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O Eclipse do Coração Carmesim
O campo de treinamento de Valhala estava banhado por uma luz dourada pálida, refletindo-se nas colunas de mármore que sustentavam o teto infinito. O silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico de passos e pelo tilintar das joias imperiais. Qin Shi Huang, o Imperador da China, estava em movimento. Ele não estava lutando contra um oponente real, mas sim praticando as formas fluidas do *Chi You*. Seus movimentos eram como água, mudando de uma postura defensiva para um ataque cortante com a elegância de um cisne.
Hades, o Rei do Submundo, observava de uma distância segura, recostado em uma pilastra. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, e seus olhos carmesim seguiam cada curva da silhueta de Qin. Para qualquer outro espectador, o Imperador era uma força da natureza, um monarca absoluto. Para Hades, ele era algo muito mais precioso e, por extensão, algo que precisava de vigilância constante.
— Você está sendo muito tenso, Hades — disse Qin, sem interromper o giro de seu corpo. Ele saltou no ar, sua capa esvoaçando como as asas de uma fênix. — Este Rei pode sentir seu olhar pesado. É como se você estivesse esperando que o chão se abrisse sob meus pés.
— O chão de Valhala é sólido — respondeu Hades, sua voz ressoando com uma calma autoritária. — Mas a sua imprudência, Qin, é uma variável que eu ainda não consegui calcular totalmente. Você se move como se não houvesse consequências.
Qin pousou suavemente e soltou uma risada vibrante. Ele removeu a venda por um momento, revelando olhos que brilhavam com uma confiança desafiadora.
— Consequências são para aqueles que temem o futuro. Este Rei molda o destino com as próprias mãos! — Para enfatizar sua fala, Qin tentou uma manobra acrobática complexa, um giro invertido apoiado em apenas uma das mãos, seguido de um impulso para cima.
No entanto, o destino, ou talvez apenas uma irregularidade milimétrica no mármore polido, tinha outros planos. No ápice do movimento, a mão de Qin deslizou levemente. Ele corrigiu a postura instantaneamente, caindo de pé com a graça habitual, mas o impulso o fez roçar o braço contra a borda afiada de um suporte de armas decorativo feito de obsidiana.
O som foi quase imperceptível. Um leve rasgo no tecido de seda de sua manga e um ruído abafado.
Qin olhou para o próprio braço. Um pequeno corte, de não mais que três centímetros, apareceu em sua pele clara. Uma única gota de sangue carmesim brotou da ferida, brilhando como um rubi sob a luz do salão.
— Oh — murmurou Qin, franzindo levemente a testa. — Que descuido.
O que aconteceu em seguida foi algo que os historiadores de Valhala levariam séculos para descrever com precisão.
Hades não caminhou até Qin. Ele pareceu se teletransportar. Em um borrão de movimento negro e roxo, o Rei do Submundo atravessou a distância entre eles. Antes que Qin pudesse processar a proximidade, Hades segurou seu pulso com uma força que era ao mesmo tempo firme e desesperadamente cuidadosa.
— Qin! — A voz de Hades não era mais o barítono calmo de um soberano. Era um trovão carregado de pânico mal contido. — Você está sangrando.
O Imperador piscou, confuso com a intensidade da reação.
— É apenas um arranhão, Hades. Este Rei já sobreviveu a exércitos inteiros, uma lasca de obsidiana não é...
— Silêncio! — ordenou Hades, sua aura de poder subitamente se expandindo de forma opressora. As sombras ao redor da sala pareceram ganhar vida, agitando-se em resposta ao tumulto emocional de seu mestre. — Hermes! Tesla! Tragam os curadores de elite! Agora!
Qin olhou ao redor, vendo que Hermes, que estava polindo algumas taças no canto do salão, deixou tudo cair com o susto.
— Mas, meu tio... — começou Hermes, aproximando-se — é apenas um corte superficial. Eu posso buscar um curativo simples...
— Superficial?! — Hades virou o rosto para o sobrinho, e por um momento, Hermes viu o olhar que o Rei do Submundo reservava para os pecadores mais vis do Tártaro. — Ele está perdendo a essência vital! O sangue dele está tocando o chão de Valhala! Isso é uma profanação! Uma falha de segurança imperdoável!
Hades voltou sua atenção para o braço de Qin como se estivesse examinando uma relíquia sagrada que acabara de ser rachada. Ele retirou um lenço de seda negra de seu traje e começou a pressionar a ferida com uma delicadeza quase religiosa. Suas mãos, que podiam esmagar crânios de gigantes, tremiam visivelmente.
— Hades, você está exagerando — disse Qin, embora, internamente, ele estivesse achando a preocupação do deus estranhamente fascinante. — Eu sinto a dor dos outros, lembra-se? Se isso fosse sério, eu estaria sentindo um colapso. É apenas uma picada.
— Você não entende, Qin Shi Huang — disse Hades, os olhos fixos na mancha vermelha no lenço. — Você é o ponto de equilíbrio de tudo o que eu valorizo agora. Se o seu corpo falha, se a sua integridade é comprometida por um erro banal de um suporte de armas... então eu falhei como seu protetor. Eu falhei como Rei.
Nesse momento, Nikola Tesla entrou correndo no salão, carregando uma maleta que emitia bips frenéticos e faíscas azuis.
— Eu ouvi um chamado de emergência de nível ômega! — gritou Tesla, ajustando seus óculos. — Onde está a brecha dimensional? Onde está o colapso da realidade?
Hades apontou para o braço de Qin com a solenidade de quem aponta para uma ferida mortal.
— Aqui, Homem da Ciência. Use sua tecnologia. Sele esta ferida. Garanta que nenhuma infecção divina ou miasma de Valhala penetre no sistema dele.
Tesla aproximou-se, olhou para o corte, olhou para o rosto frenético de Hades e depois para o rosto entediado de Qin. O cientista soltou um longo suspiro.
— Majestade das Sombras... com todo o respeito à sua autoridade sobre os mortos... isso aqui requer apenas um pouco de água oxigenada e talvez um adesivo de desenho animado. Meus raios gama seriam... um pouco excessivos.
— Nada é excessivo para a segurança do Imperador! — rugiu Hades. — Se eu tiver que derreter cada arma decorativa deste palácio para garantir que ele nunca mais se corte, eu o farei!
Qin Shi Huang, percebendo que a situação estava escalando para um incidente diplomático e possivelmente para a destruição do mobiliário de Valhala, colocou a mão livre sobre o rosto de Hades. Ele forçou o deus a olhar para ele.
— Hades. Olhe para este Rei.
O Rei do Submundo congelou. O toque de Qin era quente e sólido.
— Eu não vou desaparecer por causa de uma gota de sangue — disse Qin, sua voz suavizando, perdendo a arrogância habitual para assumir um tom de carinho profundo. — Minha vida é feita de cicatrizes muito mais profundas que esta. Mas nenhuma delas teve o privilégio de ser cuidada por um deus tão... dramático.
Hades respirou fundo, tentando forçar seu coração a desacelerar. As sombras no salão começaram a recuar.
— Eu vi muitos reis caírem, Qin — sussurrou Hades, ignorando a presença de Tesla e Hermes. — Eu vi impérios desmoronarem por detalhes insignificantes. A ideia de que algo tão pequeno possa ferir você... me faz sentir uma vulnerabilidade que eu não deveria possuir.
Qin sorriu, puxando Hades para mais perto, até que suas testas se encostassem.
— Então use essa vulnerabilidade para me manter por perto, não para chamar um exército de curadores por causa de um arranhão.
Hades fechou os olhos, ainda segurando o pulso de Qin. Ele finalmente permitiu que Tesla aplicasse um pequeno dispositivo de cura rápida, que fechou a ferida em segundos, deixando a pele de Qin impecável novamente.
— Pronto — anunciou Tesla, recolhendo suas ferramentas. — A integridade molecular do Imperador está restaurada. E, se me permitem sugerir, talvez o Senhor Hades devesse beber um chá de camomila. Ou dez.
Hermes, vendo que o perigo de um colapso divino havia passado, limpou a garganta.
— Vou providenciar para que todos os suportes de armas deste setor sejam acolchoados com veludo imediatamente, tio. E talvez possamos trocar o mármore por carpete turco?
Hades ignorou o sarcasmo do sobrinho. Ele ainda estava inspecionando o braço de Qin, passando o polegar sobre o local onde a ferida estivera.
— Você vai parar de treinar por hoje — declarou Hades, em um tom que não admitia discussões.
— Ah? E o que este Rei vai fazer com todo esse tempo livre? — perguntou Qin, arqueando uma sobrancelha.
— Você vai sentar-se no seu trono. Eu vou providenciar para que lhe tragam as melhores iguarias. E eu vou ficar sentado ao seu lado, garantindo que você não decida tentar nenhum outro salto mortal pelos próximos dez séculos.
Qin soltou uma risada alta e clara, que ecoou pelas vigas do salão.
— Um Rei sendo guardado por outro Rei? Isso soa como um tipo de prisão muito luxuosa, Hades.
— Considere uma proteção de estado — respondeu Hades, finalmente recuperando um pouco de sua compostura nobre, embora ainda não soltasse a mão de Qin. — Se o mundo não consegue cuidar do tesouro que é a sua vida, eu cuidarei. Mesmo que isso signifique lutar contra o próprio destino por causa de uma gota de sangue.
Qin Shi Huang inclinou a cabeça, sentindo a sinceridade esmagadora que emanava de Hades. Ele percebeu que, para o Rei do Submundo, ele não era apenas um aliado ou um interesse passageiro. Ele era o centro de uma ordem que Hades jurara proteger com mais fervor do que o próprio Helheim.
— Tudo bem, meu Rei das Sombras — disse Qin, permitindo que Hades o conduzisse para fora do salão de treinamento. — Eu aceito o seu "confinamento". Mas aviso logo: se eu não gostar das uvas que você me servir, eu vou pular da varanda só para ver você entrar em pânico novamente.
Hades parou abruptamente, olhando para Qin com uma expressão de puro horror renovado.
— Você não se atreveria.
Qin Shi Huang apenas piscou e soltou um beijo no ar, caminhando à frente com sua capa balançando majestosamente.
— Tente me impedir, Hades. Tente me impedir.
Hades soltou um suspiro pesado, uma mão massageando as têmporas enquanto apressava o passo para seguir o Imperador, já planejando mentalmente como colocar redes de segurança em todas as varandas de Valhala. Ser o protetor de Qin Shi Huang era, sem dúvida, o trabalho mais exaustivo que ele já tivera em toda a eternidade — e ele não o trocaria por nada no universo.