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D73

O Silêncio sob as Lótus de Papel

Os meses que se seguiram à tempestade em Mônaco trouxeram uma paz frágil, mas genuína, aos corredores de Valhalla. Qin Shi Huang, com a resiliência que só um homem que unificou nações sob o fio da espada poderia possuir, havia reconstruído seu império interior. Ele voltara a caminhar com passos firmes, a rir com a arrogância vibrante de quem se considera o centro do universo e a desafiar os deuses com seu brilho característico. As feridas, embora ainda presentes como cicatrizes invisíveis sob a pele, pareciam finalmente ter parado de sangrar.

Hades, por sua vez, mantinha-se como uma sombra protetora, mas discreta. A relação entre o Rei do Submundo e o Imperador dos Homens havia evoluído para algo que transcendia o respeito mútuo; era uma aliança de almas que entendiam o peso da coroa e a dor do sacrifício.

Naquela tarde, o Conselho dos Deuses e os Representantes da Humanidade estavam reunidos para uma sessão de extrema importância. Tratava-se da assinatura do Tratado de Coexistência Pós-Ragnarok, um documento que selaria a paz definitiva. A mesa circular de ébano estava cercada pelas figuras mais poderosas da existência. Zeus presidia, enquanto Qin, sentado em seu trono improvisado, brincava com uma taça de néctar, mantendo sua postura de superioridade absoluta.

Tudo corria dentro da normalidade burocrática até que a discussão se voltou para a segurança de itens celestiais e o mercado negro que Lorenzo havia liderado. Um ministro menor do panteão nórdico, um deus de estirpe baixa conhecido por sua língua ferina e falta de tato, bufou diante das exigências de Qin sobre a fiscalização das rotas.

— Ora, Grande Imperador — disse o ministro, com um sorriso de escárnio que não alcançava a inteligência —, por que tanto rigor? Afinal, da última vez que você lidou com contrabando, parece que gostou tanto do tratamento VIP que até esqueceu de voltar para casa no horário.

O silêncio que se seguiu foi absoluto e imediato. O som de uma pena caindo no chão teria parecido uma explosão.

— O que você disse? — A voz de Hades saiu tão baixa e gélida que o ar ao redor da mesa começou a cristalizar.

O ministro, ignorando o perigo mortal que emanava do Rei de Helheim, continuou com uma risada nervosa.

— Ah, vamos lá! Todos vimos os vídeos. Foi uma performance e tanto. Para alguém que se diz rei, você se dobrou muito fácil para aquele humano, não foi? Talvez a "hospitalidade" de Lorenzo tenha sido o ponto alto da sua estadia em Mônaco.

Qin Shi Huang não respondeu. Ele não se levantou para desafiar o deus. Ele não convocou sua armadura. O copo de néctar escorregou de seus dedos, batendo na mesa sem quebrar, mas derramando o líquido dourado como um presságio.

Por meses, Qin não chorava. Ele havia trancado aquela dor em um cofre de ferro dentro de seu peito. Mas a crueldade gratuita da piada, proferida naquele ambiente formal, diante de todos os seus aliados e inimigos, agiu como uma chave mestra.

Lentamente, Qin curvou os ombros. Ele encostou a testa na superfície fria da mesa de ébano e, para o horror absoluto de todos os presentes, soltou um soluço. Não era um som de imperador. Era o som de uma criança quebrada.

— Qin... — Adão começou, levantando-se com o rosto transfigurado pela dor paternal.

O Imperador começou a chorar. Eram soluços violentos que sacudiam seu corpo inteiro, um choro desesperado que ele tentava abafar contra a madeira. O som era lancinante, preenchendo o Salão das Eras com uma agonia que nenhum deus ou humano ali presente conseguia suportar.

A fúria que explodiu na sala foi palpável. Hades levantou-se tão rápido que sua cadeira voou contra a parede, reduzindo-se a pó. Seu bidente materializou-se em sua mão, a ponta emitindo uma energia arroxeada que prometia o esquecimento eterno.

— Você... — rosnou Hades, os olhos brilhando com o ódio mais puro que o universo já vira.

O ministro, percebendo finalmente o erro fatal, empalideceu a ponto de parecer um cadáver.

— Eu... eu não quis dizer... foi apenas uma brincadeira! — gaguejou ele, recuando enquanto Zeus e Thor também se levantavam, as mãos fechadas em punhos que poderiam esmagar montanhas.

— Uma brincadeira? — A voz de Buda era desprovida de qualquer paz. — Você acabou de zombar do sofrimento de um dos nossos.

— Por favor! — O ministro caiu de joelhos quando o bidente de Hades parou a milímetros de sua garganta. — Eu peço desculpas! Grande Imperador, perdoe minha língua tola!

Qin levantou a cabeça. Seu rosto estava banhado em lágrimas, a venda já encharcada e pendendo para o lado. Ele soluçava tão forte que mal conseguia respirar. Ele olhou para o ministro com olhos que não viam o presente, mas sim as sombras daquela suíte em Mônaco.

— Eu... eu aceito... — Qin tentou falar, mas a voz falhou, quebrada por um soluço que o fez se encolher. — Eu... sinto muito... eu preciso...

Sem conseguir terminar a frase, Qin levantou-se cambaleante. Ele não olhou para ninguém. Ele tropeçou em seus próprios pés, pedindo desculpas sussurradas e desconexas, e saiu correndo do salão, o som de seu choro ecoando pelos corredores como um lamento fúnebre.

Hades fez menção de segui-lo, mas Zeus colocou a mão em seu ombro.

— Deixe-o respirar por um momento, irmão. Se você for agora, ele sentirá a sua fúria, e ele precisa de calma. Nós cuidaremos desse verme primeiro.

O que aconteceu com o ministro nos minutos seguintes não foi registrado nos anais da história, mas os gritos foram ouvidos até nos níveis mais baixos do Submundo.

Enquanto isso, Qin Shi Huang corria. Ele não queria o palácio, não queria o jardim, não queria a companhia das Valquírias. Ele buscava o único lugar onde o silêncio era sagrado e as histórias eram de outros, não a dele.

A Grande Biblioteca de Valhalla era um labirinto de estantes que tocavam o teto, cheia de poeira estelar e o cheiro de papel antigo. Qin entrou tropeçando, indo para a seção mais profunda, onde os livros de ficção humana eram guardados. Ele se arrastou para o vão entre duas estantes maciças, sentando-se no chão frio.

Ele arrancou a venda, jogando-a no chão de qualquer jeito. Seus olhos, vermelhos e inchados, procuravam algo para ancorar sua mente. Suas mãos trêmulas alcançaram um livro na prateleira inferior. Era o seu favorito: uma antiga epopeia de cavalaria e romance, uma história onde o bem sempre vencia e a honra era inabalável.

Ele abriu o livro, tentando ler.

— "O cavaleiro... montou seu... seu cavalo..." — Ele tentou ler em voz alta para abafar os pensamentos, mas as letras dançavam diante de seus olhos, borradas pelas lágrimas que não paravam de cair.

Ele não conseguia passar da primeira frase. A cada tentativa de leitura, a voz do ministro voltava à sua mente, misturando-se à risada de Lorenzo. Ele apertou o livro contra o peito, soluçando tão alto que o som parecia reverberar nas estantes.

— Por que não para? — sussurrou ele, a voz rouca. — Por que ainda dói tanto?

Quase uma hora se passou. Qin estava em um estado de exaustão catatônica, a cabeça encostada na estante, o livro aberto em seu colo, mas as páginas manchadas pelas lágrimas.

O som de passos suaves ecoou pelo corredor de livros. Qin não se moveu; ele não tinha mais forças para se esconder.

Hades apareceu na entrada do corredor, seguido por Adão e Hermes. Eles pararam ao ver a cena. O Imperador da China, o homem que se sentava onde queria e chamava o mundo de seu trono, estava encolhido no chão, sem venda, com o rosto desfigurado pela dor e um livro de ficção como sua única proteção.

Hades aproximou-se e ajoelhou-se diante dele. Ele não disse nada de imediato. Ele apenas pegou a venda de seda do chão e a dobrou com cuidado, colocando-a no bolso.

— Qin — chamou Hades, a voz tão suave que parecia um sussurro do vento.

Qin levantou os olhos. A visão de Hades fez seu lábio inferior tremer novamente.

— Eu não consigo ler — disse Qin, a voz infantil de tanta vulnerabilidade. — Eu tento... mas as palavras fogem. Eu sou um rei que não consegue nem ler uma história, Hades.

Adão sentou-se do outro lado de Qin, colocando um braço ao redor de seus ombros e puxando-o para um abraço lateral.

— Você é um rei que está cansado, meu filho — disse Adão, beijando o topo da cabeça de Qin. — E reis cansados não precisam ler. Eles precisam descansar.

— Aquele homem... ele disse que todos viram — soluçou Qin, escondendo o rosto no pescoço de Adão. — Ele disse que eu gostei...

— Aquele homem não existe mais — afirmou Hades, sua mão encontrando a de Qin e apertando-a com firmeza. — Eu garanti que a existência dele fosse apagada de todas as memórias e registros. Suas palavras foram o último erro dele.

Qin soltou um suspiro longo e trêmulo.

— Eu achei que tinha passado. Eu achei que era forte o suficiente.

— Ser forte não significa ser imune, Qin — disse Hermes, encostado na estante, sua expressão habitualmente cínica substituída por uma tristeza profunda. — Você foi a isca. Você sofreu o que nenhum de nós teria coragem de sofrer. Se alguém naquela sala tem o direito de chorar, esse alguém é você.

Hades pegou o livro do colo de Qin, marcando a página.

— Vamos voltar para casa — disse o Rei do Submundo. — O conselho acabou. O tratado foi assinado. E eu declarei que qualquer menção ao que aconteceu em Mônaco, em qualquer contexto que não seja de respeito, será punida com o banimento para o Tártaro.

Qin olhou para os três. Ele viu o amor incondicional de Adão, a lealdade de Hermes e a devoção absoluta de Hades. Lentamente, ele limpou o rosto com a manga da túnica.

— Eu... eu fiz uma cena horrível, não fiz? — perguntou Qin, tentando recuperar um pingo de sua dignidade.

— Você fez a cena mais humana que eu já vi — respondeu Hades, ajudando-o a se levantar. — E, para um deus, isso é mais impressionante do que qualquer conquista militar.

Qin Shi Huang levantou-se, ainda trêmulo, mas apoiado por Hades e Adão. Ele olhou para a biblioteca, para o livro que não conseguira ler, e percebeu que a cura não era uma linha reta. Haveria dias de sol e dias de sombras profundas.

Enquanto caminhavam para fora da biblioteca, Hades manteve o braço ao redor da cintura de Qin, sustentando-o.

— Hades? — chamou Qin, em voz baixa.

— Sim?

— Você pode ler para mim hoje à noite? Aquele livro... o de cavalaria. Minha vista está... um pouco turva.

Hades deu um meio sorriso, um gesto de ternura que ele reservava apenas para aquele homem.

— Eu lerei cada página, Qin. E se você quiser, lerei a biblioteca inteira, até que as únicas vozes na sua cabeça sejam a minha e a das histórias que você ama.

Qin encostou a cabeça no ombro de Hades enquanto caminhavam pelos corredores de Valhalla. O Imperador ainda estava ferido, e o choro ainda estava entalado na garganta, mas ele sabia que, enquanto tivesse aquele suporte, ele poderia ser um rei, um homem, ou apenas um sobrevivente. E, por enquanto, isso era o suficiente.