Voltar ao resumo

D7

O Crepúsculo da Carne e a Redenção do Rei

A luz de Helheim nunca era verdadeiramente solar; era um brilho ametista constante que filtrava pelas janelas altas do palácio, dando a tudo um ar de eternidade estática. No entanto, para Qin Shi Huang, aquela manhã — se é que se podia chamar assim — parecia ter o peso de uma montanha sobre seus ombros. Quando seus olhos se abriram, a primeira coisa que sentiu não foi o orgulho de um imperador, mas o protesto violento de cada nervo de seu corpo.

Ele tentou se espreguiçar, mas um choque de dor aguda subiu por sua coluna, partindo de seus quadris e irradiando até as pontas dos dedos. Qin soltou um som que estava longe de ser o rugido de um dragão; foi um ganido baixo, quase um lamento. Onde quer que se sentasse era seu trono, mas naquele momento, ele sentia que não conseguiria se sentar nem em uma nuvem de algodão sem sofrer.

Com um esforço monumental, ele se sentou na borda da cama. A camisa de Hades, que ele ainda usava, deslizou fria pela sua pele hipersensível. Qin tentou ficar de pé. Suas pernas, porém, tinham outros planos. Elas tremeram como varas ao vento e, no primeiro passo, ele quase foi ao chão. Ele teve que se apoiar na coluna de madeira da cama nova, respirando fundo.

— Maldição... — sussurrou ele, a voz rouca. — Aquele deus... ele realmente levou a sério a ideia de soberania.

Qin começou a caminhar em direção à porta do quarto, mas sua marcha era patética. Ele mancava pesadamente, cada passo forçando uma careta em seu rosto normalmente jovial. A arrogância que costumava ser sua armadura havia evaporado, deixando apenas o humano por trás do mito. Ele não queria um trono, não queria o Grande Canal e não queria unificar nada. Ele só queria o calor de Hades.

Hades estava no salão de café anexo, revisando alguns pergaminhos enquanto tomava um chá escuro e aromático. Ele levantou os olhos quando ouviu o som arrastado de passos e o tilintar suave das joias de metal de Qin. O que ele viu o fez deixar a xícara de lado imediatamente.

Qin não entrou com a cabeça erguida. Ele entrou segurando-se nas paredes, o rosto pálido e os lábios levemente inchados. Seus olhos, que costumavam brilhar com desafio, estavam úmidos e focados apenas em Hades.

— Qin? — Hades levantou-se, sua figura imponente preenchendo o espaço. — O que faz de pé? Eu ordenei que descansasse.

— Eu não queria ficar sozinho — murmurou Qin. Ele não disse "O Grande Eu". Ele não disse "O Rei exige". Ele apenas falou como um homem que estava sofrendo.

Ele mancou até Hades, e quando chegou perto o suficiente, simplesmente deixou seu corpo cair contra o peito do deus. Hades o segurou com firmeza, sentindo o tremor que percorria o corpo do imperador. Qin escondeu o rosto no pescoço de Hades, aspirando o cheiro de ozônio e sândalo que era a marca registrada do Rei de Helheim.

— Estou doendo, Hades — confessou Qin em um sussurro abafado. — Tudo dói.

Hades sentiu uma pontada de remorso misturada com uma satisfação possessiva. Ele havia exagerado, ele sabia. A visão de Qin tão vulnerável e carente, buscando abrigo em seus braços em vez de lutar por sua independência, era algo que mexia com os instintos mais profundos do deus.

— Eu avisei que seria exigente — disse Hades, embora sua voz fosse agora suave como veludo. — Venha aqui.

Hades o pegou no colo com uma facilidade que sempre irritava o ego de Qin, mas que hoje era um alívio divino. Ele caminhou até um divã longo e macio perto da lareira de chamas azuladas e sentou-se, mantendo Qin em seu colo.

— Você está muito manhoso para quem queria montar tigres e seduzir generais ontem — provocou Hades, passando a mão pelas costas de Qin.

— O ontem foi há mil anos — resmungou Qin, aninhando-se mais profundamente. — Agora eu sou apenas o seu marido que não consegue andar. Você me quebrou, Hades. Literalmente.

— Eu não quebrei você, Qin. Eu apenas o lembrei de quem você é quando não está tentando carregar o mundo nas costas.

Hades começou a massagear os ombros de Qin, mas logo suas mãos desceram para a cintura do humano. Ele sentiu a tensão acumulada ali. Qin soltou um suspiro longo, relaxando sob o toque, mas a paz durou pouco. Hades, com um movimento ágil, virou Qin de bruços em seu colo, deixando a parte inferior do corpo do imperador exposta sob a camisa de seda.

— O que você está fazendo? — perguntou Qin, tentando olhar para trás, a voz tingida de uma súbita ansiedade.

— Você está tenso — disse Hades, sua voz assumindo um tom de autoridade paternal que ele usava com seus irmãos mais novos. — E ainda está muito insolente na sua mente. Preciso garantir que você entenda que a sua "carência" não o isenta das consequências de ter me provocado tanto com aqueles registros.

Antes que Qin pudesse protestar, Hades levantou a barra da camisa e desferiu o primeiro tapa.

O som de carne contra carne ecoou alto na sala silenciosa. Qin deu um pulo, o choque da dor aguda e repentina fazendo-o agarrar o tecido do divã.

— Hades! — exclamou ele, o rosto ficando vermelho instantaneamente. — Por que isso agora?

— Porque você precisa de disciplina, meu pequeno imperador — respondeu Hades calmamente, desferindo outro tapa, desta vez mais forte, no centro da nádega esquerda de Qin.

— Pare! Isso dói! — Qin tentou se contorcer para escapar, mas a mão de Hades em suas costas era como uma prensa de ferro.

— Dói porque você me fez perder o controle ontem. Dói porque você gosta de brincar com o fogo. E dói porque eu quero que você se lembre de que, por mais que você seja um rei, aqui, você é meu para cuidar e para punir.

Hades continuou. Os tapas vinham em um ritmo constante, rítmico e implacável. Não era a violência do combate, mas uma correção deliberada. A pele de Qin, já sensível pela noite de excessos, rapidamente passou do rosa para um vermelho vivo e pulsante.

— Hades, por favor... — Qin começou a soluçar. A sinestesia toque-espelho estava transformando cada tapa em uma onda de calor que reverberava por todo o seu ser. — Eu já entendi! Eu sou seu! Eu sou seu!

— Ainda não é o suficiente — disse Hades, atingindo o ponto onde a coxa se encontrava com o glúteo, uma área extremamente sensível.

Qin começou a chorar de verdade. Não eram lágrimas de raiva, mas de exaustão e sobrecarga sensorial. Ele se sentia pequeno, dominado e completamente à mercê do deus. O imperador que unificou a China estava reduzido a um homem chorando no colo de seu marido, implorando por clemência.

— Por favor... — soluçou Qin, as lágrimas molhando o divã. — Dói muito... Hades, pare... eu imploro. O Grande Eu... o Grande Eu não aguenta mais...

Hades parou a mão no ar. O uso do título no meio do choro foi o que o fez parar. Ele viu a pele de Qin, agora um escarlate brilhante, tremendo sob o toque do ar frio. O deus suspirou, sentindo a onda de agressividade se dissipar completamente, substituída por uma ternura protetora.

Ele virou Qin novamente, trazendo-o para o seu peito. O imperador estava um desastre; o rosto manchado de lágrimas, o nariz vermelho e o corpo soluçando de forma descontrolada. Ele se agarrou a Hades como se o deus fosse a única coisa sólida em um universo caótico.

— Shhh... pronto. Acabou — sussurrou Hades, balançando-o levemente. — Já passou, Qin.

— Você é... você é tão mau — soluçou Qin, escondendo o rosto no peito de Hades, os soluços diminuindo de intensidade, mas ainda presentes.

— Eu sou o que você precisa que eu seja — respondeu Hades, beijando o topo da cabeça de Qin. — Você me provoca até o limite porque quer ver se eu vou te segurar quando você cair. Bem, eu te segurei.

Hades pegou um frasco de bálsamo de ervas raras de Helheim que estava sobre a mesa lateral. Ele espalhou um pouco do líquido fresco nas mãos e começou a aplicá-lo na pele castigada de Qin. O imperador deu um pequeno sobressalto com o contato inicial, mas logo soltou um suspiro de alívio quando o efeito analgésico do bálsamo começou a agir, resfriando o fogo dos tapas.

— Melhor? — perguntou Hades.

— Um pouco — murmurou Qin, a voz ainda trêmula. — Mas ainda odeio você.

— Mentiroso — disse Hades com um meio sorriso. — Você adora o fato de que eu sou o único que não se curva diante de você.

Qin não respondeu, porque sabia que era verdade. Ele passou a vida inteira sendo o teto de todos, o pilar que sustentava o império. Com Hades, ele podia finalmente ser o chão. Ele podia ser fraco, podia ser punido e podia ser cuidado.

— Hades? — chamou Qin após um longo silêncio, sua voz agora mais calma, embora ainda carregada de cansaço.

— Sim, meu rei?

— Não conte ao Hermes sobre isso. Se ele colocar em algum registro que o Primeiro Imperador chorou por causa de uns tapas, eu juro que volto ao mundo dos vivos apenas para queimar aquela biblioteca.

Hades soltou uma risada profunda, que vibrou no peito onde Qin estava encostado.

— Seu segredo está seguro comigo. Hermes já tem diversão suficiente com as suas histórias de tigres e poetas.

— Aqueles poetas eram muito bons — murmurou Qin, recuperando um pouco de sua centelha habitual.

Hades apertou a cintura de Qin com um pouco mais de força, um aviso silencioso.

— Mas nenhum deles tinha o seu... talento — apressou-se a dizer Qin, abrindo um sorriso fraco e travesso através das lágrimas secas.

Hades balançou a cabeça, maravilhado com a resiliência do espírito daquele homem. Ele pegou Qin novamente e o levou de volta para a cama, deitando-o com todo o cuidado do mundo. Ele se deitou ao lado dele, permitindo que Qin se aninhasse em seu abraço.

— Durma agora, Qin — disse Hades. — Sem mais jogos, sem mais registros. Apenas descanse.

— Você vai estar aqui quando eu acordar? — perguntou Qin, fechando os olhos, a carência voltando a tomar conta enquanto o sono o puxava.

— Eu sou o Rei do Submundo, Qin. Eu não vou a lugar nenhum. E você também não vai, especialmente no estado em que deixei suas pernas.

Qin soltou um risinho abafado, o último som antes de cair em um sono sem sonhos. Hades ficou observando-o por horas, guardando o sono do homem que ousou desafiar os deuses apenas para encontrar seu lugar nos braços de um deles. O passado de Qin poderia estar cheio de escândalos e glórias, mas seu futuro era uma página em branco que Hades pretendia preencher com o cuidado, a paixão e, ocasionalmente, a disciplina que apenas um deus nobre poderia oferecer a um imperador indomável.

Lá fora, Helheim continuava em seu silêncio eterno, mas dentro daqueles aposentos, a história de um rei e seu deus continuava a ser escrita, não em pergaminhos frios, mas na pele, no suor e no amor que transcendia a própria eternidade.