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O Pecado da Seda e o Brilho do Ouro
O closet de Eduarda, antes um refúgio de tons pastéis e tecidos fluidos, parecia um campo de batalha naquela manhã de sábado. O ar estava saturado com o perfume doce de baunilha dela, mas a tensão que emanava de Emanuel era o que realmente preenchia o espaço. Ele estava parado junto à ilha de joias, os braços cruzados sobre o peito largo, as tatuagens nos antebraços parecendo mais escuras sob a luz fria dos LEDs.
— Você não vai sair desse jeito, Eduarda. — A voz de Emanuel era um trovão contido, baixa e perigosa.
Eduarda, que terminava de afivelar uma sandália de tiras finas, levantou-se e encarou o espelho de corpo inteiro. Ela usava um vestido de seda na cor champanhe que, embora elegante, era inegavelmente curto. A barra terminava perigosamente no meio de suas coxas torneadas pela dança, e o decote em degrau revelava a curva macia de seus seios médios.
— O que tem de errado com o meu vestido, Emanuel? — perguntou ela, a voz subindo um tom, tingida por uma irritação que raramente demonstrava. — É um jantar de aniversário da minha melhor amiga da faculdade. Eu sou uma mulher de vinte anos, não uma criança no jardim de infância.
— Você é a minha mulher — Emanuel rebateu, dando um passo à frente, estreitando a distância entre eles. — E esse pedaço de pano mal cobre o que é meu por direito. Está curto demais, Eduarda. Troque agora.
Eduarda sentiu o sangue ferver. Normalmente, ela cederia. Ela era a "pequena Duda", a menina sensível que buscava proteção nos braços dele. Mas o controle constante de Emanuel, somado ao estresse das últimas semanas cuidando de Maya e Ágata, havia despertado algo diferente nela. Ela cruzou os braços, imitando a postura dele, e empinou o queixo.
— Não vou trocar. Eu me sinto bonita assim. Se você está inseguro, o problema é seu, não do meu vestido.
Emanuel soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor.
— Inseguro? Eu sou o homem que sustenta esta casa e protege você de tudo. Eu estou dizendo que você não vai sair exibindo suas pernas para metade da cidade. É uma ordem, Eduarda.
Nesse momento, uma pequena figura apareceu na porta do closet. Maya, com seus cachos castanhos bagunçados e vestindo um pijama de coelhinhos, observava a cena com olhos arregalados. Ela viu a mãe bater o pé no chão com força.
— Eu não vou! — Eduarda gritou, fazendo uma careta de teimosia pura, os lábios franzidos em um bico infantil e irritado.
Maya, que idolatrava cada movimento de Eduarda, não perdeu tempo. Ela deu um passo para dentro do closet, bateu o pezinho gordo no tapete de veludo e imitou a expressão da mãe.
— Não vou! — gritou a bebê, cruzando os bracinhos sobre o peito de pijama. — Papá bobo! Não vou!
Emanuel olhou de uma para a outra, sentindo a veia em sua têmpora pulsar. O controle que ele tanto prezava estava sendo desafiado por uma bailarina de vinte anos e uma criança de um ano e meio.
— Ótimo. Agora você está ensinando a menina a ser insubordinada — rosnou Emanuel, apontando o dedo para Eduarda. — Eu vou para o estúdio. Quando eu voltar, espero que essa rebeldia tenha passado. E você não vai a jantar nenhum com esse vestido.
Ele saiu pisando firme, o som de seus passos ecoando pelo corredor até que o estrondo da porta principal indicou que ele havia deixado a mansão.
Eduarda permaneceu em silêncio por um minuto, o peito subindo e descendo com rapidez. A raiva era uma sensação quente e latejante. Ela olhou para Maya, que ainda mantinha a pose de pirraça, olhando para a porta por onde o pai saíra.
— Ele acha que manda em tudo, não é, Maya? — Eduarda murmurou, sentando-se no pufe de veludo. — Ele acha que pode me controlar só porque tem os cartões de crédito e os estúdios.
Maya engatinhou até ela e subiu em seu colo, puxando a alça do vestido.
— Papá bravo, mamãe Duda. Papá feio.
— É, meu amor. O papai é muito feio quando quer mandar na gente — Eduarda disse, e um brilho travesso e vingativo surgiu em seus olhos castanhos.
Ela se levantou, pegou o celular e abriu a bolsa. Dentro dela, em um compartimento dourado, estava o cartão de crédito black de Emanuel, aquele com limite virtualmente infinito, que ele lhe dera "apenas para emergências e despesas da casa".
— Emergência, Maya. Isso é uma emergência emocional — Eduarda declarou, pegando a bolsa.
Ela trocou o vestido champanhe por um conjunto de alfaiataria rosa vibrante, igualmente curto, mas com um blazer que lhe dava um ar de poder que ela raramente sentia. Pegou Maya, chamou a babá para cuidar de Ágata, que ainda dormia, e saiu de casa com uma determinação que faria Sara sentir orgulho.
O destino era o shopping mais luxuoso da capital, o lugar onde Emanuel costumava comprar seus relógios e Sara suas bolsas.
— Vamos fazer compras, Maya. Muitas compras.
A primeira parada foi na boutique da Gucci. Eduarda entrou com a cabeça erguida, Maya no colo. As vendedoras, que a conheciam como a "esposa doce" do grande tatuador, estranharam o brilho de fogo em seus olhos.
— Quero aquela bolsa de couro de jacaré. E os sapatos combinando. E aquele casaco de pele sintética para a Maya — disse Eduarda, sem sequer olhar para as etiquetas de preço.
O cartão passou com um bipe satisfatório. Milhares de reais foram debitados em segundos.
Eduarda não parou por aí. Ela seguiu para a Louis Vuitton, onde comprou malas de viagem que não precisava. Na Tiffany & Co., escolheu um colar de diamantes delicado, alegando que "combinava com sua tristeza". Maya ganhava brinquedos caros a cada dez minutos, balões de gás hélio e doces finos.
Enquanto isso, no estúdio, o celular de Emanuel não parava de vibrar sobre a mesa de desenho. Ele estava no meio de um esboço complexo para uma tatuagem nas costas de um cliente VIP, mas as notificações eram incessantes.
Ele pegou o aparelho, esperando ser Sara com alguma reclamação doméstica. O que viu fez seu sangue gelar e depois ferver.
"Compra aprovada: R$ 15.400,00 - Gucci" "Compra aprovada: R$ 22.800,00 - Louis Vuitton" "Compra aprovada: R$ 45.000,00 - Tiffany & Co."
— O que diabos...? — Emanuel murmurou, os olhos saltando das órbitas.
Ele tentou ligar para Eduarda. Caixa postal. Ligou para a casa. A babá informou que ela havia saído "com pressa e muito bonita".
Emanuel sentiu a fúria crescer. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Eduarda, a sua pequena e doce Eduarda, estava usando a única arma que sabia que o atingiria onde doía: sua necessidade de ordem e sua conta bancária.
Mais notificações chegaram. Uma loja de sapatos de luxo, uma boutique infantil, um restaurante cinco estrelas.
— Ela enlouqueceu — disse ele para o estúdio vazio, jogando o tablet de lado. — Ela está tentando me falir em uma tarde!
Ele pegou as chaves do carro e saiu do estúdio como um furacão. O trajeto até o shopping foi feito em tempo recorde. Ele estacionou o carro de qualquer jeito e entrou no centro comercial, seus olhos escaneando a multidão até que encontrou o que procurava.
Eduarda estava sentada em um café de luxo, cercada por pelo menos dez sacolas de marcas famosas. Ela tomava um espumante caro com uma elegância desleixada, enquanto Maya tentava comer um macaron de ouro comestível.
— Eduarda! — O grito de Emanuel fez algumas pessoas nas mesas vizinhas olharem para trás.
Ela não se abalou. Apenas levantou a taça em um brinde silencioso, um sorriso de satisfação brincando em seus lábios.
— Ah, olá, Manu. Chegou a tempo de pagar a sobremesa? O cartão deu um aviso de 'transação suspeita' na última loja, acho que você precisa ligar para o banco.
Emanuel parou diante da mesa, a respiração pesada, as mãos cerradas ao lado do corpo.
— Você perdeu o juízo? O que é tudo isso? Você gastou quase cem mil reais em duas horas!
— Eu estava estressada, Emanuel — disse ela, a voz manhosa, mas com um fundo de aço. — Você disse que o meu vestido era curto demais, então tive que comprar roupas novas. Muitas roupas novas. E joias. As joias ajudam a distrair as pessoas das minhas pernas, não acha?
Maya olhou para o pai e, lembrando-se da cena no closet, apontou o dedo para ele.
— Papá bobo! Mais compras! — gritou a menina, batendo a colher de prata na mesa.
Emanuel olhou para a filha, depois para as sacolas, e finalmente para Eduarda. A raiva ainda estava lá, mas havia algo mais. Um respeito relutante. Ele nunca imaginou que ela teria a audácia de revidar dessa forma. Ele a subestimara, e o preço fora alto — literalmente.
— Chega, Eduarda. Pegue as coisas. Vamos para casa agora.
— Só se você pedir desculpas — disse ela, cruzando as pernas e revelando justamente o que ele queria esconder. — Peça desculpas por tentar me controlar como se eu fosse uma das suas propriedades.
Emanuel olhou ao redor, sentindo o peso dos olhares curiosos. Ele era um homem orgulhoso, mas ali, diante da doçura vingativa de Eduarda, ele percebeu que havia esticado a corda demais.
— Tudo bem — ele rosnou, inclinando-se para que apenas ela ouvisse. — Desculpe por ter sido um idiota possessivo sobre o vestido. Mas se você passar esse cartão mais uma vez hoje, eu juro que o quebro em mil pedaços.
Eduarda sorriu, um sorriso vitorioso e radiante. Ela se levantou, pegou Maya no colo e entregou as sacolas para Emanuel.
— Ótimo. Pode carregar as compras, querido? Estão pesadas.
Emanuel bufou, pegando as inúmeras sacolas, sentindo-se como um burro de carga de luxo. Enquanto caminhavam em direção à saída, ele viu Sara vindo na direção oposta, carregando suas próprias sacolas. Ela parou, olhou para Emanuel carregado de marcas femininas e para o rosto radiante de Eduarda.
— Ora, ora — disse Sara, soltando uma gargalhada que atraiu ainda mais atenção. — Parece que a santinha aprendeu a pecar. E custou caro, hein, Emanuel?
— Não diga uma palavra, Sara — Emanuel avisou, passando por ela.
— Eu avisei, querido — Sara gritou atrás deles, rindo. — Nunca subestime uma mulher manhosa com um cartão de crédito na mão!
No carro, o silêncio era tenso, mas não mais hostil. Maya dormiu rapidamente, exausta da sua tarde de compras. Eduarda olhava pela janela, sentindo uma leveza que não sentia há meses.
— Você sabe que eu vou devolver metade dessas coisas amanhã, não sabe? — Emanuel disse, tentando recuperar algum senso de autoridade.
— Tente — respondeu Eduarda, virando-se para ele com um olhar desafiador. — E eu compro o dobro no dia seguinte.
Emanuel olhou para ela e, contra sua vontade, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto. Ele a puxou pela nuca quando pararam em um sinal vermelho e a beijou com uma intensidade que misturava desejo e frustração.
— Você é um problema, Eduarda. Um problema lindo e muito caro.
— E você me ama exatamente por isso — ela respondeu, encostando a cabeça no ombro dele.
Naquela noite, na mansão, não houve mais brigas por vestidos. Emanuel aprendeu que o silêncio de Eduarda era perigoso, mas sua voz — e seus gastos — eram um lembrete de que, naquela família, o poder era uma dança complexa entre o controle dele, a ironia de Sara e, agora, a audácia inesperada da sua pequena bailarina. E, no fim das contas, ele não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.