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O Labirinto de Ferro e a Rosa de Mármore

A brisa do mar trazia o cheiro de sal e iodo para dentro da imensa sala de estar da casa de praia. Era uma construção imponente, erguida sobre as rochas de uma enseada particular que pertencia aos pais de Emanuel há décadas. Ali, o som das ondas quebrando contra o granito servia como uma canção de ninar constante, mas o clima dentro da residência estava longe de ser pacífico.

Emanuel estava ajoelhado no tapete felpudo, focando toda a sua atenção em Sara. A loira, agora com a gravidez entrando em uma fase onde o peso de Valentina começava a cobrar seu preço, estava recostada em uma espreguiçadeira de design italiano. Emanuel massageava os pés dela com um óleo essencial aquecido, seus dedos fortes pressionando os pontos exatos de tensão.

— Assim, Manu... um pouco mais para a esquerda — murmurou Sara, fechando os olhos e soltando um suspiro de satisfação. — Essa menina está decidida a esmagar as minhas costelas hoje. Acho que ela herdou sua mania de ocupar espaço e mandar em tudo.

— Ela só quer atenção, igual à mãe — Emanuel respondeu, com um meio sorriso que raramente aparecia, mas que era dedicado exclusivamente a elas. — Você precisa descansar, Sara. O médico foi claro: nada de estresse, nada de caminhadas longas na areia e nada de administrar a loja por telefone até tarde da noite.

— Você é um ditador mimador, sabia? — Sara abriu um olho, observando o homem que, apesar de ser um dos tatuadores mais influentes e ricos do mundo, ali, aos seus pés, parecia apenas um homem devoto. — Mas eu aceito. Ser tratada como uma rainha é o mínimo que eu espero enquanto carrego sua herdeira.

Emanuel inclinou-se e beijou a barriga proeminente de Sara por cima do tecido fino do vestido.

— Você terá tudo o que quiser.

Enquanto o casal se perdia em sua dinâmica de cuidado e possessão, Eduarda observava-os da varanda. Ela sentia uma pontada de carinho, mas também uma inquietação que o mar não conseguia acalmar. Aos vinte anos, carregando gêmeos, a timidez de Eduarda havia se transformado em uma espécie de introspecção curiosa. Ela se sentia como uma estranha em uma terra de gigantes, sempre protegida, sempre vigiada.

— Manu, eu vou caminhar um pouco pela casa, tudo bem? — perguntou Eduarda, a voz doce e manhosa, aproximando-se do sofá. — Quero ver os quadros do corredor de novo.

Emanuel levantou o olhar, a expressão tornando-se protetora em um milissegundo.

— Não saia da casa, Duda. E não suba escadas. Se precisar de qualquer coisa, chame um dos seguranças ou a mim.

— Eu só vou olhar as fotos, prometo — ela disse, dando um beijo rápido no topo da cabeça de Emanuel e outro na bochecha de Sara, que apenas acenou com a mão, preguiçosa.

Eduarda caminhou pelos corredores da mansão. O lugar era um labirinto de memórias da família de Emanuel. Seus pais, embora jovens e cheios de vida, guardavam segredos nas paredes daquela casa que ela ainda não compreendia totalmente. Ela passou pela galeria de fotos, admirando Emanuel criança, já com aquele olhar sério e observador, até que chegou a uma ala da casa que parecia mais fria, menos iluminada.

No final de um corredor sem saída, atrás de uma tapeçaria pesada que retratava uma caçada medieval, Eduarda notou uma irregularidade na parede. Sua curiosidade, sempre aguçada pelo seu amor à História da Arte, a fez tatear o painel de madeira. Com um clique seco, uma parte da parede cedeu, revelando uma porta camuflada.

— O que é isso?... — sussurrou ela para si mesma, o coração batendo mais forte contra as costelas, onde Benício e Amélie pareciam acompanhar seu ritmo.

Ela empurrou a porta. O ar lá dentro era pesado, com cheiro de óleo de máquina, couro velho e metal frio. Ao acender a luz, Eduarda sufocou um grito. Não era uma sala de memórias, era um arsenal.

Paredes inteiras estavam cobertas por rifles de precisão, pistolas automáticas de diversos calibres e facas táticas que brilhavam sob a luz fluorescente. Pertenciam ao pai de Emanuel, um homem que, ela agora percebia, tivera uma vida muito mais perigosa do que o filho jamais admitira. Havia mapas marcados, maletas de alumínio e uma sensação de violência latente que contrastava violentamente com a doçura da vida que Eduarda tentava construir.

Tremendo, ela caminhou até o fundo da sala, onde uma porta de aço maciço estava entreaberta. Ela a empurrou, esperando encontrar mais armas, mas o que viu a deixou paralisada.

A porta levava a um jardim interno, um pátio escondido no coração da mansão, cercado por muros altos de pedra que impediam qualquer visão externa. Era um lugar de uma beleza fúnebre. As flores ali eram todas brancas — lírios e rosas — e o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som distante do mar.

No centro do jardim, sob a sombra de um chorão centenário, havia uma estrutura de mármore.

Eduarda aproximou-se, os passos vacilantes na grama perfeitamente aparada. Não era um monumento decorativo. Era um túmulo.

A lápide de mármore branco trazia um nome que ela nunca ouvira: *“Mariana — A Rosa que Não Floresceu. 1995-1995”*.

— Uma criança... — Eduarda levou a mão à boca, as lágrimas inundando seus olhos instantaneamente. — Emanuel tinha uma irmã?

Ela se ajoelhou diante do túmulo, sentindo uma tristeza avassaladora. O segredo daquela sala de armas e daquele jardim de morte parecia explicar muito sobre a obsessão de Emanuel por proteção. O medo de perder o que se ama estava cravado nos alicerces daquela casa.

— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?

O grito rasgou o silêncio como uma chicotada. Eduarda deu um sobressalto, caindo para trás na grama.

Emanuel estava parado na porta de aço, sua silhueta emoldurada pela luz artificial do arsenal. Ele parecia um demônio enfurecido. O rosto estava vermelho, as veias do pescoço saltadas, e seus olhos transbordavam uma fúria que ela nunca tinha visto direcionada a ela.

— Manu... eu... eu encontrei a porta... — ela começou a gaguejar, o corpo tremendo violentamente.

Emanuel atravessou o jardim em passos largos, pegando-a pelo braço com uma força que, embora não fosse para machucar, era bruta em sua urgência. Ele a levantou do chão quase de um só golpe.

— Você não tinha o direito! — ele rugiu, a voz ecoando nas paredes de pedra. — Eu dei ordens! Eu disse para ficar na sala! Por que você tem que ser tão pirracenta? Por que tem que bisbilhotar onde não é chamada?

— Eu só estava caminhando! — Eduarda soluçou, as lágrimas escorrendo livremente. — Manu, você está me assustando! Quem era Mariana? Por que há um túmulo aqui? E aquelas armas...

— NÃO É DA SUA CONTA! — Emanuel gritou, e o som foi tão alto que Sara, que estava vindo pelo corredor, apareceu na porta do arsenal, empalidecendo ao ver a cena.

— Emanuel! Solta ela! — Sara ordenou, sua voz habitual de comando agora carregada de preocupação real. — Você está perdendo o controle! Olha para ela, você vai fazê-la passar mal!

Emanuel pareceu despertar de um transe. Ele olhou para Eduarda, que estava encolhida, soluçando compulsivamente, as mãos protegendo a barriga onde os gêmeos pareciam se agitar em resposta ao estresse. Ele soltou o braço dela como se tivesse se queimado, mas a fúria ainda vibrava em seus ombros.

— Saiam daqui. As duas. Agora! — ele disse, a voz rouca e instável.

— Emanuel, a Duda encontrou o que você escondeu por anos — Sara disse, aproximando-se com dificuldade e abraçando Eduarda pelos ombros. — Não adianta gritar. O segredo acabou.

— Ela não deveria ter visto isso — Emanuel murmurou, virando as costas para elas e apoiando a testa no tronco do chorão, acima do túmulo de Mariana. — Ninguém deveria vir aqui. Este lugar é amaldiçoado.

Eduarda, apesar do medo, sentiu a dor profunda que emanava dele. A manha e a timidez deram lugar a uma intuição emocional que só ela possuía. Ela se soltou de Sara e, com passos lentos, aproximou-se de Emanuel pelas costas, abraçando sua cintura larga e encostando o rosto em suas costas.

— Ela era sua irmã, não era? — perguntou Eduarda em voz baixa, entre um soluço e outro.

Emanuel ficou rígido por um longo tempo. Então, seus ombros caíram. Ele se virou e envolveu Eduarda em um abraço desesperado, escondendo o rosto na curva do pescoço dela.

— Ela morreu com três meses — ele confessou, a voz abafada. — Meu pai... ele tinha inimigos. As armas no corredor não eram para caça, Duda. Eram para guerra. Ele falhou em protegê-la. O estresse, o medo... ela parou de respirar em uma noite de tempestade como esta. Meu pai construiu este jardim para que ela nunca ficasse sozinha no cemitério da cidade. Ele queria que ela ficasse perto das armas, para que ele pudesse protegê-la mesmo depois de morta.

Sara aproximou-se, colocando a mão nas costas de Emanuel. O triângulo de dor e amor estava completo sob a sombra do chorão.

— É por isso que você é assim — disse Sara, a voz suave. — Por isso os seguranças, por isso o controle, por isso o pânico toda vez que a Duda tropeça ou que eu tenho um enjoo mais forte. Você está tentando compensar o que seu pai não conseguiu fazer.

Emanuel levantou a cabeça, olhando para as duas mulheres grávidas à sua frente. A loira forte e a morena sensível.

— Eu não posso perder vocês — ele disse, a voz carregada de uma promessa sombria. — Se algo acontecer a Valentina, ou a Amélie, ou ao Benício... ou a vocês duas... eu não vou sobreviver. Eu não sou como meu pai. Eu vou queimar o mundo antes de deixar um fio de cabelo de vocês ser tocado.

Eduarda pegou a mão dele e a colocou sobre sua barriga, onde um chute forte pôde ser sentido.

— Eles estão bem, Manu. Nós estamos bem. Mas você precisa parar de lutar contra fantasmas. Mariana está em paz. Você não precisa transformar nossa casa em uma fortaleza de guerra.

Emanuel olhou para o túmulo de mármore e depois para o arsenal visível pela porta aberta. A fúria havia desaparecido, substituída por uma exaustão secular.

— Eu vou fechar esta ala da casa — ele decretou. — Vou tirar as armas daqui. Vou doar tudo. Este jardim... este jardim vai ser aberto. Mariana não precisa mais de armas ao redor dela. Ela precisa de vida.

— Podemos plantar flores coloridas? — perguntou Eduarda, a manha voltando aos poucos enquanto ela limpava o rosto. — Rosas vermelhas, margaridas... para que o Benício e a Amélie possam brincar aqui quando crescerem?

Emanuel olhou para ela, a doçura de Eduarda agindo como um bálsamo sobre suas feridas antigas.

— Sim, pequena. Flores coloridas.

Sara sorriu, cruzando os braços sobre a barriga.

— E eu quero uma rede aqui. Para eu poder mandar em vocês enquanto tomo meu suco de laranja.

Emanuel soltou uma risada curta, a primeira desde que o conflito começara. Ele beijou a testa de Eduarda e depois os lábios de Sara.

— Vocês vão acabar comigo.

— Nós vamos salvar você, Manu — corrigiu Eduarda, aninhando-se nele.

Eles saíram do jardim secreto, fechando a porta de aço para sempre naquelas memórias de ferro. A casa de praia, que antes parecia um labirinto de segredos, agora começava a respirar. Emanuel ainda seria protetor, ainda seria controlador e, às vezes, furioso, mas naquela noite, enquanto o som do mar embalava o sono das duas mulheres que ele amava, ele finalmente compreendeu que a maior segurança não vinha de um arsenal, mas do amor incondicional que florescia, vibrante e colorido, entre as paredes da sua própria alma.

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