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O Banquete do Caos e o Primeiro Ano
O retorno para São Paulo foi como mergulhar de volta em uma engrenagem de aço, vidro e luxo desenfreado. A mansão no Jardim Europa, agora totalmente adaptada para a presença das duas bebês, fervilhava com a energia de uma celebração iminente. Ágata e Maya completavam um ano de vida, e para Emanuel, isso não era apenas um marco cronológico, era a consolidação do seu domínio sobre as duas famílias que ele escolhera fundir em uma só.
O salão principal estava decorado com uma opulência que gritava o nome de Sara. Tons de dourado, rosa pastel e branco ocupavam cada canto, com arranjos de flores que custavam o preço de um carro popular. Sara, usando um vestido justo de paetês dourados que realçava seu silicone e suas curvas impecáveis, andava de um lado para o outro, coordenando os garçons com a autoridade de uma rainha.
— Eu quero as taças de cristal da Baccarat na mesa de doces, não essas comuns! — exclamou Sara, a voz estridente ecoando pelo salão. — Emanuel pagou por perfeição, e é perfeição que eu vou entregar.
Emanuel, impecável em um terno sob medida cinza-chumbo, observava tudo de um canto, com um copo de uísque na mão. Ele parecia mais relaxado do que meses atrás, mas a aura de controle ainda emanava de cada poro. Seus olhos, no entanto, suavizaram-se quando viu Eduarda descer a escadaria de mármore.
Eduarda parecia uma pintura de Botticelli. O vestido de seda azul-claro era fluido, escondendo e revelando sua silhueta esguia de bailarina com uma delicadeza que contrastava brutalmente com a exuberância de Sara. Ela carregava Maya no colo, enquanto uma babá vinha logo atrás com Ágata.
— Você está linda, Duda — disse Emanuel, aproximando-se e possessivamente colocando a mão na cintura dela, puxando-a para um beijo rápido e firme.
— Obrigada, Emanuel — sussurrou ela, corando levemente. A timidez de Eduarda nunca desaparecera totalmente, mesmo vivendo sob o mesmo teto que a furacão loira. — Eu só espero que elas se comportem. Ágata parece estar em um dia difícil.
Como se tivesse sido convocada pelo comentário, Ágata, no colo da babá, soltou o primeiro guincho de protesto. A pequena, que herdara o temperamento impulsivo de Sara e a teimosia de Emanuel, queria o chão. Assim que foi colocada no tapete persa, a confusão começou.
Ágata não queria apenas andar; ela queria ser o centro do universo. Quando uma das convidadas, uma socialite amiga de Sara, tentou fazer um carinho em seu cabelo perfeitamente penteado, a bebê reagiu. Ela se jogou no chão, chutando o ar e soltando um grito que silenciou metade do salão.
— Não! Não! — gritava Ágata, o rosto ficando vermelho em questão de segundos.
Sara correu até a filha, os saltos agulha estalando no mármore.
— Ágata, pare com isso agora! Você vai estragar o seu vestido de seda francesa! — Sara tentou pegá-la, mas a bebê se transformou em uma enguia, contorcendo-se e aumentando o volume do choro.
Emanuel franziu o cenho, o estresse começando a subir pela sua nuca.
— Sara, leve-a para o canto. Ela está chamando atenção demais — ordenou ele, o tom rígido.
— Ela é sua filha, Emanuel! — rebateu Sara, sem se intimidar. — Ela tem personalidade! Se ela quer gritar, ela grita. Mas que é uma birra insuportável, isso é.
Enquanto o drama de Ágata se desenrolava, Maya, no colo de Eduarda, mantinha uma postura completamente diferente. A filha de Eduarda observava a irmã com um olhar analítico, quase cético, enquanto mastigava a ponta da própria mão.
— Ela está com fome, Emanuel — disse Eduarda, tentando ignorar a gritaria de Ágata. — Eu vou levá-la para a mesa.
A mesa de buffet infantil era um espetáculo à parte, mas Maya tinha um objetivo muito específico. Ela ignorou as papinhas gourmet de mandioquinha e os mini-sanduíches de ricota. Seus olhos brilharam quando viu uma travessa de prata carregada de batatas fritas rústicas, preparadas com sal marinho e alecrim.
— Bata! — gritou Maya, apontando com urgência.
Eduarda suspirou, colocando a filha na cadeirinha de alimentação de grife.
— Maya, você precisa comer algo saudável primeiro. Que tal esse purê?
A reação de Maya foi imediata. Ela pegou a colher de purê que Eduarda oferecia e, com uma precisão assustadora, arremessou-a longe. A colher atingiu a parede de seda de um dos arranjos decorativos.
— Bata! — repetiu a bebê, a voz subindo de tom, lembrando perigosamente o rosnado de Emanuel quando estava contrariado.
Emanuel, que se aproximara para fugir da birra de Ágata, soltou uma risada curta e sem humor.
— Dê as batatas para ela, Eduarda. Ela não vai ceder. Eu conheço esse olhar.
— Mas Emanuel, ela só quer comer isso! E ela ainda quer mamar o tempo todo. Ela não aceita a transição para outros alimentos — reclamou Eduarda, a voz manhosa e preocupada.
Emanuel agachou-se ao lado da cadeira de Maya. Ele pegou uma batata frita e a ofereceu à filha. Maya a pegou com as duas mãos gordinhas e começou a devorar com uma satisfação quase selvagem.
— Ela sabe o que quer — disse Emanuel, olhando para Eduarda com uma intensidade que a fez estremecer. — Igual a mim. Eu queria você e a Sara, e aqui estamos. Eu não aceitei substitutos, e ela também não aceita.
Eduarda sentiu o peso daquela afirmação. Ela olhou para o salão, onde Sara agora conseguira distrair Ágata com um colar de pérolas (que a bebê provavelmente quebraria em minutos), e depois para Emanuel.
— Às vezes eu sinto que estamos vivendo em um castelo de cartas, Emanuel — sussurrou ela. — Tudo é tão intenso. As meninas, a Sara, você... eu tenho medo de não ser forte o suficiente para manter tudo no lugar.
Emanuel segurou o rosto de Eduarda com uma das mãos, o polegar acariciando sua pele macia.
— Você não precisa manter nada no lugar, Duda. Esse é o meu trabalho. Você só precisa ser meu porto seguro. A Sara é a minha tempestade, e eu preciso das duas para me sentir vivo.
A conversa foi interrompida por um novo surto na sala. Ágata, cansada das pérolas, decidira que queria o que Maya estava comendo. Ela engatinhou — ou melhor, escalou — até a mesa de buffet e tentou puxar o prato de batatas de Maya.
O que se seguiu foi uma batalha de titãs em miniatura. Maya segurou o prato com uma força possessiva, soltando um grito agudo de "Meu!", enquanto Ágata puxava a borda da travessa de prata com toda a sua força de um ano de idade.
— Emanuel, faça alguma coisa! — gritou Sara, aproximando-se e rindo ao mesmo tempo. — Elas vão se matar por causa de batatas fritas!
Emanuel interveio, pegando uma bebê em cada braço. Ágata começou a chutar as costelas do pai, protestando contra a interrupção da sua conquista, enquanto Maya tentava enfiar a última batata frita na boca antes que lhe fosse tirada.
— Chega! — a voz de Emanuel trovejou, calma mas absoluta. As duas bebês pararam instantaneamente, olhando para ele com olhos arregalados. — Ágata, você vai para o colo da sua mãe. Maya, você vai mamar com a Eduarda e depois dormir. A festa acabou para vocês duas.
— Ah, Emanuel, não seja tão carrasco! — disse Sara, pegando Ágata e dando um beijo estalado na bochecha da menina. — Ela só tem um ano. Deixe a menina ser vulgar e barulhenta, é o charme dela!
— O charme dela vai acabar quebrando um vaso de cristal de dez mil dólares, Sara — rebateu Emanuel, embora um sorriso de canto de boca mostrasse que ele não estava realmente irritado com a loira.
Eduarda pegou Maya, que já começava a esfregar os olhos e a buscar o seio da mãe através do tecido do vestido. A bebê, exausta da própria fúria alimentar, entregou-se ao cansaço.
— Eu vou subir com ela — disse Eduarda. — Ela não vai aguentar o parabéns.
— Eu vou com você — disse Emanuel, surpreendendo as duas mulheres. — Sara, cuide dos convidados por dez minutos. Eu preciso ver minha filha dormir.
Sara piscou os cílios postiços, dando um sorriso cúmplice.
— Vá lá, garanhão. Mas não demore. Eu ainda quero dançar e quero que você veja o bolo de cinco andares que eu encomendei. Tem o seu nome escrito em ouro na base, sabia?
Emanuel apenas balançou a cabeça e seguiu Eduarda escada acima. No quarto de Maya, o silêncio era um alívio. Eduarda sentou-se na poltrona e começou a amamentar. Maya mamava com uma urgência quase desesperada, as mãozinhas apertando o tecido do vestido de Eduarda.
Emanuel ficou de pé, observando a cena. A luz suave do abajur criava sombras longas no quarto decorado com temas de bailarinas e florestas encantadas.
— Ela é tão diferente da Ágata — observou Emanuel em voz baixa. — Ágata é barulho, é brilho. Maya é... profundidade. Ela é silenciosa até que algo a contrarie, e então ela explode.
— Ela é como você, Emanuel — disse Eduarda, olhando para ele. — Ela guarda tudo dentro de si até que não cabe mais. Eu me preocupo com o que ela vai ser quando crescer.
— Ela vai ser poderosa — afirmou ele, aproximando-se e beijando o topo da cabeça de Eduarda. — Porque ela tem o melhor dos dois mundos. A minha força e a sua sensibilidade. E ela tem a Sara para ensinar a ela como nunca baixar a cabeça para ninguém.
Eduarda suspirou, sentindo a paz momentânea.
— Você realmente acha que isso vai funcionar para sempre? Nós três? As meninas crescendo juntas com mães tão diferentes?
Emanuel ajoelhou-se na frente dela, prendendo-a com seu olhar sombrio e protetor.
— Enquanto eu estiver respirando, vai funcionar. Eu não sou um homem de dúvidas, Eduarda. Eu escolhi você naquela festa porque você era a peça que faltava na minha alma. E a Sara... a Sara é o alicerce da minha vida pública. Vocês duas são o meu equilíbrio.
Ele deslizou a mão pela perna de Eduarda, subindo até a coxa, um gesto de posse que a fez perder o fôlego por um segundo.
— Agora, termine de alimentar a nossa filha. Temos uma festa lá embaixo e eu quero mostrar ao mundo que o que é meu, ninguém toca.
Eduarda assentiu, sentindo-se pequena e protegida sob o domínio dele.
Lá embaixo, a festa continuava. Sara estava no centro do salão, rindo alto com um grupo de empresários, Ágata agora sentada calmamente no seu colo, brincando com o batom caro da mãe. Quando Emanuel e Eduarda reapareceram no topo da escada, o salão pareceu prender a respiração.
Eles eram a imagem do sucesso, da luxúria e de uma moralidade muito particular. O tatuador rico e poderoso, a loira exuberante e a bailarina delicada.
Na hora do parabéns, com as duas bebês diante do bolo monumental, a tensão e a birra pareceram desaparecer por um momento. Ágata tentou apagar a vela com um sopro babado, e Maya, com uma batata frita ainda escondida na mãozinha, olhou para as luzes com admiração.
Emanuel abraçou Sara por trás e estendeu a mão para Eduarda, puxando-a para o seu lado esquerdo. Ele estava completo.
— A um ano de caos — brindou Sara, levantando sua taça de champanhe. — E a muitos outros de riqueza e batata frita!
Emanuel sorriu, um sorriso que raramente chegava aos olhos, mas que naquela noite era genuíno. Ele olhou para as duas filhas e para as duas mulheres, sentindo que, apesar das birras, da vulgaridade de Sara e da insegurança de Eduarda, ele havia construído um império onde ele era o único rei, e suas rainhas, embora diferentes, eram igualmente essenciais para o seu reino de sombras e luz.