d4
O Eco de uma Língua Esquecida
O Submundo não era apenas um lugar de sombras e julgamentos; era um reino de silêncios profundos e tempos que se estendiam como rios de mercúrio. Para Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, a morte não havia sido o fim de sua soberania, mas o início de um tipo diferente de conquista. Ele habitava um palácio em Helheim que espelhava sua glória terrena, mas, pela primeira vez em sua existência milenar, o Imperador sentia que havia uma muralha que ele não conseguia transpor apenas com força de vontade ou carisma.
Essa muralha era feita de palavras.
Qin percebera, logo nos primeiros séculos de sua estadia no pós-vida, que Hades — o soberano que o derrotara em combate e o acolhera em dignidade — mudava quando estava sozinho ou quando falava com seus irmãos. Havia uma cadência, uma melodia áspera e ao mesmo tempo doce que escapava dos lábios do Rei do Submundo quando ele pensava que ninguém estava ouvindo. Era o grego antigo, a língua dos deuses primordiais, um idioma que carregava o peso das montanhas e a fluidez do oceano.
Para Qin, que sempre exigiu que o mundo falasse sua língua, perceber que o homem que ele mais respeitava possuía um jardim secreto de pensamentos inacessível a ele foi um golpe em seu orgulho imperial. E, como qualquer Rei digno desse título, ele decidiu que conquistaria aquele território.
— Outra vez, Hermes — disse Qin, jogando um pergaminho sobre a mesa de ébano. — A pronúncia deste verbo. Ele soa como o vento nas cavernas ou como o estalar de uma tocha?
Hermes, o mensageiro dos deuses, suspirou enquanto ajustava sua gravata. Ele passara os últimos cinquenta anos sendo convocado ao palácio de Qin para sessões de tutoria que beiravam a tortura psicológica.
— Imperador — disse Hermes, com seu sorriso polido e cansado —, para um homem que unificou idiomas e pesos na China, você está sendo surpreendentemente teimoso com os tempos gramaticais do meu tio. Hades usa o dialeto jônico com inflexões que nem mesmo Zeus consegue replicar perfeitamente.
— Este Rei não aceita a mediocridade, Hermes — rebateu Qin, levantando-se e caminhando até a janela que dava para os campos de asfódelos. — Se Hades encontra conforto nessas palavras, eu as dominarei. Eu sinto a dor dos outros, mas quero entender a paz dele. E a paz dele fala grego.
— Por que não simplesmente pedir que ele o ensine? — sugeriu Hermes. — Meu tio sente sua falta. Ele acredita que você se isolou nestas bibliotecas por tédio ou por desdém pela companhia divina.
Qin apertou as garras de ouro contra a murada.
— Pedir? Um Rei não pede o que pode conquistar por conta própria. Imagina o absurdo: Qin Shi Huang gaguejando diante do Senhor dos Mortos? Não. Eu só falarei quando minha voz soar como se eu tivesse nascido sob a sombra do Olimpo.
Hermes deu de ombros, recolhendo seus papéis.
— Como desejar. Mas saiba que os séculos passam rápido para nós, mas para quem espera, eles pesam. Hades olha para as suas portas fechadas com uma melancolia que nem mesmo o néctar mais doce consegue curar.
Qin não respondeu. Ele voltou para os livros.
Os anos transformaram-se em décadas, e as décadas em séculos. Qin Shi Huang tornou-se um fantasma dentro do próprio reino dos mortos. Ele passava noites inteiras nas bibliotecas proibidas de Helheim, cercado por tomos que cheiravam a pó e eternidade. Ele praticava a pronúncia das vogais abertas diante dos espelhos de bronze, corrigindo a posição da língua até que o som de *“agápē”* e *“thánatos”* não soasse mais como uma imitação, mas como uma verdade.
Houve momentos de desistência. Em certa ocasião, no terceiro século de estudo, Qin atirou um dicionário etimológico em uma lareira, praguejando em chinês arcaico sobre como uma língua podia ter tantos casos gramaticais desnecessários. Ele passou dez anos sem tocar em um livro grego, dedicando-se a pintar paisagens de sua terra natal. Mas então, em um jantar formal, ele ouviu Hades suspirar um *“médōn”* (governante) baixinho enquanto olhava para as almas cansadas, e a determinação de Qin voltou com uma fúria renovada.
Ele precisava entender o que Hades sentia quando ninguém estava olhando.
Enquanto isso, no palácio principal de Helheim, Hades sentava-se em seu trono de obsidiana. Ele girava seu bidente distraidamente, os olhos fixos na entrada do salão. Ele sentia a falta de Qin. Sentia falta da arrogância luminosa, das bolhas de ar sopradas com desdém e daquela risada que parecia desafiar a própria morte. Ele acreditava que o Imperador havia finalmente se cansado da monotonia do submundo e da companhia de um deus sério demais.
— Ele não vem hoje também? — perguntou Hades a Hermes, que entregava relatórios sobre as fronteiras do Tártaro.
— O Imperador está... ocupado com seus projetos pessoais, tio — respondeu Hermes, mantendo a promessa de sigilo. — Ele manda dizer que "o trono não se move, mas o mundo gira ao redor dele".
Hades soltou uma risada amarga, falando em sua língua natal sem perceber:
— *Oíd' egō hōs ho anēr hoūtos tēn hēsykhían miseī.* (Eu sei como esse homem odeia o silêncio.)
Ele sentiu um aperto no peito. O grego era sua casa, o lugar onde ele guardava suas memórias de Poseidon, de Adamas e das eras antes do Ragnarok. Mas era uma casa solitária onde ninguém mais entrava.
Finalmente, após cinco séculos de reclusão intermitente, Qin Shi Huang decidiu que era hora.
Ele não mandou avisar. Ele simplesmente caminhou pelos corredores de Helheim, vestindo suas melhores sedas carmesim, as garras de ouro polidas até brilharem como sóis em miniatura. Ele entrou no salão de Hades no momento em que o deus estava prestes a se retirar para seus aposentos privados.
Hades parou ao pé da escadaria. Ele parecia cansado, a capa negra arrastando-se pelo chão. Ao ver Qin, uma centelha de surpresa e alívio cruzou seu rosto, mas ele a camuflou rapidamente com sua dignidade habitual.
— Qin Shi Huang — disse Hades, em chinês, como sempre fazia para honrar o outro. — Faz muito tempo que as sombras deste palácio não são iluminadas pela sua presença. O que o traz aqui? O tédio finalmente o venceu?
Qin parou a alguns passos de distância. Seu coração, algo que ele raramente sentia bater com tanta força desde que morrera, martelava contra as costelas. Ele olhou para Hades, notando as pequenas rugas de preocupação na testa do deus, o peso invisível que ele carregava nos ombros. Ele sentiu a dor da solidão de Hades, uma dor que ele agora sabia que era amplificada por um idioma que ninguém mais compartilhava de verdade.
Qin respirou fundo. Ele não usou o tom arrogante. Ele não soprou uma bolha. Ele apenas olhou nos olhos carmesim de Hades e falou, sua voz saindo firme, com a cadência exata que ele praticara por quinhentos anos.
— *Khaīre, Ánax tōn Enéroun. Polỳn khrónon esígēsa, allà nŷn páreimi.* (Salve, Rei daqueles que estão abaixo. Por muito tempo eu me silenciei, mas agora estou aqui.)
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Foi um silêncio que pareceu congelar o próprio fluxo do rio Estige.
Hades estacou. Ele não apenas parou; ele pareceu esquecer como se respira. Seus olhos se arregalaram, e a mão que segurava o bidente relaxou, deixando a arma tilintar levemente contra o mármore. Ele encarou Qin como se estivesse vendo uma miragem, um fantasma dentro do mundo dos fantasmas.
— O que você... — Hades começou em chinês, mas sua voz falhou. Ele mudou instantaneamente para o grego, a voz trêmula. — *Pōs? Pōthén soi hē phōnē hēde?* (Como? De onde vem essa sua voz?)
Qin deu um passo à frente, um sorriso suave e vitorioso surgindo em seus lábios.
— *Ématon tēn sēn glōttan, Hadēs* — disse Qin, a pronúncia perfeita, cada sílaba carregada com o peso de séculos de estudo. — *Dioti hē sē psychē en taútē laleī. Ouk ethélō sè mónon eīnai en tō skótō.* (Eu aprendi a sua língua, Hades. Porque a sua alma fala nela. Eu não quero que você esteja sozinho na escuridão.)
Hades sentiu um impacto no peito que nenhum golpe do Ragnarok jamais conseguira desferir. Ele olhou para Qin — para aquele humano insolente, para aquele imperador que se recusava a se ajoelhar — e percebeu a magnitude do que acabara de ouvir.
Ele não tinha apenas aprendido algumas frases decoradas. Hades, como mestre daquela língua, podia ouvir o esforço, a dedicação e a profundidade do conhecimento de Qin. Ele percebeu que, enquanto ele acreditava estar sendo ignorado, Qin estava, na verdade, construindo uma ponte através dos milênios apenas para alcançá-lo.
— Você... — Hades sussurrou, ainda em grego, dando um passo trêmulo na direção de Qin. — *Sỳ... epì pentakósia étē... di' emè toūto éprasas?* (Você... por quinhentos anos... fez isso por mim?)
— *Basileùs eimí* — respondeu Qin, aproximando-se o suficiente para que Hades pudesse sentir o calor de sua aura. — *Kaì ho basileùs pánta poieī hyper toū philou autoū.* (Eu sou um Rei. E o Rei faz tudo por aquele que ama.)
Hades finalmente fechou os olhos, uma única lágrima de divindade escapando e brilhando contra sua pele pálida. Ele não era um deus dado a demonstrações de fraqueza, mas o peso daquele gesto era insuportável. Alguém — um mortal, um homem que ele mesmo havia matado — dedicara séculos de sua eternidade para aprender a língua de sua infância, a língua de sua dor e de sua glória, apenas para que ele não tivesse que suspirar sozinho nos corredores de seu palácio.
Hades estendeu a mão e, com uma delicadeza que faria os Titãs tremerem, tocou o rosto de Qin.
— *Oudè hē glōttá mou dýnatai légein hōs nŷn ékhō* — murmurou Hades. — (Nem mesmo a minha língua consegue dizer como me sinto agora.)
— *Mē lége* — disse Qin, cobrindo a mão de Hades com a sua, as garras de ouro pressionando gentilmente a pele do deus. — *Akoué mou.* (Não diga. Apenas me ouça.)
Qin começou a recitar um poema grego antigo que encontrara em um dos tomos perdidos de Alexandria, uma ode à permanência das almas e à beleza do que é eterno. Enquanto ele falava, Hades sentiu o submundo mudar. As sombras não pareciam mais tão frias; o silêncio não era mais um vazio, mas um espaço preenchido.
— *Phíltate* — disse Hades, usando o termo mais íntimo de afeto que sua língua permitia. — Você atravessou o tempo por mim.
— Eu sou o Imperador que unificou o mundo, Hades — disse Qin, voltando para o chinês por um momento, apenas para que sua voz tivesse o peso de sua autoridade terrena. — Você realmente achou que eu permitiria que uma barreira de palavras me impedisse de entender o coração do homem que divide este trono comigo?
Hades soltou uma risada curta, uma risada que carregava o alívio de milênios de solidão sendo dissipados. Ele puxou Qin para um abraço firme, escondendo o rosto no ombro do Imperador.
— *Nŷn katanō* — sussurrou Hades no ouvido de Qin. — (Agora eu entendo.)
— *Nŷn amfóteroi katanōmen* — respondeu Qin. — (Agora nós dois entendemos.)
Naquela noite, Hermes, passando pelo corredor, parou diante das portas fechadas do salão. Ele ouviu vozes lá dentro. Não era o som de ordens imperiais ou de julgamentos divinos. Eram duas vozes, uma profunda e outra vibrante, conversando em um grego tão antigo e puro que parecia que o próprio tempo havia parado para escutar.
Hermes sorriu, guardando seus pergaminhos. Ele sabia que, a partir daquele momento, o Submundo nunca mais seria o mesmo. O Rei das Sombras finalmente encontrara alguém que não apenas via sua luz, mas que aprendera a nomeá-la em sua própria língua.
E Qin Shi Huang, sentado ao lado de Hades enquanto o sol de Helheim — uma pálida luz púrpura — começava a surgir no horizonte, sentiu que sua maior conquista não fora a Grande Muralha ou a unificação da China. Sua maior vitória fora o silêncio atônito de um deus que, pela primeira vez, sentia-se verdadeiramente compreendido.
— *Eis tēn aphtharsían* — brindou Qin, levantando uma taça imaginária. (Para a imortalidade.)
— *Eis hēmās* — respondeu Hades, apertando sua mão. (Para nós.)
As palavras, antes uma barreira, agora eram o fio de seda que os unia para sempre na tapeçaria da eternidade. E em Helheim, o grego antigo deixou de ser a língua dos mortos para se tornar a língua de um amor que nem mesmo o fim dos tempos poderia silenciar.