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O Eclipse do Orgulho e o Olhar do Mar
O salão de projeções de Valhala parecia ter se tornado o centro gravitacional de toda a existência. Nikola Tesla, com seus olhos faiscando de uma curiosidade científica quase maníaca, ajustava as últimas bobinas de sua máquina, enquanto o público — uma mistura eclética de deuses arrogantes e humanos resilientes — se acomodava. Qin Shi Huang, o Imperador da China, estava sentado em sua poltrona de veludo, agitando um leque de seda com uma displicência real. Ao seu lado, Hades mantinha sua postura de estátua de mármore, embora seus olhos carmesim estivessem fixos na tela com uma intensidade que sugeria que ele estava pronto para analisar cada átomo da imagem.
— Senhoras, senhores e entidades além da compreensão! — Tesla exclamou, fazendo uma reverência dramática. — O que estamos prestes a ver é um fragmento de memória captado pelas flutuações quânticas dos corredores de Valhala. Um momento de sinceridade inesperada!
A tela brilhou, revelando um dos terraços mais isolados do palácio, onde o som das ondas de um mar artificial ecoava suavemente. Na imagem, Poseidon, o Tirano dos Mares, estava parado de costas, observando o horizonte com sua frieza habitual. Seu tridente estava fincado ao lado dele, brilhando com uma luz gélida.
De repente, a figura de Qin Shi Huang apareceu na gravação, caminhando pelo terraço como se fosse o dono de cada centímetro de mármore. Ele não parou, não fez reverência e, de fato, passou por Poseidon como se o deus fosse apenas uma estátua decorativa particularmente bem esculpida. Qin cantarolava uma melodia baixa, seus dedos deslizando pela murada.
No vídeo, Poseidon não se virou, mas seus olhos azuis gélidos seguiram o movimento do Imperador pelo canto da visão. Quando Qin desapareceu em direção às escadarias, Poseidon soltou um suspiro quase imperceptível.
— Um humano que não abaixa a cabeça nem diante do abismo... — murmurou o Poseidon da tela, sua voz como o choque do gelo. — Interessante.
O vídeo terminou abruptamente com essa única palavra ecoando pelo salão.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o próprio Helheim. No salão real, os deuses prenderam a respiração. Poseidon, o deus que considerava todos os seres — incluindo muitos de seus próprios irmãos — como meros resíduos sob seus pés, acabara de usar o adjetivo "interessante" para descrever um mortal.
Hades, que até aquele momento parecia a personificação da calma, endureceu. Ele não se moveu, não disse uma palavra, mas a temperatura ao redor de sua poltrona pareceu cair dez graus instantaneamente.
— Oh? — Qin Shi Huang quebrou o silêncio, fechando seu leque com um estalo seco. — Parece que o Deus dos Mares possui um gosto refinado para reconhecer a grandeza quando a vê. Este Rei aprecia a honestidade, mesmo vindo de alguém tão... taciturno.
Hades levantou-se lentamente. Seu rosto era uma máscara de indiferença nobre, mas quem o conhecia bem — como Hermes, que já estava começando a se afastar discretamente — podia ver a tempestade se formando por trás daquela testa impecável.
— Foi uma observação passageira de meu irmão — disse Hades, sua voz soando como o atrito de placas tectônicas. — Poseidon costuma ser... excêntrico em seus momentos de solidão.
— Excêntrico? — Qin riu, levantando-se também e ajeitando sua capa. — Ele pareceu bastante lúcido para mim. "Interessante"... é um elogio e tanto vindo de um deus que mal reconhece a existência do próprio reflexo. Talvez eu devesse visitá-lo para uma partida de Go.
— Você não fará tal coisa — rebateu Hades, rápido demais. Ele pigarreou, recuperando o tom. — Quero dizer, Poseidon valoriza sua privacidade. Seria uma perda de tempo imperial.
Hades virou as costas e começou a caminhar em direção à saída do salão, seus passos ecoando com uma força desnecessária.
— Para onde você vai, Hades? — perguntou Zeus, cutucando o nariz com um sorriso malicioso. — O show do Tesla ainda não acabou!
— Tenho assuntos pendentes no Submundo — respondeu Hades sem olhar para trás. — A papelada de Helheim não se organiza sozinha.
Mas Hades não foi para o Submundo. Pelas próximas três horas, o Rei dos Mortos transformou-se em um redemoinho de irritação silenciosa pelos corredores de Valhala.
Primeiro, ele encontrou um grupo de servos divinos que estavam limpando uma galeria de estátuas.
— Vocês — chamou Hades, fazendo os servos saltarem de susto. — Por que estas estátuas estão tão próximas umas das outras? O espaço entre elas está... desorganizado. Parece caótico. Parece "interessante". Mudem-nas de lugar imediatamente. Quero ordem absoluta. Nada de adjetivos vagos.
Os servos, confusos, começaram a arrastar mármores de toneladas enquanto Hades observava com os braços cruzados, batendo o pé ritmicamente.
Pouco depois, ele encontrou Hermes no jardim.
— Hermes — disse Hades, interceptando o mensageiro. — Você acha que a estrutura óssea do Imperador da China é... comum?
Hermes piscou, surpreso com a pergunta aleatória.
— Bem, tio, ele é um espécime humano extraordinário, eu diria. Por quê?
— "Extraordinário" é uma palavra aceitável — murmurou Hades, cerrando os punhos. — Mas "interessante"... é uma palavra perigosa. É uma palavra que sugere uma curiosidade que não deveria existir. Poseidon é um deus de absolutos. Ele não deveria ter curiosidade.
— Tio, você está... irritado porque o papai Poseidon fez um elogio ao Qin? — Hermes perguntou, um sorriso travesso surgindo em seus lábios.
Hades lançou-lhe um olhar que teria feito um exército de almas penadas se calar para sempre.
— Eu não sinto irritação, Hermes. Eu sinto que a dignidade divina está sendo diluída por comentários superficiais. Agora, se me der licença, preciso verificar se o tridente de Poseidon não está causando interferências magnéticas no juízo dele.
Hades continuou sua marcha. Ele acabou chegando a uma varanda onde Qin Shi Huang estava sentado, saboreando um chá e observando as nuvens. O Imperador parecia estar em paz absoluta, o que só servia para irritar Hades ainda mais.
— Você ainda está aqui — disse Hades, parando atrás dele.
— Este Rei não tem pressa — respondeu Qin, soprando a fumaça da xícara. — O ar de Valhala está particularmente revigorante hoje. Ou talvez seja apenas o efeito de saber que sou o assunto favorito da família real do Olimpo.
Hades sentou-se na cadeira à frente de Qin com uma rigidez que sugeria que ele estava prestes a quebrar o móvel.
— Poseidon não sabe o que diz metade do tempo. Ele é levado por correntes momentâneas.
— Você parece muito preocupado com a opinião do seu irmão, Hades — comentou Qin, baixando a xícara e sorrindo por trás da venda. — Ou será que o que te incomoda não é o que ele disse, mas o fato de que este Rei atrai olhares que você gostaria de manter apenas para si?
Hades abriu a boca para protestar, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele era um Rei. Ele era o Senhor do Submundo. Ele não sentia ciúmes... ou sentia? A ideia de Poseidon — o deus que ele mais respeitava e protegia — vendo a mesma chama vibrante em Qin que ele via, criava uma dissonância insuportável em seu peito.
— Eu sou o seu oponente no Ragnarok — disse Hades, tentando recuperar sua autoridade. — Eu sou aquele que carrega o dever de enfrentá-lo. As percepções de outros deuses são irrelevantes para o nosso... vínculo.
— "Vínculo"? — Qin inclinou-se para frente, o sorriso ficando mais largo. — Que palavra nobre. Mas admita, Hades. Você passou o dia inteiro de mau humor porque o "Tirano dos Mares" ousou notar que o seu Imperador é, de fato, fascinante.
— Ele disse "interessante" — corrigiu Hades, amargo. — "Fascinante" seria um exagero ainda maior.
— Ah! Então você admite que está contando as palavras! — Qin soltou uma gargalhada que fez Hades desviar o olhar, sentindo as orelhas esquentarem. — Hades, o Grande Rei de Helheim, está com ciúmes de um comentário de dez segundos! Onde este Rei se senta, até os deuses se tornam possessivos.
— Eu não sou possessivo — declarou Hades, levantando-se e batendo com a palma da mão na mesa, fazendo o chá de Qin oscilar. — Eu sou apenas... zeloso pela ordem das coisas. E a ordem das coisas diz que eu sou o único que entende a profundidade do que você representa. Poseidon vê apenas a superfície. Ele vê a rebeldia. Eu vejo o peso que você carrega.
Qin Shi Huang ficou em silêncio por um momento. Ele levantou-se também e caminhou até Hades, parando a poucos centímetros do deus. Suas garras de ouro brilharam quando ele tocou levemente o peito da armadura de Hades.
— Então por que se preocupar com a superfície, se você possui o abismo? — perguntou Qin, sua voz baixando para um tom suave que desarmou Hades completamente. — Poseidon pode achar o que quiser. Mas é você quem está aqui, perdendo a paciência por minha causa. Isso é muito mais do que "interessante", não acha?
Hades soltou um suspiro longo e pesado, sentindo a tensão deixar seus ombros. Ele olhou para baixo, encontrando a expressão serena de Qin.
— Você é um homem insuportável, Qin Shi Huang.
— Eu sou o seu Imperador — corrigiu Qin. — E este Imperador exige que você pare de agir como se o mar pudesse roubar o sol. O mar apenas reflete a luz que eu decido emitir.
Hades fechou os olhos por um segundo, permitindo-se um breve momento de derrota diante da lógica inabalável de Qin.
— Tudo bem. Talvez eu tenha sido... excessivamente focado nesse detalhe.
— "Excessivamente focado" é uma forma muito diplomática de dizer "completamente surtado" — brincou Qin, voltando a se sentar. — Agora, sente-se e tome um chá comigo. E tente não transformar a xícara em pó com essa sua força divina.
Hades sentou-se, ainda sentindo um resquício de irritação, mas agora era uma irritação morna, quase confortável.
— Mas eu ainda vou ter uma conversa com Poseidon — murmurou Hades, pegando uma xícara. — Ele precisa aprender a ser mais específico com seu vocabulário.
— Oh, por favor, deixe-me assistir a isso! — exclamou Qin. — O Rei do Submundo dando aulas de gramática para o Deus dos Mares por causa de um humano? Isso sim seria o ápice do Ragnarok!
Hades olhou para Qin, e pela primeira vez naquele dia, um sorriso verdadeiro e pequeno apareceu em seu rosto.
— Você se diverte às minhas custas, não é?
— É um dos privilégios do meu trono — respondeu Qin, levantando sua taça em um brinde silencioso.
Enquanto o sol de Valhala começava a se pôr, pintando o horizonte de roxo e ouro, Hades percebeu que, embora o comentário de Poseidon tivesse sido o gatilho, a verdadeira questão era o quanto ele já havia se permitido ser consumido pela presença de Qin. Ele era um deus que valorizava a família acima de tudo, mas Qin Shi Huang havia se tornado uma categoria à parte. Um enigma que ele não queria compartilhar, uma música que ele queria ouvir sozinho.
— Hades? — chamou Qin, percebendo o silêncio do outro.
— Sim?
— Se você vir o Poseidon... diga a ele que eu também o acho "interessante". Só para ver a cara que ele faz.
Hades quase engasgou com o chá.
— Nem em um milhão de anos, Qin. Nem em um milhão de anos.
Qin Shi Huang riu, e naquele momento, sob o céu das divindades, Hades soube que o resto de seu dia — e talvez de sua eternidade — continuaria sendo ditado pelos caprichos daquele homem. E, para sua própria surpresa, ele descobriu que não se importava nem um pouco. A ordem de Helheim podia esperar; o Imperador tinha chá a servir e um Rei para provocar, e Hades, apesar de toda a sua nobreza, estava exatamente onde queria estar.