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O Cerco das Pequenas Amazonas
A noite em Angra dos Reis caía com uma brisa morna, trazendo o cheiro do salitre e o som rítmico das ondas quebrando no cais particular da mansão. Dentro da casa, o clima era de uma calma enganosa. Emanuel, em frente ao espelho do closet, ajeitava a gola de sua camisa de linho preto, conferindo se o relógio de ouro estava bem ajustado ao pulso tatuado. Ele se sentia como um prisioneiro planejando uma fuga de Alcatraz.
No andar de baixo, o som de desenhos animados e as risadas infantis indicavam que o "inimigo" estava distraído. Emanuel olhou para o celular: Rodrigo e os outros já estavam no bar do vilarejo, a apenas dez minutos de lancha. Ele precisava apenas de cinco minutos de silêncio e uma saída estratégica pelos fundos.
— Você parece um ladrão na própria casa — a voz de Sara ecoou, carregada de ironia. Ela estava encostada no batente da porta, usando um robe de seda vermelho que realçava seu bronzeado e o brilho do silicone. Ela segurava uma taça de vinho, observando o marido com diversão.
— Shh! — Emanuel levou o dedo aos lábios, os olhos arregalados. — Se a Ágata ou a Maya ouvirem que eu estou saindo, acabou o meu sossego. Elas acham que eu sou o parquinho de diversões particular delas vinte e quatro horas por dia.
Sara deu uma risadinha abafada, aproximando-se dele e ajeitando a gola da camisa que ele acabara de arrumar.
— Você mima demais essas meninas, Emanuel. A Maya, então... ela te tem na palma da mãozinha gorda dela.
— Elas são minhas filhas, Sara. O que você queria? — Ele deu um selinho rápido na esposa, sentindo o gosto do vinho. — Onde está a Duda?
— Tomando banho. Ela disse que ia dormir cedo hoje, a trilha de ontem acabou com as pernas dela — Sara deu de ombros, sorrindo maliciosa. — Vai logo, antes que o radar infantil detecte movimento de saída.
Emanuel assentiu, pegou as chaves da lancha e desceu as escadas na ponta dos pés. Ele cruzou a sala de estar como uma sombra, evitando os brinquedos espalhados pelo tapete. Ele já conseguia ver a porta de vidro que dava para o deck. A liberdade estava a poucos metros.
— Papai?
A voz pequena e aguda soou como um tiro de canhão no silêncio da sala. Emanuel congelou. Ele virou-se lentamente, encontrando Ágata parada no meio do corredor, abraçada a uma boneca que era quase do tamanho dela. A menina tinha o olhar analítico da mãe.
— Oi, minha princesa. Por que você não está vendo desenho com a Maya? — Emanuel tentou usar seu tom de voz mais casual, mas o suor frio já brotava em sua nuca.
— Papai tá cheiroso — observou Ágata, aproximando-se e estreitando os olhos. — Papai vai passear?
— O papai só vai... ver um negócio ali no barco — mentiu ele descaradamente.
Nesse momento, Maya apareceu, correndo com seus passos ainda um pouco incertos, mas rápidos o suficiente para interceptar qualquer rota de fuga. Ao ver Emanuel arrumado, os olhos da menina brilharam.
— Papai! — gritou ela, jogando-se contra as pernas dele. — Passear! Maya vai!
— Não, meu amor. O papai vai trabalhar um pouquinho — Emanuel a pegou no colo, tentando desesperadamente pensar em uma saída. — Fica aqui com a Ágata e com a mamãe Sara.
— Não! — Maya protestou, o lábio inferior começando a tremer, um sinal claro de que a tempestade estava chegando. — Maya vai com papai! Barco!
Ágata, percebendo a movimentação, largou a boneca e agarrou a outra perna de Emanuel.
— Eu também vou! O papai prometeu que ia me levar para ver os peixinhos de noite!
— Eu não prometi nada disso, Ágata! — Emanuel exclamou, começando a perder o controle da situação.
Eduarda apareceu no topo da escada, vestindo um pijama de algodão doce, com o cabelo castanho ainda úmido e uma expressão de sono que derreteu Emanuel por um segundo.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou ela, bocejando.
— O papai quer fugir! — denunciou Ágata, apontando o dedo para Emanuel como se ele fosse um criminoso internacional.
— Manu... você ia sair escondido? — Eduarda desceu os degraus, aproximando-se do grupo. Ela olhou para ele com aquele ar de reprovação doce que o fazia se sentir o pior homem do mundo. — Elas passaram o dia inteiro esperando por você.
— Duda, eu só vou ao bar com o Rodrigo! São dois drinques e eu volto! — Emanuel gesticulou, ainda com Maya pendurada em seu pescoço. — Se eu contar para elas, elas não me deixam sair. Olha só o estado delas!
Maya, sentindo que o pai estava resistindo, iniciou a fase dois do plano: o escândalo. Ela começou a chorar, um choro alto, sofrido e perfeitamente coreografado, escondendo o rosto no ombro de Emanuel.
— Papai não ama Maya! Papai vai embora! — soluçava a menina, as lágrimas molhando a camisa de linho cara.
— Meu Deus, Maya, não diz isso! O papai ama muito você! — Emanuel entrou em parafuso. Ele começou a balançar a menina, tentando acalmá-la, enquanto Ágata agora se sentava no chão e começava a bater os pés, fazendo um barulho ensurdecedor no porcelanato.
Sara, observando tudo do alto da escada com a taça de vinho na mão, soltou uma gargalhada sonora.
— Bem-vindo ao patriarcado, Emanuel! Elas descobriram o seu plano de fuga. Agora você está frito!
— Sara, não ajuda! — gritou Emanuel por cima do choro de Maya. — Duda, pega ela, por favor! Eu preciso ir, eles já estão me esperando há meia hora!
Eduarda aproximou-se, tentando pegar Maya, mas a menina se agarrou à camisa de Emanuel com uma força impressionante para uma criança de um ano.
— Não! Papai fica! Papai fica! — gritava Maya, o rosto ficando vermelho, a respiração começando a ficar ofegante, o que sempre deixava Eduarda em pânico por causa da sensibilidade da filha.
— Manu, ela vai acabar passando mal — disse Eduarda, a voz carregada de preocupação. — Olha o estado dela, ela está ficando roxa de tanto chorar. Talvez seja melhor você ficar...
Emanuel olhou para Eduarda, depois para o choro manipulador de Ágata, que agora olhava de soslaio para ver se o pai estava cedendo. Ele sentiu o estresse acumulado da semana, da trilha, das reuniões e da gestão daquela casa caótica transbordar.
— Não. — A voz de Emanuel soou firme, o tom de comando que ele usava em seus estúdios. O choro de Ágata parou instantaneamente por causa do choque. Maya continuou a soluçar, mas diminuiu o volume. — Eu amo vocês. Amo muito. Mas o papai é um homem, não é um brinquedo. Eu vou sair, vou ver meus amigos e volto em duas horas.
Ele colocou Maya no colo de Eduarda, apesar dos protestos renovados da menina. Depois, abaixou-se e pegou Ágata, colocando-a sentada no sofá.
— Ágata, se você se comportar e parar de gritar, amanhã eu te levo para andar de jet ski. Maya, se você parar de chorar agora, o papai traz um doce de leite daquele que você gosta. Mas se continuarem com esse escândalo, não vai ter nada. Entendido?
Ágata assentiu rapidamente, os olhos brilhando com a promessa do jet ski. Maya, no colo de Eduarda, ainda soluçava, mas o choro agora era apenas uma manha residual. Ela olhou para Emanuel com os olhos úmidos e esticou o dedinho.
— Doce? — perguntou ela, com a voz trêmula.
— Doce de leite. O melhor de todos — garantiu Emanuel, beijando a testa da menina.
Ele olhou para Eduarda, que ainda parecia um pouco insegura com a firmeza dele.
— Ela vai ficar bem, Duda. Dá um banho morno nela e coloca para dormir. Eu juro que volto logo.
Eduarda assentiu, dando um sorriso triste, mas compreensivo.
— Divirta-se, Manu. Você merece um descanso.
Emanuel caminhou até a porta, mas antes de sair, olhou para Sara, que ainda sorria lá de cima.
— E você, dona Sara, tente não ensinar mais truques de manipulação para a Ágata enquanto eu estiver fora.
— Não prometo nada, tatuador! — respondeu ela, piscando para ele.
Emanuel finalmente cruzou a porta de vidro e sentiu o ar fresco da noite. Ele caminhou pelo deck, soltando um suspiro longo que parecia carregar todo o peso do mundo. Ele subiu na lancha, ligou os motores e sentiu a vibração potente sob seus pés. Enquanto a embarcação se afastava do cais, ele olhou para trás e viu as luzes da mansão.
Ele sabia que, assim que chegasse ao bar, Rodrigo faria piadas sobre ele ter demorado porque estava "preso na coleira". Ele sabia que passaria a noite checando o celular para ver se Eduarda tinha mandado alguma mensagem dizendo que Maya não parava de chorar. E sabia que, no fundo, ele não trocaria aquele caos por nenhuma paz absoluta no mundo.
Dez minutos depois, ele atracava no vilarejo. O bar estava cheio, a música era alta e o cheiro de petiscos e cerveja gelada era um convite ao relaxamento. Rodrigo acenou de uma mesa de canto.
— Ora, ora, se não é o fugitivo! — exclamou Rodrigo, levantando uma caneca. — Achamos que as patroas tinham te trancado no cofre.
— Quase isso — disse Emanuel, sentando-se e sentindo os ombros finalmente relaxarem. — Mas não foram as patroas. Foram as mini-patroas. A Maya quase teve um colapso nervoso porque eu não a levei na mala.
Os amigos riram, e Emanuel pediu um uísque duplo. Durante a primeira hora, ele conseguiu desligar. Falou sobre o novo estúdio em Madri, sobre carros e sobre a trilha desastrosa do dia anterior. Mas, como ele previu, o pensamento voltava para casa.
Ele pegou o celular e viu uma foto enviada por Eduarda. Na imagem, Maya e Ágata estavam dormindo juntas na cama de casal, cercadas por bonecas, com os rostos serenos e sem traços de choro. Logo abaixo, uma mensagem de Sara: *"A fera foi domada. O doce de leite é obrigatório, ou eu não respondo pela segurança da sua coleção de relógios amanhã."*
Emanuel sorriu, guardando o aparelho.
— O que foi, cara? — perguntou Rodrigo. — Já querendo voltar?
— É a maldição, Rodrigo — respondeu Emanuel, dando um gole no uísque. — Eu passo o dia querendo cinco minutos de silêncio, e quando consigo, fico olhando fotos delas para matar a saudade.
— Você está perdido, Emanuel — riu o amigo. — Completamente dominado.
— E eu não queria estar em nenhum outro lugar — admitiu ele.
Emanuel ficou no bar por mais uma hora, aproveitando a conversa adulta e o clima descontraído. Mas, pontualmente às duas horas de sua saída, ele se levantou. Ele tinha uma promessa a cumprir e um doce de leite para comprar.
A volta de lancha foi mais lenta. Ele apreciava o luar refletido na água, pensando na sorte que tinha. Ele tinha Sara, a mulher que o desafiava e o mantinha aceso. Tinha Eduarda, a mulher que o acalmava e o fazia querer ser um homem melhor. E tinha as duas meninas, que eram a extensão física de todo aquele amor complexo e fora dos padrões.
Ao entrar em casa, o silêncio era absoluto. Ele deixou o pote de doce de leite sobre a bancada da cozinha e subiu as escadas. Ele passou pelo quarto das meninas e viu a cena que Eduarda tinha fotografado. Ele entrou em silêncio e ajeitou o cobertor sobre as pernas de Maya. A menina se mexeu durante o sono e murmurou algo que soou como "papai".
Emanuel sentiu um nó na garganta. Ele beijou o topo da cabeça de cada uma e saiu, indo para o seu quarto.
Lá, Sara e Eduarda o esperavam. Sara estava lendo uma revista de moda e Eduarda estava encostada nos travesseiros, esperando por ele.
— O herói voltou — disse Sara, fechando a revista. — Trouxe o suborno da Maya?
— Está na cozinha — disse ele, começando a tirar a camisa.
Eduarda estendeu a mão para ele.
— Ela sentiu sua falta, Manu. Mas depois que você saiu, ela se acalmou e disse que o papai ia trazer o "doce grande".
Emanuel deitou-se entre as duas, sentindo o calor de seus corpos, o perfume contrastante de cada uma. Ele fechou os olhos, sentindo a exaustão da noite e a paz daquele momento.
— Amanhã vai ser um dia longo — murmurou ele. — Tenho um jet ski para pilotar com uma criança de dois anos e um pote de doce para abrir.
— E um ensaio de ballet para me levar — lembrou Eduarda, beijando o ombro dele.
— E uma conta de cartão de crédito para pagar, porque eu comprei sapatos novos enquanto você estava fora — completou Sara, rindo.
Emanuel sorriu no escuro. O escândalo de Maya, a manipulação de Ágata, o ciúme velado de Sara e a carência doce de Eduarda... tudo aquilo era o preço que ele pagava por querer tudo. E, enquanto fechava os olhos para dormir, ele sabia que pagaria aquele preço todos os dias, com prazer, contanto que, ao final da trilha, ele sempre pudesse voltar para aquele abraço triplo que era o seu verdadeiro lar.