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D

O Sangue entre a Renda e o Aço

O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro do apartamento, refletindo-se nos detalhes dourados da decoração que Sara insistia em manter. O clima na casa era de uma expectativa doce, quase palpável. Emanuel estava sentado no chão da sala, cercado por catálogos de móveis infantis e amostras de tecidos. Sara, sentada no sofá com as pernas inchadas repousadas sobre um puff, observava-o com um sorriso de satisfação, enquanto ele massageava seus pés com um creme caro.

— Valentina vai ser uma rainha, Emanuel. Eu já decidi que o quarto dela não vai ter nada de tons pastéis sem graça. Quero dourado, quero brilho. Ela tem que saber desde o primeiro dia que é filha de quem é — disse Sara, passando a mão pela barriga que, agora com quatro meses, já exibia uma protuberância orgulhosa sob o vestido de seda justo.

— Valentina terá tudo o que quiser, Sara. Mas primeiro, você precisa focar em não se esforçar tanto na loja. Eu já contratei mais duas assistentes para você, então não quero ver você carregando nem um cabide — Emanuel respondeu, a voz firme, mas o olhar carregado de um zelo profundo. Ele beijou o tornozelo dela, um gesto de adoração que poucas pessoas no mundo corporativo ou no submundo da tatuagem acreditariam vindo dele.

— Você me mima demais, Manu. Mas eu adoro isso — ela provocou, jogando a cabeça para trás. — Onde está a Duda? Ela está quieta demais no quarto.

Emanuel franziu o cenho. Eduarda não era de dormir até tarde, especialmente em dias de ensaio. Ele se levantou, limpando as mãos, e caminhou em direção ao quarto da mais nova.

— Duda? Pequena, você vai se atrasar para a faculdade — chamou ele, abrindo a porta suavemente.

O quarto estava na penumbra. Eduarda estava encolhida sob o edredom, o corpo esguio parecendo ainda menor. Quando ela se virou para olhá-lo, Emanuel sentiu um aperto no peito. O rosto dela estava pálido, e havia olheiras profundas sob seus olhos castanhos.

— Manu... eu não vou hoje — ela sussurrou, a voz trêmula. — Minha menstruação desceu e... está doendo muito. Acho que o estresse do espetáculo desregulou tudo.

Emanuel sentou-se na beira da cama, colocando a mão na testa dela. Não havia febre, mas ela estava fria.

— Você nunca teve cólicas tão fortes assim, Duda. Quer que eu chame o médico?

— Não precisa — ela forçou um sorriso, embora uma pontada de dor a fizesse contrair o rosto logo em seguida. — É só sangue, Manu. É normal. Eu tomei um remédio e vou tentar dormir mais um pouco.

Emanuel hesitou. Seu instinto de proteção gritava que algo estava errado, mas ele sabia o quanto Eduarda era sensível e como odiava ser o centro das atenções por motivos de saúde. Ele a cobriu melhor e deu um beijo em sua testa.

— Se não melhorar em uma hora, eu vou te levar para o hospital, quer você queira ou não.

Ele voltou para a sala, mas a inquietação não o abandonou. Sara percebeu imediatamente.

— O que ela tem? — perguntou a loira, ajeitando-se no sofá.

— Cólicas. Disse que a menstruação desceu forte. Mas ela está pálida demais, Sara.

— Menstruação? — Sara arqueou uma sobrancelha, o instinto feminino e a experiência de quem já estava gerando uma vida falando mais alto. — A Duda é um relógio suíço com essas coisas. E ela tem andado muito sonolenta ultimamente, você não reparou?

Emanuel parou no meio da sala. Ele se lembrou de pequenos detalhes: o desânimo de Eduarda com certas comidas, a forma como ela se cansava rápido nos ensaios de ballet, a sensibilidade olfativa que ela atribuíra ao perfume novo de Sara.

— Você acha que...? — ele começou, mas não terminou a frase.

Antes que pudessem continuar, um grito abafado veio do quarto. Não era um grito de pirraça ou de manha, era um som de dor pura e terror.

Emanuel correu. Sara, apesar da barriga e do desconforto, seguiu logo atrás.

Quando Emanuel escancarou a porta, encontrou Eduarda de pé, tentando chegar ao banheiro. Ela segurava a parede para não cair, e o pijama de seda rosa estava manchado de um vermelho vivo e assustador que escorria por suas pernas.

— Manu! Tem muito... tem muito sangue! — ela soluçou, os olhos arregalados, o pânico tomando conta de suas feições delicadas. — Dói, Manu! Dói muito!

Emanuel a pegou no colo antes que seus joelhos cedessem. O pavor que ele sentiu naquele momento foi maior do que qualquer ameaça que já enfrentara nos negócios.

— Sara, pegue as chaves do carro e uma toalha! Agora! — ele ordenou, a voz saindo como um rugido de comando.

— Já estou indo! — Sara respondeu, sua voz desprovida de qualquer ironia, agindo com uma rapidez pragmática.

No banco de trás do carro, Emanuel mantinha Eduarda deitada em seu colo, pressionando a toalha contra ela, enquanto Sara dirigia com uma habilidade agressiva pelo trânsito de São Paulo.

— Vai ficar tudo bem, pequena. Respira comigo — Emanuel pedia, a voz falhando enquanto ele via a palidez de Eduarda aumentar.

— Eu não quero morrer, Manu... eu não quero — ela gemia, apertando a mão dele com uma força surpreendente para alguém tão frágil.

— Você não vai morrer, Duda! Cala a boca e respira! — Sara gritou da frente, o tom áspero escondendo o medo profundo que sentia pela "irmã" mais nova.

Ao chegarem na emergência da maternidade, tudo se tornou um borrão de luzes brancas e termos médicos. Emanuel não permitiu que ninguém o afastasse dela até que os médicos a levassem para a sala de ultrassom de emergência. Sara ficou na sala de espera, andando de um lado para o outro, a mão repousada em Valentina, como se pedisse proteção para a pequena que estava lá dentro e para a que estava em perigo.

Minutos depois, Emanuel saiu da sala de exames. Ele parecia ter envelhecido dez anos em meia hora. Seus olhos estavam vermelhos.

— Emanuel? O que houve? — Sara perguntou, aproximando-se rapidamente.

Ele se sentou pesadamente em uma das cadeiras de plástico, cobrindo o rosto com as mãos.

— Ela estava grávida, Sara. Ela nem sabia.

Sara estacou. O silêncio caiu sobre eles.

— Estava? — ela perguntou com a voz embargada. — Ela perdeu?

— Foi um princípio de aborto. Um descolamento grave — Emanuel levantou a cabeça, e havia um brilho de milagre em meio à dor. — Mas os corações ainda estão batendo.

— Corações? — Sara arqueou as sobrancelhas, o choque dando lugar a uma surpresa monumental.

— São dois, Sara. Gêmeos. O médico disse que ela está de quase dez semanas. O sangramento foi um susto enorme, ela precisa de repouso absoluto, medicação na veia e vigilância total. Mas eles ainda estão lá.

Sara soltou um suspiro longo, as lágrimas que ela vinha segurando finalmente caindo. Ela se sentou ao lado de Emanuel e pegou a mão dele.

— Dois? Meu Deus, Emanuel... essa casa vai virar um hospício.

— Eu quase a perdi, Sara — Emanuel confessou, a voz trêmula. — Eu vi o sangue e achei que...

— Mas não perdeu. A Duda é teimosa, você sabe disso. Aqueles bebês são filhos dela e seus, eles não iam desistir tão fácil — Sara disse, recuperando sua postura confiante. — Agora, limpa esse rosto. Ela vai ser levada para o quarto e precisa ver que o "general" dela está no comando.

Quando finalmente puderam entrar no quarto, Eduarda estava pálida, com soro e medicamentos correndo em suas veias, mas seus olhos estavam abertos e focados na tela do monitor ao lado da cama, onde dois pequenos pontos pulsavam ritmicamente.

Emanuel aproximou-se com uma leveza que contrastava com seu tamanho. Ele pegou a mão dela e a beijou com uma reverência quase religiosa.

— Oi, pequena — ele sussurrou.

— Manu... você viu? — ela perguntou, a voz fraca, mas carregada de uma emoção pura. — São dois. Eu achei que era só uma dor ruim, mas são dois presentes.

— Eu vi, meu amor. Eu vi.

Sara aproximou-se do outro lado da cama, colocando a mão sobre a perna de Eduarda por cima do lençol.

— Você quase me matou do coração, garota. Se você fizer isso de novo, eu mesma te dou uma surra assim que você sair desse hospital.

Eduarda deu um sorriso fraco, sentindo o amor áspero e sincero de Sara.

— Desculpa, Sara. Eu não sabia.

— Pois agora sabe. E trate de se preparar, porque se a Valentina já ia dar trabalho, imagine esses dois — Sara olhou para o monitor, um brilho de ternura cruzando seu rosto. — Já pensou em nomes ou vai esperar o Emanuel decidir tudo com aquela lógica chata dele?

Eduarda olhou para Emanuel e depois para Sara. Ela parecia ter pensado nisso no momento em que ouviu os dois corações pela primeira vez na sala de exames.

— Se for um menino e uma menina... eu queria que se chamassem Amélie e Benício.

Emanuel sentiu um nó na garganta. Os nomes soavam perfeitos. Amélie, como a delicadeza que Eduarda exalava; e Benício, o abençoado, aquele que sobreviveu à tempestade.

— Amélie e Benício — Emanuel repetiu, saboreando as palavras. — São nomes lindos, Duda. Perfeitos.

— E a Valentina vai mandar nos dois, é claro — Sara brincou, tentando aliviar a carga emocional do ambiente. — Mas eu aceito. São nomes chiques. Combinam com a linhagem.

Emanuel olhou para as duas mulheres à sua frente. Sara, com sua força vulcânica e sua gravidez radiante; Eduarda, com sua doçura resiliente e a fragilidade que agora carregava o peso dobrado de um milagre. Ele se sentiu o homem mais rico do mundo, não pelos estúdios espalhados pelo globo ou pelo saldo bancário, mas por ser o eixo central daquelas vidas.

— Eu vou cuidar de vocês — Emanuel prometeu, a voz assumindo aquele tom de aço que não admitia contestações. — De todos vocês. Ninguém mais vai sair dessa casa sem a minha autorização. Eduarda, o ballet acabou por tempo indeterminado. Sara, a loja vai ser gerida pelo computador da sala. Eu vou transformar aquela fazenda em um bunker de luxo se for preciso.

Eduarda fez um pequeno biquinho, a manha voltando aos poucos enquanto se sentia segura sob o domínio dele.

— Mas Manu, o espetáculo...

— O espetáculo agora é aqui, Eduarda — ele interrompeu, beijando-lhe a testa. — A dança desses dois corações é a única que me interessa agora.

Sara revirou os olhos, mas não protestou. Ela sabia que, por trás daquele controle obsessivo, havia um homem que daria a vida para garantir que Valentina, Amélie e Benício chegassem ao mundo com segurança.

— Três bebês, Emanuel — Sara murmurou, encostando a cabeça no ombro dele enquanto olhavam para Eduarda. — Você vai ficar louco.

— Talvez — Emanuel respondeu, envolvendo as duas em um abraço coletivo, cuidadoso para não pressionar as barrigas. — Mas vai ser a loucura mais perfeita da minha vida.

O quarto de hospital, com suas paredes brancas e cheiro de antisséptico, tornou-se o cenário de um novo começo. A teimosia de Eduarda, a vulgaridade elegante de Sara e a proteção feroz de Emanuel haviam se fundido em algo inquebrável. O sangue que manchara a renda do pijama fora apenas o sinal de que a vida, em toda a sua complexidade, estava lutando para florescer. E, sob a guarda de Emanuel, nada ousaria interromper aquela floração.

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