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O Ritmo do Destino e a Confissão de um Imperador

A tela de cristal no centro do salão do Olimpo ainda vibrava com os resquícios da energia da última projeção. Deuses de todas as eras, desde os nórdicos até os hindus, estavam acomodados em divãs de nuvens e mármore, observando a tecnologia de Hefesto com uma mistura de apreensão e entretenimento. Hades mantinha Xiao Huang em seu colo, o bebê agora brincando com o bidente em miniatura que seu pai lhe dera, enquanto Qin Shi Huang se abanava com um leque de seda, tentando agir como se o vídeo anterior — sua fuga estratégica da adolescência — não tivesse abalado sua aura de imperador inabalável.

— Foi apenas um deslize da juventude — declarou Qin, a voz projetada para que todos ouvissem. — Um verdadeiro rei conhece todas as facetas da vida, inclusive as mais... ruidosas.

— Ah, mas a diversão está apenas começando, humano — sibilou Loki, que estava sentado no topo de uma coluna, balançando os pés. — Hermes e eu vasculhamos os arquivos mais profundos das memórias coletivas. Parece que o "Primeiro Imperador" tinha um gosto musical bastante peculiar... e uma lista de exigências amorosas bem específica.

Hades arqueou uma sobrancelha, sentindo uma leve pontada de curiosidade misturada com uma proteção instintiva.

— O que você quer dizer com isso, Loki?

— Vejam e aprendam! — exclamou o deus da trapaça, estalando os dedos.

A tela de cristal brilhou em um tom de rosa neon e roxo elétrico, muito mais intenso que o anterior. A música começou antes mesmo da imagem: uma batida de trap pesada, com graves que faziam os cálices de néctar tremerem sobre as mesas. E então, a imagem apareceu.

Era um Qin Shi Huang um pouco mais velho que o do vídeo anterior, talvez com dezessete ou dezoito anos. Ele estava em um palco improvisado no que parecia ser uma festa clandestina nos subúrbios de uma cidade antiga, mas com uma estética anacrônica que misturava o antigo e o moderno. Ele segurava um microfone dourado, sua venda nos olhos era de um tecido brilhante e ele usava uma túnica curta, aberta no peito, revelando a tatuagem de centopeia que subia pelo seu pescoço.

— Não pode ser... — sussurrou Brunhilde, cobrindo o rosto com a mão.

Na tela, o jovem Qin começou a cantar, movendo-se com uma sensualidade e uma audácia que deixariam qualquer deus da fertilidade com inveja. Sua voz era confiante, provocadora, e as letras começaram a ecoar pelo Olimpo.

— "Yeah, eu quero um garoto feio pra ser namorado... Um garoto estranho a beça pra andar do lado!" — O jovem Qin na tela apontava para a multidão, piscando por baixo da venda. — "O meu tesão aumenta muito se ele for otaku! Um que corre igual Naruto levantando o braço!"

O queixo de Zeus caiu. Ares engasgou com o vinho. Hades, por sua vez, sentiu o mundo girar por um segundo. Ele olhou para o marido ao seu lado, que agora parecia querer se fundir com o mármore do chão.

— Qin... — a voz de Hades saiu baixa, quase um trovão contido. — O que é um "otaku"? E por que você queria um garoto feio?

— É uma metáfora! — exclamou Qin, agitando o leque freneticamente. — Uma licença poética! Eu estava... explorando conceitos de beleza não convencionais!

Mas a tela não parava. O jovem Qin continuava sua performance magnética, dançando de um lado para o outro.

— "Na mente desse bofinho tenho um triplex... Sempre que eu acordo faço omelete! Ele me chama de docinho, ele me diverte... Toda noite ajoelha pra louvar a baddie!"

— Ele está falando de... ajoelhar? — perguntou Poseidon, a voz gélida de desdém, embora seus olhos estivessem fixos na tela.

— "Não gosto de barba, mas se for tu, mec!" — continuava o vídeo. — "De mão dada com meu feio, quero nada, esquece! Ele faz tudo por mim, então ele merece... Ele é obcecado por essa mulher!"

Foi então que a câmera da memória fez algo inesperado. Ela se afastou do palco e focou na multidão que cercava o jovem imperador. No fundo, encostado em uma pilastra de pedra, nas sombras onde a luz neon mal chegava, estava um jovem alto, de cabelos platinados e olhos vermelhos intensos. Ele usava roupas escuras e nobres, destoando completamente do ambiente caótico da balada.

Era Hades.

O Hades do vídeo parecia hipnotizado. Ele não dançava, não gritava, apenas observava o jovem Qin com uma intensidade que beirava a obsessão. Cada movimento do imperador no palco era seguido pelos olhos do deus do submundo.

— Esperem um pouco... — disse Shiva, rindo alto. — Aquele é o Hades? Ele estava na plateia?

Hades sentiu o rosto esquentar — uma sensação rara para o senhor dos mortos. Ele se lembrava daquela noite. Fora uma das primeiras vezes que ele subira à superfície para observar o humano que estava causando tanto alvoroço nos registros das almas.

Na tela, a música atingiu o refrão, e o jovem Qin parecia estar cantando diretamente para a câmera, ou talvez para alguém específico na escuridão.

— "Eu amo garotos feios, fazem de tudo por mim... Uber 15 min' pra casa, mas ele quer no caminho! Fica olhando pra estrada que a gente passa batido... Nem me preocupo com o tempo, eu sou bonita, é rapidinho!"

— Você se chamou de bonita? — perguntou Beelzebub, do fundo do salão, com sua voz monótona de sempre.

— Eu SOU bonito! — rebateu Qin, recuperando um pouco de sua arrogância. — Onde eu me sento é o trono, e o que eu decido que é belo, torna-se lei!

O vídeo continuou, mostrando o jovem Qin descendo do palco enquanto a música ainda batia forte. Ele caminhava pela multidão como se as pessoas fossem apenas figurantes em seu show pessoal.

— "Ele ficou nervoso, tá todo travado... Me olhando andar pelo palco! Ele diz que é meu fã, então eu quero ver... Quando eu pisar nele de salto!"

Nesse momento, no vídeo, o jovem Qin parou exatamente na frente do jovem Hades. O contraste era absurdo: o imperador vibrante e suado, e o deus sombrio e estático. Qin sorriu, um sorriso cheio de dentes e malícia, e passou a mão pelo queixo de Hades, que continuava "travado", exatamente como a letra dizia.

— "Se me chamar de mami e for malcriado... Te deito na cama e te bato!" — cantou o Qin da tela, inclinando-se para o ouvido de Hades.

O salão do Olimpo explodiu em assobios e gritos. Xiao Huang, no colo de Hades, começou a imitar o ritmo da música, balançando a cabeça e dizendo:

— Bate! Papa bate!

— Não, Xiao Huang! — exclamou Hades, cobrindo as orelhas do filho. — Não o escute!

A cena final do vídeo mostrava os dois saindo da balada. A luz da lua banhava a saída do local. O jovem Qin estava pendurado no pescoço de Hades, rindo alto, enquanto o deus o segurava pela cintura com uma possessividade evidente. Eles pararam perto de uma carruagem (ou o que quer que fosse o "Uber" daquela época) e, sem se importarem com quem estivesse olhando, entregaram-se a um beijo apaixonado e profundo, que parecia selar o destino de dois mundos.

A tela finalmente escureceu.

O silêncio que se seguiu no Olimpo foi carregado. Zeus estava limpando as lágrimas de tanto rir. Hermes estava anotando tudo em seu caderninho. E Hades... Hades estava olhando para Qin com um olhar que o imperador conhecia muito bem.

— Então — disse Hades, sua voz voltando ao tom digno e nobre, embora houvesse um brilho de diversão nos olhos —, eu era o seu "garoto feio"?

Qin Shi Huang fechou o leque com um estalo seco. Ele se levantou, ajeitou sua capa e olhou para o marido por baixo da venda.

— Você era estranho, Hades. Estava lá, parado como uma estátua de gelo no meio de uma festa maravilhosa. E eu, como um bom imperador, senti que era meu dever dar um pouco de vida àquela sua alma sombria.

— Você me chamou de "otaku" no vídeo? — perguntou Hades, levantando-se também, ainda com o filho no colo.

— Eu não sabia o que significava na época! — defendeu-se Qin, aproximando-se de Hades e passando a mão pelo peito do deus. — Mas admita... você amou cada segundo daquela performance. Você ficou obcecado por essa mulher, não ficou?

Hades soltou um suspiro, um sorriso involuntário surgindo em seus lábios. Ele entregou Xiao Huang para Qin, que pegou o bebê com habilidade.

— Eu fiquei obcecado pelo homem que teve a audácia de me desafiar em uma pista de dança — corrigiu Hades. — E, embora a letra daquela música seja... questionável para os padrões do submundo, eu não posso negar que você sempre teve um talento especial para chamar minha atenção.

— Papa cantô! — disse Xiao Huang, puxando a venda de Qin. — Papa bonito!

Qin beijou o topo da cabeça do filho e olhou para a plateia de deuses, que ainda cochichava sobre o vídeo.

— Que isso sirva de lição para todos vocês! — exclamou Qin, sua voz ecoando com a autoridade de mil exércitos. — O Imperador não segue tendências, ele as cria! E se eu decidi que o Rei do Submundo seria o meu "garoto feio", então é porque ele é o mais belo de todos os monstros!

Hades envolveu a cintura de Qin com um braço, ignorando os olhares de seus irmãos.

— Vamos para casa, Qin — murmurou Hades. — Antes que Loki encontre o vídeo de quando você tentou me ensinar a usar aqueles saltos.

Qin estancou no lugar, o rosto empalidecendo novamente.

— Ele tem esse vídeo também?

— Eu espero sinceramente que não — respondeu Hades, começando a caminhar em direção ao portal de Helheim.

Enquanto a família real se retirava, Xiao Huang continuava a balbuciar o ritmo da música, batendo as mãozinhas no ombro de Qin.

— "Uber... 15 min... Papa bonito..."

— É isso aí, meu pequeno príncipe — riu Qin, recuperando sua confiança total. — Aprenda com o seu pai. Se você quer algo, você sobe no palco e canta até que o próprio universo se ajoelhe para te ouvir.

Hades apenas balançou a cabeça, sentindo o peso e o calor de sua família. O passado de Qin podia ser caótico, cheio de letras de músicas duvidosas e rebeldia adolescente, mas fora cada um daqueles momentos que moldaram o homem que agora caminhava ao seu lado.

E, no fundo, Hades sabia que, para Qin, ele sempre seria o "garoto" que faria tudo por ele. E para Hades, Qin sempre seria a única estrela capaz de iluminar a escuridão eterna de seu reino.

— Mas só para constar — disse Hades, antes de cruzarem o portal —, eu ainda não entendo o que é um "Naruto".

— Eu te explico no caminho, Hades — riu Qin. — Mas prepare-se, envolve muita corrida e braços para trás.

E assim, entre risos, memórias neon e o balbucio de um bebê que estava aprendendo o significado de "estilo", a família real de Helheim deixou o Olimpo para trás, deixando os deuses se perguntando se o verdadeiro poder não residia na força bruta, mas na coragem de ser absolutamente, e ruidosamente, si mesmo.