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D73

O Trono de Cinzas e o Retorno da Dignidade

A noite em Mônaco não terminou com o silêncio do hotel. Enquanto Qin Shi Huang permanecia sob a guarda vigilante de uma Alvitr silenciosa e de olhos marejados, o restante da comitiva — deuses e humanos — partiu. Não havia estratégia de infiltração desta vez, nem sutilezas. O que se seguiu foi uma marcha de execução.

Eles encontraram Lorenzo em sua mansão fortificada, cercado por seguranças que caíram como trigo diante da foice. Quando Hades arrombou a porta do escritório principal, a aura de Helheim era tão densa que as luzes do local estouraram uma a uma. Lorenzo, que horas antes se sentia o mestre do mundo, viu-se diante de seres que faziam seus piores pesadelos parecerem contos de fadas.

A tortura não foi rápida. Zeus garantiu que o sistema nervoso do homem permanecesse em alerta máximo com pequenas descargas elétricas, enquanto Jack, o Estripador, com uma precisão cirúrgica e desprovida de qualquer piedade, demonstrava por que seu nome atravessou séculos. Hades, no entanto, foi quem deu o golpe final, mas não antes de Lorenzo experimentar cada grama de terror que tentara infligir a Qin. A morte do magnata foi lenta, agonizante e, acima de tudo, solitária.

Quando o grupo retornou ao hotel, o sol já estava alto. Eles estavam cobertos de sangue — parte dele divino, parte dele humano e vil. Hermes carregava a maleta com as relíquias celestiais recuperadas, mas ninguém comemorava. A vitória tinha um gosto de cinzas.

— Qin? — chamou Hades, entrando na suíte imperial com o coração acelerado.

O quarto estava vazio. A cama estava arrumada com uma precisão maníaca, e o cheiro de lavanda e produtos de limpeza era tão forte que chegava a ser sufocante.

— Ele não está aqui — disse Buda, perdendo o habitual tom relaxado. — Alvitr também sumiu.

O pânico começou a se espalhar. Beelzebub verificou as câmeras, enquanto Thor e Leônidas quase derrubaram as portas dos quartos adjacentes. Por dez minutos, o desespero de terem perdido o homem que juraram proteger consumiu a todos.

Foi então que o som do cartão magnético na porta principal ecoou pelo silêncio tenso.

A porta se abriu devagar. Qin Shi Huang entrou, seguido por uma Alvitr que carregava uma expressão de exaustão profunda. Qin estava diferente. Ele vestia roupas novas — um conjunto de linho claro, elegante e caro — e carregava várias bolsas de papel de uma feira de artesanato e moda local.

Ele parou abruptamente ao ver o grupo reunido na sala. Seus olhos percorreram as roupas manchadas de sangue de Hades, o martelo de Thor ainda sujo e a expressão sombria de todos.

— Oh... vocês voltaram — disse Qin. Sua voz era baixa, desprovida daquela ressonância imperial que costumava preencher qualquer recinto.

— Qin, onde você estava? — perguntou Hades, dando um passo à frente, mas parando ao notar que Qin recuou instintivamente.

— Eu... eu fui à feira — respondeu Qin, levantando levemente as bolsas. — Alvitr disse que o ar fresco faria bem. Eu comprei algumas coisas. Seda, incenso... coisas bonitas.

Ele tentava sorrir, mas o gesto não alcançava seus olhos. Era uma máscara de normalidade colocada sobre um rosto que ainda carregava as sombras da noite anterior. Ele estava tentando desesperadamente "comprar" sua dignidade de volta, cercando-se de luxo para abafar a sensação de sujeira.

— Nós cuidamos dele, Qin — disse Leônidas, sua voz rouca. — Ele nunca mais vai tocar em ninguém.

Qin estremeceu. O nome de Lorenzo não precisava ser dito para que a memória voltasse como uma chicotada. Ele olhou para as próprias mãos, que começaram a tremer levemente sob o peso das bolsas.

— Entendo. Obrigado — disse ele, com uma polidez que doía mais do que qualquer grito. — Com licença. Eu estou um pouco cansado. Vou para o meu quarto organizar essas compras.

Ele passou por eles como um fantasma, evitando qualquer contato visual. Assim que a porta de seu quarto se fechou, o grupo permaneceu em silêncio. Eles não precisavam de audição divina para ouvir, segundos depois, o som abafado de algo caindo no chão e o choro baixinho, contido, de alguém que tentava desesperadamente não ser ouvido.

— Ele está tentando fingir que nada aconteceu — sussurrou Adão, fechando os olhos com dor. — Ele está tentando ser o Imperador de novo, mas não consegue.

— Deem tempo a ele — disse Jack, o Estripador, limpando uma mancha de sangue de sua bochecha. — A alma dele está tentando se costurar.

As horas passaram de forma arrastada. O grupo se limpou, guardou as armas e as relíquias. Ninguém saiu do hotel. Eles permaneceram na sala comum, como guardas silenciosos de um templo profanado.

Por volta das sete da noite, a porta do quarto de Qin se abriu novamente. Todos se viraram simultaneamente.

Qin estava usando um pijama de seda azul-marinho, os cabelos presos em um coque frouxo. Ele parecia mais calmo, embora a palidez ainda fosse evidente. Ele carregava um cobertor pesado nos braços.

— Está um pouco frio aqui fora, não acham? — perguntou ele, a voz um pouco mais firme.

— Está sim, Qin — respondeu Hermes, captando o sinal imediatamente.

— Eu vi que há uma televisão grande aqui — continuou o Imperador, apontando para a tela de cinema da suíte. — E eu comprei alguns doces chineses na feira. Seria um desperdício se ninguém os comesse.

Buda foi o primeiro a se levantar, com um sorriso genuíno.

— Finalmente! Eu estava morrendo de fome por algo que não fosse sangue e poeira. O que vamos assistir?

— Eu não sei — admitiu Qin, sentando-se no sofá grande e em forma de U. — Escolham algo... leve.

O que se seguiu foi uma das cenas mais surreais da história do Ragnarok. Deuses supremos e os maiores heróis da humanidade começaram a se acomodar. Thor e Jörð sentaram-se no chão sobre tapetes felpudos; Zeus e Odin ocuparam as poltronas laterais; Sasaki, Okita e Kojiro dividiram o outro lado do sofá.

Hades aproximou-se devagar. Qin olhou para ele e, por um breve momento, a conexão entre os dois brilhou. O Rei do Submundo sentou-se ao lado de Qin, mantendo uma distância que oferecia conforto sem ser invasiva.

— Você está bem? — sussurrou Hades, apenas para os ouvidos de Qin.

— Eu serei — respondeu Qin, cobrindo as pernas com o cobertor. — O Rei não cai para sempre, Hades. Ele apenas se ajoelha para pegar impulso.

Tesla conseguiu conectar um serviço de streaming e, após uma discussão acalorada entre Loki (que queria terror) e Hércules (que queria animação), decidiram por uma comédia clássica de Hollywood, algo bobo e colorido que não exigia pensamento profundo.

À medida que o filme passava, o clima na sala começava a mudar. Raiden e Shiva começaram a comentar as cenas de luta exageradas com risadas altas. Nikola Tesla tentava explicar cientificamente por que as piadas físicas eram impossíveis, sendo constantemente calado por um Buda que jogava pipoca nele.

Qin começou a relaxar. A presença física de todos ali, o calor humano e divino, as risadas genuínas e o som ambiente do filme começaram a empurrar as memórias de Lorenzo para um canto escuro e menos acessível de sua mente.

Em certo momento, Qin sentiu sua cabeça pesar. Sem perceber, ele começou a pender para o lado. Hades, percebendo, não se moveu, permitindo que o Imperador apoiasse a cabeça em seu ombro. Qin soltou um suspiro longo, o primeiro suspiro de paz real em vinte e quatro horas.

— Obrigado — sussurrou Qin, quase pegando no sono.

— Não agradeça — respondeu Hades, sua voz como um veludo protetor. — Nós somos o seu povo agora, Qin. E um Rei nunca está sozinho quando seu povo está presente.

Do outro lado da sala, Jack observava a cena. Ele viu que a cor da alma de Qin, que antes era um cinza turvo e estilhaçado, começava a ganhar pequenos reflexos de dourado novamente. Não estava curada, longe disso, mas as rachaduras estavam sendo preenchidas por algo novo.

A noite avançou. Alguns dormiram ali mesmo, no tapete ou nos sofás. O filme terminou e outro começou logo em seguida, apenas para manter o som de fundo. Naquela suíte de luxo em Mônaco, a hierarquia entre deuses e homens desapareceu completamente. Eles eram apenas um grupo de sobreviventes, unidos por uma dor compartilhada e por uma lealdade que transcendia qualquer torneio.

Qin Shi Huang, o homem que unificou tudo, finalmente fechou os olhos e dormiu um sono sem sonhos, protegido pelo abraço do Submundo e pelo respeito da Humanidade. O abuso não seria esquecido, mas ali, cercado por seus iguais, ele sabia que Lorenzo nunca tinha vencido de verdade. Porque um trono não é feito de ouro ou de poder, mas das pessoas que estão dispostas a lutar ao seu lado quando a escuridão se torna profunda demais.