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D

Instintos à Flor da Pele

O ar gélido do final de tarde em Salem cortava as bochechas com a precisão de uma navalha fina, espalhando folhas secas avermelhadas pelas calçadas de paralelepípedo irregular. A arquitetura colonial dos casarões de madeira escura e as vitrines temáticas cheias de abóboras entalhadas e símbolos esotéricos criavam um cenário quase pitoresco, mas Emanuel não estava prestando a mínima atenção na história da cidade ou no charme turístico que tanto havia empolgado Eduarda mais cedo.

Ele estava à beira de ter um aneurisma.

Emanuel caminhava com passadas pesadas, usando um sobretudo de lã preta italiana aberto sobre um suéter de gola alta que delineava seu peito largo. As mãos calejadas e cobertas por tatuagens intrincadas estavam enterradas nos bolsos, não pelo frio, mas para evitar que ele simplesmente arrancasse os próprios cabelos. Ao lado dele, o carrinho duplo importado de fibra de carbono — que custara uma pequena fortuna em Boston — rolava completamente vazio, sendo empurrado com uma mão só por um homem que preferia enfrentar uma convenção inteira de motoqueiros armados a encarar mais cinco minutos daquele inferno sonoro.

Porque as duas crianças estavam no auge do que a psicologia infantil chamava cinicamente de "crise dos dois anos", mesmo tendo apenas doze meses de vida.

— Qué não! Qué chão! Não qué sapato! — berrava Ágata a plenos pulmões, com o rosto redondo completamente vermelho e lágrimas grossas escorrendo pelo queixo.

A menina debatia as perninhas gorduchas, tentando a todo custo chutar para longe a botinha forrada de lã que Sara tentava desesperadamente enfiar em seu pé. A loira segurava a filha com um braço firme contra o quadril largo, equilibrando-se com maestria sobre botas de salto fino de couro de crocodilo que batiam com força nas pedras da rua. Sara vestia um casaco de pele sintética branca sobre uma calça de vinil preta tão justa que parecia pintada a vácuo, realçando a curva voluptuosa de suas coxas e o silicone generoso que saltava no decote profundo, indiferente aos quatro graus positivos da cidade.

— Fica quieta, peste! — disparou Sara, sem papas na língua, ajeitando o cabelo platinado que insistia em grudar no gloss labial devido ao vento. — Se você jogar essa bota no chão de novo, Ágata, eu juro que te deixo descalça na neve e digo para as bruxas daqui que você é oferenda! Para de espernear, garota!

— Ela tá com frio no pé, Sara! Não puxa assim! — interveio Eduarda, a voz doce quase engolida pelo choro estridente que agora vinha em dobro.

Porque Maya, vendo a prima berrar, decidiu que também não ficaria para trás no coral do desespero.

A filha de Duda estava montada no colo da mãe, recusando categoricamente o gorro de lã com orelhinhas de urso. Maya soluçava com tanta força que seu corpinho miúdo estremecia sob o casaco rosa-claro acolchoado. Ela enfiava a mãozinha engordurada de biscoito no próprio nariz, esfregava os olhos e emitia ganidos histéricos toda vez que Eduarda tentava ajustar o zíper de sua roupinha térmica.

— Minha vida, calma... — murmurava Eduarda, a respiração saindo em pequenas nuvens brancas de vapor. Ela parou no meio da calçada, tentando embalar a menina com passos rítmicos de dança, os cabelos castanhos escapando da boina de veludo e emoldurando o rosto alvo e cansado. Seus olhos amendoados brilhavam com uma mistura de afeto maternal e impotência pura. — Olha o cachorrinho ali na vitrine, filha. Olha lá a folha que o papai pegou... shh, meu amor, a mamãe tá aqui...

— Não! Não! Mamá! Qué mamá agora! Duda feia! — gritou Maya, absolutamente desregulada pelo excesso de estímulos, pelo vento gelado e pela dor latente das gengivas inflamadas.

Dois casais de turistas americanos que passavam em direção à praça central diminuíram o passo, lançando olhares reprovadores e desconfortáveis para o pequeno grupo que fazia um escândalo no meio da calçada histórica.

A mandíbula de Emanuel travou com tanta força que os dentes molares rangeram audivelmente.

Aquele era o seu pior pesadelo. Emanuel era um homem de silêncio, de estúdios fechados com luz focada, de controle absoluto sobre cada milímetro quadrado do seu império e de sua rotina. Ele pagava fortunas para não ter que lidar com caos público. Ver pessoas estranhas encarando suas mulheres, julgando a criação de suas filhas e murmurando em inglês pelas costas fazia seu sangue ferver em uma velocidade assustadora.

— Entrem na porra do carrinho. As duas — a voz de Emanuel desceu três oitavas, soando como um trovão subterrâneo. Ele parou o carrinho no meio da calçada com um movimento brusco, os olhos escuros faiscando de irritação pura enquanto olhava para Sara e Eduarda. — Agora. Parem de negociar com bebês. Elas estão fazendo a gente passar vergonha no meio da rua.

Sara ergueu o queixo pontudo, os olhos claros faiscando com aquele deboche corrosivo que ela usava como escudo contra qualquer tentativa de dominação de Emanuel.

— Vergonha, Emanuel? — ela soltou uma risada debochada, segurando Ágata com mais força enquanto a menina continuava a se contorcer feito uma enguia com raiva. — Quem tá com vergonha é você com esse complexo ridículo de realeza. Criança chora, tatuador! Criança faz birra! Se você não aguenta duas pirralhas berrando, por que caralhos comprou passagem para viajar em família? Deveria ter ficado no hotel contando suas notas de cem dólares!

— Sara, não começa — rosnou ele, dando um passo ameaçador na direção dela, a veia da têmpora saltada. — Eu estou mandando você colocar a Ágata nessa merda desse assento antes que ela congele os pés. E você, Eduarda, para de mimar essa menina! Ela tá montando em cima de você!

Eduarda encolheu os ombros delicados sob o casaco fino de lã batida, sentindo a dureza das palavras dele atingir em cheio sua sensibilidade. Ela detestava quando Emanuel entrava naquele modo autoritário e inflexível; seu estômago embrulhava, e a vontade de chorar junto com a filha era quase incontrolável. Seus olhos castanhos marejaram no mesmo instante, o queixo fino tremendo de leve.

— Eu não estou mimando, Manu... — murmurou ela em um tom manhoso e ferido, a voz falhando enquanto tentava segurar Maya, que pesava em seus braços finos de bailarina. — Ela tá com dor. Os dentes estão rasgando a boquinha dela... você não vê que ela tá sofrendo? Você só sabe dar bronca e reclamar de tudo!

— Eu não estou reclamando de tudo, eu estou tentando resolver a situação com um pingo de ordem! — rebateu ele, rígido, a impaciência cegando sua capacidade habitual de dosar o tom com a prima. — A Maya tem que aprender que não manda em você! Olha para isso, você tá quase caindo no chão com o peso dela e fica aí pedindo por favor para uma menina de um ano!

Naquele exato instante, como se sentisse a energia densa e agressiva no ar, a crise de birra de Maya atingiu o ápice da loucura infantil.

A menininha jogou a cabeça para trás com violência, esticando o corpinho em arco dentro do casaco. Eduarda perdeu o equilíbrio por um milésimo de segundo, tendo que dar um passo em falso para trás sobre as pedras escorregadias de Salem para não cair. Para evitar que a filha escorregasse de seus braços, Duda apertou a garotinha contra o próprio corpo, tentando aninhar a cabeça da bebê em seu ombro.

— Calma, Mayinha, calma... — sussurrou a jovem mãe, a respiração ofegante.

Maya não queria calma. Maya queria a anarquia pura da dor e do sono.

Em um acesso cego de fúria descontrolada, a menininha desferiu um tapa violento com a mãozinha gordinha no ar. A mão espalmada da bebê acertou em cheio a bochecha esquerda de Eduarda, com um estalo seco que cortou o barulho da rua. Não satisfeita com o golpe no rosto, Maya começou a espernear e a bater as duas mãos fechadas em punhos desajeitados para a frente, atingindo diretamente o colo e os seios macios de Eduarda, desferindo dois ou três socos infantis contra a carne sensível e cheia de leite da mãe antes de se desmanchar em um novo berreiro agudo.

O choque foi apenas físico para Eduarda; a dor era praticamente inexistente. Era apenas a força fraca de uma criança de doze meses, um golpe desajeitado de quem mal tinha coordenação motora.

— Ai, filha... para, meu amor... — disse Eduarda de imediato, sem um pingo de raiva na voz, apenas com aquele instinto cego de mãe. Ela mal piscou diante do estalo na própria bochecha. Pelo contrário, apertou Maya ainda mais contra o peito, pousando a mão delicada sobre as costas da menina. — Tá tudo bem... a mamãe não tá brava... shh, não precisa bater, meu amor...

Mas o mundo ao redor delas simplesmente parou.

O som do tapa de Maya contra a pele alva de Eduarda agiu no cérebro de Emanuel como um detonador em um barril de pólvora.

Os olhos escuros do homem se arregalaram por uma fração de segundo antes de se estreitarem em duas fendas de puro ódio primal. A visão daquela mãozinha atingindo o rosto doce de Duda — e depois batendo contra os seios intocáveis e macios da mulher que ele protegia com a própria alma — fez algo arrebentar dentro de seu peito. O controle racional que ele tanto prezava virou cinzas instantaneamente.

— Chega! — o rugido que saiu da garganta de Emanuel foi tão violento, tão gutural e carregado de autoridade predatória que até mesmo os carros que passavam na rua pareceram diminuir a velocidade.

Em um movimento absurdamente rápido e preciso, Emanuel avançou sobre Eduarda. Suas mãos grandes e firmes não tocaram na prima; em vez disso, ele agarrou Maya pelas axilas acolchoadas com uma firmeza inflexível, arrancando a menina dos braços da mãe no ar antes que Eduarda pudesse sequer processar o que estava acontecendo.

— Manu! Não! — gritou Eduarda, assustada com a violência do movimento, os braços vazios estendidos em desespero.

Emanuel não a ouviu. Ele ergueu Maya no ar, segurando a menina diante de seus próprios olhos escuros e ardentes. A fúria no rosto do homem era aterrorizante; a mandíbula parecia esculpida em granito, e a respiração pesada saía em lufadas quentes que batiam contra a pele da garotinha.

— Você nunca mais encosta a mão nela! — vociferou ele, a voz baixa, cortante e visceral, num tom de punição que ninguém jamais ousara usar com a menina. — Você tá me ouvindo, Maya?! Nunca mais bata na sua mãe! Você não encosta a porra da mão na Eduarda!

Maya paralisou. O choque do tom do homem a quem ela chamava de papai — aquele mesmo homem que a carregava no pescoço, que comprava todos os seus brinquedos e que a beijava até fazê-la gargalhar — atingiu a mente infantil com a força de um raio. A garotinha arregalou os olhos castanhos, o queixo tremeu em silêncio por dois segundos inteiros e, então, uma nova torrente de choro, desta vez de puro pavor e desolação genuína, explodiu de seus pulmões.

— Emanuel, seu doente mental! — a voz estridente de Sara quebrou o transe violento do homem.

Sara deu dois passos firmes em sua direção, segurando Ágata com um braço e usando a mão livre de unhas vermelhas e afiadas para desferir um empurrão com toda a força no ombro tatuado de Emanuel.

— Larga a menina, seu psicopata! — berrou a loira no meio da calçada, sem se importar com quem olhava, os olhos claros faiscando em pura indignação protetora. — Ela tem um ano de idade, Emanuel! Ela é um bebê com dor de dente, não um marmanjo tentando assaltar a Duda! Você perdeu o resto de bosta que tinha dentro dessa sua cabeça de tatuador?!

— Ela bateu na Duda, Sara! — retrucou Emanuel em um berro defensivo, ainda segurando Maya com firmeza contra o peito, embora seu aperto tenha afrouxado no milésimo em que o choro aterrorizado da filha o atingiu. — Bateu na cara dela! Bateu no peito dela! Eu não vou tolerar essa garota crescendo achando que pode agredir a mãe! Ela tem que aprender a respeitar quem dá a vida por ela!

— Manu, pelo amor de Deus, me dá ela aqui! — Eduarda se jogou para a frente, as lágrimas agora descendo descontroladas pelas suas bochechas.

A fragilidade de Duda desmoronou em puro instinto materno. Ela não pensou no próprio cansaço, não pensou na timidez e nem no medo que o temperamento vulcânico de Emanuel às vezes lhe causava. Ela simplesmente agarrou os antebraços tatuados dele, puxando a filha com desespero para o seu colo.

— Nem doeu, Emanuel! — soluçou ela, a voz quebrada de afeto e indignação. — Olha para a mãozinha dela, olha o tamanho da Maya! Ela mal consegue segurar uma colher de plástico direito, como é que você acha que ela fez por mal?! Foi sem querer! Ela tava esperneando de dor!

Emanuel cedeu, relutante, deixando que Eduarda tomasse a menina de volta para si. No mesmo instante em que sentiu os braços da mãe, Maya enterrou o rosto molhado no pescoço de Eduarda, soluçando baixinho, com pequenos espasmos de puro susto, agarrando o tecido do casaco da bailarina como se aquele fosse o único refúgio seguro em um mundo que de repente se tornara aterrorizante demais.

— Shh... já passou, a mamãe tá aqui, meu amor... — murmurava Eduarda em prantos, embalando a menina com força contra o peito dolorido, acariciando os cabelinhos úmidos sob a boina. — O papai é um bobo... ele não sabe o que fala... tá tudo bem, filha...

Emanuel ficou parado no meio da calçada de Salem, os braços caindo pesados ao lado do corpo. O vento gélido batia contra seu pescoço nu, mas por dentro ele ainda ardia em chamas. Seus punhos continuavam cerrados. O instinto territorial e a necessidade doentia de manter Eduarda intacta, protegida de qualquer dor ou desrespeito — mesmo que viesse de uma criança de fraldas que ele mesmo criava como filha — ainda nublavam sua capacidade de admitir o exagero.

— Ela não pode bater em você — insistiu ele, mas a voz agora saía mais rouca, menos cortante, manchada pelo peso da culpa que começava a corroer as bordas de sua raiva. — Eu não admito que ninguém levante a mão para você, Eduarda. Ninguém. Nem ela.

— Pois então você vai ter que internar essa sua cabeça oca em um hospício, Emanuel — Sara interveio friamente, cruzando os braços sob o casaco de pele, com Ágata agora miraculosamente em silêncio no seu quadril, assustada demais com a bronca do pai para continuar a birra do sapato. — Você é muito ridículo com essa possessividade de homem das cavernas. Você viu a cara que você fez? Parecia que ia matar uma criança no meio da rua porque ela encostou na sua santinha.

— Não me provoca, Sara — rosnou ele, passando a mão pesada pelo rosto com força, sentindo a exaustão física e mental pesar como chumbo sobre as costas.

— Provoco mesmo! — ela rebateu com um estalo de língua e aquele olhar irônico que sempre o desarmava pela metade. — Alguém tem que te dar uns tapas para ver se você volta para a realidade. A Duda é mãe dela, porra. Mãe leva chute, leva cabeçada, leva mordida no peito na hora de amamentar e não morre por causa disso. É o processo, caralho! Você nunca trocou uma fralda de cólica na vida sem ter uma equipe de babás por perto para saber o que é isso!

Emanuel respirou fundo pelo nariz, fechando os olhos por três segundos intermináveis. O silêncio na rua agora era absoluto, quebrado apenas pelos soluços residuais de Maya nos braços de Eduarda.

Ele abriu os olhos e fitou a prima.

Eduarda estava de cabeça baixa, o rosto lavado de lágrimas, ninando a menina com um amor tão visceral e imaculado que fazia o coração de Emanuel doer dentro da caixa torácica. Na bochecha esquerda dela, uma mancha muito leve, quase imperceptível de vermelhidão contrastava com a pele muito alva — a prova do pequeno golpe de Maya.

Ele deu um passo cuidadoso em direção a ela.

— Duda...

Eduarda não ergueu o rosto de imediato. Manteve a postura arredia, magoada pela explosão desnecessária que havia aterrorizado sua filha. Mas quando Emanuel estendeu a mão grande e áspera, pousando as pontas dos dedos com uma delicadeza cirúrgica contra a mandíbula dela, a menina não se afastou.

O polegar de Emanuel traçou suavemente a marca tênue na bochecha de Eduarda, limpando uma lágrima morna que escorria por ali.

— Me perdoa — murmurou ele, a voz tão baixa e carregada de uma vulnerabilidade rústica que nem parecia o mesmo homem de segundos atrás. — Eu vi ela batendo em você e... meu sangue ferveu. Eu não pensei. Eu só não suporto ver ninguém machucando você. Nem de brincadeira. Nem sem querer.

Eduarda ergueu os grandes olhos amendoados, marejados e doces, fitando a imensidão escura do olhar dele. A raiva dela nunca durava muito; não com Emanuel. A dependência emocional que a prendia àquele homem era densa demais, construída sobre anos de amparo incondicional. Ela deu um suspiro trêmulo e dengoso, encostando a bochecha ferida na palma da mão dele, aceitando o carinho como quem aceita um pedido de paz.

— Você é muito exagerado, Manu... — sussurrou ela, com a voz infantilizada pelo choro recente. — Você me assustou. Quase matou a Maya de pânico. Ela é só um bebê... ela não sabe o que faz quando tá com dor.

— Eu sei. Eu perdi a cabeça — admitiu ele, inclinando-se para beijar a testa de Eduarda com devoção silenciosa, antes de descer o olhar para Maya.

A garotinha mantinha um olhinho aberto, vigiando o pai com desconfiança e medo, o lábio inferior ainda projetado em um bico monumental.

Emanuel soltou o ar dos pulmões devagar e aproximou o rosto grande da menina.

— Vem cá com o papai, princesa — pediu ele com mansidão infinita, estendendo os braços fortes. — Vem. O papai não tá mais bravo com você. Mas não bate na mamãe de novo, tá ouvindo? A mamãe é de vidro. A gente tem que cuidar dela.

Maya hesitou por dois segundos, olhando da mãe para o pai, até que a saudade daquele abraço largo e protetor falou mais alto. A menina soltou o pescoço de Eduarda e se atirou nos braços de Emanuel, escondendo o rostinho na curva do pescoço dele, choramingando baixinho enquanto as mãos gordinhas se agarravam à gola grossa do suéter do homem.

Emanuel fechou os braços em torno do corpinho miúdo, apertando a filha contra o peito com uma força quase desesperada, beijando o cabelinho ralo e cheiroso da bebê repetidas vezes.

— Desculpa, minha princesinha... o papai é um idiota — sussurrou ele contra a pele da menina, sentindo o nó na garganta se desmanchar devagar.

Ao lado deles, Sara observava a reconciliação com um sorriso de canto, arqueando uma sobrancelha perfeitamente delineada enquanto ajustava Ágata no colo, que agora observava tudo mastigando a própria luva com indiferença infantil.

— Pronto, acabou o dramalhão mexicano? — ironizou a loira, ajeitando o casaco de pele sobre os ombros e dando uma piscadela atrevida para Eduarda. — Agora que o nosso macho alfa provou que é um doido varrido e pediu penico, a gente pode finalmente entrar naquela cafeteria ali na esquina? Porque eu tô congelando e se eu não tomar um café com bastante conhaque nos próximos dez minutos, eu quem vou dar um soco na cara do Emanuel.

Eduarda não conteve uma risadinha tímida e fungada, limpando o resto das lágrimas com a manga do casaco e olhando para Sara com gratidão silenciosa pela quebra de tensão.

Emanuel ergueu o olhar para a mulher loira, os lábios se repuxando naquele meio sorriso torto e resignado que só ela conseguia arrancar dele nos piores momentos. Ele estendeu o braço livre e puxou Sara pela cintura de encontro ao seu flanco, ignorando os protestos da loira de que ele ia amassar o casaco de grife, e plantou um beijo firme e estalado nos lábios pintados dela.

— Você não tem jeito mesmo, né, mulher? — murmurou ele contra a boca dela.

— Nenhum, tatuador — Sara piscou, mordiscando de leve o queixo dele antes de se afastar. — Anda logo. Empurra esse carrinho vazio aí e me paga um doce bem caro para compensar o estresse.

Emanuel respirou o ar gelado de Salem, sentindo a tempestade finalmente se dissipar sob o céu cinzento de Massachusetts. Com Maya ressonando tranquila contra o seu peito, Eduarda caminhando colada ao seu lado em busca de calor e Sara desfilando à frente ditando as ordens com sua vulgaridade magnética, ele sabia que a loucura daquela vida compartilhada quase o enlouquecia todos os dias.

Mas era exatamente aquela loucura que ele jamais deixaria ninguém tocar.

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