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O Gosto da Submissão e o Orvalho de Helheim
O silêncio nos aposentos reais de Hades era tão espesso que Qin Shi Huang podia ouvir o próprio batimento cardíaco, um ritmo lento e pesado que ecoava em seus ouvidos. A escuridão de Helheim era pontuada apenas pelo brilho fraco das chamas azuladas na lareira distante, lançando sombras longas que dançavam pelas paredes de pedra polida. Qin sentia-se como se tivesse sido atropelado por uma manada de elefantes de guerra. Cada músculo, da nuca até os calcanhares, latejava com uma dor sorda e persistente, um lembrete vívido da possessividade avassaladora de Hades.
Ele tentou engolir em seco, mas sua garganta parecia um deserto de areia quente. A sede era uma agulha fina espetando seu paladar, uma necessidade física que rompeu o nevoeiro de seu cansaço extremo. Ele precisava de água. O Grande Eu não podia sofrer de algo tão mundano quanto a desidratação, pensou ele com um resquício de sua arrogância habitual, embora seu corpo se sentisse tudo menos "grande" naquele momento.
Com um gemido que foi abafado pelos travesseiros de seda, Qin tentou se mover. No momento em que deslocou o peso para o lado, uma fisgada aguda partiu de seus quadris, fazendo-o morder o lábio inferior para não gritar. Suas pernas pareciam feitas de chumbo derretido, e a pele de sua parte traseira, ainda quente pela disciplina de Hades, reclamou contra o toque dos lençóis finos.
— Maldição... — sussurrou ele, a voz saindo como um estalido seco.
Ele conseguiu se apoiar nos cotovelos, mas o esforço fez sua visão oscilar. O quarto parecia girar levemente. Ele olhou para o lado e viu a silhueta de Hades sentada em uma poltrona próxima à janela, envolta em uma aura de serenidade divina que, naquele momento, Qin achou profundamente irritante. O deus parecia estar lendo, ou talvez apenas meditando sobre a imensidão de seu reino morto.
— Aonde pensa que vai, Qin? — A voz de Hades cortou o silêncio, calma e profunda, sem que o deus sequer desviasse o olhar do que quer que estivesse fazendo.
— Eu... — Qin tossiu, tentando recuperar a postura, apesar de estar tremendo sob a camisa de seda negra de Hades. — Onde quer que eu me sente é meu trono, mas agora eu preferiria o trono que fica perto de uma jarra de água. Estou com sede.
Qin tentou forçar o corpo a sair da cama. Seus pés tocaram o chão de mármore frio e o choque térmico quase o fez desmaiar. Ele se levantou, as pernas bambas ameaçando ceder a qualquer segundo. Ele deu um passo trêmulo, a mão tateando o ar em busca de apoio, parecendo mais um espectro errante do que o unificador da China.
Antes que seu segundo passo pudesse falhar, Hades estava lá. Com uma velocidade que desafiava a percepção humana, o Rei do Submundo fechou a distância, envolvendo a cintura de Qin com um braço firme e inabalável.
— Você não consegue nem manter o equilíbrio, meu pequeno imperador — disse Hades, seu tom de voz misturando uma repreensão suave com uma preocupação genuína. — Eu disse para você descansar.
— E eu disse que estou com sede — retrucou Qin, tentando empurrar o peito de Hades, embora suas mãos tivessem a força de um recém-nascido. — Um rei não implora por água, ele a busca.
Hades soltou uma risada curta, um som sombrio e melodioso que fez os pelos da nuca de Qin se arrepiarem.
— Neste quarto, há apenas um Rei que provê as necessidades do outro. E você já provou que sua teimosia só leva a mais dor.
Hades não o levou de volta para a cama imediatamente. Em vez disso, ele o conduziu até uma cadeira de espaldar alto, sentando o humano com uma firmeza que fez Qin soltar um arquejo. O deus caminhou até uma mesa lateral onde repousava uma jarra de cristal com um líquido límpido e gelado. Ele encheu uma taça de prata, mas não a entregou a Qin.
O imperador estendeu a mão, esperando o objeto, mas Hades apenas o observou, os olhos brilhando com uma intenção que Qin não conseguiu decifrar de imediato.
— Se você quer beber, Qin — começou Hades, dando um passo lento em direção a ele —, você o fará da maneira que eu decidir. Você queria ser servido como um soberano, mas esqueceu que, ontem, você entregou sua autonomia nas minhas mãos.
Hades tomou um longo gole da água, mantendo o líquido na boca. Ele se inclinou sobre Qin, prendendo o humano entre seus braços e o encosto da cadeira. Antes que Qin pudesse processar o que estava acontecendo, Hades selou seus lábios nos dele.
O choque inicial de Qin foi substituído por uma onda de alívio quando a água gelada foi transferida da boca de Hades para a sua. Foi um beijo profundo, técnico e dominador. Hades ditava o ritmo da deglutição, forçando Qin a beber devagar, gota a gota, enquanto sua língua explorava a cavidade bucal do imperador, misturando o gosto da água com o sabor metálico e doce da divindade.
Quando Hades se afastou, um fio de água escorreu pelo canto da boca de Qin, descendo pelo seu pescoço e desaparecendo sob a gola da camisa. Qin estava ofegante, o rosto corado, os olhos brilhando com uma mistura de indignação e desejo renovado.
— Satisfeito? — perguntou Hades, limpando o lábio de Qin com o polegar.
— Isso foi... desnecessário — ofegou Qin, embora seu corpo estivesse pedindo por mais daquele contato. — Eu tenho mãos, Hades.
— Você tem mãos que mal conseguem segurar um lençol — retrucou o deus. — Se você quer água, você a receberá de mim. É assim que Helheim funciona. O provimento vem do trono.
Hades repetiu o processo. Mais uma vez, ele encheu a própria boca com o líquido e o entregou a Qin através de um beijo que parecia durar uma eternidade. Desta vez, Qin não lutou. Ele agarrou os ombros de Hades, puxando-o para mais perto, aceitando a "água" como se fosse o néctar dos deuses. A sede física estava sendo saciada, mas uma sede muito mais profunda, uma sede de submissão e reconhecimento, estava sendo alimentada.
— Você gosta de me humilhar, não é? — murmurou Qin entre os beijos, a voz falhando.
— Eu não chamo isso de humilhação — disse Hades, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos claros de Qin. — Eu chamo de alinhamento. Você passou a vida inteira sendo o provedor de milhões. Aqui, você não precisa prover nada. Você apenas recebe. E eu recebo o seu prazer e a sua obediência em troca.
Hades pousou a taça de prata na mesa. Ele viu como Qin olhava para o objeto, ainda sedento, mas agora por algo que não era apenas água. O deus sorriu, um sorriso que raramente mostrava a alguém, carregado de uma nobreza impiedosa.
— Você ainda está com sede, Qin? — perguntou ele, sua mão descendo para acariciar a coxa do imperador sob a camisa de seda.
— O Grande Eu... nunca está satisfeito — respondeu Qin, tentando recuperar sua aura de superioridade, embora estivesse tremendo sob o toque de Hades.
Hades inclinou-se novamente, mas desta vez não buscou a boca de Qin. Ele desceu para o pescoço, deixando beijos úmidos e mordidas leves na pele sensível onde a sinestesia toque-espelho fazia Qin sentir cada dente de Hades como se fosse uma marca permanente em sua alma.
— Então beba da minha essência — sussurrou Hades contra a pele dele. — Esqueça a água do cristal. Beba o que eu tenho para oferecer.
O que se seguiu no silêncio daquele escritório não foi registrado por nenhum escriba de Hermes. Não houve testemunhas para a forma como o Primeiro Imperador da China se dissolveu nos braços do Rei do Submundo, aceitando cada gota de atenção, cada toque punitivo e cada gesto de cuidado como se fossem as leis de seu novo império.
Horas depois, quando a sede de ambos havia sido transformada em um cansaço pacífico, Hades carregou Qin de volta para a cama. O imperador estava em um estado de semi-consciência, o corpo finalmente relaxado, a mente livre das sombras de seu passado mortal.
— Hades... — murmurou Qin, enquanto era depositado entre os travesseiros.
— Sim?
— Da próxima vez... traga vinho. A água é... muito pura para um pecado como este.
Hades riu, cobrindo o marido com o edredom pesado.
— Durma, meu rei. No submundo, até o pecado tem o gosto que eu escolher dar a ele.
Qin Shi Huang fechou os olhos, um sorriso vitorioso e exausto nos lábios. Ele havia perdido a batalha pela autonomia naquela noite, mas, nos braços de Hades, ele havia encontrado algo que nenhum trono na terra jamais lhe deu: a liberdade de não precisar ser o imperador, apenas o homem que pertencia ao Deus dos Mortos. E, para Qin, essa era a maior conquista de todas.