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D73

O Eco do Silêncio Quebrado

A luz da manhã em Valhalla costumava ser um bálsamo, um brilho dourado que prometia eternidade e glória. Mas, para Qin Shi Huang, cada raio de sol que atravessava as janelas de seu palácio parecia uma agulha cutucando uma ferida que teimava em não fechar. Já haviam se passado semanas desde o incidente em Mônaco, e o Imperador da China fazia o seu melhor para manter a fachada. Ele caminhava com a coluna ereta, usava suas vendas ornamentadas e distribuía sorrisos arrogantes como se fossem moedas de ouro.

No entanto, o toque de qualquer pessoa ainda o fazia tensionar. O cheiro de charutos caros o fazia perder o fôlego. E, acima de tudo, o silêncio da noite era seu maior inimigo.

Naquela manhã, uma reunião de emergência havia sido convocada no Salão das Eras. Humanos e deuses estavam presentes para discutir a segurança das fronteiras celestiais após a queda da rede de Lorenzo. O clima era de cooperação, algo raro entre as duas facções, mas o trauma compartilhado na missão anterior havia criado um vínculo tácito.

Qin estava sentado em sua posição habitual, um pouco afastado dos outros, com Hades posicionado estrategicamente a poucos metros de distância. O Rei do Submundo não dizia nada, mas seus olhos heterocromáticos escaneavam a sala constantemente, agindo como o guardião silencioso que se tornara.

— A logística de transporte foi neutralizada — explicava Hermes, apontando para o grande telão holográfico no centro do salão. — Mas ainda precisamos identificar quem eram os compradores finais. Recebemos um arquivo criptografado esta manhã que contém a lista completa. Vou reproduzir os dados agora.

O salão mergulhou na penumbra para que a projeção ficasse clara. Mas, em vez de planilhas financeiras ou nomes de divindades corruptas, o que surgiu na tela fez o coração de Qin parar de bater.

Não era uma lista. Era um vídeo.

A imagem estava nítida demais. O cenário era o escritório privado de Lorenzo. Qin apareceu na tela, mas não era o Imperador. Ele estava no chão, encolhido, a pele pálida contrastando com os hematomas que já começavam a surgir em seus pulsos. A câmera captava cada detalhe de sua vulnerabilidade.

— P-por favor... para... — a voz de Qin no vídeo saiu em um soluço arrastado, um som que ninguém naquele salão jamais associaria ao homem que enfrentara Hades na arena. — Eu imploro... chega...

No vídeo, Lorenzo caminhou até ele com uma calma predatória. Sem um pingo de hesitação, o magnata desferiu um tapa violento no rosto de Qin. O som do impacto ecoou pelas colunas de mármore do Salão das Eras como um tiro de canhão. A cabeça de Qin virou para o lado com o golpe, e ele soltou um grito abafado, um som de puro pânico e quebra emocional.

— Cale a boca! — rosnou o Lorenzo da tela. — Você não é nada. Você é um brinquedo que eu comprei.

O vídeo continuou. Qin começou a chorar de forma convulsiva na gravação, implorando mais e mais, a voz falhando enquanto ele tentava se arrastar para longe, apenas para ser puxado de volta pelos cabelos. Era a desconstrução total de um ser humano, filmada para o prazer de um sádico.

O salão caiu em um choque paralisante. Zeus, que sempre tinha um comentário sarcástico, estava com a boca entreaberta, a mão tremendo sobre o braço da poltrona. Buda deixou o pirulito cair no chão, seus olhos arregalados em uma fúria que superava sua iluminação.

Hades foi o primeiro a reagir. Ele não olhou para a tela. Ele olhou para o lugar onde Qin estava sentado.

O lugar estava vazio.

Qin Shi Huang não gritou. Ele não protestou. No momento em que o som do tapa ecoou, ele simplesmente desapareceu. Sua sinestesia havia transformado o som e a imagem em uma dor física insuportável, como se Lorenzo estivesse ali, no salão, batendo nele novamente diante de todos os seus pares.

— Desligue isso! — rugiu Hades, sua voz fazendo as paredes do palácio tremerem. — AGORA!

Hermes, em pânico, desconectou o sistema, mas o estrago estava feito. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma culpa coletiva e de um horror indescritível.

— Onde ele está? — perguntou Adão, sua voz falhando pela primeira vez desde que pisara em Valhalla. — Onde está o meu filho?

Hades não respondeu. Ele já estava correndo.

O Rei do Submundo atravessou os corredores com uma velocidade divina, seguindo o rastro da aura de Qin, que agora brilhava em um tom de cinza desesperado, como uma estrela moribunda. Ele chegou aos aposentos do Imperador e encontrou a porta trancada por dentro. Não apenas trancada, mas bloqueada por uma pressão de energia que Qin exalava em seu pânico.

Do lado de dentro, o som era lancinante. Qin estava chorando. Não era um choro contido de um guerreiro ferido; eram gritos de agonia, sons guturais de alguém que sentia sua alma ser rasgada ao meio.

— Qin! — Hades bateu na porta, a voz firme, mas carregada de urgência. — Qin, sou eu. Abra a porta!

— VAI EMBORA! — o grito veio de dentro, seguido pelo som de algo de porcelana quebrando contra a madeira. — NÃO OLHE PARA MIM! NÃO OLHE!

Hades não hesitou. Ele invocou o poder do Submundo, e as dobradiças da porta cederam sob a pressão de sua vontade. Ele entrou no quarto e o que viu o fez sentir uma dor que nem mil batalhas poderiam causar.

Qin estava sentado no meio da cama, envolto em seus cobertores de seda, mas ele agia como se estivesse tentando se enterrar neles. Ele soluçava tão forte que seu corpo inteiro tremia, as mãos agarradas aos próprios cabelos, os olhos vendados escondidos contra os joelhos.

— Qin... — Hades aproximou-se devagar, como se estivesse lidando com uma criatura ferida.

— Eles viram... todos eles viram... — Qin soluçava, a voz rouca de tanto gritar. — Eu implorei, Hades... eu implorei para aquele verme... eu não sou um rei... eu não sou nada...

Ele começou a hiperventilar, o pânico tomando conta de seus pulmões. Ele tentava desesperadamente parar de chorar, tentando recuperar a máscara de imperador, mas o soluço seguinte vinha com mais força, rasgando sua garganta.

Hades sentou-se na beira da cama e, com uma delicadeza que ninguém acreditaria que o Senhor dos Mortos possuía, envolveu Qin em seus braços. Qin tentou lutar no início, tentando se afastar, mas Hades o segurou com firmeza, puxando-o para o peito.

— Shhh... — sussurrou Hades, encostando o rosto no topo da cabeça de Qin. — Pare de tentar lutar contra isso.

— Eu preciso... eu preciso parar... eu sou o Imperador... — Qin gaguejava, o peito subindo e descendo em espasmos.

— Não — disse Hades, a voz profunda e reconfortante. — Agora, você não precisa ser o Imperador. Você não precisa governar nada. Você pode chorar, Qin. Deixe sair. Tudo.

Essas palavras foram o gatilho final. Qin Shi Huang, o homem que unificou a China, o homem que nunca se curvou, desabou completamente. Ele agarrou as vestes de Hades e começou a chorar com uma intensidade que parecia não ter fim. Eram séculos de orgulho, semanas de trauma e a humilhação daquele vídeo, tudo saindo em uma torrente de lágrimas e gritos abafados contra o ombro do deus.

Nesse momento, o restante do grupo começou a chegar à porta do quarto. Adão, Sasaki, Jack, Raiden, Buda e até mesmo os deuses como Thor e Shiva pararam no limiar. Ao verem a cena — o grande Qin Shi Huang reduzido a um estado de fragilidade tão absoluta — o pânico tomou conta deles de uma forma diferente. Eles queriam ajudar, queriam consertar, mas a dor de Qin era vasta demais.

— O que fazemos? — sussurrou Okita, os olhos cheios de lágrimas.

— Nós cuidamos dele — respondeu Adão, entrando no quarto silenciosamente, seguido pelos outros.

Eles não tentaram forçar Qin a falar. Em vez disso, formaram um círculo de proteção silenciosa. Sasaki e Raiden começaram a organizar o quarto, retirando os cacos de porcelana quebrada. Buda sentou-se no chão, perto da cama, emanando uma aura de paz que tentava filtrar o ambiente.

Jack, o Estripador, aproximou-se com uma bandeja que trazia um bule de porcelana e uma xícara fumegante. O cheiro era de ervas calmantes, lavanda e algo doce, uma mistura que ele mesmo preparara.

— Sir Qin — disse Jack, sua voz suave e polida, desprovida de qualquer malícia. — Por favor. O chá ajudará a acalmar os nervos.

Qin continuava a soluçar, mas o choro agora era menos violento, transformando-se em um cansaço profundo. Ele levantou o rosto do peito de Hades, a venda estava úmida e torta. Hades a removeu com cuidado, revelando os olhos de Qin, que estavam vermelhos e desprovidos de seu brilho habitual.

Hades pegou a xícara de Jack e a levou aos lábios de Qin.

— Beba. É um presente do Jack.

Qin tomou um gole pequeno. O calor do líquido e as propriedades das ervas começaram a agir quase instantaneamente. Ele sentiu a tensão em seus ombros diminuir um pouco. Ele olhou ao redor e viu todos eles — deuses que ele desafiara, humanos que ele liderara — todos ali, não com olhares de desprezo ou julgamento, mas com uma compaixão que ele nunca pensou merecer.

— Vocês... vocês viram — sussurrou Qin, a voz ainda trêmula.

— Nós vimos um homem enfrentando o inferno para nos dar a vitória — disse Leônidas, cruzando os braços, sua expressão séria mas respeitosa. — Não há vergonha em cair quando se carrega o peso que você carregou.

— Aquele vídeo não define quem você é, Qin — disse Sasaki Kojiro, com um sorriso triste. — Ele define a monstruosidade daquele homem. Você continua sendo o nosso Rei.

Qin olhou para Hades, que ainda o segurava.

— Eu me senti tão pequeno — confessou Qin, as lágrimas voltando a escorrer, mas desta vez silenciosas.

— Você nunca será pequeno aos nossos olhos — afirmou Hades, limpando o rosto de Qin com o polegar. — Você é o começo de tudo. E nós somos o seu final, a sua retaguarda.

Jack entregou outra xícara, e Qin a aceitou, segurando-a com as duas mãos para sentir o calor. O pânico estava recuando, deixando em seu lugar um vazio exausto, mas seguro.

O grupo permaneceu ali por horas. Eles não saíram do lado dele. Raiden contou histórias engraçadas de suas lutas de sumô para tentar arrancar um sorriso de Qin; Adão sentou-se na beira da cama e segurou a mão livre de Qin, transmitindo a força de um pai. Buda, em um gesto raro, dividiu seus doces mais caros com o Imperador.

Lentamente, o ambiente pesado foi se dissipando. O trauma ainda estava lá, e o vídeo seria uma cicatriz eterna, mas Qin Shi Huang percebeu que não precisava mais esconder suas feridas sob camadas de seda e arrogância.

— Eu acho... acho que vou ficar bem — disse Qin, depois de muito tempo, sua voz finalmente estável. — Mas não me deixem sozinho hoje.

— Você nunca mais estará sozinho, Qin — prometeu Hades, beijando a testa do Imperador.

Naquela noite, o Salão das Eras permaneceu vazio, mas o quarto do Imperador estava cheio. Cheio de deuses e humanos que entenderam que a verdadeira força não reside em nunca cair, mas em ter um trono feito de amigos que te seguram quando o mundo tenta te derrubar. Qin Shi Huang adormeceu, exausto e ainda ferido, mas cercado pelo tipo de poder que nenhum Lorenzo ou arma celestial poderia jamais destruir: o poder de ser amado em sua forma mais humana e quebrada.