D
O Refúgio das Cerejas e o Duelo das Matriarcas
A fazenda da família de Emanuel, um refúgio de arquitetura colonial impecável cercado por colinas verdejantes e ar puro, deveria ser o ápice da paz. No entanto, para Emanuel, parecia que ele havia apenas trocado o campo de batalha urbano por um cenário rural mais espaçoso. O cheiro de terra molhada e café fresco era agora o pano de fundo para a complexa sinfonia de hormônios, desejos e, para sua completa falta de sorte, a chegada das sogras.
Emanuel estava na varanda, observando o horizonte com uma xícara de café preto na mão. Ele usava calças de sarja e uma camisa de linho leve, tentando, sem sucesso, baixar a guarda. Dentro da casa, o som de vozes femininas potentes indicava que o isolamento que ele tanto planejou havia sido infiltrado.
— Emanuel! Onde você colocou as caixas que chegaram de Milão? — a voz de Beatriz, sua mãe, ecoou pelo corredor.
Antes que ele pudesse responder, outra voz, mais aguda e carregada de um sotaque carregado de pretensão, sobrepôs-se à primeira.
— Beatriz, querida, não se preocupe com caixas agora. Eu trouxe o que realmente importa para a minha neta. Valentina merece o melhor, e não essas coisas rústicas de interior — disse Helena, a mãe de Sara.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. Helena era a versão de Sara sem o filtro da juventude e com o dobro do narcisismo. Já Beatriz era a elegância contida, mas com uma possessividade silenciosa sobre o filho e agora sobre os netos.
Ao entrar na sala de estar, Emanuel deparou-se com uma cena digna de um filme de época. Sara estava sentada em uma poltrona de veludo, usando um robe de seda esmeralda que realçava seu loiro platinado, observando a mãe com uma mistura de tédio e diversão. Eduarda, por outro lado, estava quase escondida em um canto do sofá, com uma bacia de prata cheia de cerejas no colo. Seus dedos estavam manchados de carmesim, e ela parecia alheia ao mundo, focada apenas na doçura ácida da fruta.
— Manu... — Eduarda murmurou, os olhos castanhos brilhando com uma umidade súbita. — Acabou a Coca-Cola de cereja.
Emanuel aproximou-se dela, ignorando as duas senhoras que disputavam espaço na mesa de centro com presentes.
— Pequena, nós já conversamos sobre isso — ele disse, a voz suavizando-se instantaneamente enquanto ele se agachava à frente dela. — O médico disse que o excesso de açúcar e cafeína não faz bem para o Benício e para a Amélie. Você já comeu quase um quilo de cerejas naturais hoje.
— Mas não é a mesma coisa! — Eduarda soluçou, uma lágrima caindo diretamente sobre uma cereja meio mastigada. — A de lata tem aquele gosto de... de felicidade proibida. Você é mau, Emanuel.
— Eu sou protetor, Duda. É diferente — ele respondeu, limpando o canto da boca dela com o polegar.
— Deixe a menina, Emanuel! — Helena interveio, aproximando-se com uma sacola de uma grife infantil famosíssima. — Se ela quer refrigerante, dê a ela. Gravidez é época de vontades. Veja, Sara, o que eu trouxe para a Valentina. É um conjunto de berço bordado com fios de ouro. Nada menos que o melhor para a primeira neta.
Sara arqueou uma sobrancelha, pegando o tecido fino.
— É bonito, mamãe. Mas Valentina vai provavelmente vomitar nele nos primeiros cinco minutos. Você sabe como ela é intensa, igual à mãe.
Beatriz, a mãe de Emanuel, deu um sorriso educado, mas gélido. Ela aproximou-se de Eduarda, ignorando Helena.
— Eu também trouxe algo. Mas eu pensei em todos os meus netos. Afinal, a família está crescendo de forma... inesperada, mas abençoada.
Beatriz abriu uma caixa de madeira de sândalo. De dentro, ela retirou uma boneca de porcelana de luxo, uma peça de colecionador com um vestido de renda francesa feito à mão, olhos de vidro que pareciam reais e pequenos sapatinhos de verniz.
— Esta é para a Amélie — disse Beatriz, colocando a boneca cuidadosamente no colo de Eduarda, ao lado da bacia de cerejas. — E tenho conjuntos de linho bordados para o Benício e para a Valentina também. Mas esta boneca... esta é uma herança da nossa família.
Eduarda parou de mastigar por um momento, olhando para a boneca com os olhos arregalados. A delicadeza do brinquedo parecia refletir sua própria imagem.
— Ela é... linda — sussurrou Eduarda, voltando a chorar, desta vez sem saber se era pela boneca, pela falta do refrigerante ou simplesmente porque o sol estava batendo de um jeito diferente na cortina.
Helena soltou uma risada curta e sarcástica.
— Uma boneca de porcelana para uma bebê? Beatriz, por favor. Isso é decoração, não é presente. Valentina deveria ter ficado com essa boneca. Ela é a primogênita, a que vai carregar o legado da loja de Sara. Essa menina... — Helena apontou vagamente para Eduarda — ...mal consegue segurar uma bacia de frutas sem se manchar toda. A boneca vai acabar quebrada ou suja de calda de cereja em dois dias.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Emanuel sentiu a mandíbula travar. Ele deu um passo à frente, sua presença tornando-se subitamente ameaçadora, o tipo de aura que fazia seus tatuadores mais brutos baixarem a cabeça.
— Helena — a voz de Emanuel era um aviso de baixa frequência —, você está na minha casa. A Eduarda é a mãe de dois dos meus filhos, assim como a Sara é a mãe da Valentina. Não haverá distinção, e não haverá insultos. A boneca é da Amélie porque minha mãe decidiu assim. E se você abrir a boca para menosprezar a Duda novamente, eu mesmo levo suas malas até o portão da fazenda.
Sara soltou um assobio baixo, divertindo-se com a fúria do marido.
— Uau, mamãe. Você conseguiu irritar o urso. Eu se fosse você, ficava quieta e bebia um chá.
Helena bufou, sentando-se com as costas rígidas, mas não disse mais nada. Ela sabia que Emanuel não blefava.
Eduarda, alheia à tensão política entre as sogras, abraçou a boneca de luxo contra o peito, sujando levemente a renda do brinquedo com o suco de cereja que ainda tinha nos dedos.
— Ela tem cheiro de flores, Manu — Eduarda soluçou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel quando ele se sentou ao lado dela. — Por que eu estou chorando? Eu estou feliz, não estou?
— São os hormônios, pequena — Emanuel murmurou, passando o braço por cima dos ombros dela, puxando-a para perto. — E a fome.
— Eu quero Coca-Cola de cereja — ela insistiu, fazendo um biquinho irresistível, os olhos brilhando com uma nova onda de lágrimas. — Só um gole? Por favor, Manu... pela Amélie? Pelo Benício? Eles estão pedindo. Eu sinto eles chutando por cafeína.
— Eles têm dez semanas, Eduarda. Eles não chutam por cafeína — Emanuel retrucou, mas sua resistência estava desmoronando, como sempre acontecia diante daquela manha específica.
— Eu também quero algo gelado — Sara interveio, abanando-se com a mão. — Mas eu quero algo que não me faça querer colocar meus órgãos para fora. Emanuel, peça para alguém trazer água tônica com muito gelo e limão. E Helena, pare de olhar para a boneca da Amélie como se fosse roubá-la. Valentina vai ter diamantes se eu quiser, não precisa cobiçar a porcelana da Duda.
Beatriz sorriu vitoriosa, sentando-se na poltrona oposta.
— Fico feliz que tenha gostado, Eduarda. E não se preocupe com as manchas. Renda antiga tem história, e manchas de cereja fazem parte da sua história agora.
Emanuel olhou para as quatro mulheres na sala. Sua mãe, elegante e estrategista; sua sogra, amarga e competitiva; Sara, vibrante e impaciente; e Eduarda, o coração sensível e doce de tudo aquilo. Ele se sentia exausto, mas havia uma satisfação estranha em ver que, apesar das farpas, elas estavam todas ali, sob seu teto, sob sua proteção.
— Vou buscar a sua Coca-Cola, Eduarda — Emanuel cedeu, levantando-se com um suspiro de derrota. — Mas só uma lata pequena. E você vai beber metade de um copo de água para cada gole dessa coisa.
Eduarda deu um grito de alegria contido, pulando levemente no sofá e abraçando a boneca e a bacia de cerejas ao mesmo tempo.
— Você é o melhor homem do mundo! — ela exclamou, as lágrimas secando instantaneamente, substituídas por um sorriso radiante.
— Eu sou um fraco, isso sim — Emanuel resmungou, mas havia um sorriso de canto de boca enquanto ele caminhava em direção à cozinha.
— Ele nos ama, Duda — Sara disse, esticando as pernas e fechando os olhos. — Ele só gosta de fingir que manda em alguma coisa. No fundo, ele é apenas o segurança particular das nossas vontades.
— E dos nossos bebês — Eduarda completou, pegando mais uma cereja e olhando para a boneca de luxo. — Amélie, você viu? O papai vai trazer o remédio doce da mamãe.
Na cozinha, Emanuel abria a geladeira, pegando a lata vermelha que ele mesmo havia escondido no fundo da gaveta de vegetais, prevendo que aquele momento chegaria. Ele sabia que a paz na fazenda era uma ilusão, que os próximos meses seriam repletos de choros sem motivo, disputas entre as avós e desejos gastronômicos bizarros.
Mas, enquanto ele voltava para a sala e via Eduarda batendo palminhas de alegria e Sara dando ordens para Helena sobre como organizar os novos sapatinhos de Valentina, Emanuel percebeu que aquele caos era o seu império. E ele não o trocaria por nenhum silêncio no mundo.
— Aqui está — ele disse, entregando a lata para Eduarda.
Ela abriu a bebida com um estalo satisfatório, o aroma artificial de cereja misturando-se ao cheiro das frutas frescas. Ela deu um gole, fechou os olhos e suspirou de puro prazer.
— Agora eu posso viver — ela declarou.
Emanuel sentou-se entre as duas, uma mão na barriga de Sara e a outra acariciando o cabelo de Eduarda. As sogras continuavam a trocar farpas veladas sobre a decoração do quarto, mas ele não ouvia mais. O som dos corações que batiam ali, o calor das mulheres que ele amava e o sabor doce e caótico daquela nova vida eram tudo o que importava. A fazenda podia não ser o refúgio de silêncio que ele imaginou, mas era, sem dúvida, o lugar onde o seu mundo estava finalmente completo.