D volta
Point off view Giovana torres Garcia O aeroporto de Zurique estava imerso naquele burburinho organizado, um contraste absoluto com a paz silenciosa que havíamos experimentado nos Alpes. O ar condicionado do terminal era seco, e o cheiro de café caro se misturava ao perfume de centenas de viajantes. Maya segurava o carrinho de malas com uma mão e, com a outra, não soltava a minha nem por um segundo. Era como se ela tivesse medo de que, se nos soltássemos, o feitiço daquela viagem pudesse se quebrar antes de cruzarmos o Atlântico. — Você está sentindo algum desconforto? — Maya perguntou pela décima vez, enquanto aguardávamos a chamada para o embarque prioritário. — A barriga está doendo? Algum enjoo Eu ri, encostando minha cabeça em seu ombro, sentindo a textura macia do seu casaco de lã. — Maya, meu amor, as injeções foram para preparar o terreno. Eu ainda não estou grávida de fato, lembra? O procedimento de transferência vai ser agendado para daqui a algumas semanas, quando estivermos estabilizadas no Brasil. — Eu sei, eu sei — ela respondeu, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma ansiedade protetora que eu conhecia bem. — Mas o Dr. Schneider disse que o equilíbrio emocional é fundamental. Eu só quero garantir que você esteja em uma bolha de serenidade. — Eu estou na maior bolha de felicidade da minha vida — afirmei, dando um beijo em seu rosto. Finalmente, a voz metálica anunciou o nosso voo. Caminhamos pelo finger e, ao entrar na aeronave, senti um aperto agridoce no peito. Estávamos deixando a Suíça, o lugar onde nossa família começou a se expandir em sonho, mas estávamos voltando para a Sofia. E a saudade da nossa pequena já estava se tornando insuportável. Acomodamo-nos em nossas poltronas. Maya, como sempre, garantiu que eu ficasse na janela. Assim que o avião decolou e as luzes da cidade começaram a se tornar pontos minúsculos sob o manto de neve, ela pegou o tablet e abriu uma planilha que eu nem sabia que ela tinha criado. — O que é isso, Maya Manoela? — perguntei, curiosa. — É o nosso plano de ação — explicou ela, séria, mas com um sorriso de canto. — Já pesquisei três arquitetos especializados em quartos infantis. Quero que o quarto novo seja integrado ao da Sofia, mas com uma identidade própria. E também já fiz uma lista de alimentos que ajudam na fixação do embrião. — Você não existe — murmurei, entrelaçando meus dedos nos dela. — Às vezes eu esqueço o quanto você é metódica quando coloca uma ideia na cabeça. — Não é só uma ideia, Gio. É a nossa vida. É o irmão ou irmã da nossa filha. Eu quero que esse bebê sinta, desde o primeiro milímetro de existência, que foi planejado com todo o rigor do amor. Point off view Maya Manoela torres Garcia Eu não conseguia parar de sorrir. Tentava prestar atenção na tela do tablet, na lista de arquitetos, nas anotações sobre alimentação, vitaminas e datas, mas, no fundo, minha cabeça estava em outro lugar. No futuro. No nosso futuro. Virei o rosto discretamente para observar a Giovanna. Ela estava olhando pela janela do avião, acompanhando as nuvens que começavam a cobrir completamente a paisagem da Suíça. A luz suave da cabine iluminava seu rosto, e meu coração apertou de um jeito bom. Ela tinha aceitado. Aceitado carregar o nosso bebê. Durante nove meses, ela seria o abrigo da maior prova de amor que poderíamos construir juntas. Eu sabia o tamanho daquela decisão. Conhecia os medos dela, a responsabilidade, as mudanças que viriam... e, mesmo assim, ela tinha escolhido viver tudo isso ao meu lado. Meu peito transbordava de gratidão. Desliguei o tablet e segurei sua mão. — O que foi? — ela perguntou, percebendo meu olhar. Balancei a cabeça, rindo baixinho. — Nada... eu só estava pensando. — Pensando em quê? Acariciei o dorso da mão dela com o polegar. — Em como eu tenho sorte. Ela arqueou uma sobrancelha. — Sorte? — Muita sorte. Você aceitou carregar o nosso primeiro frutinho... e eu sei que essa não foi uma decisão pequena. Você vai emprestar o seu corpo, enfrentar hormônios, enjoos, cansaço... tudo isso por nós. Os olhos dela se encheram de carinho. — Maya... — Não, deixa eu falar. — Sorri, sentindo minha voz falhar. — Eu nunca vou conseguir agradecer o suficiente. Toda vez que eu imaginar aquele bebê crescendo dentro de você... eu vou lembrar que isso é amor na forma mais bonita que existe. Ela levou minha mão até os lábios e deixou um beijo demorado ali. — Esse bebê não vai crescer só dentro de mim. Ele já está crescendo dentro da gente. Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir. Sorri entre o choro. — Hormônios antes da gravidez existem? Ela caiu na risada. — Acho que, no seu caso, é excesso de felicidade. Ri junto, enxugando o rosto. — Pode ser. ..... O voo foi longo, mas para nós, passou em um piscar de olhos entre conversas sobre nomes e planos para o futuro. Quando o comandante anunciou que estávamos sobrevoando o território brasileiro, o calor no meu peito aumentou. O Brasil significava a realidade. Significava contar para a Sofia. Point off view Giovana torres Ao desembarcarmos no Rio de Janeiro, o choque térmico foi imediato. O ar úmido e quente nos abraçou assim que saímos do aeroporto. Maya respirou fundo, parecendo recuperar uma energia que só o nosso chão consegue dar. — Lar, doce lar — disse ela, enquanto o motorista colocava nossas malas no carro. — Mal posso esperar para apertar a Sofia — eu disse, sentindo meus olhos marejarem. A viagem até nossa casa pareceu durar uma eternidade. Quando o carro finalmente parou em frente ao portão, meu coração disparou. Antes mesmo de o motorista desligar o motor, ouvi uma gargalhada que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. Sofia. Ela corria pelo jardim com os cabelos bagunçados pelo vento, tentando escapar de Larissa e Ana Clara Nicole, que fingiam não conseguir alcançá-la. — Eu sou muito rápida! Vocês nunca vão me pegar! — gritou, dando uma risada gostosa. — Ah, é? Então espera só! — Larissa respondeu, correndo atrás dela de propósito bem devagar. — Eu vou pegar essa mocinha! — Ana Clara entrou na brincadeira. Mais ao fundo, minha mãe, dona Sra. Torres, observava tudo sentada em um banco de madeira, rindo da energia da neta. Ao lado dela, Sandra, nossa governanta, segurava uma bandeja com sucos e frutas, claramente tentando convencer as três a fazer uma pausa. — Sofia! Vem beber um pouco de água, meu amor! — Sandra chamou. — Só mais cinco minutinhos, Sandrinha! — a pequena respondeu sem diminuir a velocidade. Sorri sem perceber. Era exatamente essa bagunça que fazia nossa casa ser um lar. Maya apertou minha mão. — Eu senti tanta falta disso... Assenti em silêncio. Assim que o carro entrou pelo portão, Sofia parou de correr. Os olhinhos castanhos se arregalaram. Ela olhou para o carro. Depois para mim. Depois para Maya. Por um segundo inteiro, ela ficou completamente imóvel. — MAMÃES! O grito ecoou pelo jardim. Ela se jogou nos nossos braços assim que descemos. Maya a pegou no colo, girando-a no ar, cobrindo o rosto da menina de beijos, enquanto eu as abraçava por fora, formando um círculo de puro afeto. — Que saudade, minha princesa! — Maya dizia, com a voz embargada. — Você cresceu nesses quinze dias? Parece mais pesada! — Eu comi todo o brócolis que a vovó fez! — Sofia anunciou orgulhosa, passando as mãozinhas pelo rosto da Maya e depois pelo meu. — Vocês trouxeram neve na mala? — Neve não, mas trouxemos muitas histórias e um presente muito especial — eu disse, piscando para Maya. Sofia franziu a testa imediatamente. — Um presente? Olhou primeiro para mim, depois para Maya, desconfiada. — Cadê? Maya riu. — Calma, apressadinha. Primeiro deixa a gente entrar em casa. — Mas eu quero agora! — Sofia Torres Garcia... — falei, segurando o riso. Ela colocou as duas mãozinhas na cintura. — Tá bom... Larissa gargalhou. — Continua mandando em todo mundo. Não mudou nadinha. — Eu não mando! — Sofia respondeu, ofendida. — Eu só... organizo. Aquela resposta fez o jardim inteiro cair na risada. Minha mãe enxugou discretamente uma lágrima enquanto nos abraçava. — Bem-vindas para casa, minhas filhas. — Obrigada, mãe. Sandra veio logo atrás. — Que bom que vocês chegaram bem. A casa estava sentindo falta de vocês. — E nós estávamos morrendo de saudade daqui, Sandra. Ela sorriu daquele jeito acolhedor de sempre. — Então entrem. Preparei o almoço favorito de vocês. — Lasanha? — Maya perguntou esperançosa. Sandra fez um ar de mistério. — Talvez... — Sandra, eu te amo! — Maya levou a mão ao peito dramaticamente. — Eu sei, dona Maya. Todos riram. Entramos na casa acompanhadas da bagunça organizada que só a nossa família conseguia fazer. Sofia não desgrudava um segundo sequer da Maya, agarrada ao pescoço dela como um coala. Enquanto isso, Larissa e Ana Clara já pegavam as malas do motorista, discutindo qual delas era mais pesada. — Essa aqui é da Gio. — Como você sabe? — Porque só tem roupa preta. — Ei! — reclamei. — Mentira? Balancei a cabeça, derrotada. — Não... Mais gargalhadas. Assim que entramos na sala, Sofia finalmente lembrou do assunto mais importante. — Tá! Agora eu quero meu presente. Maya olhou para mim, procurando autorização apenas com os olhos. Assenti quase imperceptivelmente. Conta pra todos Ali Faz resto da história