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O Concerto do Imperador: Neon, Sombras e Cicatrizes

O salão do Olimpo, que já havia testemunhado guerras titânicas e banquetes que duraram décadas, estava mergulhado em uma atmosfera que nenhum deus poderia ter previsto. A tela de cristal de Hefesto, alimentada por uma mistura de magia técnica e memórias ancestrais, brilhava com uma intensidade febril. Zeus gargalhava tanto que faíscas elétricas saltavam de sua barba; Hermes tentava freneticamente gravar cada segundo em um pergaminho digital, e os deuses menores cochichavam, chocados e fascinados.

No centro da tempestade emocional, Qin Shi Huang mantinha-se ereto em seu assento de veludo, embora o leque em sua mão se movesse com uma velocidade que poderia gerar um furacão. Ao seu lado, Hades sustentava Xiao Huang no colo. O bebê, alheio à tensão diplomática ou ao constrangimento do pai, batia palmas rítmicas, encantado com as cores vibrantes que emanavam da projeção.

— Papa canta! — gritou o pequeno Xiao Huang, pulando nos joelhos de Hades. — Papa brilha!

A tela mudou bruscamente. O cenário agora era um clube underground, onde a fumaça de incenso se misturava a luzes estroboscópicas. O Qin Shi Huang adolescente na tela era uma visão de pura rebeldia e autoconfiança. Ele usava tranças longas adornadas com anéis de ouro, unhas de acrigel que brilhavam sob a luz negra e uma expressão que dizia que ele era o dono de cada átomo de oxigênio naquele recinto.

A batida de um trap agressivo começou a ecoar pelas colunas de mármore do Olimpo.

— "Lancei unha de acrigel pra combinar com a minha calcinha!" — O jovem Qin na tela começou a rimar com uma velocidade estonteante, movendo o corpo com uma flexibilidade sobre-humana. — "Boto a perna na cabeça pra tu me lamber todinha!"

— Pelos deuses... — murmurou Ares, largando sua taça. — Ele realmente colocou a perna na cabeça? Isso é... uma técnica de combate?

— Não, Ares — respondeu Hades, sua voz soando como um trovão contido enquanto ele observava a tela com uma mistura de choque e uma admiração que ele tentava desesperadamente esconder. — Isso é... outra coisa.

O vídeo continuava, mostrando Qin descendo até o chão em um movimento de bailarina enquanto a letra subia de tom:

— "Não tem homem mais sortudo do que o meu namorado! Eu não lavo, eu não cozinho, mas eu te transformo em macho!"

Nesse momento, a câmera da memória girou e capturou um vislumbre rápido de um jovem de cabelos platinados nos fundos do clube — o próprio Hades daquela época, parecendo simultaneamente horrorizado e hipnotizado.

— Você estava lá de novo! — exclamou Loki, apontando para a tela. — Hades, você era praticamente um fã de carteirinha!

— Eu estava... monitorando potenciais ameaças à ordem das almas — justificou Hades, embora a ponta de suas orelhas estivesse ficando vermelha.

A música na tela mudou subitamente de ritmo. O trap agressivo deu lugar a uma melodia mais melancólica, quase onírica. O cenário mudou para um pátio de palácio sob a chuva. O Qin adolescente agora parecia mais vulnerável, embora ainda mantivesse sua aura de superioridade.

— "Fotos capturam os bons momentos, eu passei por maus bocados... Vi as freiras no convento, rezava pro mau-olhado." — A voz de Qin agora era um sussurro rítmico. — "Eu 'to muito acostumada, eu não choro mais em velórios... Aprendi feitiços que não existem em grimórios."

O silêncio caiu sobre o Olimpo. A letra da música começava a tocar em feridas que muitos ali conheciam bem. Qin Shi Huang, no presente, fechou o leque. Sua postura mudou; a arrogância cedeu espaço para a dignidade silenciosa de quem sobreviveu ao impossível. Ele sentiu a sinestesia toque-espelho vibrar. Ele podia sentir o desconforto dos deuses diante de sua verdade.

— "Papai me deixou de herança uma fazenda de café e... alcoolismo" — cantou o jovem Qin na tela, os olhos perdidos no horizonte chuvoso. — "Não tenho medo de monstros, quando os meus tios chegavam eu dormia embaixo da cama... Eu fiquei amiga das aranhas."

Hades apertou a mão de Qin sob a mesa. Ele conhecia a história de dor por trás daquelas rimas aparentemente aleatórias. Ele sabia que a infância de Qin fora um campo de batalha muito antes de ele unificar a China.

— "O que Jesus faria nessa circunstância?" — o vídeo questionava, enquanto a imagem de Qin se multiplicava em fractais de luz.

— Quem é Jesus? — perguntou Zeus, genuinamente confuso.

— Alguém que entendeu o sacrifício melhor do que você, irmão — respondeu Hades, sem desviar os olhos da tela.

Mas Qin Shi Huang não permitiu que o clima permanecesse melancólico por muito tempo. Na tela, ele estalou os dedos e a música explodiu novamente em um ritmo frenético, moderno e cheio de atitude. O jovem imperador agora estava em um cenário que parecia uma mistura de Pequim moderna com um reino de fantasia.

— "Eu sou mais que o bastante! Eu dou mais que o bastante!" — Ele rimava agora com um sorriso predatório. — "Se tu 'tá nervoso, transe! Se tu 'tá com fome, come!"

Os deuses começaram a se mexer em seus assentos, alguns batendo os pés no ritmo da música. A energia de Qin era contagiante, uma força da natureza que não pedia permissão para existir.

— "Ele me olhou torto, quer foder comigo? Mas, tipo, foder comigo, ou foder comigo?" — O jovem Qin na tela encarou a câmera, e por um momento, pareceu que ele estava olhando diretamente para todos os deuses presentes no Olimpo. — "Eu tô confusa, e nem sei mais se ainda tenho amigo!"

— Ele está usando o feminino? — observou Hermes, curioso. — Interessante escolha linguística para um Imperador.

— O Imperador é tudo o que ele deseja ser — declarou Qin no presente, levantando-se de seu trono com uma elegância absoluta. — Homem, mulher, deus ou fera. Eu sou o início e o fim de minha própria definição.

Na tela, a performance atingia o clímax. O jovem Qin caminhava por um corredor de espelhos, sua imagem refletida infinitamente.

— "Quanto eu vou ter que te ferir até você sentir? Quantas linhas vou gastar até você me ouvir?" — Ele agora apontava para os deuses na audiência da memória. — "A insegurança que tu sente sempre que eu chego é que eu não preciso de nada pra me sentir grande!"

A música terminou com um estrondo de graves que fez o chão do Olimpo vibrar. A tela de cristal escureceu, deixando apenas o reflexo dos deuses atônitos.

— Hao! — gritou Xiao Huang, quebrando o silêncio. O bebê começou a tentar imitar os movimentos de dança do pai, balançando os braços de forma desengonçada. — Papa grande! Papa... vuki vuki!

Hades quase engasgou, cobrindo rapidamente a boca do filho.

— Não diga essa parte, Xiao Huang. Definitivamente não diga essa parte.

Qin Shi Huang caminhou até o centro do salão, sua capa de seda arrastando-se com um som de autoridade. Ele olhou para Zeus, para Poseidon e para todos os outros que haviam rido ou se chocado.

— Vocês viram a minha história — disse Qin, sua voz ressoando com uma força que silenciou os sussurros. — Viram o menino que dormia embaixo da cama com aranhas, o adolescente que buscava namorados na chuva e o imperador que transformou sua dor em um espetáculo que nem o tempo pode apagar.

Ele virou-se para Hades, que se levantou e caminhou até ele, ainda segurando o filho.

— Hades — disse Qin, um sorriso de canto aparecendo em seu rosto —, você se lembra daquela noite em Xique-Xique?

— Eu me lembro de cada segundo, Qin — respondeu o Rei do Submundo, parando diante do marido. — Especialmente da parte em que você disse que eu era "travado".

— E você era — riu Qin, tocando o queixo de Hades. — Mas foi o seu "diastema" e o modo como você me olhava que me fizeram decidir que você seria o meu único acessório permanente.

Hades sorriu, uma expressão de ternura que raramente mostrava em público.

— Eu não me importo de ser seu acessório, desde que você continue sendo a causa do meu problema.

Xiao Huang, sentindo o clima de afeição, abraçou o pescoço de Hades e esticou a outra mão para Qin.

— Família... hao! — murmurou o bebê, bocejando. O esforço de assistir ao concerto do pai finalmente o estava vencendo.

— Sim, pequeno tesouro — disse Hades, beijando a testa do filho. — Muito hao.

Zeus limpou a garganta, tentando recuperar sua postura como anfitrião.

— Bem... isso foi... educativo. Eu acho que precisamos de mais néctar. E talvez de algumas dessas unhas de acrigel para o Hermes, ele parece ter gostado da ideia.

— Eu já encomendei um conjunto com o Hefesto! — exclamou Hermes, já digitando em seu pergaminho.

Qin Shi Huang soltou uma gargalhada sonora, envolvendo a cintura de Hades com um braço enquanto caminhavam em direção à saída do salão.

— Você ouviu, Hades? Eu continuo sendo a maior influência cultural deste universo.

— Você é uma força da natureza, Qin — admitiu Hades, enquanto cruzavam o portal de volta para Helheim. — Mas prometa-me uma coisa.

— O que o meu "garoto feio" deseja? — brincou o Imperador.

— Nunca mais cante aquela parte sobre o carro de bate-bate na frente do meu irmão Poseidon. Ele ainda está tentando processar a física daquela frase.

Qin encostou a cabeça no ombro de Hades, sentindo a paz do submundo os envolver.

— Eu não prometo nada, Hades. Afinal, um Imperador deve sempre manter seu público... em perigo.

Enquanto as sombras de Helheim os recebiam, o eco daquela música audaciosa e sincera parecia pairar no ar. Qin Shi Huang não era apenas um homem que unificou terras; ele era o homem que unificou sua própria dor, sua rebeldia e seu amor em uma sinfonia que nem mesmo a morte poderia silenciar. E para Hades, o Rei que governava o silêncio, aquela era a única música que ele desejava ouvir pelo resto da eternidade.

— Papa... — sussurrou Xiao Huang, quase dormindo. — Canta mais?

Qin sorriu, retirando sua venda e revelando olhos cheios de um brilho que nenhuma tela de cristal poderia capturar.

— Amanhã, pequeno príncipe. Amanhã eu te ensino a rimar sobre como o seu pai Hades é obcecado por mim.

Hades apenas suspirou, mas o sorriso em seu rosto dizia que ele não mudaria absolutamente nada naquela vida barulhenta, vibrante e maravilhosamente caótica que Qin havia trazido para o seu reino de sombras.