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D

O Peso do Desejo e a Trilha do Caos

O sol de Angra dos Reis não perdoava, refletindo-se nas águas cristalinas com uma intensidade que fazia a areia parecer feita de diamantes moídos. Emanuel estava em seu elemento. Sem camisa, exibindo o torso coberto por artes em preto e cinza que contavam a história de sua ascensão, ele ajustava a mochila de hidratação enquanto conversava com Rodrigo e mais dois amigos de longa data. O plano era simples: uma trilha pesada, subindo o morro da reserva até uma cachoeira isolada que poucos turistas conheciam.

— Vai ser uma hora de subida íngreme, rapazes. Nada de moleza — avisou Emanuel, verificando o ajuste de seu tênis de trilha. — O visual lá de cima compensa cada gota de suor.

A poucos metros dali, sob um guarda-sol de marca, o clima era outro. Sara, usando um biquíni de tiras douradas que deixava muito pouco para a imaginação, retocava o protetor solar com a precisão de uma cirurgiã. Ao seu lado, Eduarda, em um biquíni de crochê delicado e uma saída de praia de renda, tentava manter Maya entretida com um baldinho, enquanto Ágata já dormia a sesta no carrinho climatizado.

A paz das mulheres foi interrompida não pelo plano dos maridos, mas pela movimentação na mesa ao lado. Um grupo de quatro mulheres, com biquínis mínimos e risadas estridentes, começou a se levantar, ajustando mochilas leves e calçando tênis esportivos caros.

— Ai, gente, essa trilha da Cachoeira Secreta é tudo! — exclamou uma delas, uma morena de cabelos longos que não parava de secar Emanuel com os olhos. — E o guia disse que o caminho é estreito, tem que ter muito... contato físico para passar em certos pontos.

Sara parou o movimento da mão no ar. Seus olhos claros, geralmente divertidos, tornaram-se fendas geladas. Ela olhou para Eduarda. A prima, geralmente a personificação da doçura, estava com o rosto tenso, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a borda do baldinho de Maya.

— Você ouviu isso, Duda? — perguntou Sara, a voz carregada de um perigo melífluo.

— Ouvi — respondeu Eduarda, a voz baixa, mas firme. — Elas estão olhando para o Manu como se ele fosse o prato principal do buffet.

Sara levantou-se em um movimento fluido, ajeitando o cabelo loiro platinado.

— Emanuel! — gritou ela, atraindo a atenção de todo o grupo de homens.

Emanuel virou-se, franzindo a testa ao ver as duas mulheres se aproximando com expressões que ele conhecia muito bem. Era o olhar de "problema à vista".

— O que foi, Sara? A gente já está saindo. A babá está chegando para ajudar vocês com as meninas aqui na sombra.

— Mudança de planos, tatuador — disse Sara, parando na frente dele e colocando a mão em seu peito suado, marcando território diante das vizinhas de mesa. — Nós vamos com vocês.

Emanuel soltou uma risada incrédula, olhando para os amigos, que tentavam disfarçar o riso.

— Sara, olha para você. Você está de salto plataforma de cortiça e biquíni de metal. E a Eduarda... Duda, você mal aguenta subir a escada do estúdio de ballet quando está cansada. Essa trilha é nível pesado. Tem lama, tem pedra, tem subida de quase setenta graus. Vocês não vão aguentar dez minutos.

Eduarda deu um passo à frente, fazendo biquinho, os olhos úmidos e manhosos que sempre desarmavam Emanuel.

— Manu, você vai deixar a gente aqui sozinhas? E se aparecer um bicho? Além disso... — ela baixou a voz, aproximando-se do ouvido dele — ...eu não quero você "ajudando" ninguém a passar por caminhos estreitos. Eu vou. Eu aguento.

Emanuel suspirou, sentindo a pressão subir. Ele olhou para as mulheres da mesa ao lado, que agora sorriam desafiadoras para Sara e Eduarda, e depois para suas duas mulheres. Ele sabia que, se proibisse, o inferno na terra seria pouco perto do que o esperava em casa.

— Tudo bem — cedeu ele, irritado. — Mas não quero ouvir um pio. Se cansarem, vão ter que voltar sozinhas. Rodrigo, avisa a babá para levar as meninas para a suíte. Elas vêm com a gente.

Vinte minutos depois, o arrependimento já tinha nome e sobrenome.

A trilha começou em uma subida de terra batida que logo se transformou em um emaranhado de raízes e pedras úmidas. Sara, apesar da vulgaridade estética, tinha uma resistência física surpreendente, mas o calçado era seu inimigo. Eduarda, por sua vez, tinha a leveza da bailarina, mas a musculatura de seus pés, acostumada a sapatilhas de ponta, sofria com o terreno irregular.

Emanuel ia na frente, abrindo caminho, a paciência por um fio. Atrás dele, o grupo de mulheres "atiradas" fazia questão de comentar alto sobre como a vista "estava ficando maravilhosa", referindo-se claramente às costas largas e tatuadas de Emanuel.

— Eu vou matar aquela de biquíni neon — sibilou Sara, tropeçando em uma raiz. — Emanuel! Minha sandália quebrou!

Emanuel parou, fechando os olhos e contando até dez. Ele voltou até ela, vendo a plataforma de cortiça descolada.

— Eu avisei, Sara. Quer voltar? Eu chamo o segurança do condomínio para te buscar na entrada da mata.

— Voltar e deixar você aqui com a "Garota Neon"? Nem morta! — Sara arrancou a outra sandália e continuou descalça, pisando na lama com uma determinação feroz.

Dez minutos depois, foi a vez de Eduarda. O esforço da subida íngreme começou a cobrar seu preço. A respiração dela estava curta, e as pernas, embora tonificadas, começaram a tremer. Ela parou, encostando-se em uma árvore, o rosto pálido.

— Manu... — chamou ela, a voz fraca e manhosa. — Minha pressão... eu acho que vou desmaiar.

Emanuel correu até ela, segurando-a pela cintura. A fragilidade de Eduarda sempre acionava seu modo protetor de forma automática.

— Duda! Eu disse que era pesado demais. Vem, senta aqui. Bebe água.

— Eu não quero sentar — choramingou ela, escondendo o rosto no pescoço dele, sentindo o cheiro de suor e mato. — Eu quero chegar lá em cima com você. Mas minhas pernas não obedecem. Me leva?

Emanuel travou.

— Levar? Eduarda, falta metade do caminho. É tudo subida!

— Por favor, papai... — sussurrou ela, usando o apelido que geralmente reservava para momentos de intimidade extrema ou quando queria dobrá-lo completamente.

Antes que Emanuel pudesse responder, Sara se aproximou, bufando. Seus pés estavam sujos de lama e ela parecia um furacão loiro prestes a explodir.

— Se você levar ela, vai ter que me levar também! — disparou Sara, cruzando os braços, o que realçava ainda mais o silicone sob o biquíni dourado. — Eu estou descalça! Tem espinhos nessa droga de chão!

Emanuel olhou para uma, depois para a outra. Seus amigos já estavam metros à frente, rindo abertamente da situação. O grupo de mulheres atiradas passou por eles, lançando olhares de desdém.

— Vocês só podem estar brincando comigo — disse Emanuel, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Eu sou um homem, não um burro de carga! Como é que eu vou levar duas mulheres adultas, uma de cada lado, subindo uma trilha de trinta graus de inclinação?

— Você é forte, Manu — disse Eduarda, fazendo sua melhor cara de choro, os olhos grandes e brilhantes. — Você treina todo dia. Você carrega a Maya e a Ágata juntas o tempo todo.

— Elas pesam dez quilos, Eduarda! Vocês pesam... — ele parou, percebendo que mencionar o peso de uma mulher, especialmente de Sara, seria suicídio.

— Não interessa quanto a gente pesa! — exclamou Sara, perdendo a paciência. — Você não queria as duas? Pois agora as duas querem colo! Ou você carrega a gente, ou eu vou sentar nessa lama e gritar até a guarda florestal aparecer e dizer que você nos sequestrou!

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o estresse pulsar em suas têmporas. Ele olhou para o caminho à frente. A trilha estreitava-se.

— Tudo bem! — rugiu ele. — Mas se eu cair e quebrar o pescoço, a culpa é da insegurança de vocês!

Ele se posicionou. Primeiro, pegou Eduarda no estilo noiva. Ela era leve, mas o corpo relaxado dela exigia esforço.

— Sara, sobe nas minhas costas. Agora! — ordenou ele.

Sara não esperou um segundo convite. Ela pulou nas costas dele, entrelaçando as pernas em sua cintura e os braços em volta do pescoço, quase o sufocando com o peso extra e o perfume que, mesmo na mata, ainda era forte.

Emanuel soltou um grunhido de esforço puro. Com Eduarda nos braços e Sara nas costas, ele começou a caminhar. Cada passo era uma batalha contra a gravidade. Os músculos de suas coxas queimavam, e as tatuagens em seus braços pareciam saltar da pele com a tensão.

— Vocês são inacreditáveis — resmungou ele, a respiração pesada.

— Você está indo muito bem, amor — disse Sara, dando um beijo na orelha dele e depois olhando para trás, para as mulheres que tinham passado. — Chupa, neon! O meu homem carrega as duas e ainda sobra fôlego!

Eduarda, encostada no peito dele, sorriu vitoriosa, embora estivesse genuinamente cansada.

— Obrigada, Manu. Você é o nosso herói.

— Eu sou um idiota, isso sim — retrucou ele, tropeçando em uma pedra e fazendo as duas gritarem. — Se alguma de vocês se mexer mais um milímetro, eu solto as duas no meio das samambaias!

O percurso que levaria dez minutos demorou trinta. Emanuel avançava como um titã castigado. O suor cegava seus olhos, e o peso combinado das duas — a delicadeza óssea de Eduarda e a voluptuosidade firme de Sara — testava o limite de sua coluna.

Quando finalmente alcançaram o topo, onde a cachoeira desaguava em uma piscina natural cercada por rochas negras, Emanuel não as colocou no chão; ele praticamente as despejou em um banco de areia macia.

Ele desabou logo em seguida, deitando-se de costas, o peito subindo e descendo em espasmos de exaustão.

Os amigos de Emanuel estavam na água, boquiabertos.

— Cara... eu nunca vi nada igual — disse Rodrigo, aproximando-se com uma garrafa de água. — Você é um louco ou um santo.

Emanuel não respondeu. Ele apenas aceitou a água, bebendo-a de uma vez.

Sara e Eduarda, agora recuperadas do "esforço" de serem carregadas, levantaram-se e caminharam até a beira da água. Elas se olharam e, em um acordo silencioso, deram as mãos. Elas entraram na piscina natural, ignorando os olhares das outras mulheres que agora pareciam insignificantes diante da demonstração de poder de Emanuel.

Minutos depois, Eduarda voltou até Emanuel, que ainda tentava recuperar o fôlego. Ela se ajoelhou ao lado dele e começou a passar as mãos pequenas e macias por seus ombros tensos.

— Está doendo muito, Manu? — perguntou ela, com aquela voz doce que sempre o desarmava.

Emanuel abriu um olho, olhando para a prima.

— Duda, eu acho que perdi dois discos da coluna. E tudo porque você não podia ver uma mulher de biquíni neon olhar para mim.

— Não era só o biquíni, Manu — disse ela, baixando o olhar, subitamente tímida. — É que eu sinto que, se eu não estiver por perto, o mundo vai tentar te tirar de mim. Eu sou pequena perto da Sara, e sou frágil perto dessas mulheres... eu só precisava saber que você ainda me carregaria, não importa o quê.

Emanuel suspirou, a raiva evaporando. Ele puxou Eduarda para cima dele, deitando-a em seu peito.

— Eu sempre vou carregar você, pequena. Mas da próxima vez, por favor, use um tênis e ignore as outras mulheres. Elas não têm o que você tem.

— E o que eu tenho? — perguntou ela, manhosa.

— O meu cansaço eterno — brincou ele, fazendo-a rir.

Sara aproximou-se, saindo da água como uma visão, o biquíni dourado brilhando sob o sol filtrado pelas árvores. Ela se sentou do outro lado de Emanuel, jogando os cabelos molhados para trás.

— Chega de melação, Duda. Emanuel, levanta. A água está maravilhosa e eu quero que você tire uma foto minha e da Duda naquela pedra ali.

Emanuel gemeu, cobrindo o rosto com as mãos.

— Eu não consigo nem levantar o celular, Sara.

— Ah, consegue sim. Ou eu vou ter que pedir para aquele rapaz ali da outra mesa tirar para mim? Ele parece bem disposto...

Emanuel sentou-se num salto, os olhos faiscando.

— Nem pense nisso. Dá aqui essa droga de celular.

Ele levantou-se, sentindo cada músculo protestar. Enquanto posicionava as duas para a foto — Sara fazendo uma pose provocante e Eduarda sorrindo com uma delicadeza angelical —, ele percebeu a ironia de sua vida. Ele era um homem rico, poderoso e temido em seu meio profissional, mas ali, naquela trilha perdida, ele era apenas o porto seguro de duas mulheres que o levavam à loucura e à glória ao mesmo tempo.

A descida foi mais fácil, principalmente porque Emanuel ameaçou deixá-las para trás se ouvisse a palavra "colo" novamente. Mas, ao chegarem de volta à praia, com o sol se pondo e as filhas correndo ao encontro deles, o cansaço transformou-se em uma satisfação profunda.

Naquela noite, na varanda da casa de praia, Emanuel observava as duas dormirem em espreguiçadeiras próximas. Sara, mesmo dormindo, parecia pronta para um desfile, e Eduarda tinha a expressão serena de quem sabia que estava protegida.

Ele olhou para suas mãos, as mesmas mãos que tatuavam dor e beleza na pele das pessoas, e que hoje tinham carregado todo o peso de seu mundo. Ele sabia que a vida com as duas nunca seria fácil. Seria sempre uma trilha íngreme, cheia de obstáculos, ciúmes e exigências. Mas, enquanto ele tivesse força nas pernas e amor no peito, ele continuaria subindo. Porque, no final das contas, o topo da montanha era muito mais bonito quando ele tinha as duas mulheres de sua vida para dividir a vista.

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