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Onde a Noite Começa a Brilhar
O salão principal do Olimpo estava mergulhado em um silêncio expectante, uma raridade absoluta para aquele lugar. A imensa tela de cristal de Hefesto, que horas antes servira para expor as memórias mais caóticas e vibrantes da juventude de Qin Shi Huang, agora pulsava com uma luz suave, quase etérea. Os deuses, humanos e valquírias estavam acomodados em seus lugares, os olhos fixos na superfície translúcida que prometia revelar o mistério que todos sussurravam nos corredores: como, afinal, o Rei do Submundo e o Primeiro Imperador da China haviam cruzado seus caminhos pela primeira vez?
Hades estava sentado com sua postura impecável, embora seus dedos longos estivessem entrelaçados com os de Qin com uma força sutil. No colo de Qin, Xiao Huang bocejava, seus olhinhos de um ano e oito meses lutando contra o sono, fascinados pelo brilho azulado que emanava da tela.
— Papa, olha! — sussurrou o bebê, apontando para a imagem que começava a se formar. — Luzinha!
— Sim, meu pequeno dragão — respondeu Qin, sua voz carregada de uma ternura que contrastava com a arrogância imperial que ele exibia para o restante do salão. — Vamos ver como o seu pai Hades se apaixonou perdidamente por mim à primeira vista.
Hades soltou um riso curto e elegante.
— Eu me lembro de ter sentido mais curiosidade do que paixão naquele momento, Qin. Você era... ruidoso.
— Ruidoso? — Qin arqueou uma sobrancelha por baixo da venda. — Eu era a personificação da magnificência.
A tela finalmente ganhou vida. A imagem não era de um campo de batalha, nem de um palácio dourado. Era uma sala de recepção em uma das camadas mais profundas de Helheim, um lugar onde as sombras dançavam de forma lenta e melancólica. A música começou a tocar, suave e sintetizada, um ritmo que parecia vir do futuro ou de um sonho.
*Eu te vi... Lá no canto da sala...*
Na tela, o jovem Hades estava encostado em uma pilastra de obsidiana. Ele parecia mais pálido do que o habitual, seus olhos vermelhos fixos em um ponto distante enquanto ele ignorava a festa diplomática que ocorria ao seu redor. Ele exalava uma solidão nobre, uma calma que beirava a apatia.
— Olhem só para o meu irmão — comentou Zeus, com uma taça de néctar na mão. — Ele parecia um monumento funerário.
— Ele estava entediado — corrigiu Poseidon, embora seus olhos estivessem grudados na tela.
Subitamente, as portas do salão se abriram na projeção. Não houve anúncio, apenas a entrada de um homem que parecia carregar o sol consigo para dentro das trevas. O jovem Qin Shi Huang entrou com suas vestes imperiais fluindo, o rosto descoberto e um sorriso que desafiava a própria morte.
*Seu nome... Eu queria saber... Pra ir até você... Mas eu tinha medo...*
A música subiu de tom, os sintetizadores criando uma aura de mistério e antecipação. Na tela, o olhar de Hades mudou instantaneamente. A apatia desapareceu, substituída por uma faísca de algo que ele não conseguia nomear. Ele viu Qin caminhar pelo salão como se fosse o dono de cada sombra, ignorando os protocolos e os olhares de desdém dos deuses menores.
— Eu me lembro disso — sussurrou Hades no presente, sua voz ressoando apenas para Qin. — Eu pensei: quem é esse humano que ousa sorrir no meu domínio?
— E eu pensei — retrucou Qin, sorrindo —: quem é esse deus que parece precisar desesperadamente de um pouco de cor na vida?
Na tela, Qin parou no meio do salão. Ele não olhou para o trono, nem para os tesouros. Seus olhos, vibrantes e cheios de uma inteligência perigosa, fixaram-se diretamente em Hades, que permanecia imóvel no canto da sala.
*De olhar seus olhos... E histórias descobrir... Mas dançando... Sei que a noite vai brilhar...*
O ritmo da música explodiu. O que era uma melodia suave transformou-se em um hino vibrante e pulsante. Na projeção, Qin começou a se mover. Não era uma dança formal, mas um movimento fluido de pura confiança. Ele se aproximava de Hades com uma audácia que fazia os deuses presentes na memória recuarem.
*A noite vai brilhar... A noite vai brilhar...*
As luzes de Helheim, usualmente violetas e frias, começaram a pulsar em sincronia com a música na memória. Qin chegou a poucos centímetros de Hades. O deus do submundo não se moveu, mas sua respiração falhou por um milésimo de segundo — um detalhe que a tela de Hefesto capturou com precisão cruel.
— Ele estava tremendo! — exclamou Loki, apontando para a tela e rindo. — O grande Hades estava nervoso por causa de um humano!
— Eu não estava tremendo — disse Hades, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos. — Eu estava analisando a ameaça.
— Uma ameaça muito atraente, admita — provocou Qin.
Na tela, o jovem Qin estendeu a mão para Hades. Não era um pedido, era uma ordem silenciosa. Ele inclinou a cabeça, um desafio brilhando em seu rosto.
— Você governa os mortos, Rei do Submundo — disse o Qin da tela, sua voz sobrepondo-se à música por um momento. — Mas você sabe como viver?
Hades, na projeção, hesitou. Ele olhou para a mão estendida e depois para os olhos de Qin. Havia um medo ali, sim, mas não o medo da morte. Era o medo de ter sua alma lida, de ter suas histórias descobertas por aquele estranho que brilhava tanto.
*Pra ir até você... Mas eu tinha medo... De olhar seus olhos... E histórias descobrir...*
Mas então, o Hades da tela fez algo que ninguém esperava. Ele aceitou a mão. No momento em que seus dedos se tocaram, a tela de cristal pareceu explodir em cores. O salão de Helheim foi inundado por um brilho dourado e carmesim.
*Mas dançando... Sei que a noite vai brilhar!*
Eles começaram a dançar. Não era uma valsa, era um duelo de vontades transformado em ritmo. Qin girava com a leveza de uma pluma, enquanto Hades o conduzia com a força de uma montanha. Eles se moviam em perfeita sincronia, como se tivessem ensaiado por milênios. A música preenchia cada canto do Olimpo, fazendo até mesmo os deuses mais ranzinzas balançarem a cabeça discretamente.
— Hao! — gritou Xiao Huang, batendo as mãozinhas no ritmo. — Papa dança! Papa gira!
O bebê tentou descer do colo de Qin para imitar os movimentos, e Hades o segurou com cuidado, permitindo que o pequeno ficasse em pé no chão, segurando suas mãos.
— Veja, Xiao Huang — disse Hades, com um sorriso raro. — Foi ali que a noite começou a brilhar para nós.
Na tela, o encontro atingia o ápice. Qin e Hades estavam tão próximos que suas testas se tocavam. O mundo ao redor deles havia desaparecido. Não havia mais deuses, humanos ou submundo. Havia apenas aquele momento, aquela conexão que desafiava a lógica.
*Noite vai brilhar... A noite vai brilhar...*
A música atingiu o refrão final, uma explosão de som e luz que parecia purificar as sombras de Helheim. Na tela, Qin sussurrou algo no ouvido de Hades, algo que fez o deus soltar um riso baixo e genuíno, o primeiro que ele dava em séculos.
— O que você disse para ele, Qin? — perguntou Brunhilde, genuinamente curiosa.
Qin sorriu, um segredo brilhando em seus olhos.
— Eu disse a ele que, se ele quisesse ser meu rei, teria que aprender que o trono mais importante não era o de Helheim, mas o lugar onde eu decidisse me sentar.
Hades balançou a cabeça, lembrando-se da audácia daquele momento.
— E eu respondi que, se ele quisesse se sentar em qualquer lugar, teria que aceitar que eu estaria lá para segurar a coroa dele.
A imagem na tela começou a desaparecer lentamente, voltando ao tom azulado original, enquanto a música desvanecia em um eco suave. O salão do Olimpo permaneceu em silêncio por um longo tempo. Até mesmo Zeus parecia tocado pela pureza daquela memória.
— Bem — disse Zeus, limpando a garganta —, eu suponho que isso explique muita coisa. Especialmente o porquê de Helheim estar tão... decorado ultimamente.
— O amor é a única força que pode fazer o submundo brilhar, irmão — respondeu Hades, levantando-se e pegando Xiao Huang no colo.
O bebê já estava quase dormindo, a cabeça encostada no ombro firme de Hades. Qin levantou-se logo em seguida, ajeitando sua túnica com a elegância de sempre.
— Foi uma boa sessão de memórias — declarou Qin, olhando para o elenco de deuses e humanos. — Mas agora, o Imperador e sua família precisam de descanso. Governar dois mundos e criar um pequeno dragão exige muita energia.
Enquanto caminhavam em direção à saída, os deuses abriam caminho, uma mistura de respeito e admiração em seus rostos. Eles não viam apenas dois governantes poderosos, mas um casal que havia encontrado luz na escuridão mais profunda.
— Hades? — chamou Qin, quando já estavam longe do salão.
— Sim, Qin?
— Você ainda tem medo de olhar nos meus olhos e descobrir minhas histórias?
Hades parou e olhou para o marido. Ele estendeu a mão e tocou levemente o rosto de Qin, sentindo a cicatriz que ele carregava com tanto orgulho.
— Não tenho mais medo, Qin. Porque agora, suas histórias são as minhas histórias. E a nossa noite nunca deixará de brilhar.
Qin sorriu, um sorriso que poderia ofuscar qualquer estrela do Olimpo. Ele inclinou-se e beijou Hades, um toque suave que carregava todo o peso de sua jornada.
— Hao — sussurrou Qin contra os lábios de Hades. — Muito hao.
Xiao Huang soltou um pequeno suspiro durante o sono, movendo as mãozinhas como se ainda estivesse dançando ao som daquela música. Eles seguiram caminho pelo arco de luz que os levaria de volta para casa, para o seu reino, onde a noite, graças a um encontro improvável e a uma música que desafiava o tempo, continuaria a brilhar para sempre.