Voltar ao resumo

dama e o vagabundo

Laços de Algodão-Doce e Promessas de Tio

A manhã na Vila Áurea tinha aquele ritmo preguiçoso de domingo, quando o grave dos paredões ainda não despertou e o que se ouve é o barulho dos vizinhos lavando a calçada e o cheiro de café passado inundando as vielas. Eu e o Pulga decidimos caminhar até a Praça da Paz, um lugar mais afastado do burburinho do fluxo, onde o chão é de terra batida, tem um balanço de pneu velho e o movimento é dominado pela molecada correndo atrás de bola.

Era um refúgio. Ali, ninguém olhava para o Pulga esperando uma ordem ou um acerto de contas. Ali, ele era apenas o cara que segurava a minha mão com uma delicadeza que contrastava com as cicatrizes que ele carregava.

— É estranho, né? — comentou ele, sentando-se no banco de ripas de madeira descascada. — Estar aqui assim, sem precisar olhar por cima do ombro a cada cinco minutos.

— É a paz que eu sempre quis pra você, Felipe — respondi, encostando a cabeça no ombro dele. O sol batia no meu cabelo, fazendo o azul das mechas brilhar intensamente. — A Vila tem esses cantos que parecem outro mundo.

Estávamos ali, jogando conversa fora sobre o futuro e sobre como o Doni estava animado com a letra nova, quando senti algo puxar levemente a barra do meu cropped. Olhei para baixo e dei de cara com um par de olhos castanhos enormes e brilhantes, emoldurados por um rosto sujo de terra, mas com um sorriso que derreteria qualquer coração de gelo.

— Hanna? É você mesmo? — A vozinha era fina e cheia de esperança.

— Gabriel! — Exclamei, abrindo um sorriso imediato. — Que saudade, pequeno! O que você está fazendo aqui sozinho?

Eu conhecia o Gabriel desde que ele era um bebê de colo. A mãe dele, a Cida, era a melhor amiga da minha mãe, uma mulher guerreira que infelizmente a doença levou cedo demais. Desde que ela partiu, o Gabriel virou uma espécie de sombra na comunidade, vivendo com o pai, o seu Jorge, que depois que ficou viúvo, mergulhou no fundo de uma garrafa de pinga e esqueceu que tinha um filho de sete anos para criar.

— Eu tava vendo os meninos jogarem, mas eles não me deixam brincar porque sou pequeno — disse ele, fazendo um biquinho adorável. Ele olhou para o Pulga com uma mistura de curiosidade e medo. — Posso ficar aqui com vocês?

— Claro que pode, Biel. Senta aqui no meio — chamei, dando um espaço entre eu e o Pulga.

Peguei ele no colo por um momento, ajeitando sua camiseta que estava visivelmente grande demais para o seu corpinho magro. Notei que ele estava com fome pelo jeito que olhou para o pacote de biscoitos na minha bolsa, então logo ofereci um.

— E aí, garoto. Tudo certo? — Pulga perguntou, tentando suavizar a voz grossa. Ele não tinha muita prática com crianças, mas dava para ver que ele estava se esforçando.

— Tudo. Você é o namorado da Hanna? Ela é a menina mais bonita da rua — Gabriel falou, com a sinceridade que só as crianças têm.

Pulga soltou uma risada curta e genuína, passando a mão pela cabeça do menino.

— Ela é sim, Gabriel. E eu sou um cara de sorte.

Ficamos ali os três, brincando de "adivinhe o que eu estou pensando" e contando histórias bobas. Por alguns minutos, parecia que éramos uma família comum em um parque qualquer. Mas a realidade da Vila sempre dá um jeito de bater na porta.

Um homem alto, com roupas amarrotadas e um olhar desconfiado, parou a poucos metros de nós. Ele não era daqui da área, parecia um desses fiscais de prefeitura ou talvez alguém da assistência social que raramente aparecia por aqueles lados. Ele ficou observando Gabriel rir enquanto eu fazia cócegas nele.

O homem se aproximou, com uma prancheta na mão.

— Com licença. O pequeno Gabriel mora por aqui, certo? Estou procurando o responsável por ele. O senhor Jorge não foi encontrado em casa... de novo.

Senti o corpo do Gabriel enrijecer no meu colo. Ele agarrou a minha mão com força, os olhinhos arregalados. O medo dele era palpável. Se levassem o Gabriel dali, ele iria para um abrigo longe de tudo o que conhecia.

Olhei para o Pulga, e vi que ele também tinha percebido a gravidade da situação. O instinto protetor dele, que geralmente era usado para a correria da rua, se voltou totalmente para o menino.

— Pois não, doutor — disse o Pulga, levantando-se e assumindo uma postura imponente, mas educada. — Algum problema com o nosso filho?

O homem parou, surpreso. Ele olhou para o Pulga, depois para mim, e finalmente para o Gabriel, que estava escondendo o rosto no meu pescoço.

— Ah... ele é filho de vocês? — O homem perguntou, ajustando os óculos, confuso. — Eu tinha a informação de que ele vivia apenas com o pai, um tal de Jorge.

— O Jorge é o avô dele, mas ele bebe muito e se confunde com as coisas — menti com uma naturalidade que até eu estranhei, enquanto apertava o Gabriel contra mim. — O Biel mora com a gente na parte baixa da Vila. Ele só estava visitando o avô hoje.

— Entendo — disse o homem, anotando algo na prancheta. Ele parecia aliviado por não ter que lidar com um caso de abandono. — É que recebemos denúncias de que o menino estava sempre na rua, sem supervisão. Mas vendo que ele está bem cuidado e com os pais... peço desculpas pelo equívoco.

— Sem problemas — Pulga completou, dando um passo à frente de forma protetora. — A gente cuida bem do que é nosso.

O homem assentiu, deu meia volta e sumiu por entre as vielas.

Assim que ele desapareceu de vista, o silêncio caiu sobre nós. Gabriel levantou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas.

— Vocês... vocês disseram que eu sou filho de vocês? — A voz dele era um sussurro trêmulo.

— Foi só pra aquele homem chato não te levar, Biel — expliquei, limpando uma lágrima que escorria pelo rostinho dele. — Mas você sabe que eu te amo como se fosse meu irmãozinho, né?

Gabriel olhou para o Pulga, que ainda estava de pé, olhando para o caminho por onde o homem tinha ido.

— Eu posso ficar com vocês mais um pouco? — Perguntou o menino. — Faz tanto tempo que ninguém me abraça assim. Meu pai... ele só dorme e cheira mal.

Pulga se agachou na frente dele, ficando da altura do Gabriel. A expressão dele era algo que eu nunca tinha visto: uma vulnerabilidade pura.

— Pode sim, Gabriel. Na verdade, a gente vai lá na padaria agora comprar um lanche bem reforçado pra você. O que você acha?

Os olhos do menino brilharam.

— De verdade? Com achocolatado?

— Com tudo o que você tiver direito — Pulga afirmou, estendendo a mão para o pequeno.

Passamos o resto da tarde com o Gabriel. Compramos o lanche, e depois voltamos para a praça para brincar de esconde-esconde. Ver o Pulga, um cara respeitado e temido por muitos, correndo atrás de um menino de sete anos e fingindo que não conseguia encontrá-lo atrás de uma árvore fininha, foi a coisa mais linda que eu já presenciei.

Eu sentia uma paz imensa, mas também uma dor no peito. O Gabriel era o reflexo de tantas crianças na Vila que se perdiam porque não tinham amor, porque o mundo as esquecia.

— Você foi incrível hoje — eu disse para o Pulga, enquanto observávamos o Gabriel tentar equilibrar-se no balanço de pneu.

— Eu não podia deixar aquele cara levar o moleque, Hanna. Eu sei como é o sistema. Se ele entrasse num carro daqueles, a Vila ia perder mais um pra tristeza — ele respondeu, a voz carregada de uma seriedade profunda.

— Você daria um ótimo pai, sabia? — Provoquei, mas com um fundo de verdade.

Pulga deu um sorriso de lado, aquele que fazia meu coração errar a batida.

— Quem sabe um dia, né? Mas por enquanto, a gente cuida do Biel. Vou falar com uns parceiros pra ficarem de olho no pai dele. Se o Jorge não cuidar do moleque, a gente dá um jeito dele vir morar mais perto da gente, ou com a sua mãe.

— Minha mãe ia adorar ter ele por perto. Ela sempre diz que a casa está muito silenciosa agora que eu fico mais tempo na rua.

Gabriel veio correndo e se jogou no meio de nós dois no banco, exausto de tanto brincar. Ele encostou a cabeça no colo do Pulga e, em menos de cinco minutos, o cansaço venceu e ele adormeceu profundamente.

— Olha só — sussurrei, acariciando o cabelo do menino. — Ele se sente seguro com você.

— É a primeira vez que eu sinto que tô fazendo algo que realmente presta, Hanna — Pulga confessou, sem tirar os olhos do pequeno. — Sem corre, sem briga, sem dinheiro envolvido. Só... isso.

Ficamos ali até o pôr do sol, protegendo o sono de uma criança que a vida tinha tentado castigar cedo demais. Naquele momento, eu entendi que o amor correspondido que o Doni tanto falava não era apenas entre eu e o Pulga. Era o amor que a gente transbordava para quem não tinha nada.

O azul do meu cabelo agora parecia refletir a cor de um céu que, apesar das nuvens, prometia um amanhã melhor. E enquanto eu segurava a mão do Pulga com o Gabriel dormindo entre nós, eu tive a certeza de que, não importa o quão difícil fosse a caminhada na Vila Áurea, a gente nunca mais andaria sozinho.

— Hanna? — Pulga chamou baixinho.

— Oi?

— A gente vai proteger ele, né?

— Com tudo o que a gente tiver, Felipe. Com tudo o que a gente tiver.

Ele assentiu, e pela primeira vez, vi um brilho de esperança nos olhos dele que não tinha nada a ver com poder ou respeito, mas com a simples e pura vontade de ser alguém melhor por causa de um par de olhos castanhos e um sorriso de sete anos. A Vila Áurea era dura, mas naquele domingo, ela tinha nos dado o maior presente de todos: a chance de sermos a família que o Gabriel precisava e a redenção que nós dois, de formas diferentes, buscávamos.