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D7

O Trono de Marfim e o Peso do Pecado

O despertar de Qin Shi Huang não foi acompanhado pelo toque de harpas ou pelo aroma de incenso imperial, mas sim por uma consciência brutal de cada centímetro de sua própria pele. Helheim, em sua eternidade púrpura, parecia zombar dele através das janelas altas. O imperador, o homem que unificou as terras sob o céu e desafiou a própria morte, sentia-se agora como se tivesse sido desmontado e remontado por mãos divinas que não conheciam o conceito de misericórdia.

Ele tentou se espreguiçar, um hábito real de quem acorda esperando ser servido, mas o movimento foi interrompido por um choque de dor que partiu de sua lombar e desceu como fogo líquido pelas suas coxas.

— Pelos deuses... — murmurou Qin, sua voz sendo pouco mais que um sussurro rouco e gasto.

Ele se lembrava de tudo. Lembrava-se da língua de Hades, implacável e sacrílega, explorando lugares que Qin sempre considerou sua soberania privada. Lembrava-se das mãos grandes do Deus dos Mortos, que o seguraram com uma firmeza que beirava a violência, e de como o membro de Hades parecia querer reivindicar não apenas seu corpo, mas sua própria alma. O Rei do Submundo não apenas competira com os registros de Hermes; ele os incinerara na prática, provando que nenhum mortal, poeta ou general, possuía a resistência ou a inventividade de um deus possuído pelo ciúme nobre.

Qin olhou para o lado. O lugar de Hades na cama imensa estava vazio, mas o lençol ainda guardava um calor residual. O imperador tentou se sentar, apoiando-se nos cotovelos. Sua visão oscilou. Ele sentia-se oco, como se toda a sua energia vital tivesse sido drenada e substituída por uma vibração constante de prazer residual que agora se transformava em uma fadiga paralisante.

— O Grande Eu... precisa de água — declarou ele para o quarto vazio, tentando manter a dignidade mesmo estando nu e trêmulo sob os lençóis de seda.

Ele jogou as pernas para fora da cama. No momento em que seus pés tocaram o mármore frio, seus joelhos simplesmente se recusaram a travar. Qin desabou no chão com um baque surdo, soltando um grunhido de indignação.

— Isso é... inaceitável.

Ele tentou se levantar, usando a mesa de cabeceira como apoio, mas suas coxas tremiam tanto que ele parecia uma gazela recém-nascida tentando fugir de um predador. A dor era profunda, uma queimação nos músculos que indicava que ele fora levado muito além de seus limites físicos. Hades não o havia apenas possuído; ele o havia desabilitado.

Qin olhou para a porta dos aposentos, que parecia estar a quilômetros de distância. Ele sabia que, em algum lugar além daquele corredor, havia servos, vinho e, mais importante, o seu trono. Ele não suportava a ideia de ficar ali, vulnerável e "vencido" na cama onde fora dominado.

Com um suspiro de frustração, o imperador fez algo que nunca imaginou fazer desde que subira ao trono da China: ele começou a rastejar.

Usando as mãos e os antebraços, Qin arrastou-se pelo mármore. A camisa de linho negro de Hades, que ele encontrara jogada no chão e vestira às pressas, arrastava-se atrás dele. Cada movimento era uma agonia. A sinestesia toque-espelho, que normalmente o fazia sentir a dor dos outros, agora parecia voltada para si mesmo, amplificando cada pontada de exaustão.

— Se Hermes me visse agora... — ofegou ele, fazendo uma pausa para recuperar o fôlego — ...eu teria que matá-lo por puro dever cívico.

Ele alcançou a metade do caminho para a porta quando o som de passos rítmicos e pesados ecoou pelo corredor externo. A porta de ébano se abriu com uma suavidade que contrastava com a força da figura que nela apareceu.

Hades parou no limiar, segurando uma bandeja de prata com frutas e um cálice de néctar. Seus olhos, normalmente calmos e imponentes, arregalaram-se levemente ao ver o Imperador da China rastejando pelo chão como um náufrago em busca de terra firme.

— Qin? — A voz de Hades era uma mistura de surpresa e uma diversão que ele tentava, sem sucesso, esconder. — O que, em nome do Tártaro, você está fazendo no chão?

Qin parou de se mover, apoiando-se nos antebraços e olhando para cima com toda a arrogância que conseguiu reunir, apesar de estar literalmente aos pés do marido.

— O Grande Eu decidiu que o chão é o lugar mais estável do palácio no momento — retrucou Qin, embora sua respiração estivesse curta. — Suas... táticas de guerra de ontem deixaram minhas pernas em um estado de rebelião civil.

Hades colocou a bandeja sobre uma mesa lateral e caminhou até Qin. Ele se ajoelhou ao lado do imperador, a expressão suavizando-se para algo profundamente terno e possessivo.

— Eu avisei que seria implacável — disse Hades, passando a mão pelos cabelos bagunçados de Qin. — Você me desafiou a superar suas memórias mortais. Eu apenas levei o desafio a sério.

— Você levou a sério demais! — Qin tentou empurrar a mão de Hades, mas acabou apenas segurando o pulso do deus para se equilibrar. — Eu sou um imperador, Hades. Eu deveria estar desfilando pelo seu reino, não medindo o tamanho dos seus azulejos com o meu peito.

Hades soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Qin.

— Você é meu marido. E, no momento, você é um marido que claramente não consegue andar.

Sem aviso, Hades passou um braço por baixo dos joelhos de Qin e outro pelas suas costas, levantando-o do chão com a facilidade de quem carrega uma pluma. Qin soltou um pequeno grito de surpresa, agarrando-se ao pescoço do deus por instinto.

— Onde você me leva? — perguntou Qin, tentando recuperar a compostura enquanto seu rosto ficava perigosamente perto do de Hades.

— Para onde eu quiser — respondeu Hades, com um brilho autoritário nos olhos. — Hoje, você não é o imperador que dita ordens. Hoje, você é o meu fardo precioso.

Hades não o levou de volta para a cama. Em vez disso, ele saiu dos aposentos, carregando Qin pelos corredores suntuosos de Helheim. Os poucos servos e almas que passavam baixavam a cabeça imediatamente, não ousando olhar para o espetáculo do Rei do Submundo carregando o humano rebelde como se fosse um troféu de conquista.

— Hades, as pessoas estão olhando — sussurrou Qin, embora houvesse um sorriso convencido começando a aparecer em seus lábios.

— Deixe que olhem — declarou Hades. — Deixe que saibam que o homem que derrotou o Deus do Mar e desafiou os céus é o mesmo homem que eu carrego nos braços porque o deixei fraco de prazer.

Eles chegaram a um terraço vasto que dava para os jardins de asfódelos, onde uma mesa de marfim estava posta sob a luz eterna do submundo. Hades sentou-se em uma cadeira larga e, em vez de colocar Qin em outra, manteve-o em seu colo, acomodando o imperador entre suas pernas.

— Coma — ordenou Hades, pegando uma uva e levando-a aos lábios de Qin.

Qin hesitou por um segundo, o orgulho lutando contra a fome e o desejo de ser cuidado. O orgulho perdeu. Ele aceitou a fruta, sentindo o sabor doce explodir em sua boca.

— Você é muito mandão para alguém que deveria estar governando os mortos — murmurou Qin, recostando-se no peito firme de Hades.

— E você é muito dócil para alguém que unificou uma nação através do sangue e do ferro — rebateu Hades, depositando um beijo na curva do pescoço de Qin, onde uma marca arroxeada ainda era visível. — A dor está diminuindo?

— Um pouco — admitiu Qin. — Mas eu ainda sinto como se minhas articulações tivessem sido substituídas por areia. O que você fez comigo ontem... foi um sacrilégio.

— Foi uma consagração — corrigiu Hades. — Eu queria que você soubesse, sem sombra de dúvida, que nenhum daqueles seis amantes de sua juventude, nem todos os generais da China, poderiam te dar o que eu te dei. Eu queria que seu corpo esquecesse qualquer toque que não fosse o meu.

Qin olhou para Hades, vendo a possessividade divina brilhando naqueles olhos nobres. Ele percebeu que o ciúme de Hades não era pequeno ou mesquinho; era vasto como o próprio submundo. O deus não queria apenas o seu amor; ele queria a exclusividade de sua memória sensorial.

— Você conseguiu, seu bruto — disse Qin, puxando o rosto de Hades para um beijo lento e profundo. — Eu mal consigo lembrar meu próprio nome, quanto mais o de qualquer outra pessoa.

Hades sorriu contra os lábios de Qin, um sorriso de vitória absoluta.

— Ótimo. Porque eu pretendo passar o resto da eternidade garantindo que essa amnésia seja permanente.

Eles passaram a tarde ali, no terraço, onde o Rei cuidava do Imperador com uma dedicação que beirava a adoração. Hades alimentou Qin, massageou suas pernas doloridas com óleos perfumados que acalmavam a queimação muscular e, quando o sol negro de Helheim atingiu seu ápice, ele o carregou de volta, não para o quarto, mas para o trono de Helheim.

Hades sentou-se no trono de obsidiana e manteve Qin em seu colo, permitindo que o imperador descansasse a cabeça em seu ombro enquanto o deus ouvia os relatórios de seus juízes e ministros.

— Isso é... muito impróprio — comentou Qin, observando um juiz das almas tentar manter a compostura enquanto explicava um problema com o fluxo de mortos no campo de punição.

— Eu sou o Rei — disse Hades, segurando a mão de Qin e entrelaçando seus dedos. — Eu decido o que é impróprio. E, no momento, nada me parece mais correto do que ter o meu marido exatamente onde ele pertence.

Qin Shi Huang fechou os olhos, deixando-se levar pelo ritmo da voz de Hades e pelo calor de seu corpo. Ele ainda não conseguia andar, e suas pernas provavelmente levariam dias para se recuperar totalmente da fúria passional do deus. Mas, enquanto era carregado para onde quer que Hades quisesse, Qin percebeu que não havia trono no mundo dos vivos que se comparasse ao lugar que ele ocupava agora.

Ele era o Imperador, o Primeiro sob o Céu. Mas ali, nos braços do Rei de Helheim, ele era algo muito mais precioso: ele era o único homem que fizera um deus perder a razão, e o único que o deus jamais deixaria partir.

— Hades? — chamou Qin, quase dormindo.

— Sim, meu amor?

— Se você me carregar para o banho mais tarde... eu posso considerar perdoar você por ter me feito rastejar.

Hades soltou uma risada que ecoou pelo salão do trono, fazendo os juízes tremerem.

— Eu carregarei você para qualquer lugar, Qin. Hoje, amanhã e por toda a eternidade. Mas não se engane... assim que você conseguir andar novamente, eu farei questão de te deixar nesse estado outra vez.

Qin sorriu, um brilho de desafio retornando aos seus olhos.

— Eu não esperaria nada menos do meu Rei.

E assim, sob o olhar atento dos mortos e a proteção do Deus do Submundo, o Imperador descansou, sabendo que sua soberania estava segura, não em um império de terra e pedra, mas na posse absoluta e eterna do homem que o amava com a fúria de um deus.