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Entre o Caos de Laço Rosa e o Perfume de Alfazema
A manhã na mansão de Emanuel não havia começado com a serenidade que o mármore e o luxo sugeriam. Pelo contrário, o ambiente estava impregnado com o cheiro de café forte, talco de bebê e uma tensão crescente que emanava diretamente do dono da casa. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de jantar, tentava ler um relatório financeiro em seu tablet, mas sua concentração era estilhaçada a cada trinta segundos por um grito agudo ou um puxão insistente.
— Emanuel, você viu minha bolsa da Prada? Aquela verde? — Sara entrou na sala como um furacão loiro, equilibrando-se em saltos agulha enquanto tentava fechar o zíper de um vestido de seda curtíssimo. — Se eu me atrasar para a depilação, aquela mulher vai me cobrar o horário e eu vou odiar o mundo o dia todo.
— Está no aparador do hall, Sara — respondeu Emanuel, sem desviar os olhos da tela, embora o vinco entre suas sobrancelhas denunciasse sua irritação.
— Mamãe! Mamãe! — Ágata, que já demonstrava ter herdado a energia vulcânica da mãe, surgiu correndo pelo corredor. A menina de um ano agarrou-se à perna de Sara com uma força surpreendente, cravando as mãos gordinhas no tecido fino do vestido. — Ir junto! Ágata ir junto!
— Não, meu amor, a mamãe vai tirar os pelos para ficar bonita para o papai. Você fica com a Duda e o papai — disse Sara, tentando desvencilhar a filha com uma delicadeza impaciente.
— Não! Ir junto! — Ágata começou a chorar, um som que subia em oitavas perigosas, enquanto se jogava no chão, mantendo a mão firmemente presa ao salto de Sara.
Enquanto isso, no outro lado da sala, a cena era mais silenciosa, porém não menos caótica. Eduarda estava pronta para sair com Sara. Ela vestia um vestido de alças finas, de um tom azul-bebê que realçava sua pele clara e sua aura de doçura. Maya, no entanto, parecia ter pressentido a partida da "mãe". A menina estava literalmente grudada nas pernas de Eduarda, com o rosto enterrado no tecido do vestido.
— Maya, meu anjo, a mamãe Duda volta logo — Eduarda pediu, a voz manhosa e suave, tentando acariciar os cachos da menina. — O papai está aqui. Olha o papai!
— Não! — Maya soltou um grito abafado contra a coxa de Eduarda. Em um movimento brusco de frustração, a bebê puxou a barra do vestido de Eduarda para baixo com tanta força que as alças finas cederam.
— Ai meu Deus! — Eduarda exclamou, segurando o busto do vestido com as duas mãos antes que ele caísse completamente, revelando sua intimidade para quem estivesse na sala. — Maya, você quase me deixou nua, pequena!
Emanuel finalmente largou o tablet na mesa com um baque seco. Ele se levantou, a figura alta e tatuada projetando uma sombra de autoridade sobre a bagunça matinal. Ele estava irritado. O controle, algo que ele prezava acima de tudo, estava escorrendo por entre seus dedos devido a quatro palmos de altura de pura teimosia infantil.
— Chega — a voz de Emanuel ecoou, profunda e vibrante. — As duas. Agora.
Ele caminhou até Eduarda primeiro. Com uma mão, ele segurou a cintura dela, firmando-a, e com a outra, desencaixou os dedos de Maya das pernas da moça. A bebê começou a espernear, mas Emanuel a ergueu no ar com a facilidade de quem carrega um fardo de penas.
— Maya, comporte-se. A Eduarda vai sair e você vai ficar comigo. Entendido? — Ele olhou nos olhos da menina, que parou de chorar por um segundo, hipnotizada pela seriedade do "papai".
Em seguida, ele se virou para Sara, que ainda lutava com Ágata pendurada em seu calcanhar.
— Sara, pegue a Ágata. Leve-a para o cercadinho. Eu não vou ter um infarto antes das dez da manhã porque vocês não conseguem controlar duas crianças.
— Ah, não me venha com esse tom de 'chefe do império', Emanuel — Sara retrucou, finalmente conseguindo pegar Ágata no colo, embora a menina continuasse a chutar o ar. — Elas sentem o cheiro de liberdade. Elas sabem que a gente vai ter uma hora de paz sem fraldas e gritos e querem participar do crime.
Eduarda, ainda segurando as alças do vestido com o rosto corado de vergonha, aproximou-se de Emanuel.
— Desculpe, Manu... a Maya está muito manhosa hoje. Acho que são os dentes nascendo.
Emanuel olhou para Eduarda, e sua expressão suavizou instantaneamente. O contraste entre a vulgaridade vibrante de Sara e a fragilidade doce de Eduarda era o que mantinha seu equilíbrio. Ele puxou Eduarda para um beijo rápido e possessivo na testa.
— Vá se trocar, Duda. Use algo mais resistente. E você, Sara, pare de incentivar a Ágata a ser uma rebelde.
— Eu não incentivo, querido, é genético — Sara piscou para ele, entregando Ágata para a babá que acabara de entrar na sala, atraída pelo barulho. — Vamos, Duda? Antes que a Maya resolva usar seus cabelos como corda de rapel.
Eduarda correu para o quarto para ajustar o vestido, enquanto Emanuel permanecia no centro da sala, com Maya agora sentada em seu quadril, puxando uma de suas correntes de prata.
— Vocês não têm jeito — Emanuel resmungou para as paredes, embora o lampejo de um sorriso estivesse escondido nos cantos de sua boca.
Minutos depois, as duas mulheres estavam prontas para sair. Sara, exalando um perfume importado forte e doce, e Eduarda, com um cheiro suave de lavanda que parecia acalmar o ambiente por onde passava.
— Voltamos em duas horas — anunciou Sara, ajustando os óculos escuros de grife. — Tente não tatuar as meninas enquanto estivermos fora, Emanuel.
— Engraçadinha — ele rebateu, observando-as caminhar em direção à porta.
Assim que a porta principal se fechou, o silêncio caiu sobre a casa como um cobertor pesado. Emanuel olhou para as duas bebês. Ágata estava no chão, olhando para a porta com um beicinho desafiador, e Maya estava em seu colo, começando a soluçar baixinho de novo.
— Ótimo — Emanuel suspirou, sentando-se no tapete da sala. — Agora somos só nós. O que vocês querem fazer? Destruir mais algum móvel caro ou apenas me deixar louco de vez?
Ágata engatinhou até ele e puxou sua camiseta.
— Papá... brincar?
Emanuel olhou para a filha de Sara, vendo nela a mesma determinação que o atraíra na mãe. Depois olhou para Maya, a menina que ele escolhera como sua, que buscava seu calor com uma confiança absoluta.
— Tudo bem, vamos brincar — cedeu ele. — Mas se alguém perguntar, eu mantive a ordem e a disciplina como um general.
Enquanto isso, no carro, o clima era de alívio. Sara dirigia seu conversível com a capota fechada, enquanto Eduarda olhava pela janela, ainda sentindo o coração acelerado pelo episódio do vestido.
— Você viu a cara do Emanuel? — Sara perguntou, rindo. — Ele odeia quando perde o controle. Ele quer ser o centro do universo daquelas meninas, mas elas só querem saber da gente.
— Eu me senti tão mal, Sara — disse Eduarda, ajeitando o cabelo. — A Maya ficou tão desesperada. Às vezes eu acho que ela tem medo de que eu suma, como a prima fez.
Sara suavizou o tom, algo que raramente fazia, mas que acontecia com frequência quando estava a sós com Eduarda.
— Ela sabe quem é a mãe dela, Duda. Crianças sentem o amor. E você dá tanto amor para aquela menina que chega a ser irritante de assistir.
Eduarda sorriu, sentindo o calor da validação de Sara.
— E a Ágata? Ela é igualzinha a você.
— Deus me ajude — Sara suspirou, mas havia orgulho em sua voz. — Ela vai dar um trabalho infernal para o Emanuel quando fizer quinze anos. Eu mal posso esperar para ver ele lidando com os namoradinhos dela. Ele vai querer tatuar "propriedade privada" na testa de cada um.
As duas riram, uma risada que selava a união peculiar que compartilhavam. Não havia ciúme, não havia competição. Havia apenas a aceitação de que Emanuel era um homem grande demais para apenas uma mulher, e que elas, juntas, formavam o mosaico perfeito para a vida dele.
— Sabe, Duda — Sara disse, parando o carro em frente à clínica de estética —, o Emanuel me contou o que aconteceu na biblioteca ontem.
Eduarda sentiu o rosto queimar novamente.
— Sara... eu...
— Não comece com as desculpas — Sara a cortou, saindo do carro e dando a volta para abrir a porta para a amiga. — Eu te disse: o que faz ele feliz, me faz feliz. E vê-lo te possuindo daquele jeito... bom, digamos que isso também tem seus benefícios para mim mais tarde. Ele fica... inspirado.
Eduarda desceu do carro, grata pelos óculos escuros que escondiam sua timidez.
— Você é impossível, Sara.
— Eu sou necessária, querida. Agora vamos tirar esses pelos, porque se o Emanuel decidir ter outro "momento de inspiração" hoje à noite, eu quero estar impecável. E você também.
Dentro da clínica, enquanto esperavam serem chamadas, Eduarda observava Sara. A loira era uma força da natureza, uma mulher que não pedia permissão para existir. Eduarda, por outro lado, sempre fora a sombra, a bailarina que se movia com cuidado para não quebrar nada. Mas ali, com Sara, ela se sentia parte de algo maior.
— Você acha que ele vai conseguir lidar com elas sozinho? — perguntou Eduarda, preocupada.
— Emanuel é um tatuador rico que gerencia estúdios no mundo todo, Duda. Se ele não conseguir lidar com duas bebês de fralda, ele não merece o império que tem — Sara respondeu, folheando uma revista de moda. — Além disso, é bom para ele. Ele precisa entender que, na nossa hierarquia, as bebês mandam, nós governamos e ele... bom, ele providencia o financiamento e a proteção.
Na mansão, a situação era ligeiramente diferente do "general" que Emanuel pretendia ser. Ele estava deitado no chão, com Ágata sentada em sua barriga tentando colocar um laço rosa em seu cabelo curto, enquanto Maya usava seu braço tatuado como pista para um carrinho de plástico.
— Papá lindo! — Ágata exclamou, batendo palmas.
Emanuel suspirou, olhando para o teto. Ele era um homem de vinte e cinco anos, temido e respeitado no mundo das artes e dos negócios, e ali estava ele, servindo de acessório para uma criança de um ano.
— Sim, Ágata. O papai está uma princesa — ele murmurou.
O celular dele vibrou no chão. Era uma mensagem de Sara: "Espero que a casa ainda esteja de pé. Duda está preocupada com a Maya. Mande uma prova de vida."
Emanuel pegou o celular e tirou uma selfie. Na foto, ele aparecia com uma expressão de sofrimento cômico, com um laço rosa na cabeça, Maya mordendo seu ombro e Ágata rindo para a câmera. Ele enviou a foto com a legenda: "O império caiu. Mandem reforços e chocolate."
Segundos depois, o celular vibrou com a resposta de Eduarda: "Vocês estão lindos! Amo você, Manu. Cuida das nossas meninas."
E de Sara: "Vou emoldurar essa foto e colocar na recepção do estúdio principal. O 'Grande Emanuel' finalmente encontrou suas mestras."
Emanuel sorriu, bloqueando a tela. Ele sentiu uma onda de contentamento que nenhuma transação comercial jamais lhe dera. Ele tinha Sara, a chama que o desafiava. Tinha Eduarda, a luz que o acalmava. E tinha aquelas duas pequenas extensões de si mesmo que, embora o deixassem louco, eram a razão de tudo o que ele construía.
— Tudo bem, meninas — Emanuel disse, sentando-se e pegando as duas no colo, uma em cada braço. — Vamos para a cozinha. Acho que o papai merece um sorvete, e vocês merecem... bom, vocês merecem tudo.
Ele caminhou pela casa, sentindo o peso sólido e real de sua família. O caos matinal, os vestidos rasgados, a teimosia e a vulgaridade de Sara, a doçura tímida de Eduarda... tudo aquilo compunha a sinfonia da sua vida. E, enquanto ele desse as cartas, ninguém ousaria desafiar a harmonia daquele lar tão peculiar.