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O Reflexo do Dragão Rebelde
O salão de banquetes do Olimpo estava em um estado de agitação que beirava o caos. Zeus, em sua mania de grandiosidade, decidira que a reunião de família para celebrar o pequeno Xiao Huang precisava de entretenimento tecnológico, algo que "conectasse os mundos". Graças à curiosidade de Hermes e às habilidades de Hefesto, uma enorme tela de cristal flutuava no centro do salão, projetando memórias e registros de diversos reinos e épocas.
Hades estava sentado com sua dignidade habitual, mantendo Xiao Huang em seu colo. O bebê estava fascinado pelas luzes da tela, apontando e gritando "Uau!" a cada mudança de imagem. Qin Shi Huang, ao lado de Hades, mantinha uma postura relaxada, bebendo vinho de uma taça de jade e comentando com desdém sobre a decoração "excessiva" do irmão de seu marido.
— Realmente, Hades — comentou Qin, ajustando a venda sobre os olhos —, Zeus tem o gosto de um pavão embriagado. Ouro demais e pouca harmonia.
— Você sabe como ele é, Qin — respondeu Hades, acariciando os cabelos do filho. — Ele gosta de brilhar.
De repente, a tela de cristal chiou e a imagem mudou drasticamente. Não eram mais paisagens do Olimpo ou campos de batalha épicos. O que surgiu foi uma imagem granulada, vibrante e barulhenta. Luzes neon em tons de roxo e rosa piscavam freneticamente, e uma batida rítmica e pesada — algo que os deuses nunca tinham ouvido — começou a ecoar pelo salão.
— O que é isso? — perguntou Ares, inclinando-se para frente, interessado. — Algum tipo de ritual de guerra humano?
Na tela, um jovem surgiu. Ele tinha cabelos escuros e rebeldes, sem a coroa ou as vestes imperiais. Usava uma jaqueta de couro curta, calças rasgadas e um sorriso que transbordava uma confiança perigosa. Ele estava no meio de uma multidão, dançando com uma energia frenética, segurando uma bebida colorida em uma mão e rindo para a câmera.
Hades congelou. Ele reconheceu aquele rosto imediatamente. Qin, por sua vez, quase engasgou com o vinho.
— Esperem... aquele é o Qin? — perguntou Hermes, segurando o riso. — O Primeiro Imperador da China em uma... balada?
— Hao! — gritou Xiao Huang na tela, apontando para a imagem. — Papa! Papa novo!
— Não é possível — murmurou Brunhilde, que observava de um canto, os olhos arregalados. — Ele parece... um delinquente.
O vídeo continuou. A cena mudou para o lado de fora do local. O céu estava começando a clarear com os primeiros raios da aurora. O jovem Qin caminhava de forma um pouco instável, acompanhado por uma garota de cabelos curtos e expressão determinada — sua amiga de infância, Chun Yan. Ambos riam alto, claramente sob o efeito da adrenalina da noite.
— Qin, você está ferrado! — a voz de Chun Yan no vídeo era clara. — Se o seu tutor descobrir que você fugiu para o distrito das festas, ele vai te trancar em uma torre de verdade desta vez!
— Um Imperador não é trancado, Chun Yan! — o jovem Qin respondeu na tela, tropeçando em uma pedra e recuperando o equilíbrio com uma pirueta dramática. — Eu apenas... visito o meu povo de forma anônima!
No salão do Olimpo, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelas risadinhas de Zeus.
— Olhem só para ele! — zombou Zeus. — O grande Rei de Onde se Senta é meu Trono, fugindo de fininho para dançar!
Hades olhou para o marido, que agora tentava se esconder atrás de sua própria taça de vinho, as orelhas visivelmente vermelhas.
— Qin... — começou Hades, a voz carregada de uma diversão perigosa. — Você nunca mencionou sua fase de "inspeção anônima" noturna.
— Era uma época de... exploração cultural, Hades! — defendeu-se Qin, embora sua voz tivesse perdido um pouco da arrogância habitual.
Na tela, o drama aumentou. O som de cascos de cavalos e rodas de madeira ecoou. Uma carruagem luxuosa, adornada com o selo real da dinastia Qin, surgiu ao longe na estrada de terra que levava ao palácio.
— Merda! — a Chun Yan do vídeo exclamou, puxando Qin para trás de uma árvore. — É a carruagem do seu pai! Ele voltou mais cedo da conferência!
O jovem Qin arregalou os olhos. A confiança de minutos atrás evaporou, substituída por um instinto de sobrevivência puramente humano.
— Se ele me vir entrando pelo portão principal com esse cheiro de incenso e música barata, eu nunca mais verei a luz do sol — disse o jovem Qin. — Chun Yan, plano B!
— O plano B é suicídio, Qin! — ela sussurrou, mas já o seguia enquanto eles corriam em direção aos fundos das muralhas externas do palácio.
A câmera, que parecia ser operada por um terceiro amigo oculto, tremia enquanto os seguia. Eles chegaram à base de uma torre alta, onde uma janela estreita permanecia aberta no topo.
— Eu vou escalar — declarou o jovem Qin no vídeo, tirando a jaqueta de couro e prendendo-a na cintura.
— Você vai morrer — retrucou Chun Yan, embora estivesse dando um "pezinho" para ele subir no primeiro ressalto da parede de pedra.
No salão do Olimpo, os deuses assistiam hipnotizados. O Primeiro Imperador começou a escalar a parede de pedra lisa com uma agilidade impressionante, usando cada pequena fenda e saliência. Era uma demonstração de força e técnica que, embora fosse para uma finalidade fútil, ainda era impressionante.
— Vejam só a técnica de pés — comentou Poseidon, surpreendentemente interessado. — Ele se move como se a gravidade fosse apenas uma sugestão.
— É claro que sim! — exclamou Qin no presente, recuperando um pouco de seu orgulho. — Eu sempre fui o melhor em tudo, inclusive em entrar furtivamente no meu próprio quarto!
Na tela, Qin estava na metade do caminho quando a carruagem real parou logo abaixo, do outro lado do muro. O som de vozes autoritárias podia ser ouvido. O jovem Qin congelou contra a pedra, parecendo uma lagartixa humana.
— Não respira, Qin! — Chun Yan sussurrou lá de baixo, escondida nos arbustos.
O vídeo mostrava o rosto do jovem Qin de perto. Ele estava suado, o cabelo colado na testa, e seus olhos brilhavam com uma mistura de pânico e excitação. Ele olhou para a câmera e deu um joinha silencioso, antes de fazer um impulso final, saltando para o parapeito da janela e rolando para dentro do quarto segundos antes de um guarda passar pela ronda.
Chun Yan, lá embaixo, soltou um suspiro de alívio audível e mostrou o dedo médio para a janela antes de desaparecer nas sombras.
O vídeo terminou com um chiado, e a luz do salão voltou ao normal.
Por alguns segundos, ninguém disse nada. Então, o salão explodiu em gargalhadas. Zeus batia na mesa, Hermes estava dobrado ao meio, e até mesmo Brunhilde tinha um sorriso sarcástico no rosto.
— Então — disse Hades, virando-se para o marido com um olhar que misturava adoração e deboche —, o grande Imperador da China, o homem que desafiou os deuses, quase foi pego pelo pai voltando de uma balada?
Qin Shi Huang ajeitou sua túnica, recuperando sua postura imperial como se nada tivesse acontecido. Ele ergueu o queixo e cruzou os braços.
— Um verdadeiro Rei sabe quando lutar e quando usar a discrição — declarou ele. — Aquela escalada foi um treinamento preparatório para minhas futuras conquistas. E Chun Yan sempre foi uma excelente cúmplice.
Xiao Huang, que não entendia o contexto mas adorava a agitação, começou a bater palmas.
— Papa escala! — gritou o bebê. — Papa aranha!
Hades soltou uma risada profunda, pegando a mão de Qin.
— Eu teria pago para ver isso pessoalmente. O Primeiro Imperador, o homem que unificou a China, pendurado em uma parede de pedra porque estava com medo do toque de recolher.
— Eu não estava com medo, Hades! — Qin bufou, embora houvesse um sorriso brincando em seus lábios. — Eu estava apenas mantendo a harmonia familiar. Algo que você, como o "pilar de equilíbrio" dos seus irmãos, deveria entender muito bem.
— Oh, eu entendo — disse Hades, inclinando-se para sussurrar no ouvido de Qin. — Mas agora eu sei exatamente o que mostrar para Xiao Huang quando ele ficar adolescente e tentar fugir para as festas de Dionísio.
Qin empalideceu levemente sob a venda.
— Você não ousaria usar meu próprio passado contra mim, Hades. Isso é... indigno de um Rei do Submundo!
— Em Helheim, usamos todas as ferramentas disponíveis — brincou Hades.
A festa continuou, mas o clima mudara. O Imperador intocável agora parecia um pouco mais humano aos olhos dos outros, alguém que tivera uma juventude cheia de erros e aventuras. E para Hades, ver aquele vislumbre do jovem rebelde que Qin fora só o fazia amá-lo ainda mais.
— Papa? — Xiao Huang puxou a túnica de Qin.
— Sim, meu pequeno dragão?
— Eu... bincá de escala? — perguntou o bebê, os olhos brilhando com a nova ideia.
Qin olhou para Hades, que apenas deu de ombros, divertido.
— Veja o que você começou, Qin — disse Hades. — Agora teremos que tirar o menino do topo das colunas do palácio todos os dias.
Qin pegou o filho e o jogou para o alto, ouvindo a gargalhada deliciosa da criança.
— Que venham as escaladas, então! — exclamou Qin. — Se ele vai ser um imperador, que seja o mais ágil de todos. Mas, Xiao Huang... — Qin baixou a voz de forma conspiratória — ...nunca deixe seu pai Hades ver onde você se esconde. Ele tem olhos em todos os lugares.
Hades apenas sorriu, observando os dois seres mais importantes de sua vida. O passado de Qin podia ter sido rebelde e caótico, mas fora esse caminho que o trouxera até ali. E, no final das contas, nem mesmo a melhor escalada do mundo poderia superar o lugar onde Qin Shi Huang decidira finalmente descansar seu trono: bem ali, ao lado de sua família.
— Hao — murmurou Hades para si mesmo, usando a palavra favorita do marido. — Realmente muito hao.