D73
O Despertar das Sombras e o Trono Compartilhado
A madrugada em Mônaco tinha um silêncio artificial, aquele tipo de quietude que precede uma tempestade ou o estalar de um galho seco na floresta. No interior da suíte real, o ar condicionado trabalhava em um zumbido constante, mas para Qin Shi Huang, o ambiente parecia sufocante.
Ele abriu os olhos subitamente, o peito subindo e descendo em uma respiração curta. O pijama de seda, que horas antes parecia um abraço reconfortante, agora parecia pinicar sua pele. Sua sinestesia estava em alerta máximo; ele sentia vibrações estranhas, um gosto metálico de perigo que flutuava no ar pesado do quarto.
Qin levantou-se devagar, evitando olhar para o lado onde Hades dormia em uma poltrona próxima, mantendo uma vigília silenciosa mesmo em repouso. O Imperador precisava de água. Sua garganta estava seca, como se tivesse engolido as cinzas de seu próprio orgulho.
Caminhando com pés descalços sobre o tapete frio, ele atravessou o salão onde vultos de deuses e humanos repousavam em posições variadas. Buda roncava levemente com um pirulito ainda na mão; Sasaki Kojiro abraçava sua espada mesmo dormindo. Qin chegou à cozinha gourmet da suíte, as luzes automáticas de LED acendendo-se em um tom suave.
Ele pegou um copo de cristal, enchendo-o com água gelada da geladeira embutida. O som da água caindo parecia um trovão em seus ouvidos sensíveis. Qin levou o copo aos lábios, fechando os olhos por um segundo, tentando focar apenas no frescor descendo por sua garganta.
Foi então que ele sentiu.
Uma mudança na pressão do ar. Um deslocamento súbito atrás de si.
Qin não precisava ver. Ele sentiu a intenção assassina — uma cor roxa e ácida que explodiu em sua percepção sensorial. Ele girou o corpo no exato momento em que uma lâmina de cerâmica, projetada para passar por detectores de metal, cortou o ar onde seu pescoço estava um segundo atrás.
— Você devia ter morrido com o patrão, seu lixo chinês! — rosnou o homem. Era um dos capangas de elite de Lorenzo, um sobrevivente que conseguira rastrear o grupo e se infiltrar no hotel aproveitando a troca de turno da segurança.
Em um reflexo puramente instintivo, Qin não recuou. Ele jogou o conteúdo gelado do copo diretamente nos olhos do agressor.
— Hmpf! — O homem soltou um ganido de surpresa, passando a mão no rosto para limpar a água.
Qin não esperou. Ele sabia que, naquele estado debilitado e sem sua armadura, não podia sustentar uma luta direta. Ele correu em direção à sala de estar, seus pulmões ardendo.
— ACORDEM! AGORA! — gritou Qin, sua voz recuperando, pelo puro terror, a potência de um comando imperial.
O caos explodiu instantaneamente. Hades foi o primeiro a se levantar, seus olhos abrindo-se em um brilho púrpura letal. Mas o assassino foi rápido. Ele saltou sobre Qin antes que o Imperador pudesse alcançar o círculo de proteção dos outros.
Uma mão pesada e áspera agarrou os cabelos de Qin por trás, puxando sua cabeça para trás com uma violência que fez o pescoço do chinês estalar.
— Peguei você! — o homem sibilou, encostando a faca na garganta de Qin.
A sala congelou. Zeus já estava com faíscas dançando nos dedos; Thor segurava o cabo do Mjölnir com uma força que rachava o chão; Hades estava de pé, sua aura de morte emanando de forma tão violenta que as plantas ao redor começaram a murchar instantaneamente.
— Solte-o — a voz de Hades era um sussurro vindo das profundezas do Tártaro. — Agora. E eu prometo que sua morte será rápida.
O assassino riu, uma risada histérica de quem sabe que já está morto.
— Eu vou levar o prêmio do Lorenzo comigo!
Qin Shi Huang, no entanto, não era uma vítima passiva. A dor no couro cabeludo e o toque daquele homem acionaram algo profundo em sua memória — a dor da noite anterior transformou-se em uma fúria fria. Ele não imploraria. Nunca mais.
Com um movimento fluido, Qin jogou o peso do corpo para trás, desequilibrando o agressor, e desferiu uma cotovelada curta e brutal para trás, atingindo em cheio o nariz do homem. O som do osso quebrando foi nítido.
— Aaargh! — O homem soltou o cabelo de Qin, levando as mãos ao rosto ensanguentado.
Qin aproveitou a brecha e, em um salto ágil, correu para trás de Hades. Ele agarrou a capa do deus, escondendo-se parcialmente atrás da figura imponente do Rei do Submundo. Ele tremia, mas seus olhos brilhavam com um desafio feroz.
O que se seguiu não foi uma luta; foi uma aniquilação. Beelzebub usou uma vibração mínima para desarmar o homem, e antes que o assassino pudesse cair no chão, Leônidas e Raiden já o haviam imobilizado com uma força que provavelmente quebrou vários de seus membros.
— Tirem essa imundície daqui — ordenou Zeus, sua voz trovejando. — Hermes, chame a "limpeza". Não quero que reste nem o DNA desse verme neste hotel.
Enquanto os deuses e humanos retiravam o intruso da suíte com uma eficiência brutal, o silêncio retornou, mas desta vez carregado de uma adrenalina residual.
Qin continuava segurando a veste de Hades. Ele não soltava. O Rei do Submundo virou-se devagar, olhando para o homem que, apesar de ter acabado de se defender com bravura, ainda parecia prestes a desmoronar.
— Você está ferido? — perguntou Hades, sua voz suavizando-se apenas para Qin.
— O meu cabelo... ele puxou meu cabelo — sussurrou Qin, levando a mão ao couro cabeludo dolorido. — O cheiro... era o mesmo cheiro daquele lugar.
Hades não disse nada. Ele apenas colocou uma mão firme sobre o ombro de Qin e o puxou para perto.
— Acabou. Realmente acabou agora. Vamos embora deste lugar. Mônaco não tem mais nada a nos oferecer.
A decisão foi unânime. Ninguém queria passar mais um segundo naquele país. Em menos de uma hora, as malas estavam prontas e um jato particular providenciado por Zeus aguardava no aeroporto.
Durante todo o trajeto, Qin não se afastou de Hades por mais de trinta centímetros. No elevador, ele ficou colado ao braço do deus. No carro para o aeroporto, sentou-se ao lado dele, quase fundindo sua sombra à de Hades. O Imperador, que sempre exigia ser o centro das atenções, agora parecia buscar o anonimato sob a proteção da divindade mais séria do panteão.
Já dentro do avião, rumo à Valhalla, o ambiente relaxou um pouco. O jato era luxuoso, com poltronas que pareciam tronos e um serviço de bordo impecável.
Qin estava sentado na poltrona ao lado de Hades, enrolado em um cobertor de cashmere, observando as nuvens lá fora. Hades, por sua vez, mantinha um livro aberto no colo, mas seus olhos raramente saíam de Qin. Ele agia como um escudo vivo, atento a qualquer movimento brusco ou som alto que pudesse assustar o Imperador.
— Beba isso — disse Hades, entregando uma xícara de chá fumegante. — Vai ajudar com o choque.
Qin pegou a xícara, suas mãos ainda com um leve tremor.
— Eu agi como um rei? — perguntou Qin de repente, sem olhar para Hades. — Na cozinha. Eu reagi. Eu não fiquei parado.
Hades fechou o livro, dedicando toda a sua atenção ao homem ao seu lado.
— Você agiu como o maior dos reis, Qin Shi Huang. Você enfrentou o medo quando ele tentou te agarrar pelas costas. Não há nada mais digno do que isso.
Qin deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso real e sem sombras em muito tempo. Ele encostou a cabeça no encosto da poltrona e, lentamente, deixou-a pender para o lado, repousando no ombro de Hades.
Do outro lado do corredor, a "equipe" observava a cena. A tensão da madrugada havia dado lugar ao espírito brincalhão de sempre, embora temperado com um novo respeito.
— Olha só aquilo — cochichou Buda para Sasaki, apontando com o polegar para os dois. — O Rei do Submundo virou guarda-costas particular. Quem diria que o Hades tinha um lado tão... protetor?
— Protetor? — riu Okita Soji, limpando sua katana. — Ele parece uma galinha protegendo o pintinho. Se alguém chegar a um metro do Qin agora, o Hades provavelmente corta a cabeça antes da pessoa dizer "bom dia".
— É um casal interessante — comentou Jack, o Estripador, bebericando seu chá. — As cores deles estão se misturando de uma forma muito harmoniosa. O roxo profundo de Lorde Hades está envolvendo o dourado ferido de Sir Qin como uma armadura. É poeticamente belo.
— Ei, Hades! — gritou Nikola Tesla da parte de trás do avião. — A ciência gostaria de saber: essa sua nova função de "escudo humano" é permanente ou apenas um contrato temporário?
Hades lançou um olhar tão gélido para Tesla que o cientista quase derrubou seu tablet.
— Tesla, se você não quer que eu teste a resistência das suas invenções com o meu bidente, sugiro que mantenha o silêncio — respondeu Hades, sua voz calma, mas carregada de uma ameaça implícita.
— Uuuuh, ele está bravo! — provocou Shiva, rindo alto enquanto jogava cartas com Raiden. — Cuidado, pessoal, o Grande Rei Hades está em modo "não toque no meu humano"!
As piadas e zombarias continuaram, mas curiosamente, ninguém ousava zoar Qin. Havia um pacto silencioso entre todos eles — humanos e deuses. Eles viram o que Qin passou, viram a força que ele teve para voltar e entregar aquele pen-drive, e viram o pavor em seus olhos naquela madrugada. Qin Shi Huang era intocável. Ele era o irmão, o amigo, o companheiro de armas que todos queriam proteger, mas respeitavam demais para ridicularizar.
Hades, no entanto, era o alvo perfeito. O deus estóico, sério e solitário estava agora servindo de travesseiro para um imperador humano e distribuindo olhares mortais para qualquer um que fizesse barulho demais perto do ouvido de Qin.
— Eles não param, não é? — murmurou Qin, sem abrir os olhos, sentindo a vibração da risada de Hades no ombro.
— Deixe-os — respondeu Hades, sua mão subindo instintivamente para afastar uma mecha de cabelo do rosto de Qin. — Eles estão apenas aliviados por você estar bem. E eles sabem que eu sou o único com paciência suficiente para aguentar sua arrogância imperial.
— Minha arrogância é um tesouro nacional — retrucou Qin, bocejando. — Você devia se sentir honrado.
— Oh, eu me sinto — ironizou Hades, mas havia uma doçura em seu tom que desmentia o sarcasmo.
Quando o jato finalmente pousou nas terras de Valhalla, a recepção foi calorosa. Brunhilde e as outras Valquírias aguardavam na pista. Qin desceu as escadas do avião ainda envolto no cobertor, caminhando ao lado de Hades. Ele parecia mais forte, o brilho em seus olhos começando a retornar à medida que sentia o ar familiar de casa.
— Bem-vindos de volta — disse Brunhilde, seus olhos fixos em Qin com uma preocupação que ela tentava esconder. — A missão foi um sucesso absoluto. As relíquias estão seguras.
— E o Imperador também — acrescentou Hades, colocando-se ligeiramente à frente de Qin enquanto caminhavam para o palácio.
Nos dias que se seguiram, a rotina em Valhalla mudou. Qin Shi Huang, que antes passava a maior parte do tempo em seus próprios aposentos ou desafiando deuses aleatórios, agora era visto frequentemente nos jardins de Helheim ou na biblioteca pessoal de Hades. Eles se tornaram uma visão comum: o Imperador da China, sempre exuberante e falante, e o Rei do Submundo, ouvindo com uma paciência infinita.
Hades levava sua função de protetor a sério. Se Qin tinha um pesadelo e sua sinestesia o fazia acordar sentindo dores fantasmas, Hades era o primeiro a aparecer. Se Qin se sentia sobrecarregado pelas memórias do cassino, Hades o levava para os campos elíseos, onde o silêncio e a beleza das almas em paz ajudavam a acalmar o coração do rei humano.
Certa tarde, enquanto estavam sentados em uma varanda com vista para o cosmos, Qin olhou para Hades.
— Eles ainda zoam você, sabe? — disse Qin, apontando para onde Buda e Loki estavam tentando pescar no lago de lótus lá embaixo. — Dizem que você amoleceu. Que o Rei dos Mortos agora é o Rei dos Mimos.
Hades deu um gole em seu vinho, olhando para o horizonte com uma calma absoluta.
— Deixe que digam o que quiserem. Eles não entendem a responsabilidade de cuidar de algo tão precioso e... barulhento... quanto você.
Qin riu, uma risada clara e vibrante que ecoou pelo palácio.
— Barulhento? Eu sou a harmonia do mundo!
— Você é um caos necessário — corrigiu Hades, estendendo a mão.
Qin pegou a mão de Hades, entrelaçando seus dedos. Não havia mais tremores. Não havia mais o gosto de medo.
— Obrigado, Hades. Por não ter me deixado lá atrás. E por não me deixar agora.
— Onde você se senta, torna-se o seu trono — disse Hades, citando as palavras de Qin. — E eu decidi que, de agora em diante, o meu trono será sempre ao lado do seu.
E assim, entre as piadas dos deuses e a lealdade dos humanos, o Imperador e o Rei do Submundo forjaram um novo tipo de império. Um império construído não sobre conquistas ou sangue, mas sobre o cuidado mútuo e a promessa de que, não importa quão profunda fosse a escuridão, eles sempre teriam a luz um do outro para encontrar o caminho de volta para casa.