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D volta

O Milagre do Rigor e do Amor

Os meses que se seguiram à nossa volta da Suíça foram uma sucessão de cores, exames e uma expectativa que parecia vibrar nas paredes da nossa casa. A transferência dos embriões foi um sucesso e, semanas depois, o exame de sangue confirmou o que meu coração já gritava: havia uma vida pulsando dentro de mim. Mas a maior surpresa veio no chá revelação, organizado por uma Larissa quase histérica de felicidade. Quando o pó azul tingiu o ar do nosso jardim, Maya caiu de joelhos, chorando e rindo ao mesmo tempo. Teríamos um menino. O nosso Gael.

Agora, nove meses depois, o calor do Rio de Janeiro parecia intensificar cada sensação. Minha barriga estava enorme, uma esfera perfeita que abrigava o herdeiro das planilhas de Maya e dos meus sonhos mais profundos.

— Gio, você precisa respirar — Maya disse, a voz oscilando entre a autoridade de quem leu todos os manuais de parto e o pânico de quem estava prestes a ver a vida mudar para sempre. — A contração durou quarenta segundos. O aplicativo diz que estamos no ritmo.

Eu estava apoiada na cabeceira da cama, sentindo uma onda de dor subir como uma maré inevitável.

— Maya... o aplicativo... não está sentindo a dor... eu estou — respondi, tentando manter o humor entre os dentes cerrados.

— Eu sei, meu amor, eu sei. — Ela se aproximou, secando o suor da minha testa com uma toalha úmida. — O carro está pronto. A mala do Gael está no banco de trás. A Sofia já está com a sua mãe. Tudo está sob controle.

— Nada está sob controle — eu ri, soltando um suspiro longo quando a dor cedeu. — E é por isso que é perfeito.

O trajeto até a maternidade foi um borrão de luzes da cidade e a mão de Maya apertando a minha com tanta força que eu quase esqueci da barriga. Ela falava sem parar, recitando o plano de parto, os benefícios do contato pele a pele e a importância da primeira mamada. Eu apenas a olhava, maravilhada com o fato de que aquela mulher, tão metódica e racional, estava prestes a se desmanchar em lágrimas novamente.

Ao chegarmos, o ambiente hospitalar nos acolheu com aquela eficiência asséptica. Mas, para nós, o quarto da maternidade se transformou rapidamente em um santuário. Maya espalhou óleos essenciais, colocou a nossa playlist favorita e não saiu do meu lado nem por um segundo.

As horas passaram em um turbilhão de esforço e entrega. Eu sentia cada fibra do meu corpo se abrindo para deixar o nosso filho passar. Em cada intervalo das contrações, eu buscava os olhos castanhos de Maya. Eles eram o meu porto seguro, a âncora que me impedia de ser levada pela intensidade do momento.

— Você é a mulher mais forte que eu já conheci — sussurrou ela, encostando a testa na minha enquanto eu me preparava para o esforço final. — Falta pouco, Gio. O nosso menino está vindo.

— Eu não consigo... — murmurei, o cansaço começando a pesar.

— Consegue sim. Você trouxe ele até aqui. Ele quer te conhecer.

Com um último esforço, um grito que carregava toda a jornada desde os Alpes suíços até aquele quarto no Rio, eu senti o alívio imediato. E então, o som mais bonito do mundo preencheu o espaço.

Um choro forte, decidido, cheio de vida.

— É ele, Gio! — Maya exclamou, e quando olhei para ela, vi as lágrimas lavarem seu rosto. — Ele é lindo. Ele é perfeito.

A obstetra colocou Gael sobre o meu peito. Ele era quente, úmido e tinha um cheiro que eu nunca mais esqueceria. Era a mistura da ciência, do destino e do amor mais puro que duas pessoas poderiam cultivar. Maya se inclinou, abraçando nós dois, formando novamente aquele círculo de afeto que agora tinha quatro membros oficiais.

— Oi, Gael — sussurrei, sentindo o pequeno coração dele bater contra o meu. — Seja bem-vindo à nossa bagunça.

Algumas horas depois, o quarto estava mais calmo. A luz do amanhecer começava a entrar pela janela, pintando tudo de dourado. Gael dormia tranquilamente no berço ao lado da minha cama, e Sofia tinha acabado de chegar com a minha mãe e as meninas.

A pequena aproximou-se do berço na ponta dos pés, os olhos arregalados.

— Ele é tão pequenininho, mamãe Maya — Sofia cochichou, com medo de acordar o irmão. — Ele parece um pãozinho.

— Um pãozinho que você vai ter que ajudar a cuidar, mocinha — Maya disse, puxando Sofia para um abraço de lado. — Lembra do que combinamos? Nada de morder os livros perto dele.

— Eu lembro! — Sofia sorriu, e depois olhou para mim. — Mamãe Gio, você está bem? A sua barriga murchou!

— Estou ótima, meu amor — respondi, estendendo a mão para ela. — Só estou muito feliz.

Larissa e Ana Clara entraram logo atrás, carregando balões e flores.

— Eu sabia que seria a cara da Maya! — Larissa exclamou, analisando o bebê. — Olha esse narizinho empinado. Já nasceu querendo organizar o berçário.

— Deixa meu filho em paz, Larissa! — Maya rebateu, mas não conseguia parar de sorrir. — Ele vai ser o que ele quiser. Mas, se quiser ser organizado, não vou reclamar.

— Ele vai ser amado — Ana Clara disse, aproximando-se de mim e deixando um beijo na minha testa. — Isso é a única certeza que a gente tem.

Minha mãe permanecia ao pé da cama, observando a cena com uma serenidade absoluta.

— Vocês formaram uma família linda, minhas filhas. O mundo lá fora pode ser difícil, mas aqui dentro... aqui dentro existe um sol que nunca se apaga.

Sandra apareceu na porta, trazendo uma bandeja com frutas e um sorriso que ia de orelha a orelha.

— Agora sim a casa está completa. Já avisei na cozinha que o banquete de boas-vindas do pequeno mestre Gael vai ser o maior que essa cidade já viu.

Ficamos ali, todos juntos, naquele quarto que parecia pequeno demais para tanta felicidade. Maya sentou-se na beirada da minha cama e pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos como fizera no avião, meses atrás.

— Sabe, Gio... — ela começou, a voz baixa, só para mim. — Eu fiz tantas planilhas. Calculei datas, vitaminas, nomes, arquitetos... mas nada, absolutamente nada, me preparou para o que eu senti quando vi o rosto dele.

— O amor não cabe em planilhas, Maya Manoela — eu disse, sorrindo. — Eu te avisei.

— É... você avisou. — Ela beijou o dorso da minha mão. — Mas acho que o rigor valeu a pena. O resultado é a perfeição.

Olhei para o berço, para a Sofia tentando contar os dedos dos pés de Gael, para a minha mãe e minhas amigas rindo ao fundo, e depois para a mulher da minha vida ao meu lado.

A viagem que começara com injeções e incertezas no frio da Suíça terminava ali, no calor do Rio de Janeiro, com a vida transbordando em nossos braços. Não era apenas o fim de uma fic, ou o fim de um capítulo. Era o início da nossa eternidade.

— Eu te amo, Maya — sussurrei.

— Eu te amo, Gio. Hoje, amanhã e em todos os planos que a gente ainda vai inventar.

E assim, sob o sol do Rio e o olhar atento de quem nos amava, nossa família floresceu. O "frutinho" havia chegado, e o jardim nunca esteve tão vivo.