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Entre o Sangue e o Mar

A manhã em Angra dos Reis nasceu com um céu de um azul tão sólido que parecia pintado à mão. O sol, ainda subindo, já aquecia o deck de madeira da mansão, onde o café da manhã era servido com a fartura que Emanuel fazia questão de manter. Era o seu momento de paz antes do caos que ele mesmo incentivava.

Sara, usando um biquíni de estampa de onça adornado com correntes douradas, terminava de passar um gloss labial ultra brilhante enquanto olhava para o mar. Ágata, a pequena cópia da mãe em miniatura, já estava com o colete salva-vidas rosa choque, pulando de um pé só de ansiedade.

— Vamos, Emanuel! A Ágata vai ter um colapso se você não ligar esse jet ski agora — exclamou Sara, ajeitando os óculos escuros de grife. — E eu preciso de um pouco de vento no rosto para curar a ressaca de ontem.

Emanuel, que terminava de conferir os níveis de óleo da moto aquática, sorriu para a esposa. A energia de Sara era contagiante, um turbilhão que o puxava para fora da seriedade do trabalho.

— Já estou indo, loira. Calma. Ágata, vem cá, deixa o papai ajustar esse colete. Nada de cair na água sem aviso.

Enquanto Emanuel cuidava da segurança da filha mais velha, Eduarda observava a cena sentada em uma espreguiçadeira próxima, com Maya no colo. A menina, com seus cachinhos castanhos presos em dois "totós" laterais, olhava para o mar com olhos gigantescos, mas mantinha-se quieta, agarrada à perna da mãe.

— Você não quer ir com eles, Duda? — perguntou Emanuel, aproximando-se e deixando um beijo rápido na testa da prima e outro na bochecha de Maya.

— Ah, não, Manu... você sabe que eu e velocidade não combinamos muito — Eduarda sorriu, aquele sorriso doce e tímido que sempre desarmava os instintos mais brutos de Emanuel. — Vou ficar aqui com a Maya na areia. Vamos fazer castelos, não é, filha?

— Castelo! — repetiu Maya, embora seus olhos estivessem fixos nos mirtilos que Ágata tinha deixado cair no chão antes de sair.

Emanuel percebeu o olhar da menina e rapidamente chutou as frutas para longe, em direção à fenda do deck.

— Nada de mirtilos hoje, pequena. O papai traz uma concha bonita para você, tá bom?

Com um aceno, Emanuel subiu no jet ski, puxando Ágata para a frente dele e Sara para a garupa. O motor rugiu, cortando a quietude da baía, e em segundos eles eram apenas um rastro de espuma branca no horizonte azul.

Eduarda suspirou, sentindo a brisa. Ela adorava Emanuel, mas esses momentos de silêncio, sem a presença vibrante de Sara ou a intensidade protetora de Emanuel, eram raros e preciosos. Ela pegou Maya e desceu para a pequena faixa de areia privativa à frente da casa.

— Pronto, meu amor. Agora é só a gente.

Mas Maya, apesar da aparência frágil e do jeito manhoso, tinha herdado uma curiosidade implacável. Assim que os pés tocaram a areia, a menina se transformou. Ela corria de um lado para o outro, perseguindo caranguejos minúsculos, tentando pegar a espuma das ondas e escalando as pedras baixas que delimitavam a propriedade.

Eduarda, acostumada com a disciplina do ballet, observava a filha com uma mistura de admiração e cansaço. Ela tentava manter o ritmo, mas Maya era como um pequeno raio de energia.

— Maya, cuidado com essas pedras! Estão escorregadias! — avisou Eduarda, levantando-se para ir atrás da menina.

— Olha, mamãe! Peixinho! — gritou Maya, apontando para uma poça entre as rochas mais altas, perto do muro de contenção.

Antes que Eduarda pudesse alcançá-la, o inevitável aconteceu. Maya tentou dar um passo largo demais sobre uma pedra coberta de limo. O pézinho escorregou, e a menina caiu de frente, batendo o rosto e o peito contra a aresta viva de uma rocha incrustada de cracas.

O silêncio que se seguiu à queda foi o mais aterrorizante da vida de Eduarda. Durou apenas dois segundos, mas pareceu uma eternidade. Então, o grito veio. Não era o choro manhoso de quem queria doce; era um grito de dor aguda, visceral.

Eduarda correu, o coração disparado, sentindo a adrenalina de mãe nublar qualquer outra sensação. Quando chegou à rocha, Maya estava tentando se levantar, o rosto já manchado de vermelho.

— Calma, meu amor! A mamãe está aqui! — Eduarda a pegou no colo, sentindo imediatamente o calor do sangue molhando sua regata branca.

O corte era no supercílio e havia outro no lábio, além de escoriações profundas no peito. O rosto de Maya era uma máscara de sangue, que escorria rapidamente, misturando-se à água salgada e à areia.

Qualquer outra mulher teria entrado em colapso, mas Eduarda, que já tinha lidado com lesões de palco, ossos quebrados em ensaios e a própria fragilidade da filha em crises alérgicas, entrou em um estado de calma operante. Ela apertou Maya contra o peito, usando a barra da própria blusa para estancar o sangramento do supercílio.

— Vai ficar tudo bem, Maya. Respira com a mamãe. Um, dois... respira.

Ela caminhou calmamente de volta para a casa, subindo as escadas do deck. Maya soluçava alto, o corpo tremendo, mas Eduarda mantinha a voz firme, cantando baixinho uma música que Emanuel costumava assobiar.

Foi nesse exato momento que o jet ski voltou.

Emanuel desligou o motor perto do cais, rindo de algo que Ágata dizia. Sara saltou primeiro, ajeitando o biquíni, mas parou bruscamente ao olhar para o deck superior.

— Emanuel... — a voz de Sara perdeu todo o sarcasmo. — Olha lá em cima.

Emanuel olhou. O mundo dele parou.

Lá estava Eduarda, a sua doce e frágil Eduarda, com a regata branca completamente encharcada de um vermelho vivo e denso. Maya estava em seus braços, o rosto irreconhecível por causa do sangue e do inchaço.

— MEU DEUS! — Emanuel gritou, saltando da moto aquática e correndo pelo deck, tropeçando nos próprios pés em desespero. — EDUARDA! O QUE ACONTECEU? ELA FOI ATACADA? O QUE É ISSO?

Ele chegou até elas como um furacão, as mãos tremendo tanto que ele não conseguia sequer tocar na filha. O rosto de Emanuel estava pálido, os olhos arregalados, a respiração tão curta que parecia que ele teria um infarto ali mesmo.

— Manu, calma — disse Eduarda, a voz incrivelmente estável. — Ela caiu nas pedras. Cortes de craca sangram muito mesmo, você sabe.

— MUITO? EDUARDA, VOCÊ ESTÁ COBERTA DE SANGUE! — Emanuel gritava, a voz falhando. — Ela está morrendo? Maya! Olha para o papai! Sara, liga para o médico! Chama o helicóptero! Agora!

Sara, que geralmente era a mais dramática, estava chocada com a reação de Emanuel, mas agiu rápido, pegando o celular. Ágata começou a chorar ao ver a irmã naquele estado, agarrando-se à perna de Sara.

— Emanuel, cala a boca por um segundo — ordenou Eduarda, com uma autoridade que raramente usava. — Você está assustando ela mais do que o corte. Maya, olha o papai. Dá um tchau para ele.

Maya, soluçando, levantou a mãozinha suja de sangue e areia e fez um aceno fraco.

— Papai... dodói... — murmurou a menina.

Emanuel quase caiu de joelhos. Ele viu a quantidade de sangue na roupa de Eduarda — o branco da regata tinha desaparecido, substituído por uma mancha escarlate que se espalhava pelo colo e pela barriga da prima. Para ele, aquilo parecia um cenário de guerra.

— Duda, você está muito calma... por que você está tão calma? — ele perguntou, a voz embargada, as lágrimas finalmente descendo pelos olhos do homem que todos julgavam ser de ferro. — Ela está perdendo muito sangue, a gente precisa ir para o hospital agora!

— Manu, eu já limpei o pior. O corte no supercílio é profundo, talvez precise de dois pontos, mas o resto é superficial — Eduarda explicou, começando a caminhar para dentro da casa. — Pega o kit de primeiros socorros no armário do corredor. Agora, Emanuel. Seja útil.

Emanuel obedeceu como um soldado, embora suas pernas parecessem feitas de gelatina. Ele buscou o kit, derrubando metade das coisas no chão antes de levar o que importava para o banheiro principal.

Lá, Eduarda sentou Maya na bancada. Com uma paciência angelical, ela começou a limpar o rosto da menina com soro fisiológico. A cada passada de gaze, mais sangue aparecia, e Emanuel soltava um gemido de agonia.

— Duda, olha isso... o lábio dela está rasgado — Emanuel dizia, andando de um lado para o outro no espaço confinado do banheiro. — Eu não devia ter saído. Foi minha culpa. Eu deixei vocês sozinhas.

Sara apareceu na porta, observando a cena. Ela viu a mancha de sangue na roupa de Eduarda e a palidez de Emanuel.

— Emanuel, senta um pouco antes que você desmaie e eu tenha dois pacientes para cuidar — disse Sara, cruzando os braços. — A Duda está sob controle. Olha para ela.

Emanuel parou e olhou. Eduarda estava concentrada, as mãos firmes, conversando com Maya em um tom de voz que era puro mel. Ela não demonstrava medo, apenas cuidado. O contraste entre a regata ensanguentada e a expressão serena de Eduarda era algo que Emanuel nunca esqueceria.

— Como você consegue? — perguntou ele, a voz num sussurro quebrado.

Eduarda olhou para ele por um segundo, os olhos castanhos cheios de uma força que ele raramente notava sob a timidez.

— Porque ela precisa que eu consiga, Manu. Se eu desesperar, quem vai cuidar dela? O sangue assusta, mas ela está viva. Ela está respirando. O resto a gente conserta.

Emanuel aproximou-se, sentando-se no chão ao lado da bancada, segurando a mão livre de Maya. A menina, sentindo a presença do pai, apertou seus dedos com força.

— O papai está aqui, Maya. O papai está aqui — ele repetia, a voz ainda trêmula.

— O médico está a caminho, mas disse que pelos vídeos que mandei, não é emergência de helicóptero — avisou Sara, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Emanuel. — Vai ficar tudo bem, tatuador. A pequena é dura na queda, igual ao pai de criação dela.

Depois de alguns minutos, o sangramento diminuiu. Eduarda conseguiu fazer um curativo compressivo no supercílio e limpou os arranhões no peito de Maya. A menina, exausta pelo choro e pela dor, começou a relaxar, encostando a cabeça no ombro da mãe.

— Pronto — disse Eduarda, suspirando. — Agora, Manu, você pode levar ela para o quarto? Eu preciso trocar essa roupa e tomar um banho. Estou colando de sangue.

Emanuel pegou Maya com uma delicadeza extrema, como se ela fosse feita de cristal soprado. Ele a levou para o quarto, aninhando-a na cama, e ficou ali, sentado ao lado dela, observando cada respiração da menina como se sua própria vida dependesse disso.

Sara entrou no quarto logo depois, trazendo um copo de água com açúcar para Emanuel.

— Toma. Você está mais pálido que a criança.

Emanuel bebeu a água, sentindo o açúcar acalmar seus nervos.

— Eu nunca senti tanto medo, Sara. Quando vi a Duda toda suja de sangue... eu achei que tinha perdido a Maya. E a Duda... ela agiu como se fosse apenas mais um dia comum.

Sara sentou-se na beirada da cama, olhando para Maya adormecida.

— A Eduarda é mais forte do que você pensa, Emanuel. Você a vê como essa bonequinha que precisa de proteção, mas ela criou essa menina sozinha no começo, lembra? Ela enfrentou o abandono, a gravidez precoce, a faculdade e o ballet. O sangue de hoje não é nada perto do que ela já carregou nas costas.

Emanuel assentiu, sentindo uma admiração renovada pela prima. Ele sempre soube que a amava, que precisava de sua doçura, mas hoje ele tinha visto a coluna de aço que sustentava aquela doçura.

Algum tempo depois, Eduarda entrou no quarto. Ela tinha tomado banho e vestia um vestido leve de algodão azul claro. O cabelo estava solto e úmido, e ela parecia exausta, mas em paz.

Ela caminhou até Emanuel e colocou a mão em seu pescoço, sentindo a tensão nos músculos dele.

— Ela está dormindo bem? — perguntou ela.

— Sim. O médico chegou, deu uma olhada e disse que você fez um trabalho impecável. Não vai precisar de pontos, a cola biológica que ele trouxe resolveu.

Emanuel levantou-se e puxou Eduarda para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, respirando o cheiro de sabonete que tinha substituído o cheiro metálico do sangue.

— Desculpa por ter surtado — murmurou ele. — Eu só... eu amo tanto vocês que o pensamento de algo acontecer me tira o chão.

Eduarda o abraçou de volta, sentindo a força dos braços dele.

— Eu sei, Manu. Mas você não precisa carregar o mundo sozinho o tempo todo. A gente também sabe se segurar.

Sara aproximou-se dos dois, abraçando-os por trás, formando aquele círculo peculiar que era a base daquela família.

— Bom, agora que o drama médico acabou e o Emanuel não vai mais infartar, eu vou pedir uma pizza gigante. E eu quero vinho. Muito vinho.

Emanuel riu, um som aliviado que ecoou pelo quarto.

— Pizza parece ótimo. E Sara?

— Oi?

— Obrigado por não ter surtado junto comigo.

Sara piscou para ele, recuperando seu ar provocador.

— Alguém tinha que manter a classe nesta casa, não é? E além disso, o sangue ia manchar meu biquíni novo. Prioridades, tatuador. Prioridades.

A noite caiu sobre Angra com uma serenidade renovada. Maya dormia profundamente, com um pequeno curativo no rosto que logo se tornaria apenas uma história para contar. Eduarda e Sara dividiam o sofá, conversando sobre a próxima coleção da loja, enquanto Emanuel as observava da varanda.

Ele olhou para as próprias mãos. Elas ainda tremiam um pouco, mas o medo tinha sido substituído por uma certeza profunda. Ele tinha duas mulheres incríveis ao seu lado: uma que era o seu fogo e a sua audácia, e outra que era a sua rocha e a sua paz.

Emanuel sabia que haveria outros tombos, outros sustos e, certamente, mais sangue e lágrimas pelo caminho. Mas, enquanto Eduarda mantivesse aquela calma firme e Sara mantivesse seu espírito indomável, ele sabia que sua família sobreviveria a qualquer tempestade. Porque ali, naquela casa, o amor não era apenas um sentimento; era uma força capaz de estancar feridas e transformar o caos em um porto seguro.

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