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O Algema da Doçura e o Labirinto da Manha

A fazenda estava mergulhada em um silêncio bucólico, mas dentro da suíte master, a atmosfera era de um suspense elétrico. O sol da tarde começava a declinar, tingindo as cortinas de linho com tons de âmbar. Emanuel estava deitado na cama, os olhos fechados, aproveitando um raro momento de quietude. A gravidez dupla em sua vida o transformara em um homem em estado de alerta perpétuo. Sara, com seis meses, ostentava uma barriga imponente e um humor que oscilava entre a luxúria e a fúria. Eduarda, com cinco meses, estava na fase mais manhosa de sua vida, carregando Amélie e Benício com uma delicadeza que fazia Emanuel querer mantê-la em uma redoma de vidro.

Eduarda entrou no quarto com passos leves, quase etéreos. Ela usava um vestido de seda azul-bebê que marcava a barriga redonda e perfeita. Suas mãos tremiam levemente. Ela havia cometido um erro. Havia desobedecido a ordem expressa de Emanuel de não subir as escadarias do sótão para buscar seus antigos cadernos de desenho, e pior, havia feito isso sozinha, tropeçando no último degrau. Ela estava bem, os bebês estavam bem, mas o susto fora real. E ela sabia: se Emanuel descobrisse por terceiros, a fazenda tremeria com seu rugido.

— Manu... — ela sussurrou, aproximando-se da cama.

Emanuel abriu um olho, um sorriso de canto de boca surgindo ao ver sua pequena bailarina.

— Oi, minha vida. Onde você estava? Estava quieta demais.

— Eu tenho uma surpresa para você — disse ela, a voz carregada de uma timidez calculada.

Antes que ele pudesse processar a frase, Eduarda agiu com uma agilidade que ele não esperava de uma grávida de cinco meses. Ela pegou o par de algemas de aço — um item que Emanuel mantinha para as noites de jogos mais intensos com Sara — e, em um movimento rápido, prendeu o pulso direito dele à cabeceira de ferro forjado da cama.

— Eduarda? O que é isso? — Emanuel riu, achando que era uma brincadeira erótica. — A Sara te deu aulas particulares?

Mas o riso dele morreu quando ela prendeu o outro pulso. Eduarda não estava sorrindo de forma sedutora; ela parecia uma criança que tinha acabado de quebrar um vaso valioso.

— Manu, eu preciso te contar uma coisa e eu sei que você vai querer sair correndo ou gritar comigo. E eu não quero que você se afaste.

Emanuel testou a resistência das algemas. O metal frio cortou sua pele. Sua expressão mudou instantaneamente de diversão para uma seriedade perigosa.

— Eduarda, solte isso agora. Você sabe que eu odeio perder o controle da situação sem aviso prévio.

— Eu subi no sótão, Manu — ela disparou, as palavras saindo como um rio represado. — Eu sei que você proibiu. Eu sei que as escadas são perigosas. E eu caí. Não foi uma queda feia, eu caí sentada, mas eu desobedeci. E eu tive medo de te contar porque você ia me trancar no quarto para sempre.

O silêncio que se seguiu foi aterrador. As veias no pescoço de Emanuel saltaram. Seus olhos escureceram, faíscas de fúria genuína queimando ali.

— Você o quê? — A voz dele era um trovão baixo. — Você subiu aquelas escadas podres? Grávida de gêmeos? Sozinha?

— Manu, não grita! — Ela subiu na cama, sentando-se a cavalo sobre o colo dele. A barriga de cinco meses pressionava levemente o abdômen firme de Emanuel. — Eu estou bem! Os bebês chutaram logo depois. Foi só um susto.

— Solte-me agora, Eduarda! — ele rugiu, tentando puxar os braços, fazendo a cabeceira da cama ranger. — Agora! Eu vou te levar para o hospital para fazer um ultrassom, e depois nós vamos ter uma conversa muito séria sobre a sua total falta de juízo!

— Não! — Ela se inclinou, começando a distribuir beijinhos pelo pescoço dele, sentindo o pulso acelerado de Emanuel sob sua boca. — Eu não vou soltar até você prometer que não vai ficar furioso. Eu fiz manha, eu fui pirracenta, eu sei. Mas eu estou aqui, inteira.

— Eduarda, isso não é uma brincadeira! — Emanuel tentava desviar o rosto, mas a proximidade dela era inebriante. — Você colocou a sua vida e a dos meus filhos em risco por causa de cadernos de desenho? Você tem noção do que eu sinto quando penso que algo pode acontecer com você?

Eduarda começou a se esfregar nele, um movimento lento e manhoso, sentindo a ereção de Emanuel começar a ganhar vida sob a calça de linho, apesar da raiva dele. Ela era pequena, mas sabia exatamente como usar o próprio corpo para desarmar o gigante.

— Desculpa, meu amor... desculpa o seu anjinho teimoso — ela murmurou, roçando os seios, agora maiores e mais sensíveis pela gravidez, contra o peito dele.

— Não tente me seduzir para fugir da bronca, Duda! — Emanuel exclamou, embora sua respiração estivesse ficando pesada. — Solte essas algemas. É uma ordem!

Eduarda enfiou a mão no bolso do vestido para pegar a chave, mas seus dedos encontraram apenas o vazio. Seu rosto empalideceu. Ela procurou no outro bolso. Nada. Ela olhou para o tapete felpudo ao lado da cama.

— Manu... — a voz dela falhou.

— O que foi agora? — Emanuel perguntou, a fúria dando lugar a uma suspeita perturbadora.

— Eu... eu acho que a chave caiu quando eu pulei em cima de você.

Emanuel fechou os olhos e soltou um grunhido de pura frustração.

— Procure, Eduarda. Procure agora.

Ela desceu do colo dele, ficando de joelhos na cama e depois descendo para o chão, tateando o tapete, olhando debaixo das mesas de cabeceira. O pânico começou a tomar conta dela.

— Eu não estou achando, Manu! Ela deve ter escorregado para debaixo do tablado da cama ou para dentro do ralo do banheiro quando eu passei por lá!

— Eduarda! — Emanuel gritou, o som ecoando por toda a casa. — Você me algemou na cama e perdeu a chave? Você tem noção do nível de irresponsabilidade disso?

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Sara entrou, usando um vestido justo de oncinha que deixava seu barrigão de seis meses em evidência. Ela segurava um copo de suco verde e olhou para a cena com uma sobrancelha arqueada.

— Mas o que é isso? — Sara começou a rir, uma gargalhada vulgar e sonora que preencheu o quarto. — Emanuel, querido, eu sabia que a Duda tinha um lado selvagem, mas prender você para ouvir as reclamações dela é um novo nível de genialidade.

— Sara, não ria! — Emanuel rosnou. — Ela perdeu a chave. Chame o caseiro. Peça para ele trazer um alicate de pressão ou uma serra.

— Ah, não mesmo — Sara disse, sentando-se na poltrona e cruzando as pernas, observando o sofrimento do marido. — O caseiro está na cidade fazendo compras. E eu não vou deixar ninguém entrar aqui para ver o grande Emanuel, o mestre das tatuagens e dos negócios, preso como um escravo da própria bailarina. É poético demais.

— Sara, por favor! — Eduarda choramingou, voltando para a cama e sentando-se novamente no colo de Emanuel, buscando proteção mesmo sendo ela a causadora do caos. — Ele está muito bravo comigo.

— Ele tem razão em estar bravo, Duda — Sara disse, tomando um gole do suco. — Subir no sótão foi burrice. Mas algemar ele... ah, isso foi brilhante. Emanuel, aproveite o descanso. Você está sempre correndo atrás de nós, agora você vai ter que ficar parado e nos ouvir.

— Eu vou matar vocês duas — Emanuel murmurou, embora a fúria estivesse sendo lentamente substituída por uma resignação exausta.

Eduarda se aninhou no pescoço dele, escondendo o rosto.

— Não mata, Manu. A gente te ama.

— Você está sentada no meu colo, Eduarda — Emanuel disse, a voz rouca. — Eu estou algemado, excitado, furioso e preocupado. E você está pesando com dois bebês sobre a minha bexiga.

— É o seu castigo por ser tão mandão — Eduarda disse, recuperando um pouco da sua manha habitual ao ver que ele não ia conseguir sair dali para colocá-la de castigo.

— Sara, pegue o meu celular — Emanuel pediu. — Vou ligar para o chaveiro da cidade.

— O sinal está caído por causa da chuva de ontem, esqueceu? — Sara sorriu, levantando-se e caminhando até a cama. Ela acariciou o rosto de Emanuel com uma mão e o de Eduarda com a outra. — Relaxa, Manu. A Duda vai ficar aqui cuidando de você. Eu vou pedir para a cozinheira trazer o jantar aqui para o quarto. Vai ser uma noite em família... bem próxima.

— Eu odeio vocês — Emanuel disse, mas não resistiu quando Eduarda lhe deu um beijo casto nos lábios.

— Não odeia não — Eduarda sussurrou, ajeitando-se melhor no colo dele, sentindo-se segura no único lugar do mundo onde, mesmo algemado, Emanuel ainda era o seu porto seguro.

A noite caiu sobre a fazenda. Emanuel permaneceu preso, ouvindo Eduarda contar histórias sobre os quadros que queria pintar e Sara reclamar da azia, enquanto ambas o alimentavam com uvas e carinhos. Ele estava furioso, sim. Mas, ao sentir o movimento dos bebês contra o seu corpo através da barriga de Eduarda e ao ver o brilho possessivo nos olhos de Sara, ele soube que, embora estivesse em correntes de aço, a verdadeira prisão era o amor absoluto que sentia por aquelas duas mulheres impossíveis.

— Manu? — Eduarda chamou, quase dormindo sobre o peito dele horas depois.

— O que foi, pequena pirracenta?

— Amanhã você me ajuda a descer os cadernos do sótão?

Emanuel soltou um suspiro longo, fechando os olhos.

— Amanhã, Eduarda... amanhã eu vou trancar aquele sótão com sete chaves e jogar todas no fundo do rio.

— Eu te amo — ela murmurou.

— Eu também te amo — ele respondeu, a voz carregada de uma derrota doce. — Agora, por favor, tente achar essa chave antes que eu perca a circulação dos braços.

Sara, que já dormia na outra metade da cama, apenas murmurou algo sobre Valentina e diamantes, enquanto a lua iluminava o quarto, testemunha silenciosa do dia em que o protetor foi capturado pela própria proteção.

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