremendo, querida — Sara disse, tocando o rosto de Eduarda com as unhas longas. — Não precisa ter medo de nós. O Emanuel moveu montanhas para estar aqui. Você devia se sentir lisonjeada.

— Sara, isso está errado... o Gabriel confia nele. Ele confia em mim.

— A confiança é uma coisa tão frágil, não é? — Sara sorriu, uma expressão que não chegava aos olhos. — Mas o desejo... o desejo é sólido como essas pedras. O Emanuel te quer, Eduarda. E o que o meu marido quer, ele consegue. Eu estou aqui para garantir que ninguém saia machucado. Principalmente o seu irmão, se ele souber se manter no lugar dele.

Eduarda engoliu em seco, sentindo-se encurralada pela benevolência perversa de Sara.

***

Ao entardecer, o grupo seguiu para o Parque Municipal da Pirâmide para assistir ao pôr do sol, uma tradição local. O céu estava tingido de laranja e violeta, e a vista das montanhas era de tirar o fôlego.

Gabriel estava animado, tirando fotos e tentando explicar para Eduarda sobre as lendas de portais interdimensionais da cidade.

— Dizem que aqui é um dos pontos mais energéticos do planeta, Duda! — Gabriel dizia, gesticulando.

Emanuel permanecia um pouco afastado, observando a interação. Ele sentia a impaciência roer suas entranhas. Ele queria estar onde Gabriel estava. Queria tocar Eduarda, sentir a pele macia dela sob o sol que se punha.

Sara, sentada em uma pedra plana com uma elegância que desafiava o ambiente, chamou Gabriel.

— Gabriel, venha aqui! Preciso que você me ajude a entender esse mapa. Minhas costas estão doendo, acho que a Ágata resolveu fazer ginástica.

Gabriel, sempre prestativo e preocupado com a "cunhada" grávida, correu para o lado de Sara.

— Claro, Sara! O que foi? Onde dói?

Emanuel aproveitou a brecha. Em três passos silenciosos, ele estava atrás de Eduarda, que observava o horizonte, alheia à manobra.

— A vista é impressionante, não é? — A voz dele, profunda e próxima ao ouvido dela, fez Eduarda sobressaltar-se.

— Emanuel! Você me assustou.

— Você se assusta fácil demais com as coisas erradas, Eduarda — ele disse, colocando-se ao lado dela, mas de uma forma que seus braços se roçassem. — Você deveria se assustar com o silêncio, não com a minha voz.

— Por que você veio, Emanuel? — ela perguntou, sem olhar para ele, as mãos apertando o xale. — Você sabia que o Gabriel queria esse tempo comigo.

— Eu não suporto a ideia de você estar em um lugar onde eu não possa te alcançar — ele confessou, a honestidade sendo sua arma mais letal. — O Gabriel quer te levar para ver pedras e lendas. Eu quero te levar para ver o mundo. Eu quero te dar tudo o que essa sua faculdade de arte ensina, mas na vida real.

— Eu não sou um objeto de estudo, Emanuel.

— Não. Você é uma obra-prima. E obras-primas precisam de um dono que saiba o valor que elas têm.

Ele estendeu a mão e, com uma audácia que a deixou sem fôlego, deslizou os dedos por baixo do cabelo dela, tocando a nuca sensível. Eduarda sentiu um choque percorrer sua espinha, uma mistura de pavor e um prazer proibido que ela não conseguia mais negar.

— Pare... o Biel vai ver — ela implorou, mas não se afastou.

— Ele está ocupado com a Sara. A Sara sabe como entretê-lo — Emanuel murmurou, aproximando-se ainda mais. — Olhe para mim, Eduarda.

Ela obedeceu, hipnotizada pela autoridade no olhar dele.

— Você é minha — ele disse, não como uma pergunta, mas como uma constatação de um fato imutável. — Pode fugir para São Thomé, para Salém, para o fim do mundo. Eu sempre estarei lá. E a Sara estará lá. Nós somos o seu destino agora.

— Duda! Emanuel! Olhem isso! — O grito de Gabriel quebrou o transe.

Emanuel afastou a mão milésimos de segundo antes de Gabriel se virar. O rapaz apontava para o primeiro brilho das estrelas que começavam a surgir.

— O céu aqui é incrível, não é? — Gabriel chegou perto deles, passando o braço pelo pescoço de Emanuel. — Valeu por terem vindo, cara. Sério. Ter vocês aqui torna tudo mais especial.

Emanuel deu um sorriso de lado, um gesto que Eduarda sabia que era carregado de ironia.

— Com certeza, Gabriel. Especial é a palavra certa.

***

Naquela noite, a pousada estava mergulhada em um silêncio profundo, interrompido apenas pelo som do vento soprando entre as frestas das janelas de madeira.

Eduarda não conseguia dormir. Ela estava sentada na cama, abraçada aos joelhos, quando ouviu uma batida leve na porta. Seu coração disparou. Ela sabia quem era.

Ao abrir, não encontrou Emanuel, mas Sara.

A loira usava um robe de seda transparente sobre uma camisola curta, exibindo as curvas generosas e a barriga de grávida com uma naturalidade vulgar que sempre chocava Eduarda.

— O Emanuel está lá embaixo, fumando e olhando para as estrelas — Sara disse, entrando no quarto sem ser convidada. — Ele está de mau humor porque o seu irmão resolveu dormir no sofá do corredor para "proteger" o seu quarto.

Eduarda sentiu um misto de alívio e culpa.

— O Biel é assim... ele se preocupa.

— Ele é um tonto — Sara sentou-se na beirada da cama de Eduarda. — Mas um tonto útil. Escute, pequena. Eu vim te dar um conselho. Pare de lutar contra o que é óbvio. O Emanuel ama você de um jeito doentio, sim. Mas ele me ama de um jeito real. E eu não me importo de dividir o peso desse homem com você. Na verdade, eu acho que você vai me ajudar a mantê-lo calmo.

— Sara, como você pode falar assim? Você está grávida! Vocês são uma família!

— E você será parte dela — Sara disse, com uma frieza que gelou o sangue de Eduarda. — Não como uma amante escondida em um apartamento qualquer. O Emanuel quer você por perto. Ele quer que você ensine ballet para a Ágata, que você estude suas artes, que você seja a doçura da casa enquanto eu sou a força. É um arranjo perfeito.

— E se eu disser não?

Sara levantou-se e caminhou até a porta, parando antes de sair.

— O Emanuel não aceita "não", querida. E eu também não. Pense nisso. O feriado está apenas começando. Amanhã vamos às cachoeiras. E as águas de São Thomé têm o costume de lavar as mentiras que contamos para nós mesmos.

Sara saiu, deixando para trás o rastro de seu perfume caro e uma promessa de que o mundo de Eduarda nunca mais seria o mesmo.

Sozinha no quarto, Eduarda caminhou até a janela. Lá embaixo, no pátio da pousada, ela viu a silhueta alta e imóvel de Emanuel. Ele estava parado sob a luz da lua, com o cigarro aceso brilhando como uma pequena brasa na escuridão.

Como se sentisse o olhar dela, Emanuel levantou a cabeça. Seus olhos se encontraram à distância. Ele não acenou, não sorriu. Apenas ficou ali, observando-a, como um predador que sabe que a presa já não tem mais forças para correr.

Eduarda fechou as cortinas, mas o calor do olhar dele parecia ter atravessado o vidro. Ela sabia que Gabriel, dormindo no corredor, era apenas uma barreira de papel contra a tempestade que Emanuel e Sara haviam desencadeado.

O feriado em São Thomé das Letras não seria sobre misticismo ou descanso. Seria sobre a queda final de suas resistências. Entre as pedras brancas e o céu infinito, Eduarda percebeu, com um terror que começava a se transformar em aceitação, que ela não pertencia mais a si mesma. Ela era a peça que faltava no império de Emanuel, e ele não descansaria até que ela estivesse exatamente onde ele planejou: entre ele e Sara, em um laço de seda, silicone e obsessão.

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