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O Pavor das Sombras e a Dignidade de um Imperador

O silêncio do Grande Salão de Helheim foi novamente quebrado pelo brilho pulsante da tela de energia espiritual. Após os momentos de tensão e a visão da traição sangrenta, os deuses e humanos presentes — entre eles Brunhilde, Göll e os representantes da humanidade que aguardavam no limbo — pareciam esperar por algo igualmente solene. Hades, sentado em seu trono, observava Qin Shi Huang com uma mistura de respeito e uma curiosidade crescente.

— O que virá agora? — perguntou Göll, limpando as últimas lágrimas do rosto. — Mais batalhas épicas? Mais sacrifícios?

Qin Shi Huang, que estava ocupado tentando equilibrar uma uva roxa na ponta de sua unha comprida e decorada, deu de ombros com uma elegância teatral.

— Um Rei deve estar preparado para mostrar todas as suas facetas — declarou ele, embora houvesse um leve tremor de hesitação em sua voz que não passou despercebido por Hades. — No entanto, o submundo tem... peculiaridades que testam até os nervos mais firmes.

A tela brilhou intensamente e a primeira imagem se formou.

O cenário era o poço das almas condenadas, logo após a chegada de Qin. Ele caminhava com sua habitual arrogância, a túnica arrastando pelo chão cinzento, quando decidiu explorar um dos túneis laterais em busca de "um trono mais confortável". O lugar estava mergulhado em uma névoa densa. De repente, um *Gritador do Abismo* — uma criatura com o rosto composto apenas por bocas e dedos longos — saltou de uma fenda no teto, caindo exatamente na frente do imperador com um rugido estridente.

Na tela, o "Rei Onde Quer que Esteja" deu um salto para trás que desafiava as leis da física, soltando um som que não era exatamente um grito de guerra, mas algo muito próximo de um guincho agudo. Seus braços giraram como moinhos de vento enquanto ele tentava recuperar o equilíbrio.

— SAI, COISA FEIA! — gritou o Qin da memória, desferindo um chute desajeitado no ar enquanto tropeçava na própria túnica e caía sentado. — ONDE ESTÃO AS BOAS MANEIRAS? NÃO SE ASSUSTA UM REI!

No salão de Helheim, o silêncio durou três segundos antes de Zeus explodir em uma gargalhada tão alta que o Olimpo deve ter tremido.

— HAHAHA! Olhem para as pernas dele! Ele parecia uma gazela assustada! — Zeus batia no joelho, as lágrimas já surgindo.

Hades tentou manter a compostura, mas o canto de sua boca tremia. Ele olhou para Qin, que agora estava com as bochechas levemente coradas, escondendo o rosto atrás de sua manga larga.

— Aquilo... aquilo foi um movimento estratégico de recuo rápido — murmurou Qin, sem muita convicção.

A tela não teve piedade e mudou para a próxima cena.

Desta vez, Qin estava tentando "redecorar" uma das cavernas de mineração de pontos. Ele carregava um cristal brilhante quando uma *Aranha das Sombras* do tamanho de um escudo, com olhos que brilhavam em um rosa neon, desceu silenciosamente por um fio de teia, parando a centímetros do nariz de Qin.

O imperador congelou. Seus olhos se arregalaram por trás da venda (que parecia ficar transparente de puro choque). Lentamente, a aranha mexeu uma das patas peludas, tocando a bochecha de Qin.

— Hao... — sussurrou o Qin da tela, a voz falhando. — Bom... bichinho...

A aranha soltou um som de clique.

— ¡SOCORRO! — berrou Qin, jogando o cristal para o alto e saindo em disparada pelo túnel, a túnica levantada até os joelhos para correr melhor. — ALGUÉM MATE O MONSTRO DE OITO PERNAS! ELE QUER COMER O MEU ROSTO!

— Eu não sabia que o Primeiro Imperador da China tinha tanta afinidade com o atletismo — comentou Poseidon, sua voz gélida carregada de um sarcasmo raramente visto.

— É uma questão de preservação do patrimônio imperial! — rebateu Qin, recuperando um pouco de sua postura. — O meu rosto é um tesouro nacional, Poseidon. Eu não podia deixar que uma aranha neon o estragasse!

As cenas continuaram em uma sucessão hilária.

Viram Qin Shi Huang tentando ser amigável com um *Cão do Inferno* de três cabeças, apenas para o animal espirrar em cima dele, fazendo o imperador pular dentro de um caldeirão de sopa de almas por puro susto.

Viram Qin caminhando solenemente em um corredor escuro, apenas para uma pequena sombra de um morcego do submundo passar raspando em sua cabeça, fazendo-o se encolher no chão e cobrir a cabeça com as mãos, murmurando que "o teto estava caindo".

Mas a cena que mais arrancou risadas foi quando Qin decidiu que as "Sombras Errantes" — espíritos sem forma que apenas flutuavam — precisavam de direção.

— Escutem aqui, seus amontoados de fumaça — dizia o Qin da tela, apontando o dedo para uma sombra particularmente densa. — Vocês precisam de ordem. Vocês precisam de um...

Nesse momento, a sombra soltou um som de "BÚ!" gutural e se expandiu subitamente para três vezes o seu tamanho.

O resultado foi Qin Shi Huang tropeçando para trás, caindo dentro de um poço de piche espiritual e emergindo de lá completamente negro, com apenas os olhos brilhando em choque, parecendo uma estátua de mármore que deu errado.

A plateia em Helheim estava em êxtase. Os humanos riam de seu imperador, mas de uma forma afetuosa; os deuses, por sua vez, pareciam deleitados ao ver que aquele humano tão arrogante e poderoso tinha medos tão... mundanos.

Hades, no entanto, observava Qin com um olhar diferente. Ele notou que, após cada susto, após cada queda ridícula e cada grito de pavor, o Qin da tela se levantava. Ele limpava a poeira (ou o piche, ou a sopa), ajustava sua venda, erguia o queixo e continuava a caminhar. Ele nunca desistia de explorar, nunca deixava o medo impedi-lo de ser quem era.

— Sabe, Qin — disse Hades, sua voz cortando as risadas de Zeus —, é fascinante.

Qin Shi Huang, que estava tentando fingir que não era ele na tela, virou o rosto para o Deus dos Mortos.

— O quê? Minha técnica de salto em altura?

— Não — Hades sorriu suavemente. — O fato de que você tem pavor dessas criaturas, que elas claramente o deixam desconfortável, e mesmo assim você se recusou a ser um escravo naquele lugar. Você enfrentou esses "monstros" todos os dias para salvar as almas que nem conhecia.

O riso no salão começou a diminuir à medida que as palavras de Hades ganhavam peso.

— A maioria dos homens que têm medo se esconde — continuou Hades. — Mas você correu, gritou e, em seguida, voltou para o mesmo lugar para terminar o que começou. Isso não é apenas engraçado, Qin. É a definição mais pura de coragem. Ter medo e, ainda assim, agir como um Rei.

Qin ficou em silêncio por um momento. Ele baixou a mão que escondia seu rosto e olhou para a tela, onde seu "eu" do passado estava agora tentando explicar para um esqueleto que ele não deveria "chacoalhar os ossos tão alto porque era falta de etiqueta".

— Bem... — Qin ajeitou a gola de sua roupa. — Um Rei não pode permitir que pequenos detalhes, como aranhas gigantes ou sombras barulhentas, o impeçam de cumprir seu dever. Além disso, admito que o eco dos meus gritos dava um certo... charme acústico às cavernas.

— Você é impossível — disse Brunhilde, rindo entre dentes, sentindo um alívio que não experimentava há muito tempo.

— Eu sou o Trono! — exclamou Qin, recuperando totalmente sua confiança. — E se o Trono decide que vai gritar e correr de um morcego, então esse é o comportamento padrão de um governante supremo!

A tela brilhou uma última vez, mostrando Qin Shi Huang sentado em cima de uma pedra, cercado por várias das criaturas que o haviam assustado. Ele estava ensinando-as a fazer o sinal de "Hao" com suas patas e garras bizarras.

— Isso mesmo, seu monstro cheio de tentáculos — dizia o Qin da memória, acariciando (com muito nojo e as pontas dos dedos) a cabeça de uma criatura. — Diga "Hao". Se você vai me assustar, pelo menos faça isso com estilo imperial.

A imagem congelou com Qin Shi Huang rindo, cercado pelos "monstros" do submundo que agora pareciam mais seus súditos do que seus perseguidores.

No salão de Helheim, a atmosfera havia mudado. O ridículo havia se transformado em algo humano e admirável.

— Hades — chamou Qin, virando-se para o deus com um sorriso desafiador. — Agora que você viu meus "momentos de fraqueza", espero que não mude de ideia sobre o nosso acordo. Eu ainda pretendo redecorar este palácio. E a primeira coisa que vou fazer é colocar luzes em todos os cantos escuros. Por motivos puramente estéticos, é claro.

Hades soltou uma risada curta, uma visão que deixou Zeus de boca aberta.

— Eu não esperava menos de você, Pequeno Rei. De fato, as luzes serão providenciadas. Não queremos que o convidado de honra de Helheim tropece em nenhum morcego imaginário.

— Eles não eram imaginários! — protestou Qin, embora estivesse sorrindo. — Eles tinham dentes, Hades! Dentes!

Enquanto os deuses e humanos começavam a se retirar do salão, comentando sobre as cenas, Qin e Hades permaneceram por um momento.

— Você realmente teve medo? — perguntou Hades, em voz baixa, quando estavam quase a sós.

Qin Shi Huang olhou para a tela escura e depois para o Deus do Submundo.

— Hades, eu morri com uma lança na cabeça e fui traído pelo homem que amava. Depois disso, o que é uma aranha de oito olhos? — Ele fez uma pausa e seu sorriso tornou-se mais genuíno. — O medo é apenas um lembrete de que ainda estamos vivos, mesmo quando já estamos mortos. Mas a alegria... a alegria é o que nos torna Reis.

Hades assentiu, sentindo que, de alguma forma, aquele humano estava ensinando ao Rei do Submundo mais sobre a vida do que milênios de divindade jamais ensinaram.

— Venha, Qin — disse Hades, gesticulando para o corredor. — Vamos ver se conseguimos encontrar um vinho que apague a imagem daquela sua queda no piche.

— Hao! — exclamou Qin, seguindo o deus com passos saltitantes. — Mas eu exijo que o vinho seja servido em taças de ouro. E se eu ouvir qualquer "clique" de aranha no caminho, você terá que me carregar, Hades! É o dever do anfitrião proteger o convidado!

Hades apenas balançou a cabeça, rindo baixinho enquanto as sombras de Helheim, pela primeira vez em eras, pareciam um pouco menos assustadoras e muito mais cheias de luz. O imperador que se assustava com bichos havia conquistado o coração do submundo, não com uma espada, mas com a coragem de ser ridículo e a força de nunca deixar de brilhar.