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O Brilho do Sol na Terra das Sombras: O Festival do Eclipse
O Helheim nunca havia conhecido o conceito de "festividade" até a chegada de Qin Shi Huang. Para as divindades do submundo, o tempo era uma sucessão linear de deveres, julgamentos e silêncio. No entanto, o Primeiro Imperador da China não era um homem feito para o silêncio. Em poucos meses, ele transformou os corredores de obsidiana em galerias de arte, substituiu as tochas de fogo fátuo por lanternas de seda e, agora, convencera Hades a realizar o primeiro "Festival do Eclipse" — uma celebração em homenagem à união entre o mundo dos vivos e dos mortos.
O problema, contudo, era a diplomacia divina. Zeus, Poseidon e o resto do panteão olímpico haviam sido convidados para a celebração. E, embora Hades fosse o soberano absoluto de seu reino, ele sabia que a política entre deuses era um campo minado. Um deus governante manter um humano — um rei rebelde, em especial — como seu convidado de honra já era um escândalo. Se o Olimpo descobrisse que o Rei do Submundo e o Primeiro Imperador da China haviam desenvolvido um vínculo que ia muito além do respeito mútuo, o caos seria inevitável.
— Lembre-se, Qin — disse Hades, enquanto ajustava sua capa de veludo negro diante de um espelho de prata —, para todos os efeitos, você é apenas um conselheiro estratégico que estou mantendo aqui por utilidade. Nada de toques desnecessários. Nada de olhares... prolongados.
Qin, que estava sentado na beirada de uma mesa de mármore, balançando as pernas e terminando de pintar as próprias unhas de um azul profundo, soltou uma risada melodiosa.
— Hades, meu caro Rei das Sombras, você está pedindo para o Sol não brilhar — ele saltou da mesa, aproximando-se do deus com a graça de um felino. — Eu sou um mestre da teatralidade. Se você quer que eu finja que mal o suporto, eu o farei com a precisão de um ator da ópera imperial.
Hades suspirou, sentindo a proximidade de Qin e o perfume de sândalo que parecia segui-lo por toda parte. Ele estendeu a mão para afastar uma mecha de cabelo do rosto do humano, mas parou no meio do caminho, lembrando-se de suas próprias regras.
— É sério, Qin. Zeus adora fofocas e Poseidon... bem, ele não precisa de muitos motivos para ficar irritado. Se eles suspeitarem que meu julgamento está sendo "nuanceado" pelo afeto, as coisas podem ficar complicadas para você.
— Relaxa, Hades! — Qin deu um tapinha amigável no ombro do deus, um gesto que já era íntimo demais para os padrões divinos. — Eu serei a própria imagem da indiferença imperial. Agora, vamos. O seu povo está esperando para ver o quanto o seu reino ficou bonito graças ao meu gosto impecável.
O festival começou com uma grandiosidade que Helheim nunca vira. Mesas longas estavam repletas de iguarias que Qin insistira em recriar a partir de suas memórias: bolinhos de arroz, pato laqueado e vinhos que faziam o néctar dos deuses parecer água de poço. Zeus já estava em sua terceira taça, rindo alto enquanto Hermes circulava coletando informações.
Hades mantinha-se em seu trono, com a expressão de uma estátua de gelo. Qin, por sua vez, estava em uma mesa lateral, cercado por algumas almas de antigos generais, gesticulando dramaticamente enquanto contava uma história sobre como ele uma vez derrotou um demônio usando apenas um palito de dente e muita confiança.
Tudo ia bem, até que os deuses começaram a se misturar.
— Então, irmão — disse Zeus, aproximando-se do trono de Hades com um sorriso malicioso —, este é o humano que causou tanto alvoroço? O tal Qin Shi Huang?
Hades assentiu rigidamente.
— Ele possui conhecimentos valiosos sobre a gestão de grandes massas de almas. É um recurso... puramente técnico.
Nesse momento, do outro lado do salão, Qin soltou uma gargalhada vibrante. Ele estava comendo uma uva e, por puro hábito, olhou diretamente para Hades. Seus olhos se encontraram. Qin piscou, um gesto rápido e cúmplice que fez o coração do Deus do Submundo falhar uma batida. Hades desviou o olhar imediatamente, limpando a garganta.
— Técnico, entendo — murmurou Zeus, estreitando os olhos. — Ele parece ser bem... vívido para um morto.
— Ele é barulhento — retrucou Hades, tentando injetar irritação em sua voz. — Às vezes, me arrependo de não tê-lo jogado no Tártaro.
Qin, que tinha ouvidos de tísico, ouviu a frase e não conseguiu evitar. Ele se levantou e caminhou em direção ao trono com uma elegância provocante.
— Oh? Arrependimento, Grande Rei Hades? — Qin parou a poucos metros, inclinando a cabeça com um sorriso de escárnio perfeitamente ensaiado. — Achei que minha presença fosse o único raio de luz neste seu castelo empoeirado. Mas, se eu sou um fardo tão grande, talvez eu deva levar minhas ideias de decoração para o palácio de Zeus. Ouvi dizer que o Olimpo tem uma iluminação muito melhor.
Hades sentiu uma pontada de pânico. Ele sabia que Qin estava jogando, mas a ideia de vê-lo partir — mesmo que de mentira — o incomodava.
— Você não vai a lugar nenhum, humano — disse Hades, sua voz saindo mais profunda e possessiva do que ele pretendia. — Você ainda tem contratos a cumprir. Volte para sua mesa.
— Como desejar, *meu senhor* — Qin enfatizou as palavras com uma reverência exagerada, mas, ao se inclinar, ele deixou cair propositalmente um lenço de seda bordado aos pés de Hades.
Hades, agindo por puro instinto cavalheiresco que desenvolvera nos últimos meses, inclinou-se ao mesmo tempo para pegar o lenço. Suas mãos se tocaram sobre o tecido. O contato durou apenas um segundo, mas para os observadores atentos, foi como se uma centelha elétrica tivesse atravessado o salão.
— Cuidado, Imperador — disse Hades em um sussurro tenso, entregando o lenço. — Você está sendo descuidado.
— Eu? Jamais — Qin sorriu, e por um breve momento, a máscara de soberba caiu, revelando o carinho que sentia. Ele roçou levemente o polegar na palma da mão de Hades antes de se afastar.
Poseidon, que observava tudo de longe enquanto segurava seu tridente, franziu a testa.
— Hades — chamou o Deus dos Mares, aproximando-se com passos pesados. — Por que você está permitindo que um mortal toque em suas mãos com tanta familiaridade?
— Foi um acidente, Poseidon — respondeu Hades, recuperando sua máscara de frieza. — O humano é desajeitado apesar de toda a sua pompa.
— Desajeitado? — interrompeu Brunhilde, que passava por perto com Göll. — Qin Shi Huang é o homem mais ágil que já conheci. Ele não tropeça a menos que queira cair no colo de alguém.
Göll soltou um ganido de surpresa, cobrindo a boca, enquanto Hades sentia que o festival estava escapando de seu controle.
As horas passaram e o vinho continuou a fluir. A tentativa de "fingir indiferença" estava desmoronando sob o peso da convivência diária que eles haviam construído. Em um determinado momento, uma música suave começou a tocar — uma melodia que Qin havia ensinado aos músicos de Helheim, uma canção folclórica da dinastia Qin sobre amantes separados pelas estrelas.
Qin estava encostado em uma coluna, observando Hades. Ele viu o cansaço nos ombros do deus, o peso invisível da coroa que ele sempre carregava. Sem pensar nas consequências, Qin atravessou o salão.
— Você parece tenso, Rei das Sombras — disse Qin, parando ao lado do trono. — A música não o agrada?
— A música é aceitável — respondeu Hades, olhando para frente, tentando ignorar o calor que emanava de Qin. — Mas a companhia está se tornando... difícil de gerenciar.
— É cansativo, não é? — Qin baixou a voz, perdendo o tom teatral. — Fingir que não nos conhecemos. Fingir que você não é a primeira pessoa que me fez sentir que eu não precisava ser apenas um trono, mas um homem.
Hades fechou os olhos por um breve momento.
— Qin, agora não é o momento.
— Quando é o momento, Hades? — Qin se aproximou um centímetro a mais. — Estamos mortos. O tempo é uma ilusão. Por que nos importamos com o que Zeus pensa? Ele troca de esposa como troca de túnica.
Hades olhou para Qin e, por um instante, o mundo ao redor deles desapareceu. Ele viu a cicatriz na têmpora de Qin, a marca da lança que o matara, e sentiu uma onda de proteção tão avassaladora que esqueceu todas as suas próprias regras.
— Porque eu quero que você esteja seguro — sussurrou Hades. — Se eles virem você como minha fraqueza, eles o usarão contra mim.
— Eu não sou sua fraqueza, Hades — Qin sorriu, pegando a mão do deus à vista de todos. — Eu sou sua força. Um Rei não se esconde. Um Rei conquista.
Nesse exato momento, o silêncio caiu sobre o salão. Zeus tinha parado de falar. Poseidon estava com os olhos fixos na mão de Qin entrelaçada à de Hades. Até mesmo os servos pararam de servir.
— Irmão... — começou Zeus, com uma voz que oscilava entre o choque e a gargalhada. — Você está... de mãos dadas com o prisioneiro?
Hades olhou para a mão de Qin e depois para Zeus. Ele poderia ter inventado uma desculpa. Poderia ter dito que estava prestes a punir o humano. Mas ele viu o olhar de expectativa nos olhos de Qin — um desafio silencioso para que ele, pela primeira vez, colocasse seu próprio desejo acima do dever divino.
Hades apertou a mão de Qin com firmeza.
— Ele não é um prisioneiro, Zeus — declarou Hades, sua voz ecoando com a autoridade de quem governa o próprio destino. — Ele é Qin Shi Huang. O homem que unificou tudo sob o céu. E, neste reino, ele é o único que tem o direito de caminhar ao meu lado.
O choque foi tão grande que Hermes deixou cair seu cadarço de ouro. Poseidon bateu o tridente no chão, fazendo o palácio tremer.
— Você enlouqueceu, Hades? — rugiu Poseidon. — Um humano? Você está elevando um mortal ao seu nível?
— Eu não o elevei — respondeu Hades, levantando-se e puxando Qin para mais perto, o braço envolvendo a cintura do imperador de forma protetora. — Ele já estava lá. Eu apenas demorei para admitir que o trono de Helheim era grande demais para uma pessoa só.
Qin, sentindo-se vitorioso, jogou a cabeça para trás e riu.
— Hao! — exclamou ele, olhando para os deuses chocados. — Eu lhes disse que este lugar precisava de cor. O que é mais colorido do que um escândalo real?
Zeus, após o choque inicial, começou a rir. Uma risada profunda que balançou suas barbas brancas.
— Ora, Poseidon, deixe-o! — disse o Deus do Trovão. — Hades sempre foi sério demais. Se ele encontrou um humano com coragem o suficiente para bicar o bico do falcão, quem somos nós para impedir? Pelo menos as reuniões de família serão menos tediosas agora!
Poseidon resmungou algo sobre "decadência dos valores divinos", mas voltou para seu vinho. Ele sabia que, quando Hades tomava uma decisão, nem mesmo o mar poderia movê-lo.
Qin olhou para Hades, o sorriso suavizando-se.
— Você falhou miseravelmente em fingir que não me amava, sabia? — sussurrou o imperador.
— A culpa é sua — respondeu Hades, inclinando-se para encostar sua testa na de Qin, ignorando os olhares curiosos que ainda os cercavam. — Você é impossível de ignorar.
— Eu sei — Qin piscou. — É um dos meus melhores traços.
O festival continuou, mas a atmosfera havia mudado. Não havia mais a tensão do segredo, apenas a aceitação de uma união improvável. Qin e Hades passaram o resto da noite juntos, caminhando entre os convidados, discutindo desde táticas de guerra até a melhor forma de plantar flores de lótus no solo infértil do submundo.
Quando a lua de Helheim atingiu seu ápice e os deuses começaram a partir, Qin e Hades ficaram sozinhos na varanda do palácio, observando as lanternas de seda flutuarem sobre os rios de almas.
— Você sabe que eles vão falar sobre isso por mil anos, não sabe? — perguntou Qin, encostando a cabeça no ombro de Hades.
— Deixe que falem — respondeu o deus, envolvendo Qin em um abraço caloroso. — Eu passei a eternidade governando as sombras. Acho que posso lidar com um pouco de fofoca olímpica, desde que você esteja aqui para me irritar com suas ideias de decoração.
— Ah, falando nisso — Qin levantou o rosto, os olhos brilhando de entusiasmo —, eu estava pensando que os portões do Tártaro ficariam ótimos se pintássemos de carmesim. O que você acha de darmos um toque mais imperial à entrada?
Hades soltou uma risada baixa, beijando o topo da cabeça de Qin.
— Veremos, meu Pequeno Rei. Veremos.
Naquela noite, o submundo não era apenas o lugar para onde as almas iam para morrer. Era o lugar onde um imperador traído encontrou a lealdade e onde um deus solitário encontrou a vida. O festival do eclipse havia terminado, mas para Qin e Hades, o verdadeiro espetáculo estava apenas começando. Eles haviam falhado em fingir indiferença, mas, em troca, haviam conquistado algo que nem mesmo os deuses do Olimpo ousariam desafiar: a liberdade de serem reis, juntos, sob as estrelas eternas de Helheim.