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O Herdeiro do Caos e a Revolta das Batatas
A mansão de Emanuel no Jardim Europa parecia ter encolhido nos últimos meses. Não que o espaço físico tivesse diminuído — os corredores de mármore continuavam vastos e as salas de estar mantinham a opulência de um museu contemporâneo —, mas a energia contida ali dentro era explosiva. Com Ágata e Maya completando um ano e dois meses, a casa havia se tornado um campo de batalha de fraldas, brinquedos de grife e personalidades colossais.
Emanuel, sentado em seu escritório envidraçado, tentava se concentrar nos relatórios financeiros de sua nova rede de estúdios em Miami, mas o som de algo quebrando no andar de baixo o fez fechar os olhos e respirar fundo. Ele estava no limite. O estresse de gerenciar um império era fichinha perto de gerenciar três mulheres e duas bebês com temperamentos vulcânicos.
A porta do escritório se abriu com um estrondo. Sara entrou, usando um conjunto de pijama de seda com estampa de leopardo e saltos plataforma. O cabelo loiro platinado estava preso em um coque alto, mas sua expressão era de puro deboche misturado com impaciência.
— Emanuel, querido, se você não descer agora, eu juro que vou jogar a Eduarda e a barriga dela dentro da piscina para ver se ela acorda — Sara exclamou, jogando-se na poltrona à frente dele e cruzando as pernas torneadas. — A Maya está impossível. Ela não sai do colo da Duda e, toda vez que eu tento aproximar a Ágata, a sua filha "tímida" rosna. Literalmente rosna!
Emanuel levantou o olhar, a mandíbula cerrada.
— A Eduarda está grávida de sete meses, Sara. O Arthur está pesado. Ela não deveria estar carregando a Maya o tempo todo.
— Pois diga isso para a sua pequena fera — Sara rebateu, retocando o brilho labial. — A Maya percebeu que tem um intruso chegando e decidiu que a Duda é propriedade exclusiva dela. E a Ágata, que não gosta de ficar por baixo, resolveu que quer o que a Maya tem. O clima está maravilhoso, parece um reality show de baixo orçamento.
Emanuel levantou-se, ajeitando a camiseta preta que marcava seus ombros largos. Ele caminhou até a sala de estar principal e parou na entrada, observando a cena.
Eduarda estava sentada no sofá de linho branco, parecendo exausta. Sua pele, sempre clara e delicada, estava pálida, e as olheiras denunciavam as noites mal dormidas. O ventre proeminente, onde Arthur crescia, era o centro das atenções. Maya estava agarrada ao pescoço da mãe, escondendo o rosto no ombro dela sempre que alguém entrava no cômodo, mas lançando olhares intensos e possessivos para qualquer um que se aproximasse.
— Maya, meu amor, deixa a mamãe respirar um pouco... — pediu Eduarda, com a voz manhosa e doce, tentando afastar a bebê com delicadeza.
— Não! — Maya resmungou, apertando as mãozinhas na blusa de Eduarda.
Ágata, por outro lado, estava sentada no chão, batendo um controle remoto caro contra o pé da mesa de centro, observando a cena com os olhos semicerrados, claramente planejando sua próxima jogada para chamar a atenção de Emanuel.
— Eduarda, coloque a Maya no chão — a voz de Emanuel ecoou, firme e sem espaço para discussões.
Eduarda deu um pulo, assustada pela presença súbita dele.
— Emanuel... ela está manhosa hoje, acho que os dentes estão nascendo...
— Não me interessa — disse ele, aproximando-se e pegando Maya pelas axilas, içando-a para longe da mãe apesar dos protestos da bebê. — Você precisa descansar. O Arthur está sugando suas energias e você ainda deixa essa menina te usar de escada.
Maya começou a espernear no colo do pai. Ela era tímida com estranhos, mas com Emanuel, ela era uma versão em miniatura de sua própria fúria.
— Mamãe! Mamãe! — gritava Maya, esticando os braços para Eduarda.
— Ela vai para o cercadinho com a Ágata — sentenciou Emanuel, ignorando o choro. — Sara, olhe as duas por dez minutos enquanto eu levo a Eduarda para o quarto.
— Ah, claro, sobrou para a babá de luxo — ironizou Sara, levantando-se e pegando Ágata do chão com uma mão só, enquanto a outra segurava o celular. — Vamos, Ágata, vamos ver se a gente acha algo mais interessante para quebrar do que esse controle.
Emanuel guiou Eduarda até o andar de cima. No quarto, ele a ajudou a se deitar, retirando seus sapatos com um cuidado que contrastava com sua rigidez habitual.
— Você está muito mole com ela, Duda — disse ele, sentando-se na beirada da cama e colocando a mão sobre o ventre dela, sentindo Arthur chutar. — A Maya precisa entender que o irmão está chegando.
— Eu tenho medo que ela se sinta abandonada, Emanuel — sussurrou Eduarda, os olhos se enchendo de lágrimas. — Ela é tão sensível. Ela percebe que tudo está mudando.
— Nada vai mudar no que diz respeito à proteção que eu dou a vocês — Emanuel afirmou, beijando a testa dela. — Mas eu não vou permitir que ela te esgote. Durma um pouco. Eu vou resolver a bagunça lá embaixo.
Enquanto isso, no andar de baixo, a trégua forçada por Emanuel deu lugar a uma aliança inesperada. Sara, distraída com uma chamada de vídeo sobre a nova coleção de sapatos de sua loja, não percebeu que o silêncio no cercadinho era, na verdade, um planejamento estratégico.
Ágata e Maya, que geralmente disputavam cada centímetro de atenção, estavam agora frente a frente, trocando olhares de entendimento. Ágata apontou para a cozinha. Maya assentiu.
A grade do cercadinho não era páreo para a agilidade de Ágata, que já escalava móveis como se fosse uma profissional, nem para a determinação silenciosa de Maya. Em poucos minutos, as duas estavam fora da proteção e engatinhando velozmente em direção à cozinha industrial da mansão.
O objetivo era claro: a geladeira auxiliar, onde ficavam os iogurtes e Danones importados que Emanuel proibia fora dos horários das refeições devido ao açúcar.
Maya, com sua timidez, servia de vigia, espiando pelo canto da porta enquanto Ágata, a líder nata, usava um banquinho de plástico para alcançar o puxador da geladeira. Com um esforço coordenado, a porta se abriu, revelando um paraíso de embalagens coloridas.
Quando Emanuel desceu as escadas, dez minutos depois, o silêncio na sala o fez gelar o sangue. Ele olhou para o cercadinho vazio e depois para Sara, que ainda ria ao telefone na varanda.
— Sara! — ele rugiu. — Onde estão as meninas?
Sara deu um pulo, derrubando o celular.
— O quê? Elas estavam ali agora mesmo!
Emanuel não esperou. Ele seguiu o rastro de destruição: um sapatinho de Maya no corredor e um rastro de... algo pastoso e rosa.
Na cozinha, a cena era um pesadelo para qualquer maníaco por limpeza como Emanuel. Ágata e Maya estavam sentadas no chão de granito preto. Havia pelo menos seis potes de Danone abertos. Maya estava com o rosto completamente coberto de iogurte de morango, usando os dedos para pintar as próprias pernas. Ágata, mais ambiciosa, estava tentando "alimentar" o cachorro da família, que lambia alegremente o iogurte que ela derramava no chão.
— Mas que inferno é esse? — a voz de Emanuel saiu baixa, vibrante de puro ódio e frustração.
As duas bebês pararam o que estavam fazendo. Maya, ao ver o pai naquele estado, imediatamente começou a tremer. Seus olhos se encheram de água e ela tentou se esconder atrás de uma cadeira, soltando um soluço baixinho e tímido. Ágata, por outro lado, apenas olhou para Emanuel, ofereceu um pote vazio e deu um sorriso lambuzado de rosa.
— Emanuel, calma... são bebês... — Sara disse, entrando na cozinha e tentando conter o riso ao ver a bagunça. — Olha a cara da Maya, coitada, ela está morrendo de medo.
— Medo? Ela deveria ter juízo! — Emanuel caminhou até o centro da cozinha, a presença esmagadora fazendo até o cachorro recuar. — Eu gasto uma fortuna com babás, com segurança, e vocês duas conseguem destruir a casa em dez minutos?
Ele pegou Maya pelo braço, não com força, mas com uma rigidez que fez a menina chorar alto.
— Pare com esse choro, Maya! Você sabe que fez errado. E você, Ágata, não pense que esse sorriso vai te salvar.
— Emanuel, você está exagerando — Sara interveio, aproximando-se e pegando Ágata do chão, sujando seu pijama de seda no processo. — É só iogurte. O granito limpa. A Duda vai acordar com esse seu berro e vai passar mal. Pense no Arthur.
O nome do filho nascituro pareceu trazer Emanuel de volta à realidade. Ele soltou um suspiro pesado, olhando para a bagunça rosa no chão.
— Leve a Ágata para o banho. Agora — ordenou ele para Sara. — Eu vou levar a Maya. E depois, eu vou ter uma conversa muito séria com as babás. Alguém vai ser demitido hoje.
Emanuel pegou Maya, que ainda soluçava, e a levou para o banheiro de serviço. Ele mesmo abriu a torneira e começou a limpar o iogurte do rosto e dos cabelos da filha. A água morna pareceu acalmar a bebê, que começou a relaxar nos braços fortes do pai.
— Você é muito manhosa, sabia? — Emanuel murmurou, o tom de voz baixando alguns decibéis. — Você se aproveita que a sua mãe é um anjo para fazer o que quer. Mas comigo não, Maya. Comigo você vai aprender a ter disciplina.
Maya olhou para ele, os cílios longos ainda molhados de lágrimas, e esticou a mãozinha para tocar a tatuagem no braço de Emanuel.
— Papai — ela sussurrou, com aquela voz pequena que sempre o desarmava, por mais que ele tentasse lutar contra isso.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo a raiva se dissipar e ser substituída por aquele cansaço crônico de quem amava demais pessoas complicadas.
— É, "papai". O papai que você deixa louco — ele disse, enrolando-a em uma toalha felpuda.
Quando voltou para o quarto principal, Eduarda estava sentada na cama, com uma expressão de pavor.
— O que aconteceu? Eu ouvi gritos... a Maya está bem?
— Ela está ótima, Eduarda. Só decidiu que queria ser pintora usando iogurte como tinta — Emanuel colocou a bebê na cama ao lado da mãe. — Ela e a Ágata fizeram um assalto à geladeira.
Eduarda abraçou a filha, sentindo o cheiro de morango e sabonete.
— Oh, Maya... você não pode fazer essas coisas. O papai fica bravo.
— O papai fica irritado porque ninguém nesta casa segue ordens — Emanuel disse, cruzando os braços e encostando-se na parede. — A Sara incentiva a Ágata a ser uma rebelde, e você mima a Maya até ela achar que é a dona do mundo. E agora tem o Arthur chegando. Como vai ser?
Eduarda olhou para ele, com aquele olhar intuitivo que sempre parecia ler o que estava por trás da fachada de controle de Emanuel.
— Vai ser como sempre foi, Emanuel. Um caos. Mas é o nosso caos.
Sara apareceu na porta, já trocada, usando um vestido curto e chamativo, segurando Ágata que agora estava limpa e cheirando a talco.
— O granito já está sendo limpo, o cachorro foi para o jardim e eu acabei de encomendar um jantar japonês maravilhoso porque ninguém aqui tem condições de cozinhar — Sara anunciou, entrando no quarto com sua energia habitual. — E Emanuel, pare de fazer essa cara de quem vai mandar alguém para o exílio. As meninas estão bem. A Duda está bem. E eu estou maravilhosa.
Emanuel olhou para as duas mulheres. Sara, a força da natureza, vulgar, vibrante e leal. Eduarda, a suavidade, a doçura e o porto seguro. E as duas bebês, que eram a mistura explosiva de todos eles.
Ele caminhou até a cama, sentando-se ao lado de Eduarda e puxando Sara para se sentar do outro lado. Ágata e Maya, sentindo que a tempestade havia passado, começaram a brincar com as dobras do edredom, o ciúme de Maya momentaneamente esquecido diante da presença de todos juntos.
— O Arthur vai sofrer nas mãos dessas duas — comentou Emanuel, observando as filhas.
— Ou ele vai ser o rei desse harém — riu Sara, dando um tapinho no ombro de Emanuel. — Imagine só, o seu herdeiro cercado por essas quatro mulheres. Você vai ter que construir um bunker para ele, querido.
Eduarda riu baixinho, encostando a cabeça no ombro de Emanuel.
— Ele vai ser amado, Emanuel. Isso é o que importa.
Emanuel olhou para o ventre de Eduarda, depois para a confiança inabalável de Sara e, finalmente, para as filhas que eram sua vida e seu maior desafio. A fúria que ele sentira na cozinha ainda deixava um rastro de tensão em seus ombros, mas ali, naquele quarto, cercado pelas mulheres que ele amava de formas tão diferentes e intensas, ele percebeu que o controle era uma ilusão.
Ele não controlava nada. Ele apenas protegia.
— Se o Arthur herdar metade da teimosia da Maya e da audácia da Ágata, eu estou perdido — admitiu Emanuel, soltando um suspiro que finalmente carregava um pouco de paz.
— Você já está perdido desde o dia em que me conheceu, e depois quando viu a Duda naquela festa — Sara disse, com um sorriso vitorioso. — Aceite, Emanuel. Você é um homem rico, poderoso e completamente dominado por nós.
Emanuel não respondeu. Ele apenas puxou Eduarda para mais perto e deixou que Sara apoiasse a cabeça em seu braço. O silêncio finalmente se instalou na mansão, um silêncio frágil, que ele sabia que duraria apenas até a próxima ideia mirabolante das meninas ou até o próximo desejo de grávida de Eduarda.
Mas, por enquanto, o império estava em paz. Um império de Danone derramado, ciúmes infantis e um amor que não cabia em regras, mas que encontrava seu lugar na possessividade de um homem que queria, e tinha, absolutamente tudo.