Voltar ao resumo

D volta

O Relógio de Areia e a Eternidade em um Sorriso

O tempo no Rio de Janeiro tem uma maneira peculiar de se comportar. Às vezes, ele parece derreter sob o sol de quarenta graus, arrastando-se preguiçosamente como as ondas de Ipanema. Em outras, ele corre como a Sofia pelo jardim, escapando por entre os dedos antes que possamos sequer processar o momento. Hoje, enquanto eu observava a cena diante de mim, tive a nítida sensação de que o relógio de areia da nossa vida havia sido preenchido com pó de ouro.

Gael não era mais aquele "pãozinho" recém-nascido que cabia na curvatura do meu braço. Aos cinco anos, ele era uma explosão de energia e curiosidade, uma mistura fascinante da minha necessidade de entender como o mundo funcionava com a alma solar e artística da Gio. Ele estava sentado no tapete da sala, cercado por blocos de montar, organizando-os meticulosamente por cores — um traço que Larissa insistia em dizer que era "culpa do meu DNA" — enquanto tentava construir o que ele chamava de "Laboratório de Nuvens".

— Mamãe Maya, você acha que as nuvens precisam de escadas para subir ou elas usam elevadores de vento? — perguntou ele, sem desviar os olhos da torre azul que crescia em suas mãos.

Eu fechei o laptop, desistindo de revisar a planilha de investimentos da semana. Algumas coisas eram mais importantes do que números.

— Eu acho que elas usam elevadores de vento, Gael. Mas, para isso, a pressão atmosférica precisa estar certinha, entende? — respondi, sentando-me no chão ao lado dele.

Ele franziu a testa, exatamente como eu faço quando estou concentrada.

— Pressão... at-mos-fé-rica — ele repetiu, saboreando a palavra nova. — É como o aperto que a mamãe Gio dá na gente quando a gente chega da escola?

Eu ri, sentindo aquele calor familiar no peito.

— É quase isso, meu amor. Um aperto que envolve tudo.

— Falando em aperto, eu ouvi o meu nome e já vim reivindicar o meu lugar! — A voz de Giovanna ecoou pelo corredor antes mesmo de ela aparecer.

Ela entrou na sala com aquela aura que sempre parecia iluminar o ambiente. Os cabelos estavam presos em um coque despojado, e ela usava um dos meus moletons antigos, que ficava absurdamente melhor nela do que em mim. Atrás dela, Sofia, agora uma pré-adolescente cheia de personalidade e com pernas que pareciam crescer um centímetro por dia, trazia um tabuleiro de jogos.

— Chegamos! — anunciou Sofia, jogando-se no sofá com a graciosidade que só os jovens possuem. — O Gael ainda está tentando explicar a ciência das nuvens?

— Ele está construindo um laboratório, Sofi! — Gael defendeu-se, levantando um bloco vermelho. — Para quando a gente for viajar para a neve de novo, eu saber como fabricar meu próprio gelo.

Gio sentou-se ao meu lado, encostando o ombro no meu. O toque dela ainda me causava o mesmo formigamento de dez anos atrás. Ela olhou para os nossos filhos — o plural ainda me fazia querer chorar de gratidão — e suspirou com satisfação.

— Neve, hein? — Gio comentou, passando a mão pelos cabelos castanhos de Gael. — Parece que alguém aqui herdou a obsessão da mamãe Maya pela Suíça.

— Não é obsessão, Giovanna — eu disse, fingindo indignação. — É apreço por lugares onde as coisas funcionam no horário.

— Sei... — Ela sorriu, aquele sorriso de canto que desarmava todas as minhas defesas. — Maya Manoela, você sabe que o nosso melhor "funcionamento" acontece no caos desse jardim, com o calor do Rio e o barulho dessas duas crianças.

— Eu não sou criança, mãe! — Sofia protestou, embora estivesse abraçada a uma almofada de pelúcia. — Eu já sou uma jovem adulta em treinamento.

— Em treinamento para me deixar de cabelos brancos, só se for — brinquei, recebendo uma careta de volta.

A tarde caiu lentamente, tingindo o céu da Barra com tons de laranja e violeta. Ficamos ali, os quatro, entrelaçados em uma rotina que era, ao mesmo tempo, comum e extraordinária. Observar Gael e Sofia interagindo era como assistir a um filme que eu nunca queria que terminasse. Ela, protegendo-o com uma ferocidade doce; ele, olhando para ela como se ela fosse a detentora de todos os segredos do universo.

Em certo momento, as crianças se distraíram com um desenho na televisão, e Gio me puxou discretamente para a varanda. O ar da noite estava começando a refrescar, trazendo o cheiro do mar e das flores de maio.

— No que você está pensando? — ela perguntou, abraçando-me pela cintura e encostando a cabeça no meu peito.

— No quanto a vida é generosa — respondi, rodeando-a com meus braços. — Às vezes eu fecho os olhos e ainda consigo sentir o frio de Zurique, o cheiro daquele café caro no aeroporto, a ansiedade de não saber se daria certo. E agora... agora eu olho para dentro daquela sala e vejo que o "frutinho" tem nome, tem voz, tem perguntas sobre nuvens e um laboratório de blocos.

Gio se afastou um pouco para me olhar nos olhos. Os dela brilhavam com a luz dos postes da rua, mas era um brilho que vinha de dentro.

— Valeu a pena cada injeção, Maya. Cada medo, cada planilha sua que eu fingia achar exagerada, mas que no fundo me dava segurança.

— Você sabia que eu exagerava? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Sempre soube — ela riu, um som que ainda era a minha música favorita. — Mas eu também sempre soube que você fazia aquilo porque o seu amor é assim: ele precisa de estrutura para não transbordar e inundar o mundo.

Eu a puxei para mais perto, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Eu só queria que fosse perfeito para você. Para eles.

— E é — ela sussurrou. — Olhe para nós, Maya. Nós não apenas sobrevivemos à jornada; nós florescemos nela.

Ficamos em silêncio por um tempo, ouvindo o som abafado das risadas de Gael e Sofia lá dentro. Era um silêncio confortável, o tipo de silêncio que só existe entre pessoas que já disseram tudo o que precisava ser dito e agora apenas desfrutam da presença uma da outra.

Eu pensei em como a minha vida era dividida em "antes" e "depois" de Giovanna Torres Garcia. O "antes" era linear, seguro, mas um pouco cinza. O "depois" era um prisma, cheio de cores que eu nem sabia que existiam, com picos de adrenalina e vales de paz profunda. E o nascimento do Gael... o nascimento dele foi a confirmação de que o nosso amor não era um círculo fechado, mas uma espiral que continuava se expandindo, alcançando novas alturas.

— Maya? — Gio chamou baixinho.

— Oi, meu amor.

— Você lembra do que o Dr. Schneider disse sobre equilíbrio emocional?

— Lembro. Ele disse que era fundamental para a fixação do embrião.

— Pois é — ela sorriu, pegando a minha mão e colocando-a sobre o seu coração. — Eu acho que a gente nunca mais perdeu esse equilíbrio. Mesmo nos dias difíceis, mesmo quando a Sofia tira notas baixas ou o Gael decide que quer ser astronauta às três da manhã... a gente tem esse centro. Você é o meu centro.

Senti uma lágrima solitária escapar, mas não a enxuguei. Era uma lágrima de felicidade plena, o tipo de choro que eu aprendi a aceitar desde que voltamos da Suíça.

— E você é a minha vida, Gio. Você e esse nosso pequeno exército de sonhos que a gente construiu.

— MAMÃES! — O grito de Gael veio de dentro da casa, seguido pelo som de algo caindo. — O elevador de vento quebrou! Preciso de manutenção urgente!

Nós nos olhamos e rimos simultaneamente. O momento de introspecção na varanda havia acabado, mas a vida real — a nossa vida maravilhosa e caótica — estava chamando.

— É melhor irmos lá — disse Gio, dando-me um selinho rápido. — A engenheira chefe e a artista precisam consertar o laboratório.

— Deixa eu só pegar o meu tablet — eu disse, por puro hábito. — Talvez eu tenha um diagrama de elevadores de vento salvo em algum lugar.

Gio revirou os olhos, mas me deu a mão, puxando-me de volta para o calor da nossa sala.

— Você não existe, Maya Manoela.

— Ainda bem, não é? Caso contrário, quem organizaria essa bagunça?

Entramos em casa de mãos dadas, prontas para enfrentar qualquer "quebra" no laboratório de nuvens, qualquer desafio da adolescência da Sofia ou qualquer curva que o destino resolvesse nos apresentar. Porque, no fim das contas, a lição mais importante que aprendemos entre as montanhas de neve e as praias do Rio foi que, quando se tem amor e uma boa dose de planejamento — ok, talvez muita dose de planejamento da minha parte —, o final feliz não é um destino. É o caminho que a gente escolhe percorrer todos os dias, um passo de cada vez, uma contração de cada vez, um sorriso de cada vez.

Gael correu para o meu colo assim que me viu, e Sofia se acomodou ao lado de Gio no tapete. A família Torres Garcia estava completa, vibrante e pronta para o próximo capítulo. E eu, Maya Manoela, finalmente entendi que a perfeição não está na ausência de erros, mas na presença constante daqueles que amamos.

O relógio de areia podia continuar correndo, mas nós tínhamos aprendido a fazer cada grão valer a pena. E isso, por si só, já era o maior milagre de todos.