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O Intruso de Pelos e a Rebeldia da Bailarina
A chuva caía impiedosa sobre a cidade, transformando o horizonte de prédios em um borrão cinzento e melancólico. Emanuel estava em seu escritório no apartamento, revisando os projetos de uma nova convenção de tatuagem em Londres, quando ouviu o som da porta da frente se abrindo. Não era o estalo firme dos saltos de Sara, mas sim o passo leve, quase hesitante, de Eduarda.
Havia algo diferente no silêncio que se seguiu. Geralmente, Duda corria para o escritório para lhe dar um beijo de "cheguei" ou ia direto para a cozinha em busca de um lanche. Dessa vez, houve apenas um murmúrio abafado e o som de algo sendo colocado no chão da lavanderia.
Curioso e sempre alerta quando se tratava de suas mulheres, Emanuel levantou-se e caminhou até a sala. Ele encontrou Eduarda agachada perto do tanque, ainda com o casaco da faculdade úmido, protegendo algo entre os braços.
— Duda? — chamou ele, encostando-se no batente da porta. — Você se molhou toda. O que está fazendo aí?
Eduarda deu um pulo, os olhos castanhos arregalados como se tivesse sido pega em um crime. Ela tentou esconder o volume sob o casaco, mas um som agudo, um miado fraco e tremido, entregou o segredo.
— Manu... eu... eu não podia deixar ele lá — sussurrou ela, revelando um pequeno amontoado de pelos encharcados e trêmulos. Era um gatinho preto e branco, tão pequeno que cabia na palma da mão dela, com olhos amarelos que pareciam grandes demais para o rosto minúsculo.
Emanuel sentiu a pressão subir instantaneamente. Ele amava Eduarda, mas sua mente racional e protetora já estava traçando os problemas em velocidade recorde.
— Eduarda, não. Nem termine a frase — disse ele, a voz firme e autoritária. — Nós já conversamos sobre animais de estimação. Este apartamento não tem estrutura para isso, e você sabe que a situação agora é delicada.
— Ele estava morrendo de frio na porta da biblioteca, Manu! — Eduarda levantou-se, trazendo o gatinho contra o peito, ignorando o fato de que a sujeira do animal estava manchando sua blusa clara. — Ele é só um bebê. Se eu não trouxesse, ele não passaria desta noite.
— Eu entendo a sua compaixão, pequena, de verdade — Emanuel suavizou o tom, aproximando-se e tentando tocar o ombro dela, mas ela recuou um passo. — Mas pense na Sara. Ela está grávida. Gatos podem transmitir doenças, tem a questão da higiene, os pelos... Sara é extremamente sistemática com a limpeza da casa, e com o bebê a caminho, a segurança dela e do meu filho vem em primeiro lugar.
— Eu cuido de tudo! — Eduarda exclamou, a manha dando lugar a uma determinação feroz. — Eu limpo, eu levo ao veterinário, eu mantenho ele no meu quarto. Você nem vai notar que ele existe.
— Você sabe que isso é mentira — rebateu Emanuel, a irritação começando a transparecer. — Um animal não é um brinquedo que você guarda na gaveta. E a Sara vai surtar. Você conhece a Sara. Ela mal tolera poeira, imagine um bicho soltando pelos nos sofás de linho dela.
Nesse momento, o som característico da fechadura eletrônica ecoou. Sara entrou no apartamento carregada de sacolas de uma butique de luxo, exalando seu perfume marcante e uma energia vibrante que parecia preencher o ambiente.
— Cheguei, família! — anunciou ela, jogando as chaves no aparador. — Manu, você não acredita no conjunto de berço que eu vi hoje... Mas que cheiro de cachorro molhado é este?
Sara caminhou até a área de serviço, parando abruptamente ao ver a cena. Seus olhos percorreram Eduarda, a blusa suja e, finalmente, o pequeno intruso miando nos braços da bailarina.
— O que é... isso? — perguntou Sara, apontando um dedo perfeitamente manicure para o animal.
— É um gatinho, Sara — Eduarda disse, a voz trêmula, mas desafiadora. — Eu o resgatei da chuva.
— Ah, não. Não, não e não — Sara balançou a cabeça, dando um passo atrás. — Duda, querida, você é fofa, mas isso é um vetor de germes ambulante. Eu estou gerando uma vida aqui dentro. Minha imunidade está oscilando. Emanuel, diga a ela que isso é impossível.
— Eu já disse, Sara — Emanuel interveio, cruzando os braços. — Eduarda, leve esse animal para um abrigo ou para uma clínica veterinária agora mesmo. Eu pago o que for necessário para que cuidem dele e o encaminhem para adoção, mas ele não fica aqui.
Eduarda olhou de Emanuel para Sara. Ela viu a rigidez no rosto do homem que ela amava e a expressão de nojo mal disfarçada na mulher que ela considerava uma irmã mais velha. A sensação de não ser ouvida, de ser tratada como uma criança cujos desejos não importavam, explodiu dentro dela.
— Vocês são dois egoístas! — gritou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Só pensam em conforto, em móveis caros e em regras! Ele é uma vida! Ele não tem ninguém!
— Eduarda, abaixe o tom de voz — Emanuel ordenou, sua paciência atingindo o limite. — Eu sou o responsável por esta casa e pela segurança de vocês. O gato sai. Agora.
— Então eu saio com ele! — rebateu Eduarda, a pirraça atingindo um nível que Emanuel nunca tinha visto.
Houve um silêncio pesado na sala. Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa com a audácia da "bonequinha de porcelana". Emanuel sentiu uma veia latejar em seu pescoço.
— O que você disse? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.
— Você ouviu bem — Eduarda disse, limpando o rosto com as costas da mão, sem soltar o gatinho. — Eu não vou abandonar ele. Se ele não pode ficar aqui, eu também não posso. Eu tenho a casa dos meus pais, meus irmãos têm espaço de sobra. Eles não são frios como vocês.
— Você está fazendo uma cena ridícula por causa de um bicho de rua — Emanuel deu um passo à frente, tentando intimidá-la com sua presença física, mas Eduarda não recuou. — Você vai mesmo largar tudo, largar a gente, por causa de um gato?
— Eu vou para onde eu possa ter um coração! — Eduarda virou as costas e correu para o seu quarto, batendo a porta com tanta força que os quadros no corredor estremeceram.
Sara soltou um suspiro longo e se jogou no sofá, massageando as têmporas.
— Parabéns, Manu. Você conseguiu quebrar a sua bonequinha favorita.
— Eu? — Emanuel explodiu, voltando sua fúria para Sara. — Você foi a primeira a dizer que não queria o bicho! Eu estou tentando proteger você e o bebê!
— Eu sei, querido, e agradeço — disse Sara, com uma calma irritante. — Mas você sabe que a Duda é emocional. Você tratou o assunto como se estivesse demitindo um funcionário de um dos seus estúdios. Ela é uma bailarina, Emanuel. Ela vive de sentimento, não de lógica.
Emanuel não respondeu. Ele foi até a porta do quarto de Eduarda e tentou abrir, mas estava trancada.
— Eduarda, abra esta porta. Vamos conversar como adultos.
— Não temos nada para conversar! — a voz dela veio abafada pelo choro. — Estou fazendo minha mala. Pode ficar com sua casa limpa e sua vida perfeita!
Emanuel socou o batente da porta, a frustração transbordando. Ele voltou para a sala, andando de um lado para o outro.
— Ela não vai a lugar nenhum — rosnou ele. — Ela é dependente de mim para tudo. Ela não duraria dois dias longe daqui.
— É aí que você se engana, machão — Sara disse, lixando uma unha que nem precisava de reparo. — A Duda pode ser manhosa, mas ela tem um orgulho de bailarina que é de aço. Se ela sentir que você a humilhou, ela vai embora só para provar que pode. E aí, como você vai dormir sem ter ela para abraçar à noite? Como vai ser a minha vida sem ela para equilibrar o seu mau humor?
Emanuel parou de andar. A imagem de Eduarda saindo pela porta, carregando uma mala e aquele gato maldito, causou-lhe um aperto no peito que nenhuma lógica conseguia explicar. Ele era protetor ao extremo; a ideia de Eduarda em qualquer lugar que não fosse sob sua vigilância o deixava doente.
— O que você sugere, Sara? Que eu deixe o apartamento virar um zoológico?
Sara levantou-se e caminhou até ele, colocando as mãos em seus ombros.
— Sugiro que você seja o homem inteligente que eu conheço. O gato pode ficar em quarentena na área de serviço ou naquele quarto de hóspedes que a gente não usa. Levamos ao veterinário amanhã cedo, fazemos todos os exames. Se o bicho estiver saudável, a gente vê o que faz. Mas não perca a sua mulher por causa de um capricho de controle.
Emanuel suspirou, derrotado. Sara tinha razão, e ele odiava quando isso acontecia.
Ele voltou ao quarto de Eduarda e bateu suavemente.
— Duda... pequena... abra a porta. Por favor.
Silêncio. Então, o som da chave girando. Eduarda abriu apenas uma fresta. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e ela já tinha trocado de roupa para um moletom largo. Uma mochila pequena estava sobre a cama.
— O que foi? Veio me expulsar pessoalmente?
— Deixe de ser pirracenta — disse Emanuel, empurrando a porta gentilmente e entrando. Ele viu o gatinho enrolado em uma toalha limpa sobre a poltrona de leitura dela. — O gato pode ficar. Por enquanto.
Eduarda paralisou, o rosto iluminando-se por um segundo antes de voltar à expressão de desconfiança.
— Você está falando sério? E a Sara? E o bebê?
— A Sara concordou em testar — mentiu ele levemente, omitindo que fora ideia dela. — Mas com condições. Ele fica no quarto de hóspedes. Amanhã, a primeira coisa que faremos é ir ao veterinário. Ele vai tomar banho, vacinas, tudo. Se ele tiver qualquer doença que coloque a Sara em risco, ele terá que ir para um lar temporário até se curar. Entendido?
Eduarda não respondeu com palavras. Ela se atirou nos braços de Emanuel, apertando-o com tanta força que ele perdeu o fôlego por um instante.
— Obrigada, Manu! Obrigada! Eu prometo que vou ser a melhor dona do mundo. Eu prometo que não vou deixar ele incomodar a Sara.
Emanuel a abraçou de volta, sentindo a fragilidade dela se dissipar. Ele beijou o topo de sua cabeça, sentindo o cheiro de lavanda e, agora, um leve aroma de gato úmido.
— Você é um problema, Eduarda — murmurou ele, embora houvesse um sorriso discreto em seus lábios. — Uma pirracenta de primeira categoria.
— E você é um ogro mandão — ela rebateu, limpando as lágrimas e sorrindo. — Mas é o meu ogro.
Eles levaram o gatinho para o quarto de hóspedes, onde Eduarda improvisou uma caminha e uma caixa de areia com uma bacia plástica. Sara apareceu na porta, observando tudo com as mãos nos quadris.
— Se eu encontrar um único pelo nas minhas bolsas da Chanel, Emanuel, eu juro que faço um churrasco desse bicho — ameaçou ela, mas logo em seguida se aproximou e olhou para o animal. — Ele é... aceitável. Tem cara de quem vai ser elegante quando crescer.
— O nome dele vai ser Degas — anunciou Eduarda, radiante. — Por causa do pintor das bailarinas.
— Ótimo, mais uma referência artística que eu vou ter que aguentar — resmungou Emanuel, mas ele já estava pegando o celular para ligar para seu veterinário particular, exigindo uma consulta de emergência para a manhã seguinte.
Naquela noite, o equilíbrio foi restaurado. Emanuel estava deitado na cama grande, com Sara de um lado, lendo uma revista de moda, e Eduarda do outro, com a cabeça em seu peito, finalmente calma.
— Manu? — chamou Eduarda, a voz sonolenta.
— Hum?
— Você não está mais bravo comigo? Por eu ter dito que ia embora?
Emanuel apertou o braço em volta dela, um gesto possessivo e protetor.
— Você não vai a lugar nenhum, Duda. Nunca. Se você tentar sair por aquela porta de novo, eu te tranco aqui dentro e jogo a chave fora.
— Isso foi um pouco possessivo demais, não acha, querido? — comentou Sara, sem tirar os olhos da revista.
— É o meu jeito de dizer que as amo — Emanuel respondeu, fechando os olhos.
— Eu sei — sussurrou Eduarda, aconchegando-se mais. — E é por isso que a gente nunca vai embora de verdade.
O apartamento mergulhou no silêncio. No quarto de hóspedes, o pequeno Degas dormia profundamente, alheio à tempestade que quase causara. Emanuel, entre a loira vulcânica e a bailarina manhosa, entendeu que sua vida seria sempre assim: um constante gerenciamento de crises, desejos e emoções. Mas, enquanto tivesse as duas ao seu lado, ele enfrentaria qualquer exército — ou qualquer gatinho de rua — para manter seu mundo intacto.