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O Espetáculo do Sangue Doce e o Veneno do Enjoo
O quarto de repouso na mansão de Emanuel parecia uma extensão de uma clínica de luxo, se não fosse pelo caos cromático instalado por Sara. O ar-condicionado mantinha a temperatura estável, mas o clima entre os três era de uma tensão abafada, filtrada pelo cheiro de antisséptico e pelo aroma ácido de produtos de limpeza. Emanuel andava de um lado para o outro, o celular em uma mão e um relatório médico na outra, enquanto seus olhos, escuros de preocupação, não saíam de Eduarda.
Eduarda estava sentada no meio da cama king-size, cercada por travesseiros de seda. Ela usava uma camisola de renda branca que a fazia parecer uma boneca de porcelana prestes a trincar. O que destoava da imagem angelical era a tigela de cristal enorme em seu colo, transbordando de cerejas frescas e geladas. Seus dedos estavam manchados de um vermelho escuro, quase como se ela tivesse acabado de sair de uma cena de crime, e seus lábios brilhavam com o suco da fruta.
— Eu já disse que não, Eduarda. E se você me perguntar mais uma vez, eu vou confiscar esse seu estoque de cerejas — Emanuel disse, parando aos pés da cama. A voz dele era firme, o tom de quem comanda estúdios em Londres e Nova York, mas havia uma rachadura de cansaço nela.
— Mas Manu... — Eduarda começou, e o nome dele saiu arrastado, carregado de uma melancolia que só os hormônios de gêmeos e o temperamento manhoso dela poderiam produzir. Uma lágrima solitária rolou pelo seu rosto pálido, traçando um caminho por cima da bochecha. — É o papel da minha vida. Eu sou a Giselle. O figurino está pronto, o teatro está vendido. Eu não posso deixar a companhia na mão.
— Você teve um descolamento de placenta há menos de duas semanas! — Emanuel explodiu, embora tenha baixado o tom imediatamente ao ver o lábio dela tremer. — Você tem dois corações batendo aí dentro que dependem da sua imobilidade. Você não vai subir em um palco, não vai calçar sapatilhas e, por Deus, você não vai saltar!
Eduarda soluçou, levando mais duas cerejas à boca ao mesmo tempo. O contraste entre o choro convulsivo e a mastigação rítmica era quase cômico, se não fosse desesperador.
— Você é um monstro! — ela exclamou, as palavras saindo abafadas pela fruta. — Você quer me transformar em um vaso de plantas. Eu estou me sentindo bem! A dor passou, o sangramento parou... eu só preciso dançar o primeiro ato, a parte leve...
— Nem o primeiro ato, nem o ensaio, nem um passo de polca no corredor! — Emanuel rebateu, passando a mão pelo rosto. — Sara, fale com ela. Pelo amor de tudo o que é sagrado, convença essa menina de que ela vai matar o pai dos filhos dela de um infarto.
Sara estava jogada em uma poltrona no canto do quarto, o rosto escondido atrás de uma máscara de gel gelada. Ela usava um robe de cetim dourado que deixava suas pernas siliconadas à mostra, mas sua postura habitual de confiança absoluta estava abalada. Ao ouvir o nome dela, Sara soltou um gemido que parecia vir das profundezas de sua alma.
— Não fale comigo, Emanuel. Não fale, não respire na minha direção e, principalmente, não deixe o cheiro dessas cerejas chegar perto do meu nariz — a voz de Sara estava rouca, desprovida de sua ironia ácida habitual.
Ela retirou a máscara de gel, revelando um rosto pálido e olhos que pareciam odiar o mundo.
— Duda, querida... eu te amo, eu realmente te amo — Sara disse, fazendo um esforço hercúleo para se sentar ereta —, mas se você falar de ballet mais uma vez, eu vou vomitar no seu tapete persa. Eu estou enjoada desde as quatro da manhã. A Valentina decidiu que hoje o café da manhã dela seria o revestimento do meu estômago.
— Mas Sara, você sempre me apoia! — Eduarda choramingou, esticando a mão manchada de vermelho em direção à loira. — Você sabe como é importante. O Manu está sendo um ditador. Ele quer me trancar na fazenda, ele quer me tirar o palco...
— Ele está sendo um homem que não quer enterrar a mulher e os filhos, sua pirracenta! — Sara disparou, mas logo se calou, levando a mão à boca e fechando os olhos com força enquanto uma onda de náusea a atingia. — Ai, meu Deus... Emanuel, tira esse balde de cerejas daqui. O cheiro de fruta doce está me matando.
— Viu só? — Emanuel aproveitou a deixa, aproximando-se da cama para pegar a tigela. — Você está deixando a Sara mal.
— Não! — Eduarda abraçou a tigela de cristal como se fosse um tesouro sagrado, os olhos arregalados de pânico. — É a única coisa que eu consigo comer sem sentir vontade de chorar mais! Se você tirar minhas cerejas, Emanuel, eu juro que eu fujo de casa!
Emanuel parou, os braços caindo ao lado do corpo em um gesto de pura derrota. Ele olhou para a morena, que chorava copiosamente enquanto cuspia um caroço de cereja na mão, e depois para a loira, que parecia prestes a desmaiar de enjoo a qualquer momento.
— Eu sou um homem de negócios — Emanuel murmurou para o teto, como se buscasse uma explicação divina. — Eu gerencio crises internacionais. Eu lido com artistas temperamentais e contratos de milhões. Por que eu não consigo lidar com duas mulheres grávidas em um quarto?
— Porque nós somos mais inteligentes que seus tatuadores, Manu — Sara disse, a voz abafada pelo travesseiro onde agora escondia o rosto. — E porque você nos ama. Agora, pelo amor de Deus, traga um biscoito de água e sal e um balde. O mundo está girando.
Emanuel suspirou, saindo do quarto por um momento para pedir aos empregados o que Sara precisava. Quando voltou, Eduarda tinha parado de chorar por um instante, mas mantinha uma expressão de mágoa profunda, os olhos fixos na janela que dava para os jardins da mansão.
— Duda — ele chamou suavemente, sentando-se ao lado dela e afastando uma mecha de cabelo castanho do rosto dela. — Escute o que eu vou te propor.
Eduarda não olhou para ele, apenas colocou mais uma cereja na boca, as bochechas infladas.
— Eu não vou te deixar dançar agora. Não há negociação sobre isso. O risco para a Amélie e para o Benício é real. Se algo acontecer com eles por causa de uma teimosia sua, você nunca vai se perdoar. E eu nunca vou me perdoar por ter permitido.
— Mas é o meu sonho... — ela sussurrou, a voz quebrada.
— Eu sei. E é por isso que eu comprei o teatro — Emanuel disse calmamente.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Sara levantou a cabeça da poltrona, esquecendo o enjoo por um segundo. Eduarda finalmente virou o rosto para ele, os olhos castanhos muito abertos.
— Você o quê?
— O teatro onde a companhia se apresenta. Eu comprei o prédio e a concessão da temporada — Emanuel explicou, a voz assumindo o tom prático de quem resolve problemas com dinheiro e poder. — O espetáculo de "Giselle" vai ser adiado. Eu já falei com o Ricardo. Ele vai receber o salário integral de todos os bailarinos pelos próximos seis meses, pagos por mim. A estreia vai ser daqui a um ano. Quando você estiver recuperada, quando os bebês estiverem fortes. Vai ser o seu retorno triunfal.
Eduarda piscou, as lágrimas parando de cair.
— Você adiou... o espetáculo inteiro? Por minha causa?
— Ninguém dança Giselle naquela palco se não for você, pequena — Emanuel disse, acariciando o rosto dela com o polegar. — Mas para isso, você tem que estar viva e saudável. Você entende agora? Eu não estou tirando o seu sonho. Estou apenas garantindo que você esteja lá para vivê-lo.
Eduarda soltou a tigela de cerejas sobre a cama e se jogou nos braços de Emanuel, soluçando novamente, mas desta vez era um choro de alívio e gratidão. Ela se aninhou no peito dele, manchando a camisa social branca dele com o suco vermelho das cerejas que ainda tinha nas mãos.
— Você é louco, Manu... completamente louco — ela murmurou contra o peito dele.
— Sou louco por vocês — ele respondeu, apertando-a com cuidado.
— Que romântico — Sara comentou da poltrona, a voz ainda carregada de náusea. — Ele compra teatros, eu ganho baldes e a Duda ganha cerejas. A hierarquia desta casa está muito clara.
Emanuel riu, um som raro e genuíno que pareceu dissipar a tensão do quarto. Ele estendeu o braço livre para Sara, chamando-a.
— Vem aqui, loira.
Sara levantou-se com dificuldade, caminhando até a cama com passos instáveis. Ela se sentou do outro lado de Emanuel, apoiando a cabeça no ombro dele e fechando os olhos.
— Se você rir do meu estado, Emanuel, eu juro que te processo — ela ameaçou, mas sua mão buscou a de Eduarda sobre a colcha.
As duas mulheres, tão diferentes em tudo — uma vulcânica e decidida, a outra etérea e manhosa —, estavam ali, unidas pelo homem que era o alicerce de ambas. Emanuel olhou para o topo da cabeça de cada uma, sentindo o peso da responsabilidade e a imensidão do afeto.
— Nós vamos para a fazenda amanhã — Emanuel decretou, mas desta vez não houve protesto. — A Duda vai ter todas as cerejas do mundo e o ar puro vai ajudar com os seus enjoos, Sara. Eu vou levar o escritório para lá.
— E as minhas aulas de História da Arte? — Eduarda perguntou, a manha voltando à voz enquanto ela limpava as mãos na toalha que Emanuel lhe entregou.
— Você vai ter aulas particulares via internet. E eu vou trazer os professores que você quiser para dar palestras na sala de jantar — Emanuel respondeu, sem deixar espaço para discussões. — O mundo vai parar para que vocês duas possam gerar esses bebês em paz. É a minha última palavra.
Eduarda suspirou, pegando a última cereja da tigela e oferecendo-a a Emanuel.
— Você é um ditador muito generoso, Manu.
— Eu sou um homem que sabe o que tem a perder — ele disse, aceitando a fruta.
Sara soltou um suspiro longo, parecendo finalmente encontrar um pouco de paz enquanto a náusea diminuía momentaneamente.
— Três bebês... — ela murmurou. — Valentina, Amélie e Benício. Emanuel, você tem noção de que a sua vida de silêncio e ordem acabou para sempre?
Emanuel olhou para as duas, para o quarto bagunçado, para as manchas de cereja na sua camisa cara e para o brilho de esperança nos olhos de Eduarda.
— O silêncio nunca me deu o que vocês me dão — ele respondeu, beijando a têmpora de Sara e depois a de Eduarda. — Eu prefiro o caos de vocês do que a paz de qualquer outro lugar.
Naquela tarde, enquanto o sol se punha sobre a cidade, a mansão de Emanuel não era mais apenas um monumento à sua riqueza. Era um ninho, um refúgio onde a fúria, a manha e o enjoo conviviam em uma harmonia torta, mas inquebrável. O espetáculo de ballet podia esperar, as roupas de grife de Sara podiam ficar guardadas por um tempo, e a autoridade de Emanuel continuaria sendo testada a cada minuto. Mas, ali, naquele quarto, o mundo estava exatamente onde deveria estar: sob o olhar atento do homem que faria qualquer coisa para manter suas duas rainhas e seus pequenos herdeiros protegidos de tudo, inclusive de si mesmos.