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O Voo da Fada e o Peso do Medo

O silêncio que reinava na mansão naquela madrugada era pesado, carregado com o cheiro metálico de remédios e o som abafado da chuva que batia contra as vidraças. Emanuel não dormia. Ele estava sentado na poltrona ao lado do berço de Ágata, observando o peito da filha subir e descer em um ritmo irregular. A menina, geralmente um dínamo de energia loira, estava prostrada por uma febre persistente que se recusava a ceder.

No quarto ao lado, ele sabia que Eduarda também não descansava. Ela estava com Maya, que havia passado a noite agitada, choramingando em sonhos. Emanuel sentia o peso do mundo em seus ombros. Ele era o porto seguro, o homem que resolvia tudo com um estalo de dedos ou uma transferência bancária, mas contra um vírus que deixava sua filha pálida e suada, ele se sentia impotente.

A porta do quarto se abriu silenciosamente. Sara entrou, vestindo um robe de seda preta que contrastava com a palidez de seu rosto. Sem a maquiagem impecável e o salto agulha, ela parecia mais jovem, quase vulnerável. Ela se aproximou e colocou a mão na testa de Ágata.

— Ainda está quente — sussurrou Sara, a voz rouca de preocupação. — Emanuel, você precisa deitar um pouco. Eu fico com ela agora.

— Não consigo — Emanuel respondeu, a voz seca. Ele pegou a mão de Sara e a apertou. — Onde está a Duda?

— Conseguiu fazer a Maya dormir agora pouco. Ela está exausta, Emanuel. Você sabe como a Duda é sensível, ela sente a dor das meninas como se fosse nela.

Emanuel assentiu. O equilíbrio daquela casa era delicado. Sara era a força que enfrentava a tempestade, e Eduarda era o coração que sentia cada gota de chuva. E ele era o muro que tentava cercar tudo.

A manhã chegou cinzenta. Ágata parecia um pouco melhor, a febre baixara para um estado subfebril, mas ela continuava manhosa, recusando qualquer comida que não fosse o purê de maçã que Eduarda preparava com paciência infinita.

— Come só um pouquinho, meu amor — pedia Eduarda, sentada na beira da cama de casal, onde Ágata estava instalada entre travesseiros. — A mamãe fez com muito carinho.

Maya, por outro lado, parecia ter acordado com uma energia renovada, quase maníaca, como se estivesse tentando compensar a prostração da irmã. Ela corria pelo quarto vestindo uma fantasia de fada que Sara trouxera da loja na semana anterior: um tutu de tule rosa, asas de acetato presas por elásticos e uma varinha de plástico que ela agitava freneticamente.

— Eu sou fada! — gritava Maya, pulando sobre os tapetes. — Eu voa, papai! Olha!

Emanuel, que tentava organizar alguns documentos no notebook sentado na poltrona, sorriu cansado para a filha.

— Você é a fada mais linda do mundo, Maya. Mas cuidado para não cair.

— Fada voa alto! — Maya insistiu, os olhos castanhos brilhando com uma convicção absoluta.

Sara estava no banheiro terminando de se arrumar, e Eduarda estava distraída tentando medir a temperatura de Ágata novamente, que começava a choramingar. Ninguém percebeu quando Maya, impulsionada pela lógica mágica de uma criança de pouco mais de um ano e meio que acabara de descobrir a liberdade de subir em móveis, escalou a poltrona que ficava rente à janela do segundo andar.

A janela estava entreaberta para circular o ar, protegida apenas por uma tela de segurança que, em teoria, deveria resistir a tudo. Mas a tela estava frouxa em um dos cantos, algo que Emanuel pretendia consertar no dia seguinte.

— Papai! Mamãe Duda! Olha eu voa! — O grito de Maya foi agudo e cheio de alegria.

Emanuel levantou os olhos bem a tempo de ver o vulto rosa do tutu desaparecer para fora da moldura da janela.

O tempo parou. O som do notebook caindo no chão foi o único ruído antes do grito gutural que rasgou a garganta de Emanuel.

— MAYA!

Eduarda soltou o termômetro, que se estilhaçou no chão, e correu para a janela ao mesmo tempo que Emanuel. Sara saiu do banheiro com o rosto metade maquiado, o coração disparado pelo terror na voz do marido.

Emanuel se debruçou para fora, a alma saindo pelo corpo. O segundo andar da mansão era alto, e abaixo daquela janela havia um canteiro de arbustos densos e, logo depois, o piso de pedra da área da piscina.

O que ele viu fez seus pulmões voltarem a funcionar, mas o tremor em suas mãos era incontrolável. Maya não havia caído no chão. As asas de plástico da fantasia haviam se enganchado em um suporte de ferro forjado de uma luminária de parede externa, logo abaixo do parapeito. A menina estava pendurada, balançando as perninhas no ar, a varinha de plástico ainda firmemente segura na mão.

— Papá? — A voz de Maya agora estava tremida. A gravidade finalmente começava a vencer a fantasia. O elástico das asas estava esticando, e o suporte de ferro não aguentaria muito tempo.

— Não se mexa, Maya! Pelo amor de Deus, não se mexa! — Emanuel ordenou, a voz saindo em um comando desesperado.

Eduarda estava em choque, as mãos pressionadas contra as bochechas, lágrimas jorrando sem parar. Ela tentou se inclinar, mas Emanuel a empurrou suavemente para trás.

— Sara, segura a Eduarda! — Emanuel gritou, já passando uma perna pelo parapeito.

— Emanuel, você vai cair! — Sara gritou, agarrando Eduarda pelos ombros, as duas mulheres unidas pelo terror absoluto.

Emanuel não ouviu. Seus músculos, treinados e firmes, reagiram por puro instinto de sobrevivência da prole. Ele se apoiou na borda da janela, sentindo o frio do metal sob as palmas suadas. Com um movimento preciso e perigoso, ele se esticou para baixo, os dedos roçando o tule rosa do vestido de Maya.

— Pega a mão do papai, Maya! Solta a varinha e pega a mão do papai! — Ele suplicava.

A menina, percebendo finalmente o perigo e a altura, começou a chorar. O choro fez seu corpo balançar, e o som do metal da luminária rangendo foi como um tiro no quarto silencioso.

— Agora, Maya! — Emanuel rugiu.

Maya soltou a varinha, que caiu e se quebrou no piso de pedra lá embaixo, e esticou os bracinhos. Emanuel agarrou seus pulsos com uma força que ele sabia que deixaria marcas, mas ele não a soltaria nem que o mundo acabasse. Com uma explosão de força bruta, ele a puxou para cima, içando a menina de volta para dentro do quarto.

Assim que os pés de Maya tocaram o tapete, Emanuel desabou sentado no chão, puxando a filha para o seu peito e escondendo o rosto no pescoço dela. Ele tremia violentamente.

Eduarda caiu de joelhos ao lado deles, envolvendo os dois em um abraço desesperado, soluçando alto.

— Minha filha... minha pequena... — Eduarda repetia, beijando cada centímetro do rosto de Maya.

Sara se aproximou, deixando-se cair sentada ao lado do trio. Ela não chorava como Eduarda, mas sua respiração era um chiado agudo e suas mãos não paravam de tremer. Ela colocou a mão no ombro de Emanuel, sentindo a tensão nos músculos dele.

— Você quase me matou, sua pestinha loira — Sara sussurrou para Maya, embora seus olhos estivessem transbordando de um alívio que ela raramente demonstrava.

Maya, assustada pelo choro dos pais e pela adrenalina do momento, escondia o rosto no peito de Emanuel.

— Eu voa, papai? — perguntou ela, a voz sumida.

Emanuel afastou a menina o suficiente para olhar em seus olhos. A raiva, o medo e o amor lutavam dentro dele.

— Não, Maya. Você não voa. Fadas não moram em janelas. Você quase... — Ele parou, a voz falhando. Ele não conseguia completar a frase. A imagem dela caindo seria um fantasma que o perseguiria para sempre.

Ele olhou para Eduarda, que ainda estava em frangalhos, e depois para Sara.

— Isso acaba aqui — Emanuel sentenciou, a voz recuperando a firmeza, embora ainda rouca. — Amanhã, todas as janelas desta casa terão grades de ferro. Não me importa se vai parecer uma prisão. Ninguém mais sai por essas janelas.

— Emanuel, a culpa foi minha — Eduarda soluçou, limpando o rosto com as costas das mãos. — Eu estava cuidando da Ágata e não vi... eu não vi...

Emanuel puxou Eduarda para perto, beijando sua têmpora com força.

— A culpa não é sua, Duda. A culpa é minha por não ter consertado aquela tela antes. Mas acabou. Ela está aqui. Estamos todos aqui.

Ágata, que assistira a tudo da cama, começou a chorar também, sentindo a carga emocional pesada no quarto. Sara se levantou e pegou a filha mais velha, trazendo-a para o círculo no chão.

Lá estavam eles, no meio do quarto luxuoso, cercados por pedaços de termômetro e uma fantasia de fada rasgada. Emanuel, o homem que queria o controle de tudo, percebeu naquele momento que o amor que sentia por aquelas duas mulheres e por suas duas filhas era a única coisa que ele nunca poderia realmente controlar. Ele era o pai de Maya, o pai de Ágata, o homem de Sara e o protetor de Eduarda.

— Eu amo vocês — Emanuel murmurou, uma confissão rara e direta. — Eu amo tanto vocês que dói.

Sara encostou a cabeça no ombro dele, e Eduarda segurou sua mão.

— Nós sabemos, Manu — disse Sara, a voz mais calma. — Agora, vamos tirar essa fantasia dessa fada suicida e tentar ser uma família normal por pelo menos dez minutos?

— Normal não é o nosso forte, Sara — Eduarda comentou, dando um sorriso fraco em meio às lágrimas.

— Não, não é — concordou Emanuel, levantando-se com Maya ainda agarrada ao seu pescoço como um pequeno náufrago. — Mas é a nossa vida. E eu vou garantir que cada uma de vocês continue segura, nem que eu tenha que trancar este mundo inteiro.

Naquela noite, ninguém dormiu em quartos separados. Emanuel acomodou as duas mulheres e as duas filhas na enorme cama de casal do quarto principal. Ágata, com a febre finalmente cedendo, dormia abraçada a um urso de pelúcia. Maya, exausta pelo susto, dormia entre Emanuel e Eduarda.

Emanuel ficou acordado por muito tempo, ouvindo a respiração de suas quatro mulheres. Ele olhou para o teto, sentindo a presença de Sara ao seu lado esquerdo e a doçura de Eduarda ao seu lado direito. Ele tinha tudo o que sempre quis, e quase perdera uma parte fundamental disso naquele dia.

Ele estendeu as mãos, tocando a pele de Sara e a de Eduarda simultaneamente.

— Eu nunca vou deixar nada acontecer com vocês — ele prometeu ao silêncio da noite.

E, pela primeira vez em muito tempo, Emanuel permitiu-se fechar os olhos, sabendo que, embora Maya não pudesse voar, o amor que unia aquela família era capaz de mantê-los todos flutuando, mesmo acima dos abismos mais profundos.

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