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Entre Plumas, Purpurinas e o Despertar da Fera
A névoa de São Thomé das Letras havia ficado para trás, mas a tensão no peito de Emanuel só crescia. De volta à capital, a rotina de controle absoluto parecia escapar por entre seus dedos toda vez que Eduarda abria aqueles olhos castanhos e expressivos. Ele a queria sob sua vigilância vinte e quatro horas por dia, mas o semestre letivo de História da Arte exigia que ela circulasse pelo mundo — um mundo que Emanuel considerava perigoso demais para alguém tão doce e, admitamos, terrivelmente ingênua.
Naquela tarde de quinta-feira, Emanuel estava no escritório central de um de seus estúdios de tatuagem, revisando o faturamento das unidades de Berlim e Tóquio. Gabriel estava sentado no sofá de couro à frente da mesa, limpando suas máquinas, quando o celular do rapaz tocou.
— É o meu pai — disse Gabriel, franzindo o cenho. O pai deles, um homem jovem, mas com um temperamento que faria um vulcão parecer uma poça d'água, raramente ligava para os filhos durante o expediente.
Emanuel nem levantou os olhos dos gráficos até ouvir o primeiro "O quê?!" de Gabriel. O tom de voz do amigo subiu três oitavas, carregado de um pânico que Emanuel só vira quando Gabriel quase perdeu o prazo de renovação do passaporte.
— No "Palácio das Rosas"? Pai, você tem certeza? Não, não... a Duda não faria... — Gabriel ficou pálido, a mão tremendo levemente. — O senhor já está lá? Não faça nada! Eu e o Emanuel estamos indo agora!
Emanuel fechou o laptop com um estrondo.
— O que aconteceu? — A voz dele saiu como um trovão contido.
— A Duda... — Gabriel gaguejou, levantando-se e derrubando um frasco de tinta. — Meu pai recebeu um alerta do GPS do carro dela. Ela entrou em um lugar chamado Palácio das Rosas. Emanuel, aquilo não é um centro cultural. É um cabaré! Um bordel de luxo na zona sul! Meu pai está furioso, disse que vai tirar ela de lá pelos cabelos e quebrar o lugar inteiro!
Emanuel sentiu o sangue ferver. A imagem de Eduarda, com sua saia de tule e seu jeito de passarinho, cercada por homens lascivos e luzes vermelhas, fez sua visão escurecer.
— Vamos. Agora — rosnou Emanuel, pegando as chaves do SUV.
***
O Palácio das Rosas era exatamente o que o nome sugeria: uma explosão de veludo vermelho, luzes neon cor-de-rosa e um cheiro inebriante de perfume barato misturado com champanhe caro. Quando Emanuel e Gabriel atravessaram as portas douradas, o caos já estava instaurado.
O pai de Eduarda, um homem de quarenta e poucos anos que parecia mais o irmão mais velho de Gabriel, estava sendo contido por dois seguranças corpulentos.
— ME SOLTEM! EU VOU LEVAR A MINHA FILHA! ESSE LUGAR É UM ANTRO DE PERDIÇÃO! — berrava o homem, o rosto vermelho de raiva.
Emanuel olhou ao redor, os olhos procurando a figura pequena e castanha. Ele esperava encontrá-la chorando em um canto, encolhida de medo. O que ele viu, no entanto, foi muito pior para seus nervos.
Lá estava ela. Eduarda estava sentada em uma mesa de pista, bem na frente de um palco onde um homem musculoso, vestido apenas com uma gravata borboleta e uma cueca de paetês, fazia acrobacias em um mastro. Ela segurava um caderninho de desenhos e uma taça de... seria suco de morango?
— Duda! — Gabriel gritou, correndo em direção à mesa.
Emanuel o seguiu, a presença dele irradiando uma fúria tão gélida que as pessoas ao redor abriam caminho instintivamente.
— Eduarda, o que você está fazendo aqui? — Emanuel perguntou, a voz saindo em um tom perigosamente baixo. Ele parou ao lado dela, a sombra de seu corpo alto cobrindo-a completamente.
Eduarda olhou para cima, os olhos brilhando de uma forma que Emanuel nunca vira. Ela não parecia assustada. Ela parecia... fascinada.
— Oi, Emanuel! Oi, Biel! — Ela deu um sorriso doce, apontando para o palco. — Vocês chegaram na melhor parte! O professor disse que a aula sobre "Estética do Corpo Humano na Contemporaneidade" seria em um local alternativo, mas eu não sabia que seria tão... performático! Olhem aquele ângulo do trapézio dele! É puro Neoclassicismo!
Gabriel levou as mãos à cabeça.
— Aula, Duda? Que aula?! Isso aqui é um cabaré! Onde está esse seu "professor"?
— Ele foi ao banheiro — ela respondeu com a maior naturalidade do mundo, fazendo um bico manhoso. — E parem de gritar. Estão atrapalhando a música. É um remix de Vivaldi, sabiam?
O pai de Eduarda, tendo se livrado dos seguranças, chegou à mesa como um furacão.
— Eduarda Cristina! Levanta agora! Nós vamos para casa e você nunca mais vai pôr os pés fora de um convento! — O homem estava fora de si, a veia do pescoço saltada.
Emanuel observou o pai dela. O homem era uma versão mais velha e descontrolada de Gabriel. Se Gabriel era um cão de guarda, o pai era um lobo raivoso. Emanuel sentiu uma irritação profunda; ele era o único que deveria ter o direito de dar ordens a Eduarda, mas ali, entre a fúria do pai e o desespero do irmão, ele se via em um território complicado.
Eduarda, no entanto, surpreendeu a todos. Ela cruzou os braços sobre o peito, apertando o caderninho de desenhos, e bateu o pé no chão, fazendo o salto de sua sapatilha estalar contra o carpete.
— Não! — ela disse, a voz subindo de tom, carregada de uma teimosia infantil e manhosa. — Eu não vou embora! O show nem chegou na parte das plumas! O meu professor disse que as plumas representam a efemeridade da beleza!
— Plumas, Eduarda? São strippers! — Gabriel quase chorou de frustração. — Emanuel, faz alguma coisa!
Emanuel deu um passo à frente, colocando a mão no ombro de Eduarda. O toque era firme, possessivo.
— Eduarda, chega. Já vimos o suficiente. Vamos sair daqui antes que eu perca a pouca paciência que me resta e acabe com este lugar.
Ela olhou para Emanuel, os olhos marejados de uma frustração emocional súbita.
— Você também, Emanuel? Você sempre diz que apoia minha arte! Isso aqui é arte! É... é arte viva! — Ela fez um bico enorme, o lábio inferior tremendo. — Vocês são uns chatos! Uns controladores! Eu odeio vocês!
— O que você disse, mocinha? — O pai dela avançou, mas Emanuel se colocou na frente, o peito largo servindo de escudo.
— Deixe que eu resolvo isso — Emanuel disse ao pai de Eduarda, o olhar dos dois homens se cruzando em uma disputa de dominância silenciosa. — Gabriel, tire seu pai daqui antes que ele seja preso por agressão. Eu levo a Eduarda.
— Você não leva ninguém! — Eduarda gritou, levantando-se da cadeira. — Se vocês continuarem me mandando fazer as coisas, eu vou... eu vou fugir! Vou morar aqui no cabaré! A dona Rosa disse que eu tenho um rosto de anjo e que poderia ser a atração principal!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Gabriel parecia prestes a ter um derrame. O pai de Eduarda ficou roxo. E Emanuel... Emanuel sentiu um desejo súbito de rir e de cometer um crime ao mesmo tempo.
— Você... o quê? — Emanuel perguntou, a voz rouca de uma fúria que começava a se transformar em algo mais sombrio.
— Isso mesmo! — Eduarda continuou, sentindo-se encorajada pelo choque deles. Ela se apoiou na mesa, tentando parecer ameaçadora, o que era impossível com seu vestido de flores e o cabelo preso em um coque frouxo. — Eu vou fugir! Vou mudar meu nome para... para "Diamante Negro" e vocês nunca mais vão me ver!
— Diamante Negro? — Sara apareceu de repente, surgindo do nada como sempre fazia. Ela usava um vestido de paetês dourados que brilhava mais que o globo de luz do cabaré. — Adorei o nome, querida. Mas acho que "Pérola de Sangue" combina mais com a sua pele.
— Sara! — Emanuel rugiu. — O que você está fazendo aqui?
— Ora, eu recebi o alerta do GPS também. Achei que a festa seria boa — Sara disse, caminhando até a mesa e pegando a taça de Eduarda, dando um gole. — Hum, é suco de morango mesmo. Que decepção, Duda. Achei que você estivesse bebendo algo mais forte.
Sara olhou para o pai de Eduarda e para Gabriel, soltando uma risadinha irônica.
— Vocês três parecem um bando de gorilas protegendo uma banana. Deixem a menina. Se ela quer ver o show, ela vê. Emanuel, querido, sente-se. O próximo número envolve fogo.
— Ninguém vai sentar! — O pai de Eduarda gritou. — Eduarda, para o carro. Agora!
— NÃO VOU! — Eduarda se jogou de volta na cadeira, cruzando as pernas e fazendo o bico mais teimoso da história da humanidade. — Eu vou fugir! Vou sair pelos fundos e vocês nunca vão me achar!
Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele olhou para a esposa, que parecia estar se divertindo horrores, e depois para a "sua" bailarina, que estava tendo um ataque de birra em pleno bordel.
— Eduarda — Emanuel disse, inclinando-se para que seu rosto ficasse a centímetros do dela. — Se você não se levantar agora, eu vou te carregar no ombro por todo este salão. E eu garanto que a "Diamante Negro" não vai gostar da humilhação pública.
Eduarda olhou para ele, os olhos desafiadores.
— Você não teria coragem.
Emanuel não respondeu com palavras. Ele simplesmente se inclinou, passou o braço pela cintura dela e, com um movimento fluido e poderoso, a jogou por cima do ombro como se ela não pesasse mais que um fardo de seda.
— EMANUEL! ME SOLTA! SEU BRUTO! — Eduarda começou a esmurrar as costas dele com suas mãos pequenas. — SOCORRO! ESTOU SENDO SEQUESTRADA POR UM TATUADOR POSSESSIVO!
— Calada — Emanuel disse, dando um tapinha firme no bumbum dela, o que a fez soltar um guincho de surpresa e indignação.
Gabriel e o pai os seguiram, ainda discutindo alto sobre quem tinha a culpa pela educação "liberal" da garota. Sara vinha por último, balançando os quadris e acenando para os strippers no palco.
— Tchau, meninos! Ótimo show! — Sara gritou, rindo da situação.
Já no estacionamento, Emanuel colocou Eduarda no banco de trás do seu SUV. Ela estava com o rosto vermelho, o cabelo totalmente bagunçado e uma expressão de puro ódio.
— Eu odeio você — ela sussurrou, as lágrimas finalmente caindo. — Eu só queria ver a aula.
Emanuel entrou no carro e fechou a porta, isolando os dois do barulho externo. Gabriel e o pai ainda estavam do lado de fora, tendo uma discussão acalorada sobre segurança familiar.
Emanuel virou-se para trás, observando a figura manhosinha e sensível diante dele. Sua fúria havia evaporado, substituída por aquela necessidade visceral de protegê-la — mesmo que fosse dela mesma.
— Eduarda, olhe para mim — ele ordenou.
Ela negou com a cabeça, escondendo o rosto nas mãos.
— Duda... — A voz dele suavizou, tornando-se aquele murmúrio que só ela conhecia. — Aquele lugar não é para você. Se você quer ver "arte viva", eu te levo para ver em Paris, em Londres, em lugares onde as pessoas não vão apenas para consumir carne. Você é preciosa demais para estar ali.
— Você me tratou como uma criança — ela soluçou.
— Porque você agiu como uma — ele retrucou, mas estendeu a mão e acariciou o joelho dela. — Fugir? Virar "Diamante Negro"? Você não duraria cinco minutos naquele mundo, pequena. Você é feita de luz e açúcar. Aquele lugar é feito de sombras e cinzas.
A porta do motorista se abriu e Sara entrou, sentando-se com um suspiro de satisfação.
— Ufa! O pai dela quase deu um soco no Gabriel. Acho que a nossa noite de "cultura" acabou. Mas, Emanuel, temos um problema.
— Qual? — Emanuel perguntou, sem tirar os olhos de Eduarda.
— A Duda disse que ia fugir, certo? — Sara sorriu pelo espelho retrovisor, os olhos brilhando com uma ideia perversa. — E como ela não pode voltar para a casa dos pais depois desse escândalo, e o Gabriel está proibido de deixá-la sozinha... acho que ela vai ter que morar com a gente por uns dias. Para a "segurança" dela, é claro.
Eduarda parou de chorar e arregalou os olhos.
— O quê? Morar com vocês?
Emanuel olhou para Sara. A cumplicidade entre eles era absoluta. Sara sabia exatamente o que ele queria, e ela estava entregando a ele o que ele mais desejava: Eduarda em seu território, sob seu teto, sob seu controle total.
— É uma excelente ideia, Sara — Emanuel disse, um sorriso lento e predatório surgindo em seus lábios. — O que acha, Eduarda? Você queria fugir, não queria? Pois bem, você vai fugir para a minha casa.
— Mas... e o meu pai? E o Biel?
— Eu resolvo com eles — Emanuel disse, ligando o motor. — Eles sabem que, comigo, você estará mais segura do que em qualquer lugar do mundo.
Eduarda encostou as costas no banco, sentindo o coração bater descompassado. Ela olhou para a nuca de Emanuel e para o sorriso vitorioso de Sara no espelho. Ela havia tentado fazer um bico, tentado bater o pé, tentado ser independente em um cabaré... e agora, estava sendo levada para o covil do lobo e da leoa.
— Eu ainda acho que o show de plumas seria melhor — ela murmurou, a voz sumindo em uma última tentativa de rebeldia.
— Você terá todas as plumas que quiser, querida — Sara disse, rindo. — Mas só as que o Emanuel permitir.
O SUV saiu do estacionamento, deixando para trás o neon rosa do Palácio das Rosas. Eduarda olhou pela janela, vendo a cidade passar, sentindo-se pequena e, estranhamente, muito protegida. Ela sabia que Emanuel estava furioso, sabia que Sara estava jogando, mas havia um calor no seu peito que ela não conseguia explicar.
Emanuel, ao volante, apertou o volante com força. Ele tinha Sara ao seu lado, grávida de sua filha, a mulher que era sua base e seu caos. E agora, tinha Eduarda no banco de trás, a menina que era sua paz e sua obsessão.
O jogo havia mudado. A ingênua bailarina agora estava dentro de suas paredes de vidro e aço. E Emanuel faria questão de que ela nunca mais sentisse a necessidade de fugir — porque, no mundo dele, não existiam saídas, apenas a entrega total ao amor que ele e Sara tinham para oferecer.
— Diamante Negro... — Emanuel murmurou para si mesmo, soltando uma risada baixa. — Prepare-se, Eduarda. A sua "aula" está apenas começando.