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O Silêncio sob o Peso da Coroa

A noite em Valhala não era como a noite na Terra ou a penumbra eterna de Helheim. Era uma escuridão artificial, polida e fria, onde as estrelas no teto abobadado brilhavam com uma precisão matemática que não oferecia conforto aos inquietos. Hades, o Rei do Submundo, caminhava pelos corredores de mármore branco com a elegância silenciosa de quem está acostumado a transitar entre as sombras. Ele não conseguia dormir; a responsabilidade do Ragnarok e a presença vibrante de certos humanos em seu domínio mental mantinham seus pensamentos em um estado de vigília perpétua.

Ele dobrou o corredor que levava aos jardins suspensos, um lugar onde a flora de todos os reinos coexistia em uma harmonia forçada. Foi então que ele viu uma silhueta familiar.

Qin Shi Huang estava parado diante de uma árvore de ginkgo cujas folhas pareciam feitas de ouro pálido sob a luz lunar. Ele não estava usando sua venda habitual, e sua postura, geralmente tão ereta e desafiadora que parecia capaz de sustentar o céu, estava levemente curvada. Ele parecia menor, mais humano, despojado da armadura de arrogância que costumava exibir diante dos deuses.

Hades hesitou. Ele poderia recuar, deixá-lo com sua solidão, mas algo na curvatura dos ombros do Imperador o impeliu a avançar.

— O sono parece ser um súdito rebelde para este Rei hoje à noite — disse Hades, sua voz soando baixa e melodiosa, cortando o silêncio sem quebrá-lo.

Qin não se assustou. Ele apenas inclinou a cabeça, os olhos fixos nas folhas douradas.

— O sono é um luxo que os mortos possuem em abundância, Hades — respondeu Qin, sem olhar para trás. — Mas para aqueles que ainda respiram, ele é apenas um intervalo onde as vozes que silenciamos durante o dia ganham força.

Hades aproximou-se, parando ao lado dele, mas mantendo uma distância respeitosa. Ele notou que as mãos de Qin, adornadas com suas garras de ouro, tremiam imperceptivelmente.

— Você fala de vozes — comentou Hades, observando o perfil do homem. — Refere-se à dor que você sente através de sua sinestesia?

Qin soltou uma risada curta, mas não havia humor nela. Era um som seco, como pergaminho antigo sendo rasgado.

— A dor física é fácil, Hades. Eu aprendi a transformá-la em armadura. Eu sinto o golpe, eu sinto o corte, e eu sigo em frente porque o meu povo precisa de um Rei que não caia. — Ele finalmente virou o rosto para Hades. Seus olhos, que viam o fluxo de energia e a dor alheia, pareciam turvos. — Mas existem outros tipos de dor. Medos que não têm rosto, mas têm o peso de uma montanha.

Hades não interrompeu. Ele apenas assentiu, oferecendo sua presença como um pilar estável no meio da incerteza de Qin.

— Às vezes — continuou Qin, voltando a olhar para o jardim —, eu me pergunto se eu realmente sou o Rei que eles precisavam. Eu unifiquei a China, eu construí muralhas, eu queimei livros para forjar uma única mente sob o meu comando... Mas, no escuro, eu me pergunto: e se eu tiver apenas construído um monumento à minha própria solidão?

Hades permaneceu em silêncio. Ele sabia que, para um homem como Qin, o consolo comum seria um insulto. Ele precisava de uma testemunha, não de um conselheiro.

— Eu tenho medo, Hades — sussurrou Qin, e a confissão pareceu vibrar no ar frio. — Tenho medo de que, quando o Ragnarok terminar, eu seja apenas mais uma sombra esquecida no seu reino. Tenho medo de que o sacrifício de todos que me amaram, de Chun Yan... tenha sido em vão porque eu não sou forte o suficiente para carregar a salvação da humanidade nas costas.

Ele apertou a murada de mármore com tanta força que as garras de ouro arranharam a superfície.

— Onde eu me sento é o meu trono, eu digo isso a todos. Mas a verdade é que o trono é o lugar mais frio do mundo. Eu sinto a dor de cada pessoa que vejo, mas ninguém sente a minha. Eu sou o Imperador que deve ser perfeito, o homem que não tem permissão para hesitar. Mas e se eu falhar? E se eu for apenas o garoto de Zhao que nunca parou de chorar por dentro?

Hades ouvia cada palavra com uma atenção solene. Ele via diante de si não o oponente formidável da arena, mas uma alma que carregava o peso de milhões de vidas. Ele reconhecia esse peso. Era o mesmo que ele carregava ao governar o Submundo, ao garantir que a ordem fosse mantida, ao ser o irmão que nunca podia vacilar para que os outros pudessem brilhar.

— Eu vejo as crianças de Valhala — continuou Qin, sua voz agora mais rápida, como se as comportas tivessem se aberto. — Eu vejo a esperança nos olhos dos humanos que torcem por mim. Eles olham para mim e veem um deus. Mas eu sinto cada batida de coração deles como se fosse a minha. E se eu perder... eu não vou sentir apenas a minha morte. Eu vou sentir a morte de toda a esperança humana. É um peso que nem mesmo o Primeiro Imperador deveria carregar sozinho.

Qin parou de falar abruptamente, como se estivesse exausto pelo esforço de expor sua alma. O silêncio voltou a reinar no jardim, mas agora era um silêncio compartilhado. Hades não desviou o olhar. Ele esperou, dando a Qin o tempo necessário para que suas palavras se assentassem, para que o eco de seus medos encontrasse um lugar para descansar.

Horas pareciam ter passado. A lua de Valhala havia se movido no céu artificial, e o vento frio da madrugada começou a soprar com mais força. Hades finalmente se moveu, não para se afastar, mas para colocar uma mão firme e reconfortante no ombro de Qin.

— Um Rei que não teme a própria falha não é um Rei, Qin Shi Huang — disse Hades, sua voz carregada de uma dignidade nobre e profunda. — É apenas um tirano cego.

Qin olhou para a mão de Hades em seu ombro e depois para os olhos do deus.

— Você não me interrompeu — observou o Imperador, surpreso. — Eu falei por horas sobre fraquezas que poderiam ser usadas contra mim na arena. Por que você ouviu?

— Porque no Submundo — respondeu Hades —, eu ouço os lamentos de todos os reis que já existiram. Mas nenhum deles falou com a sinceridade que você demonstrou hoje. Você não estava falando de fraqueza, Qin. Você estava falando de amor. O medo de falhar com aqueles que dependem de nós é a prova mais pura de que somos dignos de liderá-los.

Hades deu um passo à frente, ficando frente a frente com Qin.

— Você não é o garoto de Zhao que nunca parou de chorar. Você é o homem que transformou aquelas lágrimas em um mar onde seu povo pôde navegar. Se você cair no Ragnarok, eu estarei lá para recebê-lo em Helheim, não como uma sombra esquecida, mas como um igual que carregou seu fardo até o fim. Mas eu suspeito que esse dia ainda está longe.

Qin Shi Huang estudou o rosto de Hades. Ele buscou qualquer sinal de piedade ou condescendência, mas encontrou apenas um respeito absoluto e uma compreensão que transcendia a rivalidade entre deuses e homens. O Imperador sentiu uma pressão diminuir em seu peito, um alívio que nem mesmo os fones de Tesla poderiam proporcionar.

— Você é um homem estranho, Hades — disse Qin, e um pequeno sorriso, genuíno e cansado, apareceu em seus lábios. — Um deus que sabe ouvir o silêncio de um coração humano.

— Eu sou o Rei daqueles que não têm mais voz — disse Hades, retirando a mão do ombro de Qin, mas mantendo o olhar fixo nele. — É meu dever ouvir. Especialmente quando a voz é tão poderosa quanto a sua.

Qin endireitou as costas. O brilho de arrogância real começou a retornar aos seus olhos, mas agora estava temperado com uma serenidade nova. Ele pegou sua venda de seda, que estava pendurada em seu cinto, e começou a colocá-la novamente.

— O sol vai nascer em breve — comentou Qin, ajustando o tecido sobre os olhos. — E este Rei tem um império para defender e um deus para impressionar.

— Você já fez ambos, Qin Shi Huang — respondeu Hades, fazendo uma leve inclinação de cabeça, um gesto de respeito que ele raramente concedia a qualquer ser.

Qin soltou uma risada, desta vez com o tom vibrante que Hades conhecia bem.

— Então certifique-se de estar na primeira fila, Hades. Eu não gostaria que você perdesse o espetáculo de ver este Rei superar seus próprios medos.

— Eu estarei lá — prometeu Hades.

Qin começou a se afastar, caminhando com a mesma confiança imperial de sempre, mas parou por um momento e olhou por cima do ombro.

— Hades?

— Sim?

— Obrigado por não me oferecer conselhos inúteis. Eu precisava apenas que o mundo parasse de gritar por um momento.

— O silêncio do Submundo estará sempre à sua disposição, Imperador — disse Hades, observando a figura de Qin desaparecer na penumbra dos corredores.

Hades permaneceu no jardim por mais algum tempo, olhando para a árvore de ginkgo. Ele percebeu que, naquela noite, algo fundamental havia mudado. Ele não via mais Qin apenas como o oponente que ele deveria derrotar para honrar seus irmãos. Ele o via como o homem que ousou ser vulnerável diante do Senhor dos Mortos.

E enquanto caminhava de volta para seus próprios aposentos, Hades sentiu que, pela primeira vez em milênios, o peso de sua própria coroa parecia um pouco mais leve. Afinal, até mesmo os deuses precisavam saber que não eram os únicos a temer a escuridão da noite. E no coração de um Imperador humano, ele encontrou a resposta que nem mesmo a sabedoria do Olimpo poderia lhe dar: que a verdadeira realeza não reside na ausência de medo, mas na coragem de confessá-lo a quem é digno de ouvir.