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O Voo da Fênix sobre as Sombras de Zhao
No grande auditório de Valhala, o ambiente estava carregado com uma eletricidade diferente. Nikola Tesla, o cientista do amanhã, flutuava ao redor de seu projetor quântico, ajustando lentes de plasma que emitiam um brilho azulado e futurista. Os deuses e humanos presentes já haviam se acostumado com as exibições de memórias, mas o clima de hoje era de uma curiosidade quase reverente.
Hades, o Rei do Submundo, estava sentado em seu trono de obsidiana, sua postura impecável e nobre. Seus olhos carmesim estavam fixos na tela, mas de vez em quando ele desviava o olhar para Qin Shi Huang, que se sentava ao seu lado com a habitual arrogância carismática, soprando bolhas de ar e agitando seu leque de seda.
— Nikola, meu caro amigo da ciência! — exclamou Qin, sua voz ecoando com uma confiança que preenchia o salão. — O que este Rei fará hoje para encantar as massas? Minha vida é uma sucessão de triunfos, espero que tenha escolhido um momento de glória absoluta!
Tesla parou por um segundo, um sorriso enigmático surgindo em seu rosto.
— Imperador, a ciência não escolhe apenas os momentos de glória, mas os momentos de verdade. O que veremos hoje é uma anomalia temporal captada de sua juventude em Zhao... um registro de quando o destino e o tempo tentaram, sem sucesso, capturá-lo.
— Zhao... — murmurou Hades, sua voz soando como o atrito de seda fina. — O lugar onde o peso do mundo começou a ser forjado em seus ombros.
Qin Shi Huang parou de soprar sua bolha por um breve momento. Suas garras de ouro apertaram levemente o braço do trono, mas seu sorriso não vacilou.
— Ah, Zhao. Um palco de muitas lições. Que comece a projeção!
A tela quântica brilhou, e a imagem tomou forma. Não era a Valhala dourada ou o palácio imperial de Xianyang. Era uma taverna simples e empoeirada em uma cidade vizinha àquela onde Qin vivia durante seu exílio. O jovem Qin, já com seus traços de beleza altiva e a venda cobrindo os olhos, estava sentado a uma mesa de madeira gasta. Ele parecia exausto. O suor secava em sua testa, e sua respiração era lenta.
Na tela, o jovem Qin acabou cedendo ao cansaço. Sua cabeça pendeu para o lado e ele adormeceu profundamente, cercado pelo barulho de camponeses e o cheiro de vinho barato.
— Ele dormiu? — perguntou Zeus, soltando uma risada anasalada. — O grande Imperador foi derrotado por uma soneca em uma taberna de quinta categoria?
— Silêncio, Zeus — disse Hades, sem desviar os olhos da tela. — Observe o ambiente.
Na projeção, o dono da taverna limpou o balcão e olhou para o jovem adormecido.
— Ei, rapaz! — gritou o homem. — Acorde! Já passou da meia-noite. Se você não sair agora, as patrulhas de Zhao vão fechar as estradas entre as cidades. Se te pegarem fora de casa depois do toque de recolher, você sabe o que acontece com "estrangeiros" como você.
O jovem Qin despertou de um salto. Seus olhos, embora cobertos pela venda, pareciam buscar a direção do tempo. Ele olhou para a janela, onde a lua já iniciava sua descida.
— Meia-noite? — O jovem Qin da tela levantou-se bruscamente, ajeitando seu traje surrado com uma dignidade que não pertencia àquele lugar. — Este Rei não se atrasa... ele apenas dá ao tempo uma chance de alcançá-lo. Mas hoje... hoje o tempo abusou da minha hospitalidade.
Ele saiu da taverna em um movimento fluido. A tela mostrou a distância: quilômetros de terreno acidentado, florestas densas e postos de guarda inimigos. O sol nasceria em poucas horas, e com ele, a morte certa se ele não estivesse em sua residência vigiada.
— Ele vai correr? — comentou Ares, cruzando os braços. — É impossível cobrir essa distância a pé antes do amanhecer. Nem mesmo um soldado treinado conseguiria.
— Ele não é um soldado — disse Qin Shi Huang no auditório, fechando seu leque com um estalo seco. — Ele é o homem que unificaria o mundo. Observem.
Na tela, o jovem Qin começou a correr.
Não era uma corrida comum. Era um voo rasteiro. Seus pés mal pareciam tocar o solo pedregoso. Ele corria com a técnica que mais tarde aperfeiçoaria no estilo *Chi You*, usando o fluxo de energia ao seu redor para impulsionar cada passo.
A música começou a ecoar pelo salão de Valhala, vinda do projetor de Tesla. Era uma melodia intensa, um ritmo que batia em sincronia com o coração do jovem na tela. O Qin jovem saltava sobre troncos caídos, desviava de galhos com uma percepção sensorial que desafiava a lógica. Ele sentia a dor da terra sob seus pés, a dor do vento cortando seu rosto, mas ele não parava.
— Olhem para os pés dele — observou Hermes, inclinado para frente com interesse profissional. — Ele está usando a vibração do solo para prever o terreno. Ele não está apenas correndo; ele está coreografando sua sobrevivência.
De repente, um rugido ecoou na projeção. Das sombras da floresta, uma criatura de Helheim que havia escapado por uma fenda dimensional naquela época — um monstro de garras longas e olhos múltiplos — saltou em direção ao jovem Qin.
No auditório, houve um suspiro coletivo. Mas Qin Shi Huang apenas sorriu.
Na tela, o jovem Imperador não desacelerou. Ele não parou para lutar. Ele transformou o combate em movimento. Enquanto corria, ele girou o corpo no ar, desviando de uma patada mortal. Com um movimento rápido, ele usou a força do próprio monstro como apoio, pisando nas costas da criatura para ganhar um impulso hercúleo para frente.
— *Bring me to life...* — murmurou Qin no auditório, começando a cantarolar a música que Tesla havia programado para a trilha sonora.
Na projeção, o jovem Qin parecia estar dançando com o perigo. Ele passava por patrulhas de soldados de Zhao como se fosse um borrão carmesim. Os soldados olhavam para os lados, sentindo apenas um deslocamento de ar, sem nunca ver o rastro do "Rei" que passava por eles.
— Ele está rindo? — perguntou Poseidon, sua voz fria demonstrando uma pitada de surpresa.
De fato, na tela, o jovem Qin exibia um sorriso largo enquanto seus pulmões queimavam. Ele estava sentindo a dor do esforço extremo, a dor de cada músculo gritando por oxigênio, mas seu espírito estava em êxtase.
— A dor é o tempero da vida! — exclamou o Qin do presente, batendo palmas. — Vejam como eu era magnífico! Mesmo quando o mundo tentava me prender, eu corria em direção ao meu trono!
Hades observava a tela com uma expressão de profundo respeito. Ele via o jovem Qin cruzando a fronteira da cidade exatamente quando os primeiros raios de luz começavam a pintar o horizonte de laranja. O jovem saltou o muro de sua residência, caindo silenciosamente no pátio interno, segundos antes de um guarda abrir a porta principal para a inspeção matinal.
Na imagem final, o jovem Qin estava encostado na parede interna, ofegante, com o suor escorrendo por seu rosto, mas com uma expressão de triunfo absoluto. Ele olhou para o sol nascente e sussurrou:
— O dia pertence a Qin.
A projeção se apagou, deixando o salão em um silêncio reverente antes de explodir em aplausos, tanto de humanos quanto de alguns deuses impressionados.
— Uma performance notável, Imperador — disse Tesla, desligando seu maquinário. — A eficiência biomecânica demonstrada foi... eletrizante!
Hades virou-se para Qin. O Rei do Submundo estendeu a mão e tocou levemente o ombro do Imperador.
— Você sempre teve pressa em governar, Qin. Mesmo quando o tempo era seu inimigo, você o tratava como um súdito.
— O tempo é apenas uma sugestão para quem sabe onde quer chegar, Hades — respondeu Qin, cobrindo a mão do deus com a sua. — Mas admito... aquela foi uma bela corrida. Eu quase senti falta daquela queimação nos pulmões.
— Você não precisa mais correr, Qin — disse Hades, seu tom suavizando para algo que apenas os dois podiam ouvir. — Onde você se senta agora, o mundo para para observar.
Qin Shi Huang sorriu, um sorriso que não era para o público, mas apenas para o Rei ao seu lado.
— Então que o mundo observe bem, Hades. Pois este Rei ainda tem muitas melodias para dançar.
Ele levantou-se, abrindo os braços para a multidão que gritava seu nome.
— Viram?! Este é o caminho do Rei! Onde eu corro, o destino abre caminho! Onde eu durmo, o tempo espera! E onde eu luto... a vitória é a única melodia permitida!
Hades permaneceu sentado, observando o homem que desafiara a lógica de Zhao e agora desafiava a lógica dos deuses. Ele percebeu que Qin não era apenas um Imperador de terras e homens, mas um Imperador do próprio espírito humano — uma fênix que, mesmo no cansaço e na escuridão, sempre encontraria o caminho de volta para a luz do amanhecer.
— Você é realmente... — começou Hades, procurando a palavra certa.
— Interessante? — interrompeu Qin, piscando por trás da venda.
— Único — corrigiu Hades, com um sorriso nobre. — Absolutamente único.
E enquanto Valhala celebrava a força do humano que corria contra o sol, os dois soberanos trocaram um olhar de compreensão mútua. O Ragnarok continuaria, as batalhas viriam, mas naquele momento, sob o brilho das luzes de Tesla, o tempo parecia ter parado apenas para admirar o Imperador que nunca soube o que era desistir.
— Venha, Hades! — convidou Qin, apontando para a saída. — Agora que todos viram minha velocidade, vamos ver se os banquetes de Valhala conseguem acompanhar o meu apetite!
Hades levantou-se, seguindo o Imperador com a dignidade de quem sabia que, ao lado de Qin Shi Huang, a vida nunca seria lenta, mas seria, sem dúvida alguma, uma performance digna dos deuses.