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O Trono da Língua Afiada e o Segredo do Rei

A atmosfera no salão do Olimpo havia passado de curiosidade para um choque absoluto. A tela de cristal de Hefesto, que parecia ter desenvolvido vontade própria ao vasculhar o passado de Qin Shi Huang, agora exibia algo que ninguém esperava: um confronto. Mas não era um confronto de espadas ou exércitos; era um duelo de palavras, ritmo e um deboche tão afiado que poderia cortar o firmamento.

Na tela, o jovem Qin — vestindo uma túnica de seda preta com detalhes em neon e segurando um microfone que brilhava como ouro — encarava um antigo pretendente de sua juventude, um nobre que tentara diminuí-lo antes de Qin se tornar o Primeiro Imperador. O salão do Olimpo estava em silêncio mortal enquanto a batida de um trap pesado começava a ressoar.

— Desliga o iPhone, tira o fone e só ouve a minha voz — começou o Qin da tela, sua voz gotejando um desprezo real. — Abre a água quente da banheira que eu comprei pra nós. Se ele te ofender, só ignora, ficamos a sós. Se Jesus é jardineiro, a árvore somos nós?

Zeus franziu a testa, tentando entender a metáfora botânica, mas Qin no presente apenas abriu seu leque, escondendo um sorriso vitorioso. Na tela, ele continuava a humilhação pública do ex-afeto com uma elegância cruel.

— Tentativas, erros, acertos das nossas vós... Tentativa e erros, acertos da minha voz. Se você fizer direito, eu fico essa noite. E, se você tiver dinheiro, eu fico pra dormir.

O Qin da tela deu um passo à frente, apontando para o nobre que parecia encolher diante das câmeras da memória.

— Faço você rir, faço você vir. Só toma cuidado, pô, não mira em mim! Meu cabelo é caro, valor do seu Kia. Não sou mãe de homem velho, rapaz, eu sou tia!

— Kia? — murmurou Ares. — O que é um Kia? É uma carruagem?

— É algo que você não pode pagar, Ares — retrucou Qin Shi Huang no presente, cruzando as pernas com arrogância.

A música na tela subiu de tom, e o jovem Qin começou a andar em círculos ao redor do oponente, que agora estava visivelmente humilhado.

— Sou quem tu não julgava capaz, eu tô rico. Agora, quando eu passo, seu bonde nem pia! Nos lugares que eu passo, seu bonde nem pia! Até quando eu ofendo a moda, sua puta copia. Eu não te ignorei, eu tenho miopia. Se eu cansar de pau, é melhor 'cê ter pilha! História onde eu ando, Queimados, sou cria. Tu não 'tá ouvindo essa porra? Eu sou pica!

Hades tossiu levemente, tentando manter a compostura. Ele nunca vira aquele lado específico da "diplomácia" de Qin, embora soubesse que seu marido nunca levava desaforo para casa.

— Você tem algo a dizer pra mim? — desafiou o jovem Qin no vídeo, parando diante do homem. — Manda mensagem no meu zap que eu vou ouvir. Mas você não tem meu número e nem a quem pedir? Então, você não tem nada a dizer pra mim. Eu recomendo tu fazer um tweet. É o mais próximo que nós vamos chegar um dia. Desculpa se não teve o que 'cê queria. Agora 'cê comenta enquanto eu vivo a vida!

A tela brilhou intensamente antes de mostrar Qin saindo do local, deixando o homem para trás como se ele fosse apenas poeira na estrada. O salão do Olimpo explodiu em burburinhos.

— Isso foi... brutal — comentou Hermes, impressionado. — O uso do "tweet" como ferramenta de isolamento social é genial.

— Ele o destruiu sem tocar em uma arma — observou Brunhilde, com um brilho de respeito nos olhos.

No entanto, a tela de cristal ainda não havia terminado. Ela começou a emitir uma luz violeta, muito mais escura e íntima. Desta vez, a imagem não era de um palco ou de uma praça pública. Era um quarto luxuoso em Helheim, logo após a união de Hades e Qin. O som foi abafado para o restante do salão; apenas Hades, por sua conexão divina com o cristal de seu próprio reino, podia ouvir a letra que começava a tocar. Era uma confissão privada, um lado de Qin que ele só mostrava entre quatro paredes.

Qin percebeu o que estava acontecendo. Ele viu a expressão de Hades mudar, os olhos do Rei do Submundo escurecendo enquanto a música — uma batida muito mais lenta, sensual e carregada de uma agressividade possessiva — começava a tocar apenas nos ouvidos do deus.

— Essa piranha é suja e tá suando pra roubar meu posto — a voz de Qin, na memória privada, era um sussurro perigoso enquanto ele se enrolava nos lençóis de seda negra de Hades. — Quer roubar meu macho, tá estudando pra roubar meu gosto. Eu sou da 2s, então pra mim não é nada de novo. Já fiz uma vez, escuta, puta, eu vou fazer de novo.

Hades sentiu o calor subir pelo pescoço. Ele olhou para Qin, que agora estava com as bochechas levemente coradas, mas mantinha o queixo erguido.

— Começa na sala, vamo pra varanda — continuava a voz de Qin na mente de Hades. — Te fiz o ultimato, põe o Thor em Wakanda. Apaixonante, vida, sou safada, ignorante. Depois que me come, o padrão sobe. Sabe que a minha xota é grande.

Hades fechou os olhos por um segundo, tentando processar a audácia das palavras de seu imperador. Xiao Huang, no colo de Hades, tentava pegar a coroa do pai, alheio ao conteúdo altamente impróprio que o pai estava ouvindo.

— Ele tá mordido, ela não faz como eu faço — Qin na tela continuava, aproximando-se do Hades da memória, que parecia estar em um transe de desejo. — Fala pra caralho mas não faz nada no ato. Me comeu com força, achei que fosse socar fraco. Eu gosto de branquelo pirocudo com cara de otário.

Hades quase engasgou. "Cara de otário"? Ele, o Rei Dignitário de Helheim? Ele olhou para Qin com uma sobrancelha arqueada, e Qin apenas deu de ombros, como se dissesse: "Eu disse o que disse".

— Sabe que é foda, mas é fato, eu fui a primeira — a letra continuava, implacável. — Trata de ser grato e ajoelha... Harajuku Cyber, sua ref, mãe dessas ninfetas. Sem competição, eu me recuso a competir com feia.

A música na mente de Hades tornou-se ainda mais explícita, descrevendo atos que faziam o Rei do Submundo agradecer por ninguém mais estar ouvindo. Qin falava de "mamando igual bezerro", de "brincar de basquete" de uma forma que faria os atletas do Olimpo corarem, e de como ele era a "madrasta" de qualquer um que tentasse se aproximar do pai de seu filho.

— Vamo fazer putaria, em 2D sou hentai — Qin sussurrava na memória, enquanto a imagem mostrava os dois se perdendo em um abraço apaixonado. — Eu quero sua porra doce, puto, come abacaxi. Fala pra todos os crias que comeu a Ebony...

Quando a música finalmente terminou com a repetição de um refrão sobre "ficar neurótica se ele não lamber meu grelo", a tela de cristal apagou-se completamente, voltando ao seu estado de repouso.

O silêncio no Olimpo era confuso para os outros, que só viram imagens de Qin e Hades em momentos de intimidade sem áudio, mas para Hades, foi como se um incêndio tivesse sido iniciado em seu peito.

— Papa? — Xiao Huang puxou a gola da túnica de Hades. — Papa tá vermelho?

— Está um pouco quente aqui, pequeno — respondeu Hades, sua voz ligeiramente mais rouca que o normal.

Qin fechou o leque com um estalo seco e levantou-se.

— Bem! — exclamou o Imperador, sua voz recuperando a arrogância pública. — Acho que as memórias de hoje foram mais do que suficientes para provar que o trono de Helheim está em boas mãos... e que eu sou, sem dúvida, a melhor coisa que já aconteceu a este submundo.

Hades levantou-se logo atrás, entregando Xiao Huang para Qin.

— Eu preciso... de um momento para conferir os níveis de temperatura do Tártaro — disse Hades, tentando manter a dignidade enquanto evitava o olhar divertido de Qin.

— Oh, o Tártaro está fervendo, Hades? — perguntou Qin, aproximando-se e sussurrando apenas para o marido. — Ou será que você está lembrando da parte do abacaxi?

Hades respirou fundo, colocando a mão na cintura de Qin e guiando-o para fora do salão antes que o Imperador pudesse dizer mais alguma coisa que pudesse ser lida labialmente pelos deuses.

— Você é um homem perigoso, Qin Shi Huang — murmurou Hades enquanto caminhavam pelos corredores do palácio.

— Eu sou o seu homem perigoso — corrigiu Qin, rindo e aninhando Xiao Huang entre eles. — E admita, você adorou a rima. Especialmente a parte do "branquelo".

— Eu vou ignorar essa parte específica para manter minha sanidade — disse Hades, embora um sorriso estivesse começando a aparecer em seus lábios. — Mas devo admitir... sua habilidade com as palavras é tão letal quanto sua forma de lutar.

— É por isso que unifiquei a China, Hades. Porque ninguém conseguia calar a minha boca — Qin piscou para ele. — E agora que unifiquei o seu coração, prepare-se. Tenho uma lista nova de rimas para a nossa próxima noite na varanda.

Xiao Huang soltou uma gargalhada, imitando o som do pai.

— Varanda! — gritou o bebê. — Papa canta na varanda!

Hades suspirou, olhando para o céu violeta de seu reino que se aproximava. Ele sabia que sua vida nunca mais seria silenciosa ou previsível. Entre humilhações públicas de ex-namorados e confissões privadas que desafiavam o decoro divino, Qin Shi Huang havia transformado Helheim no palco de sua própria ópera vibrante.

E Hades, o Rei Dignitário, descobriu que não havia lugar no universo onde ele preferisse estar do que na primeira fila, ouvindo cada palavra atrevida daquele que chamava de seu Imperador.

— Só uma coisa, Qin — disse Hades antes de entrarem nos aposentos reais.

— Sim?

— O que é um "hentai" em 2D?

Qin parou na porta, olhou para Hades de cima a baixo com um sorriso malicioso e respondeu:

— Deixe o Xiao Huang com a ama de leite, Hades. Eu vou te mostrar o que é uma arte milenar que nem os seus arquivos de almas conhecem.

Hades sentiu que a noite em Helheim seria longa, barulhenta e, como tudo o que Qin tocava, absolutamente inesquecível. O Rei do Submundo sorriu, fechando as portas atrás de sua família, pronto para ser o público cativo do próximo concerto privado do homem que não apenas governava ao seu lado, mas que havia transformado a eternidade em uma batida de trap que ele nunca mais queria parar de ouvir.